314. 314. A ceia na casa de Nazaré e a dolorosa partida.


30 de outubro de 1945.

314.1 Já chegou a tarde. É mais uma tarde de despedidas da casinha de Nazaré e dos seus moradores. É mais uma ceia, durante a qual o pesar torna indesejáveis para as bocas os alimentos e taciturnas as pessoas.

À mesa estão sentados Jesus com João e Síntique, Pedro, João, Simão e Mateus. Os outros não puderam sentar-se junto a ela, de tão pequena que é a mesa de Nazaré! Na verdade ela foi feita para uma pequena família de justos que, quando muito, podem fazer que a ela se assente ou algum peregrino ou algum aflito, para dar-lhe mais um socorro de amor do que de comida! Nesta tarde, quem poderia ter-se sentado junto a ela era, quando muito, Marziam, porque é um menino muito magro, ocupando por isso somente um pequeno espaço…

Mas Marziam, muito sério e silencioso, está comendo a um canto, sentado sobre um banquinho, aos pés de Porfíria, que a Virgem colocou em sua cadeira do tear e que, mansa e silenciosa, está comendo o alimento que lhe deram, olhando com um olhar de dó os dois que estão perto da hora de partir, e que estão tentando engolir os bocados, mas com a cabeça muito inclinada, para esconderem os seus rostos banhados pelas lágrimas.

Os outros, isto é, os dois filhos de Alfeu, André e Tiago de Zebedeu, foram alojar-se na cozinha, junto a uma especie de masseira. Mas lá eles podem ser vistos através da porta, que está aberta.

314.2 A Virgem Maria e Maria de Alfeu vão e vêm, servindo a uns e a outros, com seu ar maternal, cansadas e tristes. E, se a Virgem Maria acaricia com o seu sorriso, que está tão cheio de tristeza nesta tarde, àqueles de quem ela se aproxima para servir, Maria de Alfeu, menos reservada e com franqueza, une ao sorriso alguma coisa que ela faz e alguma palavra, e mais de uma vez põe-se a encorajar, fazendo ora uma carícia, ora até dando um beijo, conforme a pessoa a quem estiver atendendo, para que esta ou aquela se alimentem bem, e dizendo-lhes quais são os alimentos mais apropriados para o físico de cada um e para a viagem que estão para começar. Eu acho que por um amor de piedade para com o extenuado João que, nestes dias de expectativa, emagreceu ainda mais, ela se daria até a si mesma como alimento, pelo tanto que ela se esmera em persuadi-lo a tomar isto ou aquilo, encarecendo o sabor daquelas coisas e suas propriedades medicinais. Mas, mesmo com todas as suas… seduções, os alimentos permanecem quase sem ser tocados, no prato de João, e Maria de Alfeu fica aflita com isso, como uma mãe que visse o seu lactente rejeitar o bico do peito.

– Mas assim tu não podes partir, meu filho! –exclama ela.

E, em sua alma de mãe, ela nem reflete que João de Endor tem mais ou menos a sua idade, e que o nome que ela lhe dá de “filho” é mal dado por isso. O que acontece é que ela vê nele uma criatura que sofre e, por isso, não acha, para consolá-lo, outro nome, a não ser este…

– Viajar com o estômago vazio naquela carrocinha balançante e com o frio úmido da noite, vai fazer-te mal. E, além disso, quem é que pode saber como ireis comer, durante esta horrível e longa viajem!… Ó eterna piedade! Por mar, e à distância de tantas milhas! Eu morreria de medo. E ao longo das costas fenícias, e depois… pior ainda! E, certamente, o capitão do navio será algum filisteu ou fenício, ou de qualquer outra nação do inferno… e não terá piedade de vós… Eia, pois, enquanto estás perto de uma mamãe que te quer bem!… Vamos, come: um pedacinho só deste ótimo peixe. Somente para fazer contente também a Simão de Jonas, que o preparou em Betsaida com tanto amor e hoje me ensinou a cozinhá-lo assim para ti e para Jesus a fim de que com ele vos alimenteis bem. 314.3Não queres mesmo?… Então… Mas disto aqui irás gostar.

