315. 315. A viagem em direção a Jeftaele as reflexões de João de Endor.
31 de outubro de 1945.
315.1 Deve ter chovido a noite inteira. Mas, ao romper da aurora, sobreveio um vento seco, que empurrou as nuvens para o sul, para além das colinas de Nazaré.
Por isso, um tímido sol de inverno vem se atrevendo a mostrar-se e a acender com os seus raios um diamante em cada folha das oliveiras. Mas isso é uma veste de gala, que as oliveiras bem depressa perdem, porque o vento os sacode para longe das copas, que parecem ficar derramando, como um pranto, escamas de diamantes, os quais, depois, se desfazem por entre as ervas orvalhadas e por sobre a estrada lamacenta.
Pedro, com a ajuda de Tiago e André, prepara a carroça e o burro. Os outros ainda não se vêem. Mas depois vão saindo, um após o outro, talvez de uma cozinha, porque eles dizem aos três que estão fora:
– Agora, ide vós tomar algum alimento.
E estes vão, para sairem pouco depois e desta vez em companhia de Jesus.
– Tornei a pôr a cobertura por causa do vento, explica Pedro. Se queres mesmo ir a Jeftael, nós o teremos batendo em nossos rostos… e isso nos aborrecerá. Não sei por que não tomamos o caminho que vai direto para Sicaminon, e depois o da beira-mar. Seria mais longo, mas menos áspero. Ouviste o que dizia aquele pastor, a quem eu fiz falar o que eu quis? Ele disse: “Jotapata, nos meses de inverno fica isolada. Não há senão uma estrada para ir-se até lá, e com cordeirinhos não se vai mesmo. Nos ombros não se pode ter nada, porque alguns passos têm que ser dados mais com as mãos do que com os pés, e cordeiros não podem flutuar… Há dois rios, quase sempre cheios, e a própria estrada já é uma torrente, que vai correndo sobre um fundo rochoso. Eu costumo ir lá depois da festa dos Tabernáculos e em plena primavera, e lá eu vendo bem, porque nesse tempo eles se abastecem por alguns meses.” Assim ele disse. E nós… com esta carga (e dá um pontapé na roda da carroça)… e com este burro… hum…
– A estrada direta de Séforis a Sicaminon, seria melhor. Mas ela é muito transitada… Lembra-te que é bom não deixarmos rastos de João…
– O Mestre tem razão. Além disso, podemos encontrar-nos com Isaque e alguns discípulos. E depois iríamos a Sicaminon… –diz o Zelotes.
– Assim sendo… então vamos…
– Eu vou chamar aqueles dois… –diz André.
E, enquanto ele o faz, Jesus está se despedindo de uma velha e de um menino, que estão saindo de um aprisco com uns baldes de leite. Estão chegando também pastores barbudos aos quais Jesus agradece a hospitalidade que lhe ofereceram naquela noite chuvosa. 315.2João e Síntique já estão na carroça que já vai se dirigindo para a estrada, guiada por Pedro. Jesus, ladeado pelo Zelotes e por Mateus, e acompanhado por André, Tiago, João e pelos dois filhos de Alfeu, apressa o passo para alcançá-lo.
O vento está fustigando os rostos e enfunando os mantos. A cobertura estendida sobre os arcos do carro estala como uma vela, por mais que a chuva da noite a tenha tornado pesada:
– Tomara que ela se enxugue logo! –murmura Pedro, olhando para ela–. Contanto que não se enxuguem os pulmões daquele pobre homem!… Espera aí, Simão de Jonas… Vamos fazer assim.
Ele pára o burro, tira o manto, sobe para o carro, e enrola com muito cuidado João.
– Mas, por quê? Eu já tenho o meu…
– Porque eu, para puxar o burro, já fico com calor, como se estivesse em um forno de assar pão. Além disso, eu estou acostumado a ficar nu na barca e, quanto mais nu eu fico, mais aumentam as rajadas do vento. O frio me serve de aguilhão, e eu fico mais esperto. Vamos! Agora estás bem coberto! Maria, em Nazaré me fez tantas recomendações sobre ti que, se ficas doente, eu nunca mais poderei ir adiante …
315.3 Ele desce da carroça, e pega de novo as rédeas, fazendo o burro andar. Mas logo ele precisa chamar em sua ajuda o seu irmão e também Tiago, para ajudarem o burro a sair de um lugar lamacento, onde a roda afundou. E vão indo assim, empurrando a carroça para ajudarem o burro, que está fazendo força, firmando os seus cascos no barro e puxando, o pobre do animal que está bufando e suando, pelo cansaço e pela vontade de comer, pois Pedro, para provocá-lo a andar, lhe está mostrando uns bocados de pão e pedaços de maçã, que lhe vai dando somente nos momentos de descanso.
