555. 555. Lição noturna para Simão Pedro sobre o perdãodos pecados e sobre a dor dos santos e inocentes.


15 de janeiro de 1947.

555.1Jesus está sozinho em seu pequeno quarto. Sentado sobre a pequena cama, está pensando ou rezando. Uma pequena candeia com azeite está sobre uma estante, piscando com sua chamazinha amarelada. Deve ser noite, porque não se ouve rumor algum dentro da casa nem na estrada. Somente a torrente é que parece estar fazendo um ruído mais forte fora da casa, no meio do silêncio da noite.

Jesus levanta a cabeça e olha para a saída. Fica escutando. Levanta-se e vai abrir. E vê Pedro do lado de fora.

– És tu? Vem. Que queres, Simão? Ainda estás de pé, tu que deves fazer uma viagem tão longa?

E o tomou pela mão, puxou-o para dentro e fechou de novo a porta sem fazer barulho. E o fez sentar-se a seu lado na beira da cama.

– Eu queria dizer-te, Mestre… Sim, eu queria dizer-te que hoje Tu viste o que eu valho. Eu apenas sou capaz de divertir uns pobres meninos, consolar uma velhinha, fazer a paz entre dois pastores que estão discutindo por causa de uma ovelha que apareceu com as mamas secas. Eu sou um pobre homem. Tão pobre que não entendo nem mesmo o que me explicas. Mas isso é outro assunto. Agora o que eu queria era dizer-te que, justamente por isso, Tu me deixasses aqui. Eu não preciso ir por aí quando Tu não estás conosco. Eu não sou capaz de fazer… Contenta-me, Senhor.

Pedro fala com firmeza, mas conservando os olhos pregados sobre os rústicos tijolos lascados do pavimento.

– Olha para Mim, Simão –ordena-lhe Jesus.

E, tendo Pedro obedecido, Jesus fita nele profundamente o seu olhar e pergunta:

– Já disseste tudo? É esta toda a razão de estares ainda assim acordado? Será esta a razão do teu pedido para que Eu te conserve aqui? Sê sincero, Simão. Não é murmuração dizeres ao teu Mestre a outra parte do teu pensamento. É preciso saber distinguir a palavra ociosa da palavra útil. É ociosa — e em geral no ócio é que floresce o pecado — quando se fala dos defeitos dos outros com quem nada pode fazer para corrigi-los. Nesse caso há simplesmente uma falta de caridade, ainda que as coisas de que se falou sejam verdadeiras. Como também é falta de caridade censurar mais ou menos asperamente sem saber unir o conselho à censura. Eu falo das censuras justas. As outras são injustas e são pecados contra o próximo. Mas quando alguém vê o seu próximo pecar e com isso sofre, porque pecando ele ofende a Deus e causa prejuízo à sua própria alma, e sozinho percebe que não é capaz de medir qual a gravidade do pecado do outro, e não se sente com sabedoria para dizer-lhe palavras de conversão, e por isso se dirige a um justo, a um sábio e lhe revela sua dificuldade, nesse caso não é pecado, porque suas confidências são para pôr fim a um escândalo e para salvar uma alma. É como o caso de alguém que tivesse um parente doente de uma doença vergonhosa. É certo que ele procurará conservá-la escondida para o povo, mas em segredo ele irá dizer ao médico: “Acho que o meu parente tem isto ou aquilo, e eu não sei aconselhá-lo nem curá-lo. Vem, tu, vê-lo, ou então dize-me que é que eu devo fazer.” Será que ele falta com o amor para com seu parente? Não. Pelo contrario. Ele cometeria uma falta se fingisse não saber que doença era e a deixasse agravar-se mais levando-o à morte, por um sentimento mal entendido de prudência e de amor. 555.2Um dia, e não será daqui a muitos anos, tu, e contigo os teus companheiros, devereis ouvir as confidências dos corações. Não como as ouvis agora dos homens, mas como sacerdotes, isto é, como médicos, mestres e pastores das almas, assim como Eu sou Médico, Mestre e Pastor. Devereis ouvir, decidir e aconselhar. O vosso juízo terá valor como se o próprio Deus o houvesse pronunciado.

