248. 248. Em Belém da Galileia. Juízo sobre umhomicídio e parábola das florestas petrificadas.
9 de agosto de 1945.
248.1Já é tarde, quando chegam a Belém da Galileia. Compreende-se que seja o destino das cidades deste nome estarem elas colocadas sobre colinas onduladas, revestidas de verde, de bosques, de prados, sobre os quais pastam rebanhos, que vão descendo para os redis, ao cair da noite. O ar, ainda avermelhado, deixado assim pelo sol, que acaba de se pôr, está cheio de uma música pastoral tocada com os sinos e com os trêmulos balidos, aos quais se juntam os gritos alegres das crianças que brincam e as vozes das mães que os estão chamando.
– Judas de Simão, vai com Simão procurar alojamento para nós e para as mulheres. No meio do povoado está o albergue e lá nos encontraremos.
E, enquanto Judas e Simão obedecem, Jesus se vira para a Mãe e diz:
– Desta vez não será como na outra Belém. Encontrarás descanso, minha Mãe. Pouca gente viaja nesta estação e não há nenhum edito.
– Com este tempo seria agradável dormir até sobre os prados, ou no meio destes pastores, por entre os cordeirinhos –e Maria sorri para o Filho e sorri também para alguns pastorzinhos curiosos, que olham para Ela, fitando-a.
248.2Maria sorri de tal modo, que um deles dá uma cotovelada num outro, dizendo-lhe:
– Não pode ser outra, senão Ela.
E vai para a frente, sem dúvidas, dizendo:
– Eu te saúdo, Maria, cheia de graça. O Senhor está contigo?
Maria responde com um sorriso ainda mais amável:
– Ei-lo aí, o Senhor –e acena para Jesus, que se tinha virado para falar com os primos, encarregando-os de ir dar esmola aos pobres, que se aproximam com lamentosos pedidos.
E a Mãe toca levemente em seu Filho, dizendo-lhe:
– Meu Filho, estes pastorzinhos Te procuram e me reconheceram. Não sei como…
– Certamente porque por aqui passou Isaque, deixando o perfume dessa revelação. Jovenzinho, vem cá.
O pastorzinho, um moreninho entre doze e catorze anos, magro, mas robusto, de olhos vivos e muito pretos, de cabelos da cor do ébano, que lhe caem pelas costas abaixo, envolvido em sua pele de ovelha — e bem me parece o retrato do Precursor, quando jovem — se aproxima de Jesus com um sorriso feliz, como se estivesse fascinado por Ele.
– A paz esteja contigo, menino. Como reconheceste Maria?
– Porque só a Mãe do Salvador podia ter aquele sorriso e aquele rosto. Foi-me dito: “Um rosto de anjo, olhos de estrela e um sorriso que é mais doce do que beijo de Mãe, doce como o seu nome, que é Maria, tão santo, que Ele pode reclinar-se sobre o Deus recém-nascido.” E eu vi isso nela, e a saudei, porque eu estava à tua procura. Nós Te estávamos procurando, Senhor, e… e eu não tinha coragem de ser o primeiro a Te saudar.
– Quem foi que te falou de nós?
– Isaque da outra Belém, prometendo conduzir-nos a Ti, quando chegasse o outono.
– Esteve aqui Isaque?
– Ele ainda está por estas regiões, com muitos discípulos. Mas a nós pastores foi ele que falou. E nós cremos na palavra dele. 248.3Senhor, deixa que nós também Te adoremos, como aqueles nossos companheiros, naquela noite feliz –e enquanto ele se ajoelha na poeira da estrada, lança um grito aos outros pastores, que fizeram parar o rebanho junto às portas da cidade (portas é um modo de dizer, porque a cidade não é cercada por muros), lá onde Jesus também havia parado para esperar as mulheres e entrar com elas na cidade.
O pastorzinho grita:
– Meu pai, meus irmãos e amigos, encontramos o Senhor. Vinde e o adoremos.
E os pastores vem ajuntar-se, com seu rebanho, ao redor de Jesus, para pedir-lhe que não vá para outras casas, mas que aceite a pobre casa deles, que não fica longe, para ir morar nela com os seus amigos.
– É um redil amplo –explicam eles–, porque Deus nos protege, e lá temos quartos e pórticos cheios de feno cheiroso. Os quartos servem para a Mãe e para as suas irmãs, porque são mulheres. Mas também para Ti há um. Os outros podem dormir conosco debaixo dos pórticos, em cima do feno.
– Eu também ficarei convosco. E terei um repouso mais tranquilo do que se estivesse dormindo no quarto do rei. Vamos primeiro avisar Judas e Simão.
– Vou eu, Mestre –diz Pedro, que lá se vai, junto com Tiago de Zebedeu.
Param à margem da estrada, e ficam esperando a volta dos quatro apóstolos.
248.4Os pastores estão olhando para Jesus como se fosse já Deus em sua glória. Os mais jovens, então, estão realmente felizes, e parecem querer gravar em suas mentes cada pormenor de Jesus e de Maria, que está inclinada, acariciando alguns cordeirinhos, que levantam o focinho, balindo contra as pernas dela.