E sai correndo para a cozinha, voltando logo com uma coisa parecida com uma polenta, e que está ainda soltando vapor. Eu não sei o que pode ser aquilo. Certamente é uma especie de farinha feita com grãos cozidos até se desfazerem no leite:

– Olha bem: eu tive a idéia de fazer isto, porque eu me lembrei de que um dia tu falaste disto como de uma coisa que te trouxe uma doce lembrança da tua meninice… É gostoso e faz bem. Vamos, toma um pouco.

João consente em pôr umas poucas colheradas daquele mingau em seu prato e procura engoli-lo, mas as lágrimas descem e misturam o seu sal delas com a comida, enquanto João vai inclinando ainda mais o rosto sobre o prato.

Os outros estão festejando, com muita alegria esse prato, que para eles deve ser uma coisa nova e excelente. Os rostos deles se abriram em sorrisos ao vê-lo, e Marziam se pôs de pé… mas depois achou que era necessário fazer esta pergunta à Virgem Maria:

– Posso eu comer dele? Faltam ainda cinco dias para o fim de minha promessa…

– Sim, meu filho. Podes comer dele –diz Maria com uma carícia.

Mas o menino está ainda duvidoso e então Maria, para acalmar os escrúpulos do pequeno discípulo, interpela o seu Filho:

– Jesus, Marziam está perguntando se pode comer dessa cevada descascada… por causa do mel, que é o que faz dela um prato doce, sabes…

– Sim, sim, Marziam. Nesta tarde Eu te dispenso do teu sacrificio, contanto que João coma, ele também, a sua parte da cevada com mel. Estás vendo como o menino a deseja? Ajuda-o, então, a conseguir o que deseja –e Jesus, que tem João perto de Si, pega a mão dele e a segura, enquanto João, obedecendo, se esforça para comer a sua cevada.

314.4 Maria de Alfeu está mais contente agora. E volta ao assalto, com um belo prato de peras, cozidas no forno, e ainda soltando vapor. Ela vem voltando da horta com o seu tabuleiro e diz:

– Chove. Começa agora. Que pena!

– Nada de pena! É melhor assim. Assim não encontraremos ninguém pelos caminhos. Quando a gente está de partida, as saudações sempre fazem mal… É melhor partir-se com o vento na vela, do que ficar batendo em bancos de areia ou em rochedos à flor d’água, que nos obrigam a fazer muitas paradas e a ir devagar. E os curiosos são exatamente como aqueles bancos de areia e os rochedos à flor d’água… –diz Pedro, que, em tudo o que faz, sempre está pensando em vela e navegação.

– Obrigado, Maria. Mas não quero mais nada –diz João, procurando rejeitar as frutas.

– Ah! Isso não! Foi Maria quem as cozinhou. Queres desprezar o alimento preparado por Ela? Vê como as preparou bem! Levam suas especiarias no buraquinho, têm no fundo sua manteiga… São uns bons-bocados para um rei. E a calda! E até Ela mesma ficou meio assada, lidando junto ao fogo do forno para cozinhá-las, até que ficassem assim douradas. E elas são boas para a garganta, para curar a tosse. Elas produzem calor e curam a gente. Maria, dize-o a ele, como elas faziam bem até ao meu Alfeu, quando ele estava doente. E ele as queria feitas por ti. E com razão. Pois as tuas mãos são santas, e dão saúde!… Benditos os alimentos que tu preparas!… Ficava mais sossegado o meu Alfeu, depois de ter comido aquelas peras… sua respiração ficava mais tranqüila… Pobre do meu marido!…

E Maria se aproveita daquela lembrança para chorar, e sair chorando. Talvez eu tenha um mau pensamento, mas acho que, sem aquela compaixão pelos dois que vão partir, o “pobre Alfeu” não teria tido nem mesmo uma lágrima de sua mulher naquela tarde… Maria de Alfeu estava com vontade de chorar, mas sim por João e Síntique, e por Jesus, Tiago e Judas, que lá se vão e, com tanta vontade estava, que teve que achar um desabafo para o seu pranto, a fim de não ficar sufocada.