Pedro se afasta de Jesus, que o mantinha seguro e apertado a seu lado, e, levantando-se, diz:

– Isso não é possível, Senhor. Não nos imponhas isso nunca. Como poderemos julgar como Deus se não sabemos julgar nem como homens?

– Mas depois sabereis, porque o Espírito de Deus pairará sobre vós e penetrará em vós com as suas luzes. Sabereis julgar considerando as sete condições dos fatos que vos serão propostos, para dardes conselho ou perdão. Escuta bem e procura lembrar-te delas com a tua inteligência, pois que Deus a deu a ti para que te sirvas dela sem preguiça nem presunções espirituais que nos possam levar a esperar e pretender ter tudo de Deus. Quando fores mestre, médico e pastor no meu lugar e fazendo as minhas vezes, e quando um fiel meu chorar aos teus pés as suas perturbações por ações próprias dele ou por ações de outros, tu deverás ter sempre presente este setenário de interrogações.

Quem: quem foi que pecou?

O que: qual foi a matéria do pecado?

Onde: em que lugar?

Como: em que circunstâncias.

Com que ou com quem: com que instrumento ou com que pessoa que foi a matéria do pecado.

Por quê: quais foram os estímulos que criaram o ambiente favorável ao pecado?

Quando: em que condições e reações, se foi acidentalmente ou por algum mau hábito adquirido.

Porque, vê bem, Simão, uma mesma culpa pode ter infinitas nuances ou graus, conforme todas as circunstâncias que a criaram e os indivíduos que a cometeram. Por exemplo… Tomemos em consideração dois pecados que são os mais praticados: o da concupiscência da carne ou o da concupiscência das riquezas.

Uma pessoa pecou por luxúria, ou acha que pecou por luxúria. Porque às vezes o homem confunde o pecado com a tentação, ou então julga serem iguais o estímulo artificialmente criado por um apetite doentio, e iguais àqueles pensamentos que surgem pela reflexão sobre o sofrimento na doença, ou também porque a carne e o sangue algumas vezes têm vozes repentinas, que chegam à mente antes que ela tenha tido tempo de pôr-se em guarda para sufocá-las. Essa pessoa vem a ti e te diz: “Eu pequei por luxúria.” Um sacerdote imperfeito diria: “Maldição sobre ti!” Mas tu, meu Pedro, não deves dizer assim. Por que tu és Pedro de Jesus, és o sucessor da misericórdia. E, então, antes de condenações, deves considerar e tocar, suave e prudentemente, o coração que está diante de ti chorando, para saberes todos os lados da culpa ou da suposta culpa, do escrúpulo.

Eu disse: suave e prudentemente. Lembra-te de que, além de Mestre e Pastor, és Médico. O médico não contamina as chagas. Ele está pronto para cortar, se houver gangrena, mas também sabe descobrir e tratar, com mão leve, se for somente uma ferida, com a dilaceração das partes vivas que devem ficar reunidas e não ser arrancadas. E lembra-te de que, além de médico e pastor, és mestre. Um mestre regula suas palavras conforme a idade de seus discípulos. Seria um escândalo o pedagogo que às crianças pequenas revelasse leis animais que os inocentes ignoravam, transmitindo-lhes assim conhecimentos e malícias precoces. Também no trato com as almas é necessário ter prudência ao interrogar. É preciso respeitar-se e respeitar. Ser-te-á fácil se em cada alma vires um teu filho. O pai é, por natureza, médico, mestre e guia dos seus filhos. Por isso, seja qual for a pessoa que estiver à tua frente perturbada pela culpa ou pelo temor da culpa, ama-a com um amor paterno, e saberás julgar sem ferir e sem escandalizar. 555.3Tu me acompanhas?

– Sim, Mestre. Estou entendendo muito bem. Deverei tomar cuidado e ser paciente. Saber persuadir para descobrir as feridas, mas conservá-las para mim, sem atrair os olhos dos outros sobre elas, e só mesmo quando eu vir que há uma ferida é que poderei dizer: “Estás vendo? Fizeste mal a ti mesmo, neste e naquele ponto.” Mas se eu vejo que a pessoa somente tem medo de ser ferida por ter visto fantasmas, nesse caso… Basta soprar de cima dele as névoas, sem se deter em explicações, que seria um zelo inútil, adequadas para iluminar as verdadeiras fontes da culpa. Será que falei bem?