– Havia um, na casa de Isabel, minha prima, que me lambia as tranças, todas as vezes que me via. Eu o chamava de amigo, porque era de verdade meu amigo, como um menino e, logo que podia, corria até mim. Este aqui me faz lembrar daquele, com estes olhos de duas cores. Não o mateis! O outro também foi deixado viver, por causa do seu amor por mim.
– É uma cordeira, Mulher, e nós a queríamos vender, porque tem os olhos de duas cores, e eu acho que um deles pouco nos veja. Mas nós a conservaremos, se assim o queres.
– Oh! Sim. Afinal, eu nunca quereria que fosse morto nenhum cordeirinho. Eles são tão inocentes e com essa voz de criança que chama a mãe. Parecer-me-ia estar matando um menino, se matasse um destes.
– Mas, então, Mulher, não haveria mais lugar para vós sobre a terra, se ficassem vivos todos os cordeirinhos –diz o pastor mais velho.
– Eu sei. Mas eu penso na dor que sentem, e também na dor das ovelhas mães. Elas choram muito, quando lhes tiram os filhos. Parecem mesmo mães, como nós. Eu não posso ver ninguém sofrendo, mas sinto as aflições de uma mãe. É esta uma dor diferente de todas as outras, porque para nós ficam feridos, não só o coração e o cérebro pelo golpe que deu a morte a um filho, mas também as nossas próprias vísceras. Nós, mães, permanecemos sempre unidas aos nossos filhos. E ficamos completamente feridas, quando eles nos são tirados. Maria não está mais sorrindo, mas tem um brilho de pranto em seus olhos azuis, e olha para seu Jesus, que a ouve e observa, e lhe põe uma mão sobre o braço, como se tivesse medo de que seu Filho estivesse para ser arrancado do seu lado.
248.5Da estrada poeirenta vem vindo uma pequena escolta de homens armados: são seis homens, em companhia de pessoas que vozeiam. Os pastores ficam olhando, e falam entre si, em voz baixa. Depois olham para Maria e Jesus.
O mais velho fala:
– Assim foi bom que não entrasses em Belém nesta tarde.
– Por quê?
– Porque aquelas pessoas, que passaram agora, e vão entrar na cidade, querem arrancar um filho de sua mãe.
– Oh! Mas, por quê?
– Para matá-lo.
– Oh! Não. Que fez?
Jesus também faz essa pergunta, e os apóstolos se aglomeram para ouvir.
– Foi encontrado morto no caminho, que vai para o monte, o rico Joel. Ele estava voltando de Sicaminon, com muito dinheiro. Mas não foram os ladrões que o atacaram, porque o dinheiro estava todo com o morto. O servo, que o acompanhava, disse que o patrão o havia mandado ir correndo à sua frente, para avisar que ele já estava voltando, e que, pelo caminho, depois de ter-se dirigido para o lugar onde foi cometido o homicídio, viu somente o jovem que agora vai ser morto. Dois do povoado juram tê-lo visto agredir Joel. Agora os parentes do morto exigem a morte dele. E, se ele é homicida…
– Tu achas que não?
– Isso não me parece ser possível. O jovem é pouco mais do que um rapazinho, e bom, vive sempre com a Mãe, da qual ele é filho único, e ela é viúva, e uma viúva santa. Não lhe faltam meios. Não pensa em mulheres. Não é briguento. Não é louco. Para que, então, teria matado?
– Mas, terá talvez inimigos?
– Quem? Joel, o morto, ou Abel, o acusado?
– O acusado.
– Ah! Eu não saberia… Mas… Não saberia.
– Sê sincero, homem.
– Senhor, é uma coisa que eu estou pensando, e Isaque disse que não se há de pensar mal do próximo.
– Mas se deve ter a coragem de falar para salvar um inocente.
– Se eu falar, tenha eu razão ou não, terei que fugir daqui, porque Aser e Jacó são poderosos.
– Fala sem medo. Não serás obrigado a fugir.
– Senhor, a mãe de Abel é jovem, é bela e sábia. Aser não é sábio. E não o é também Jacó. O primeiro gosta da viúva, e o segundo… toda a cidade sabe que o segundo é um cuco no leito conjugal de Joel. Eu penso que…
– Já compreendo. 248.6Vamos, meus amigos. Mas vós, ficai aqui, mulheres, pastores. Eu voltarei logo.
– Não, meu Filho. Eu vou contigo.
Jesus lá se vai, caminhando apressado, indo para o interior da cidade. Os pastores ficam indecisos, mas depois deixam o rebanho com os mais jovens, que ficam com as mulheres, menos a Mãe e Maria de Alfeu, que acompanham Jesus, e se põem a caminho para alcançarem o grupo dos apóstolos.
Na terceira estrada, que atravessa a rua principal de Belém, encontram-se com Iscariotes, Simão, Pedro e Tiago, que vêm descendo, gesticulando e falando alto.
– Que coisa, Mestre! Que coisa e que pena! –diz Pedro, perturbado.