314.5 A Virgem Maria vai ocupar agora o lugar de Maria de Alfeu. Ela passa a mão por sobre o ombro de Síntique, que está na frente de Jesus, entre Simão e Mateus.

– Vamos, então: Comei! Será que querereis partir deixando-me angustiada, por terdes partido em jejum?

– Eu já comi, Mãe –diz Síntique, levantando seu rosto cansado e marcado pelo pranto derramado durante muitos dias. Depois, ela abaixa o rosto por sobre o ombro, onde está a mão de Maria, roçando sua face por sobre aquela pequena mão, para ser por ela acariciada. Maria lhe acaricia os cabelos com a outra mão e puxa para si a cabeça de Síntique, que agora lhe está apoiando o rosto sobre o seio.

– Come, João. Isto te fará muito bem: Precisas tomar cuidado para não te resfriares. Tu, Simão de Jonas, tomarás cuidado para dar-lhe leite quente com mel todas as tardes, ou, pelo menos, água bem quente com mel. Lembra-te disso.

– Eu mesma tomarei as providências, Mãe. Fique tranqüila –diz Síntique.

– Eu fico tranqüila de verdade, quanto a isso. Mas terás que fazer isso, quando já estiveres instalada em Antioquia. Por enquanto, quem vai cuidar disso é Simão de Jonas. E, lembra-te, Simão, de dar-lhe muito óleo de oliveira. Para isso eu te dei esta moringuinha. Toma cuidado para que ela não se quebre. E, se vires que ela está um pouco fechada no suspiro, faze, então, o que eu te disse com o outro vasinho de bálsamo. Toma dele o tanto, quanto for suficiente para ungir-lhe o peito, as costas e os rins e esquenta-o até o ponto em que ainda se possa tocar nele sem se queimar, e cobre-o, logo em seguida, com aquelas faixas de lã, que eu te dei. Eu já preparei estas coisas para isso. E tu, Síntique, lembra-te de sua composição. A fim de que possas fazê-los de novo. Poderás sempre encontrar lírios, cânfora e dictamnos, resinas e cravos com louros, artemísia e outras coisas. Já ouvi dizer que Lázaro tem lá em Antigônio jardins de essências.

– E esplêndidos –diz o Zelotes, que já os viu.

E acrescenta:

– Eu não aconselho nada. Mas acho que para João aquele lugar deveria ser muito saudável, tanto para o espírito, como para o corpo, mais ainda do que Antioquia.O lugar é abrigado dos ventos e o ar leve vem dos pequenos bosques de plantas resinosas, que ficam nas encostas de uma pequena colina, que serve de anteparo contra os ventos do mar e, ao mesmo tempo, permite aos saudáveis sais marinhos que se espalhem até lá. É um lugar sereno, silencioso, mas tambem alegre pelas mil flores e passarinhos que lá vivem em paz…

Afinal, vós é que vereis o que mais vos convém. 314.6Síntique tem muito juizo. E nestas coisas é melhor confiar nas mulheres. Não é verdade?

– De fato. Eu confio o meu João ao bom senso e ao bom coração de Síntique –diz Jesus.

– E eu tambem –diz João de Endor–. Eu… eu… eu não tenho mais nenhuma energia… e… não serei mais útil para nada…

– João, não digas isso! Quando o outono despoja as plantas, isso não quer dizer que elas fiquem inertes. Pelo contrário, aí é que elas trabalham, com uma energia que estava escondida preparando o triunfo, que vai ser a sua próxima frutificação. Tu és assim. Agora, estás despojado pelo vento frio desta dor. Mas, na verdade, em teu íntimo tu já estás trabalhando para os novos ministérios. O teu próprio sofrimento já será um estímulo para trabalhar. Eu estou certa disso. E, então, serás tu, sempre tu, quem me vai ajudar a mim, pobre mulher, que ainda tem muito que aprender para se tornar alguma coisa de Jesus

– Oh! Que queres que seja ainda? Não tenho nada mais que fazer… Estou acabado!

