125. 125. Os discursos de Águas Belas: Santifica a festa.Cura de um menino com as pernas fraturadas.
6 de março de 1945.
125.1O dia hoje está mais ameno, por mais que ainda esteja chuvoso e permita que o povo vá ao Mestre.
Jesus ouve, à parte, duas ou três pessoas que têm coisas importantes a dizer-lhe e que depois, vão mais tranquilas para seus lugares.
Abençoa também um pequenino que tem as perninhas quebradas de tal modo, que nenhum médico quis tratar delas, dizendo ser inútil porque estão quebradas no alto, junto à espinha. A mãe diz isso entre lágrimas, e explica:
– Ia correndo com a irmãzinha pela rua do povoado. Surgiu-lhe à frente, de galope, com seu carro, um herodiano e o arrastou sob o carro. Pensei que tivesse morrido. Mas é pior. Tu o estás vendo. Eu o trago sobre esta tábua, porque… não há outro jeito. Ele está sofrendo e sofre porque o osso está exposto. Depois, quando o osso não estiver mais exposto, então sofrerá, porque não poderá senão ficar deitado de costas.
– Estás muito mal? –pergunta, piedoso, Jesus ao pequenino que está chorando.
– Sim.
– Onde?
– Aqui… e aqui –e se toca com a mãozinha incerta, nos dois ossos ilíacos–. E também aqui e aqui –e toca nos rins e nos ombros–. A tábua é dura e eu quero mover-me, eu… –e chora desesperado.
– Queres vir para os meus braços? Vens? Eu te levo lá no alto e tu ficarás vendo a todos, enquanto Eu falo.
– Sim –(o sim é cheio de desejo). O pobrezinho estende os bracinhos suplicante.
– Então vem.
– Mas ele não pode, Mestre, é impossível! Tem muita dor… Nem eu posso movê-lo para lavá-lo.
– Eu não lhe farei mal.
– O médico…
– O médico é o médico, Eu sou Eu. Por que é que vieste?
– Porque Tu és o Messias –responde a mulher, cujo rosto passa do branco ao vermelho, entre a esperança e o desespero.
– E então? Vem, pequenino.
E Jesus, passando um braço sob as perninhas inertes e o outro sob os pequenos ombros, pega o menino e lhe pergunta:
– Estou te machucando? Não? Então, dize adeus à mamãe e vamos.
E Jesus vai, entre a multidão que se abre, com a sua carga. Vai até o fundo, sobe sobre uma espécie de estrado que lhe armaram, para que seja visto por todos, até pelos que estão na eira. Pede que lhe deem um banquinho e se assenta, acomoda sobre os joelhos o menino e lhe pergunta:
– Estás gostando? Agora, fica bonzinho e escuta tu também –e começa a falar, gesticulando com uma só mão, a direita, porque com a esquerda segura o menino, que olha para as pessoas, feliz por poder ver alguma coisa e sorri para sua mãe, que está lá no fundo, cheia de esperança. O pequenino brinca com o cordão da veste de Jesus, com a barba loira e macia do Mestre e com um cacho dos seus longos cabelos.
125.2 – Foi dito: “Trabalha em um trabalho honesto e o sétimo dia tu dedicarás ao Senhor e ao teu espírito.” Isto está dito no mandamento sobre o repouso sabático.
O homem não é mais do que Deus. No entanto, Deus fez em seis dias a sua criação e no sétimo descansou. Como é, então, que o homem se permite não imitar o Pai e não obedece à sua ordem? É um mandamento tolo? Não. Em verdade, é uma ordem salutar, seja para a carne, para a moral, como para o espírito.
O corpo cansado tem necessidade do repouso, assim como todos os seres criados. Repousa também o boi que é usado no campo, e nós o deixamos repousar para não perdê-lo; repousa o burro que nos transporta, a ovelha que nos dá o cordeirinho e o leite. Repousa também, a terra do campo, para que, nos meses em que ela fica sem a semente, se nutra e se sature dos sais que sobre ela caem do céu ou que afloram do solo. Repousam ainda, se bem que não peçam para isso o nosso beneplácito, os animais e as plantas, que obedecem a leis eternas sobre uma reprodução sábia. Por que, então, o homem não quer imitar nem o Criador, que no sétimo dia descansou e nem os seres inferiores que, vegetais ou animais sem terem recebido outro mandamento, a não ser o instinto, sabem regular-se e obedecer a este?