– Tu és um enganador, Simão de Jonas –diz, caçoando, Mateus, que está observando a manobra.
– Não. Eu faço o animal a cumprir o seu dever, e com doçura. Se eu não fizesse assim, teria que usar o chicote. E não quero fazer isso. Eu não bato na barca, quando ela fica teimando, e ela é de madeira. Por que deveria bater neste que é de carne? Agora, este é a minha barca… está na água … e como! Por isso, eu o trato como trato a barca. Eu não sou Doras! Sabeis disso? Eu queria chamá-lo Doras, antes de adquiri-lo. Mas depois ouvi falar o seu nome, e ele me agradou. Eu o deixei…
– Como é que ele se chama? –perguntam-lhe curiosos.
– Adivinhai!
E Pedro ri por entre a barba. Eles falaram os nomes mais estranhos e os dos mais ferozes fariseus ou saduceus, etc. Mas Pedro sempre ia sacudindo a cabeça. Falaram vinte nomes.
– Ele se chama Antônio! Não é um lindo nome? É o nome daquele maldito romano! Logo se vê que o grego, que o vendeu, teria lá suas razões contra Antônio!
Todos se riem, enquanto João de Endor explica:
– Será um dos que foram multados, depois da morte de César? Ele é velho?
– Terá seus setenta anos… e deve trer trabalhado em todos os ofícios… Agora, ele tem um albergue em Tiberíades…
315.4 Chegaram ao trívio de Séforis, onde se encontram as estradas de Nazaré para Ptolemaida, de Nazaré para Sicaminon, de Nazaré para Jotapata. O marco miliar traz as três indicações de Ptolemaida, Sicaminon e Jotapata.
– Vamos entrar em Séforis, Mestre?
– É inútil. Vamos para Jeftael. Sem parar. Comeremos, enquanto vamos caminhando. É preciso que estejamos lá antes da tarde.
Vão, vão indo, atravessando duas pequenas torrentes bem cheias, enfrentando as primeiras encostas de um sistema de colinas, na direção norte-sul que, para o norte, fazem um nó inesperado, que depois se desata para leste1.
– Lá está Jeftael –diz Jesus.
– Não estou vendo nada –observa Pedro.
– Está ao norte. Viradas para nós estão as costas a pique, bem como ao oriente e ao poente.
– De modo que teremos que rodear aquele monte todo?
– Não. Há uma estrada junto ao monte mais alto, ao pé dele, no vale. Ela atalha muito, ainda que seja uma estrada muito íngreme.
– Tu já estiveste lá?
– Não. Mas Eu sei.
E de fato é uma estrada íngreme! A tal ponto, que, quando lá chegam, fica parecendo que se precipitaram no fundo da noite, pois o lugar se escurece tanto que a luz diminui ao chegar-se a este vale, o qual me faz pensar nos círculos dantescos, de tão horrível e alcantilado que é. É uma estrada estreita, selvagem, fechada entre uma torrente furiosa e uma costa ainda mais raivosa, que se estende à nossa frente, subindo rapidamente para o norte e, quando lá chegam, ficam amedrontados…
Se a luz aumenta, à medida que se vai subindo, em compensação, aumenta também a fadiga e por isso descarregam a carroça de todos os volumes pessoais, e até Síntique resolve descer para que a pequena carroça fique o mais leve possível. João de Endor que, depois daquelas poucas palavras, não tinha mais aberto a boca, a não ser para tossir, gostaria de descer também. Mas não o deixam fazer isso, e ele fica onde está, enquanto todos, uns empurram a carroça e outros puxam o animal e a carroça, e suam a cada mudança de nível. Mas ninguém fica resmungando. Pelo contrário, todos procuram mostrar-se contentes com aquele exercício, para não desvalorizarem os dois, pelos quais eles o estão fazendo, eles que, já mais de uma vez, têm proferido palavras de queixa, por estarem cansados.