– Não. Não fica bem dizer isso! Somente quem morre é que pode dizer: “Eu estou acabado como homem.” Outros, não. Achas que não tens mais nada a fazer? Ainda te falta aquilo que me disseste um dia: consumar o sacrifício. E como, a não ser com o sofrimento? João, para ti, um pedagogo, é inutil ficar citando os sábios, mas Eu te faço lembrar do Górgias de Leontine. Ele ensinava que não se faz expiação, nem nesta, nem na outra vida, a não ser com as dores e os sofrimentos. E lembro-te ainda o nosso grande Sócrates: “desobedecer a quem é superior a nós, seja ele Deus ou homem, é um mal e uma vergonha.” Pois bem. Se era justo agir assim, diante de uma sentença injusta, dada por homens injustos, que não será, então, por uma ordem dada pelo Homem santíssimo e por nosso Deus? Grande coisa é obedecer, só porque é obedecer. Grandíssima coisa, então, será obedecer a uma ordem santa, que eu acho, e que tu comigo deves achar, que é uma grande misericórdia. Tu sempre estás dizendo que tua vida está chegando ao fim. Mas ainda não estás ouvindo que foi anulada a tua dívida com a Justiça. E, por que, então, não tomas esta grande dor como um meio para chegar a anular essa dívida, e fazer isso no breve tempo que te resta? É aceitar uma grande dor para obter uma grande paz! Acredita-me que vale a pena sofrê-la. A unica coisa que há de importante nesta vida é chegar à morte, tendo conquistado a virtude.

– Tu me confortas, Síntique… Faze isso sempre.

– Eu o farei. Aqui o prometo. Mas tu me ajuda, como homem e como cristão.

314.7 A refeição terminou. Maria recolhe as peras que sobraram e as coloca em uma vasilha, entregando-a a André, que sai, para logo voltar dizendo:

– Está chovendo cada vez mais. Eu diria que é melhor…

– Sim. Ficar esperando é sempre mais angustioso. Eu vou logo preparar o animal. E vós tambem vinde com os baús e tudo mais. E tu também, Porfíria. Ligeira! És tão paciente, que o burro já aprendeu com isso, e se deixa vestir (ele diz assim mesmo), sem dar sinais de querer embirrar. André, que é parecido contigo, pensará no mais que for preciso. Vamos todos para fora!

Pedro põe todos para fora do quarto e da cozinha, menos Jesus, Maria, João de Endor e Síntique.

– Mestre! Oh! Mestre, ajuda-me! Chegou a hora de… sentir que se divide o meu coração! Chegou mesmo! Oh! por que, bom Jesus, não me fizeste morrer aqui, depois que eu já tinha tido o tormento da minha condenação, e feito o esforço para aceitá-la?

E João se abate sobre o peito de Jesus, chorando angustiadamente. Maria e Síntique procuram acalmá-lo, e Maria, ainda que sempre tão reservada, o afasta de Jesus, abraçando-o, e dizendo-lhe:

– Caro filho, meu predileto filho…

314.8 Síntique, por sua vez, se ajoelha aos pés de Jesus, dizendo:

– Abençoa-me e consagra-me para que eu seja fortalecida, Senhor, Salvador e Rei. Eu, aqui na presença de tua Mãe, juro e professo seguir a tua doutrina, e servir-te até o meu último suspiro. Juro e professo dedicar-me à tua doutrina e aos seguidores dela por amor de Ti, Mestre e Salvador. Juro e professo que a minha vida não terá outra meta, e que tudo quanto é mundo e carne para mim morreu definitivamente, enquanto, com a ajuda de Deus, e das orações de tua Mãe, espero vencer o Demônio, para que não me arraste ao erro e, na hora do teu julgamento, eu não seja condenada. Juro e professo que as seduções e ameaças não me dobrarão, e que sempre me lembrarei disso, a não ser que Deus o permita de outro modo. Mas eu espero nele e creio em sua Bondade, porque estou certa de que não me deixará entregue ao capricho de forças ocultas mais fortes do que a minha. Consagra a tua serva, ó Senhor, para que ela esteja defendida contra as insídias de todos os inimigos.