– Muito bem. Portanto, se alguém te disser: “Eu pequei por luxúria”, considera quem está à tua frente. É verdade que o pecado pode aparecer em qualquer idade. Mas será mais fácil encontrá-lo em um adulto do que em um menino, e diferentes também por isso hão de ser as interrogações a serem feitas e as respostas que hão de ser dadas a um homem ou a um menino. Como consequência da primeira investigação, vem a segunda sobre a matéria do pecado, a terceira sobre o lugar do pecado, a quarta sobre as circunstâncias do pecado, e a quinta sobre quem foi cúmplice do pecado, a sexta sobre o porquê do pecado, a sétima sobre o tempo e o número de vezes do pecado.

Verás que geralmente, enquanto para um adulto, adulto que vive no mundo, a cada pergunta irá aparecendo uma circunstância que mostrará uma verdadeira culpa, para as pessoas que são crianças pela idade e pelo espírito, a muitas perguntas deverás responder: “Aqui há umas fumaças, mas não uma substância de culpa.” Poderás até enxergar, em lugar de lama, algum lírio que esteja tremendo porque foi salpicado de barro, e confunde a gota de água que caiu sobre o seu cálice com um borrifo de barro. São almas tão desejosas do Céu, que temem que seja uma mancha até mesmo a sombra de uma nuvem, que as obscurece momentaneamente interpondo-se entre elas e o sol, mas depois isso passa sem deixarem sinal sobre a cândida corola. São almas tão inocentes e tão desejosas de sê-lo, que Satanás espanta com tentações mentais, ou estimulando os desejos da carne, ou até a própria carne, tirando proveito das próprias doenças da carne. Essas almas devem ser consoladas e ajudadas porque não são pecadoras, mas mártires. Lembra-te disso sempre.

E lembra-te de julgar também quem pecou por avidez de riquezas ou das coisas dos outros seguindo o mesmo método. Porque se é uma culpa maldita ser ávidos sem necessidade e sem piedade, roubando do pobre e contra a justiça vexando os cidadãos, os servos, ou os do povo, menos grave, muito menos grave é a culpa de quem, ao ter-lhe sido negado um pão de seu próximo, o rouba para matar a fome de si mesmo ou de seus filhos. Lembra-te de que, tanto para o luxurioso como para o ladrão, há uma medida com a qual se haverá de julgar: o número, as circunstâncias e a gravidade da culpa, também há uma medida para julgar o conhecimento, por parte do pecador, do pecado que ele cometeu e do momento em que o cometeu. Porque se alguém age com plena consciência, esse peca mais do que quem o faz com ignorância. E quem o faz com pleno conhecimento e consentimento da vontade peca mais do que quem o faz forçado. Em verdade, Eu te digo que às vezes haverá fatos com aparência de pecado e que serão um martírio, e terão o prêmio que é dado a quem sofreu o martírio.

E lembra-te, acima de tudo, que em todos os casos, antes de condenar, deverás lembrar-te de que tu também foste homem e que o teu Mestre, que ninguém pôde achar em pecado, nunca, não condenou ninguém que houvesse se arrependido do seu pecado.

Perdoa setenta vezes sete, e até setenta vezes setenta, os pecados dos teus irmãos e dos teus filhos. Porque fechar as portas da Salvação para um doente, só porque ele recaiu na doença, é querer fazer que ele morra. 555.4Compreendeste?

– Compreendi. Isto eu compreendi mesmo…

– E agora, dize-me todo o teu pensamento.

– Pois, sim. Eu te digo, porque vejo que tu sabes mesmo todas as coisas, e entendo que não é murmurar o dizer-te que mandes Judas para o meu posto, por que ele sofre por não ir. Eu te digo não para dizer que ele seja invejoso e escandalizar-me com ele, mas para dar-lhe paz. Pois deve ser bem cansativo para ti teres que contar sempre com aquele vento de um temporal que se aproxima.

– Judas ainda andou se queixando?