A estrada faz um ângulo reto. Depois um outro ângulo
e vai terminar em uma cidade empoleirada sobre uma encosta tão íngreme, que, como diz João de Zebedeu, ela dá a impressão de que vai deslizar para o vale com suas casas.
– Mas, pelo contrário, ela está bem firme, e faz uma só coisa com a rocha.
– Então, é como Ramot… –diz Síntique recordando-se.
– Mais ainda. Porque aqui a rocha já é uma parte das casas, não é somente a base delas. Parece-se mais com Gamala. Estais lembrados de lá?
– Sim, e com esta lembrança, nos lembramos também daqueles porcos… –diz André.
– Justamente de lá é que partimos para Tariquéia, para o Tabor e Endor… –lembra-se Simão Zelotes.
315.5 – Eu fui destinado a dar-vos recordações tristes e grandes fadigas… –suspira João de Endor.
– Não. Deixa disso. Tu nos brindaste com uma amizade fiel, é, isto amigo –diz Judas de Alfeu.
E todos se unem a ele, para tornar mais clara a confirmação.
– E, no entanto, eu não tenho sido amado… Ninguém o diz a mim… Mas eu sei meditar e reunir os fatos isolados em um quadro único. Esta partida não, não estava prevista, e a decisão de fazê-la não foi espontânea…
– Por que dizes isso, João? –pergunta, docemente aflito, Jesus.
– Porque é a verdade. Não me quiseram. Eu, e não outros, nem mesmo os grandes discípulos, eu é que fui escolhido para ir para longe.
– E de Síntique, o que dizes? –pergunta Tiago de Alfeu, entristecido por aquela luz, que veio à mente do homem de Endor.
– Síntique está indo para não mandar-me embora sozinho… para, por compaixão, não me deixarem ver a realidade…
– Não, João!…
– Sim, Mestre. E estás vendo? Eu poderia até dizer-te o nome do meu torturador. Sabes onde o estou lendo? Somente ao olhar para estes oito bons, já o estou lendo! É aquele por causa do qual eu fui achado por Ti, é também aquele que me quereria fazer achar Belzebu. E me trouxe até esta hora, assim como a Ti, Mestre, porque Tu estás sofrendo como eu, e me trouxe a esta hora para fazer-me voltar ao desespero e ao ódio. Porque ele é mau. Ele é cruel. Ele é invejoso. E é ainda outra coisa, é Judas de Keriot, a alma escura no meio dos teus servos, todos cheios de luz…
– Não fales assim, João. Não é só ele que falta. Todos estiveram ausentes nas Encênias, menos o Zelotes, que não tem família. Lá de Keriot, ainda mais neste tempo, não se pode vir em poucas etapas, São quase duzentas milhas de caminho. E era justo que ele fôsse ficar com sua mãe, como Tomé. Também Natanael foi poupado, porque já é velho e, com ele, Filipe, para servir de companheiro a Natanael…
– Sim… São outros três, que aqui não estão… Mas, ó bom Jesus. Tu conheces os corações, porque és Santo. Mas não és somente Tu que os conheces! Tambem os perversos conhecem os perversos, pois eles se reconhecem uns aos outros. Eu fui perverso, e me pude ver de novo, nos meus piores instintos, na pessoa de Judas. Mas eu o perdôo. Somente por uma coisa é que eu o perdôo por fazer que eu vá morrer tão longe: porque justamente por meio dele eu pude vir a Ti. E que Deus o perdoe por tudo mais… por tudo mais.
Jesus não precisa desmentir… E se cala. Os apóstolos se olham uns aos outros, enquanto, à força de braços, vão empurrando a carroça por sobre a estrada escorregadia.
315.6Já chega a tarde, quando eles vão chegando à cidade onde, como uns desconhecidos entre desconhecidos, conseguem arranjar alojamento em um albergue situado na extremidade da cidade. É uma extremidade a qual já causa vertigens só o olhar para baixo, do alto de sua parede, de tão a pique e alta que ela é. No fundo — um rumor e nada mais, naquela sombra de paz que já está no vale —, ruge uma torrente.
1 para leste. Segue o desenho da MV, em que você vê os quatro pontos cardeais e para o norte, Jiftael.
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