É uma ordem moral, além de física. Por seis dias o homem lidou com todos e com tudo. Preso como um fio do mecanismo do tear, andou para cima e para baixo, sem nunca poder dizer: “Agora vou ocupar-me de mim mesmo e dos meus entes queridos. Sou o pai e hoje sou de meus filhos, sou o esposo e hoje me dedico à minha esposa, sou o irmão e me alegro com os irmãos, sou o filho e cuido da velhice de meus pais.”
É uma ordem espiritual. Santo é o trabalho. Mais santo o amor. Santíssimo Deus. É preciso, então, recordarmo-nos de dar ao menos um dos sete dias ao nosso bom e santo Pai, que nos deu e nos conserva a vida. Por que haveremos de dar-lhe um tratamento menor do que o que se dá a um pai, aos filhos, aos irmãos, à esposa, e até ao nosso próprio corpo? Que o dia do Senhor seja Dele! Oh! Como é doce estar abrigado a tarde, depois do trabalho do dia, numa casa cheia de afeto! Como é doce reencontrá-la, depois de uma longa viagem! E por que não ir abrigar-se, depois de seis dias de trabalho, na casa do Pai? Por que não ser como o filho, que volta de uma viagem que durou seis dias e diz: “Eis-me aqui para passar o meu dia de descanso contigo”?
125.3 Mas agora escutai, Eu disse: “Trabalha em um trabalho honesto.”
Vós sabeis que a nossa Lei ordena o amor ao próximo. A honestidade do trabalho faz parte do amor ao próximo. Quem é honesto em seu trabalho não rouba nos negócios, não defrauda o pagamento do operário, não se aproveita dele de maneira culpável, lembra-se de que o servo e o operário são como ele carne e alma e não os trata como pedaços de pedra sem vida, que é lícito despedaçar e chutar com o pé e com o ferro. Quem não faz assim, não ama o próximo e peca aos olhos de Deus. Maldito é o seu ganho, mesmo quando tira dele uma oferta para o Templo.
Oh! Que oferta mentirosa! E como pode ter a coragem de ir colocá-la aos pés do altar, quando as lágrimas e o sangue do inferior que foi explorado escorrem delas, ou tem nome de “furto”, ou seja, traição ao próximo, já que o ladrão é um traidor do seu próximo? Acreditai fica, santificada a festa, se não for usada para beneficiar a si mesmo melhorar-me e reparar os pecados cometidos em seis dias. Eis a santificação da festa! Não é a festa exterior, que não muda nem uma vírgula do vosso modo de pensar.
Deus quer obras vivas, não simulacros de obras. É simulacro o falso obséquio à sua Lei. É simulacro a santificação mentirosa do sábado, ou seja, o repouso para mostrar aos homens, obediência ao mandamento, depois se usa aquelas horas de ócio no vício, na luxúria, na crápula, na cogitação sobre como explorar e prejudicar o próximo na semana que vem. É simulacro a santificação do sábado, ou seja, o repouso material que não se une ao trabalho íntimo, espiritual, santificante por um reto exame de si, um humilde reconhecimento da própria miséria, um sério propósito de melhorar na próxima semana.
125.4 Vós direis: “E se depois, se torna a cair em pecado?” Que diríeis vós de um menino que, por ter caído, não quisesse mais dar nem um passo, para não voltar a cair? Diríeis que é um tolo. Que não se deve envergonhar por estar sem firmeza no passo, porque todos nós fomos assim, quando pequenos e não foi por isso que nosso pai deixou de nos amar. Quem é que não se lembra de como as nossas quedas fizeram cair sobre nós uma chuva de beijos maternos e de carícias paternas? A mesma coisa faz o Pai dulcíssimo, que está nos Céus. Ele se inclina sobre o seu pequenino que chora no chão e lhe diz: “Não chores. Eu te levanto. Toma cuidado da outra vez. Agora vem para os meus braços. Neles todo o teu mal passará e depois irás embora mais forte, curado e feliz”. Isto é o que diz o nosso Pai que está nos Céus. Isto é o que Eu vos digo.