– Ah! Sim… Ele disse que cada palavra tua para ele é uma ferida. Até aquilo que disseste aos romanos. Diz que, em verdade, foi para ele que Tu disseste que Eva foi à árvore porque lhe agradava aquela coisa que reluzia como a coroa de um rei. Eu, na verdade, não tinha encontrado ali uma comparação. Mas eu sou um ignorante. Bartolomeu e Zelotes, ao contrário, disseram que Judas estava mesmo “tocado em seu ponto mais vivo”, porque ele é enfeitiçado por tudo aquilo que brilha e seduz sua vanglória. E eles devem ter razão, porque são sábios. Sê bom com os teus pobres apóstolos, Mestre! Contenta Judas, e a mim com ele. Só isso! Estás vendo? Eu só sei divertir as crianças… e ser uma criança entre os teus braços –e se abraça com o seu Jesus, que ele ama verdadeiramente com todas as suas forças.

– Não. Eu não posso te contentar. Não insistas. Tu, justamente por seres como és, vais para a missão. Ele, justamente porque é como é, fica aqui. Também o meu irmão me havia falado nisso e, por mais que Eu o ame, também a ele Eu respondi: “Não.” Ainda que fosse minha Mãe que o pedisse Eu não cederia. Isso não é nenhum castigo, mas é um remédio. E Judas o deve tomar. Se não vai ajudar ao espírito dele, ajudará ao meu, porque não poderei censurar-me por ter deixado de fazer alguma coisa para santificá-lo.

Jesus é severo e imperioso ao dizer isso. Pedro deixa cair os braços e abaixa a cabeça, suspirando.

– Não te aflijas, Simão. Nós teremos uma eternidade para estarmos juntos e amar-nos. 555.5Mas tu tinhas outras coisas a dizer- me…

– Já está tarde, Mestre. E Tu precisas dormir.

– Tu mais do que Eu, Simão, pois ao romper da aurora deves pôr-te a caminho.

– Oh! Quanto a mim, não. Para mim, estar aqui contigo é um repouso melhor do que estando na cama.

– Então, fala. Tu bem sabes que Eu pouco durmo…

– Pois bem! Eu sou um cabeçudo. Eu o sou e o digo sem envergonhar-me. E se fosse por mim, não me importaria muito querer saber, porque eu acho que a maior sabedoria consiste em amar-te e seguir-te, e servir-te de todo coração… Mas Tu me mandas para cá e para lá. E o povo me faz perguntas e eu devo responder-lhe. Eu penso que o que eu pergunto a Ti, as pessoas o podem perguntar a mim. Pois os homens têm os mesmos pensamentos. Tu dizias1 de Jó: “O Senhor deu. O Senhor tirou. Seja bendito o Nome do Senhor.” Mas nem eu fiquei persuadido. E não a persuadi. Para alguma outra vez eu gostaria de saber o que é que devo dizer…

– É justo. 555.6Escuta. Parece ser uma injustiça, mas é uma grande justiça que os melhores sofram por todos. Mas dize-me uma coisa, Simão. Que é a Terra? Esta Terra toda.

– A terra? É um espaço grande, muito grande, feito de pó e águas, de rochas, com plantas, animais e criaturas humanas.

– E depois?

– Depois basta… A não ser que Tu não queiras que eu diga que é o lugar do castigo do homem e do seu exílio.

– A terra é um altar, Simão. Um altar muito grande. Devia ela ser um altar de louvor perpétuo ao seu Criador. Mas a Terra está cheia de pecados. Por isso ela deve ser um lugar de expiação perpétua, de sacrifício, sobre o qual queimam-se as vítimas. A Terra deveria, como os outros mundos espalhados pela Criação, cantar os salmos a Deus que a criou. Olha!

Jesus abre as portas e janelas de madeira, e pela janela aberta entra o frescor da noite, o rumor da torrente, a luz da lua e a vista do céu cheio de estrelas.