Jesus lhe põe a mão sobre a cabeça, com as palmas abertas, como costumam fazer os sacerdotes, e ora por ela.

Maria conduz João até o lado de Síntique, e faz que ele se ajoelhe, dizendo:

– Também este, meu Filho, a fim de que te sirva em santidade e paz.

E Jesus repete o ato sobre a cabeça inclinada do pobre João. Depois o levanta e faz que Síntique se levante, pondo as mãos deles nas mãos de Maria, e dizendo:

– E que seja Esta a última a vos acariciar aqui –e sai, ligeiro, indo não sei para onde.

– Mãe, adeus. Não me esquecerei nunca destes dias –geme João.

– Nem eu me esquecerei de ti, querido filho.

– Eu também, Mãe… Adeus. Deixa que eu te beije ainda… Oh! Depois de tantos anos, eu estava com fome dos beijos de minha mãe!… Agora, não estou mais…

Síntique está chorando nos braços de Maria, e a beija. João soluça sem parar. Maria o abraça também, e agora está com os dois nos braços, como verdadeira Mãe dos Cristãos, e toca de leve, com seus lábios purissimos, a face enrugada de João, com um beijo cheio de pudor, mas muito amoroso. E, com o beijo, fica também o pranto da Virgem sobre aquela face descarnada…

314.9 Pedro vem entrando:

– Está pronto. Vamo-nos… –e não diz mais nada, porque está comovido.

Marziam, que acompanha seu pai, como a sombra acompanha o corpo, agarra-se ao pescoço de Síntique e a beija, beija… Mas também ele está chorando. Saem. Maria, segurando pela mão Síntique, e Marziam indo pela mão de João.

– Os nossos mantos… –diz, entre lágrimas, Síntique, e faz como se quisesse entrar nos quartos.

– Estão aqui, estão aqui. Peguem logo…

Pedro se faz de rude, para não se mostrar comovido, mas, atrás das costas dos dois, que se envolvem nos mantos, ele está enxugando as lágrimas com as costas das mãos…

Lá adiante, do outro lado da sebe, a luzinha bruxuleante da pequena carroça vai projetando uma mancha amarela no ar escuro… A chuva está fazendo ruído nas frondes das oliveiras e um barulho no tanque cheio de água… Um pombo, que acordou com a luz das tochas que os apóstolos vão levando, meio abrigadas pelos mantos e a baixa altura para que possam alumiar os caminhos, que estão cheios de poças, está arrulhando, e como que se queixando por ter sido despertado.

Jesus já está perto da carrocinha sobre a qual foi estendida uma coberta para servir de telhado.

– Vamos, vamos que está chovendo forte! –diz Pedro.

E, enquanto Tiago de Zebedeu substitui Porfíria nas rédeas, ele, sem muita cerimônia, levanta Síntique do chão e a põe na carroça, e, com mais agilidade ainda, agarra João de Endor, e o põe lá em cima, depois sobe ele também, dando de repente uma vergastada tão forte no pobre burro, que ele arranca para a frente já de carreira, quase derrubando Tiago. E Pedro insiste, até chegarem ao verdadeiro caminho, já a um bom trecho das casas… Um último grito de adeus acompanha aos que partem e que choram sem parar…

Pedro faz parar o burro, já fora de Nazaré, para esperar Jesus e os outros, que não tardam a chegar, caminhando ligeiro sob a chuva, que já está engrossando. Tomam uma estrada, que vai por entre hortas, para se dirigirem novamente ao norte da cidade, mas sem a atravessarem. Nazaré está no escuro e adormecida por baixo da água gelada de uma noite de inverno… e eu acho que o barulho dos cascos do burro, que já pouco se ouve num terreno molhado, e de terra batida, não tenha sido percebido nem pelos que estão acordados…

A comitiva vai para a frente no maior silêncio. Somente os soluços dos dois discípulos é que se ouvem, misturados ao rumor que faz a chuva nas copas das oliveiras.