Se conseguísseis ter fé no Pai, tudo vos correria bem. Prestai atenção uma fé infantil. A criança acha que tudo é possível. Não pergunta a si mesmo como é que algo possa acontecer. Não mede a profundidade da coisa. A criança crê em quem lhe inspira confiança e faz o que esta pessoa lhe diz. Sede como crianças junto ao Altíssimo. Como Ele ama estes anjos, que são a beleza da terra! Igualmente ama as almas que se fazem simples, boas, puras como é a criança.
Queres ver a fé que tem uma criança, para aprenderdes a ter fé? Observai. Todos vós vos compadecestes do pequenino que Eu estou segurando sobre o peito e que, contrariamente ao que os médicos e a mãe diziam, não chorou por estar sentado no meu colo. Estais vendo? Ele que, há muito tempo, nada mais fazia do que chorar noite e dia, sem encontrar descanso, aqui não chorou, mas adormeceu tranquilamente sobre o meu coração. Eu lhe perguntei: “Queres vir para os meus braços?” e ele respondeu: “sim”, sem pensar em seu mísero estado, nem na eventual dor que lhe causaria, como consequência desta locomoção. Ele viu no meu rosto o amor e disse: “sim” e veio. E não sentiu dor. Gostou de ficar no alto e não pregado sobre aquela tábua dura. Gostou de ser colocado sobre a maciez de uma carne e não sobre a dureza de uma madeira, sorriu, brincou e adormeceu ainda com um cacho dos meus cabelos nas pequenas mãos. 125.5Agora vou despertá-lo com um beijo… –e Jesus beija os cabelinhos castanhos do menino, até que ele desperte com um sorriso.
– Como te chamas?
– João.
– Escuta, João. Queres caminhar? Queres ir à tua mamãe e dizer-lhe: “O Messias te abençoa pela tua fé?”
– Sim! Sim! –e o pequeno bate as mãozinhas e depois pergunta:– Tu me fazes andar? Sobre os prados? Não vou mais usar aquela tábua dura e feia? Nem irei mais aos médicos, que me causam dor?
– Sim, nunca mais.
– Ah! Como eu gosto de Ti –e joga os bracinhos ao redor do pescoço de Jesus e o beija, e para beijá-lo melhor, pula de joelhos sobre o colo de Jesus e uma saraivada de beijos inocentes cai sobre a fronte, sobre os olhos, sobre as faces de Jesus.
O menino, em sua alegria, nem se apercebe de já estar podendo mover-se, ele que até então estava todo quebrado. Mas o grito da mãe e da multidão o desperta e o faz virar-se espantado. Seus olhos grandes e inocentes, no rosto emagrecido, estão interrogativos. Ainda de joelhos, com o bracinho direito ao redor do pescoço de Jesus, lhe pergunta confidencialmente — mostrando o povo em tumulto e a mãe que lá no fundo o chama unindo o seu nome ao de Jesus: “João! Jesus! João! Jesus!” —:
– Por que é que o povo e a mamãe estão gritando? Que é que eles têm? Tu és Jesus?
– Eu sou. O povo grita porque está contente que tu possas caminhar. Adeus, pequeno João (Jesus o beija e abençoa). Vai para a mamãe e sejas bom.
O menino desce com firmeza dos joelhos de Jesus correndo para sua mãe, e saltando ao seu pescoço diz:
– Jesus te abençoa. Por que choras, então?
Quando o povo faz um pouco mais de silêncio, Jesus troveja:
– Fazei como o pequeno João, ó vós, que caís no pecado e vos feris. Tende fé no amor de Deus. A paz esteja convosco.
E enquanto o grito de hosana da multidão se mistura com o feliz pranto da mãe, Jesus, protegido pelos seus, sai do quarto grande e tudo termina.
[…].