– Olha para aqueles astros! Eles cantam com suas vozes, que são de luz e de movimento através dos espaços infinitos do firmamento, os louvores de Deus. Já se passaram milênios e o canto deles continua, e sobe dos campos azuis do céu para o Céu de Deus. Podemos pensar em astros e planetas, estrelas e cometas como criaturas siderais que, como sacerdotes siderais, levitas, virgens e fiéis, devem cantar em um templo sem confins os louvores ao Criador. Escuta, Simão. Escuta o sussurrar das brisas por entre os campos das árvores, e o rumor das águas durante a noite. Até a terra canta, como o céu, com os ventos, as águas, a voz de seus passarinhos e animais. Mas se para o firmamento basta o louvor luminoso dos astros que o povoam, para esse templo, que é a terra, não bastam o canto dos ventos, a voz das águas e animais. Porque nela não moram somente os ventos, as águas e os animais, que cantam inconscientemente louvores a Deus, mas nela mora o homem: a criatura perfeita, acima de tudo o que vive no tempo e no mundo, dotada de um corpo material como os animais, os minerais e as plantas, e de um espírito como os anjos do Céu, e como eles destinada, se for fiel na prova, a conhecer e possuir Deus, primeiro por meio da graça e, depois, com o Paraíso. O homem, esta síntese que abrange todos os estados, tem uma missão que as outras criaturas não têm, e que para ele deveria ser, além de um dever, uma alegria: e é a de amar Deus. A de prestar culto, de modo inteligente e voluntário, a Deus. A de retribuir a Deus pelo amor que Ele teve para com o homem, ao dar-lhe a vida e, depois desta vida, o Céu. O homem há de prestar a Deus um culto inteligente.

Considera isso, Simão. Que é que Deus extrai de sua criação? Que vantagem? Nenhuma. A Criação não faz que Deus aumente, não faz que Ele se faça santo, não o enriquece. Deus é infinito. E tal Ele sempre teria sido, mesmo que a criação não tivesse acontecido. Mas Deus-Amor queria ter amor. E criou para ter amor. Somente amor é o que Deus pode receber da criatura, e esse amor, que há de ser inteligente e livre unicamente quando lhe é prestado pelos anjos e pelos homens. É ele que é a glória de Deus, a alegria dos anjos, a religião para os homens. No dia em que o grande altar da Terra se calasse sem dar louvores e fazer súplicas de amor, a Terra deixaria de existir. Porque, extinguindo-se o amor, ficaria extinta a reparação, e a ira de Deus anularia o inferno terrestre em que a terra se iria transformar. Portanto, a Terra, para continuar existindo deve amar. E mais isto ainda: a Terra deve ser o Templo que ama e reza com a inteligência dos homens. Mas no Templo, em todos os templos, quais são as vitimas que se lhe oferecem? As vítimas puras, sem manchas nem taras. Só elas é que são agradáveis ao Senhor. Elas e as primícias. Porque ao pai da família são dadas as coisas melhores, e a Deus, Pai da família humana, se dão as primícias de todas as coisas, as coisas escolhidas.

555.7Mas Eu disse que a Terra tem um duplo dever de sacrifício: o de louvor e o de expiação. Porque a Humanidade que a cobre, pecou em seus primeiros homens e peca continuamente, acrescentando ao pecado de falta de amor de Deus aqueles outros mil de suas adesões aos convites do mundo, aos da carne e aos de Satanás. Culpada, certamente culpada, é a humanidade, pois, tendo semelhança com Deus, tendo uma inteligência própria e ajudas divinas, é pecadora sempre e cada vez mais. Os astros obedecem, os animais obedecem e, do modo que podem, eles louvam ao Senhor. Os homens não obedecem e não louvam suficientemente ao Senhor. Daí nasce a necessidade de almas-vítimas, que amem e expiem por todos. São as crianças que pagam, os inocentes e ignorantes, com o amargo castigo da dor, por aqueles que só sabem pecar. São os santos que, como voluntários, se sacrificam por todos.

Daqui a pouco — um ano ou um século é sempre “pouco”, em comparação com a eternidade — daqui a pouco não se celebrarão mais outros holocaustos sobre o altar do grande Templo da Terra, a não ser estes dos homens-vítimas, consumados com o sacrifício perpétuo: hóstias com a Hóstia perfeita. Não te espantes, Simão. Eu não estou dizendo que introduzirei um culto semelhante àquele prestado a Moloque, a Baal e a Astarté. Os próprios homens nos imolarão. Entendes? Eles nos imolarão. E caminharemos alegres para a morte a fim de expiar e amar por todos. Depois virão os tempos nos quais os homens não imolarão mais homens. Mas sempre haverá vítimas puras que o amor consome junto com a Grande Vítima no Sacrifício perpétuo. Eu falo no amor de Deus e no amor por Deus. Nada de cordeiros e bodes, vitelos e pombas, mas o sacrifício do coração é o que agrada a Deus. Davi previu isso2. E no tempo novo, tempo do espírito e do amor, somente esse sacrifício é que lhe será agradável.

Considera, Simão, que, se um Deus teve que encarnar-se para aplacar a Justiça divina, por causa do grande Pecado, pelos muitos pecados dos homens, no tempo da Verdade somente os sacrifícios dos espíritos dos homens é que podem aplacar o Senhor. Tu estás pensando: “Mas, por que, então, Ele, o Altíssimo, deu a ordem3 de que se lhe imolassem os filhotes dos animais e os frutos das plantas?” Eu já te digo o por que: porque antes da minha vinda o homem era um holocausto manchado, e porque não era conhecido o Amor. Agora será conhecido. E o homem que conhecer o Amor, pois eu darei a Graça pela qual o homem conhece o Amor, sairá do letargo e se recordará, compreenderá, viverá e substituirá, pondo-se a si mesmo em lugar dos cordeiros e bodes como vítima de amor e expiação, como imitação do Cordeiro de Deus, seu Mestre e Redentor. A dor, sem ser por castigo, se transformará em amor perfeito; e felizes daqueles que a abraçarem com amor perfeito.

– Mas… e os meninos…

– Queres dizer aqueles que ainda não sabem oferecer-se… E sabes tu quando é que Deus já fala neles? A linguagem de Deus é uma linguagem espiritual. A alma a entende. E a alma não tem idade. Antes, Eu te digo que a alma menina, pelo fato de ser ela sem malícia, é, por sua capacidade de entender Deus, mais adulta do que a de um velho pecador. E Eu te digo, Simão, que tu viverás tanto a ponto de poderes ver muitos pequeninos ensinando aos adultos, e até a ti mesmo, a sabedoria do amor heroico. Mas naqueles pequenos que morrem de morte natural, é Deus quem opera diretamente, por motivos de um amor tão alto que nem Eu posso explicar-te, fazendo eles parte das sabedorias que estão escritas nos livros da Vida que só nos Céus é que serão lidos aos bem-aventurados. Lidos, Eu disse, mas, na verdade, basta olhar para Deus para se conhecer não só a Deus, mas também a sua infinita Sabedoria. 555.8Fizemos chegar o pôr da lua, Simão… A aurora já está perto e tu ainda não dormiste…

– Não importa, Mestre. Eu perdi poucas horas de sono mas adquiri muita sabedoria. E estive contigo. Mas, se Tu me permites, agora eu me vou. Não para dormir, mas para repensar nas tuas palavras.

Pedro já está perto da porta para sair, quando para, pensativo, e depois diz:

– Ainda outra coisa, Mestre. Será justo que eu diga a qualquer um, quando estiver sofrendo, que a dor não é um castigo, é uma graça, uma coisa como… como o nosso chamado, belo ainda que ela seja cansativo, belo mesmo se, para quem não sabe, pode parecer uma feio e triste?

– Podes dizê-lo, Simão. Pois é verdade. A dor não é um castigo quando sabemos acolhê-la e usar dela com justiça. A dor é como um sacerdócio, Simão. Um sacerdócio aberto a todos. Um sacerdócio que dá um grande poder sobre o coração de Deus. E um grande mérito. Nascida no pecado, sabe aplacar a Justiça. Porque Deus sabe usar para o bem tudo o que o ódio criou para produzir dor. Eu não quis usar outro meio para anular a culpa. Porque não há para vós meio maior do que este.

4 Tu dizias, su un tema già accennato in 436.4, 553.6, 554.3. Il dolore nell’ultimo discorso di Gesù, in 638.14/15
1 palavras, che sono in Jó 1,21.
2 Davi previu isso, in Salmo 51,18-19.
3 deu a ordem, come in: Esodo 22,28-29; 34,19.


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