– Um filho, que arrebataram à força dos braços de sua mãe, e ela o defende como uma hiena. Mas ela é uma mulher contra homens armados –acrescenta Simão Zelotes.
– Já está sangrando em muitos pontos –diz Iscariotes.
– Arrombaram a porta dela, porque ela havia feito uma barricada em casa –termina Tiago de Zebedeu.
– Vou a ela.
– Oh! Sim! Só Tu podes consolá-la.
248.7Eles viram para o lado direito, depois para o esquerdo, e vão indo, para o centro da cidade. Já se vê a aglomeração de gente tumultuando, que se agita e se comprime perto da casa de Abel, e ouvem-se os gritos dilacerantes da mulher, desumanos, ferozes e piedosos, ao mesmo tempo, e que estão chegando até aqui.
Jesus apressa mais o passo, e chega a uma pequenina praça, numa curva do caminho, que neste ponto se alarga, e se torna maior do que uma pracinha, na qual o tumulto chega ao cúmulo.
A mulher se bate ainda com os guardas por seu filho, estando ainda segura com uma das mãos, que se tornou como garras de ferro, ao que sobrou da porta arrombada, e com a outra mão está abraçada, pela cintura, com o filho e, se alguém procura afastá-la dele, ela o morde ferozmente, sem fazer caso dos golpes que recebe, nem dos que lhe arrancam os cabelos, o que faz que ela se torne tão feroz, que chega a ficar de cabeça baixa. E, quando não morde, ela urra:
– Deixai-o! Assassinos! Ele é inocente! Na noite em que Joel foi morto, ele estava ao meu lado, na cama. Assassinos! Assassinos! Caluniadores! Perjuros!
O jovenzinho, agarrado pelos ombros pelos captores, vai sendo arrastado pelos braços, vira-se para trás, com um rosto transtornado, e grita:
– Mamãe! Mamãe! Por que é que eu devo morrer, se eu não fiz nada?
É um belo jovenzinho, alto e esguio, de olhos escuros e doces, de cabelos cor de amora e um pouco em desordem. Pelos rasgões de sua veste, vê-se um corpo ágil e juvenil, quase de menino ainda.
Jesus, com a ajuda dos que o acompanham, rompe a multidão compacta como uma pedra, e abre passagem até o grupo dos que estão compadecidos, justamente no momento em que a mulher, exausta é arrancada da porta e arrastada como se fosse um saco amarrado ao corpo do filho, pela estrada pedregosa. Mas isso dura poucos momentos. Um puxão mais forte arranca a mão da mãe da cintura do filho, e a mulher cai de bruços, batendo duramente o rosto no chão e sangrando-se ainda mais. Mas, logo ela ergue de novo o busto, põe-se de joelhos e estende os braços, enquanto o filho, levado embora rapidamente, tanto quanto o permite a multidão, que com dificuldade se abre, solta o braço esquerdo e o agita, torcendo-se para trás, e gritando:
– Mamãe! Adeus! lembra-te, pelo menos tu, de que eu sou inocente!
A mulher olha para ele, com olhos de uma louca, depois cai por terra, desmaiada.
248.8Jesus para diante do grupo dos captores:
– Parai um momento. Eu vo-lo ordeno!
E o seu rosto não admite réplica.
– Quem és tu? –diz, agressivo, um cidadão que está no grupo–. Nós não te conhecemos. Sai da frente e deixa-nos andar, para que o preso seja morto, antes que a noite chegue.
– Eu sou um Rabi. O maior deles. Em nome de Javé, parai, ou Ele vos fulminará.
Entretanto, parece que Ele fulmina:
– Quem é testemunha contra esse?
– Eu, ele e ele –responde o que falou por primeiro.
– O vosso testemunho não é válido, porque não é verdadeiro.
– E por que podes dizer isso? Nós estamos prontos a jurá-lo.
– Esse vosso juramento é pecado.
– Pecar? Nós?
– Vós. Assim como incubais a luxúria, como nutriz o ódio, como cobiçais as riquezas, como sois homicidas, assim também sois perjuros. Vós vos vendestes à imundície. Sois capazes de qualquer sujeira.
– Olha bem como estás falando. Eu sou Aser…
– E Eu sou Jesus.
– Não és daqui, não és sacerdote nem juiz. Não és nada. És estrangeiro.
– Sim, eu sou Estrangeiro, porque a terra não é o meu Reino. Mas sou Juiz e Sacerdote. E, não somente desta pequena parte de Israel, mas de todo Israel e do mundo todo.
– Vamos, vamos. Agora ainda temos que lidar com um doido –diz a outra testemunha, e dá um empurrão em Jesus, para desviá-lo do caminho.
– Já não darás nem um passo mais –troveja Jesus, olhando com um daqueles olhares de quando opera milagres, olhares que dominam e paralisam, assim como dão vida e alegria, quando Ele quer–.
Tu não darás mais nem um passo. 248.9Não acreditas no que Eu estou
dizendo? Então, olha bem. Aqui não existe a poeira1 do Templo nem a água que há lá, e não há palavras escritas com tintas para tornar muitíssimo amarga a água, que é o julgamento do ciúme e do adultério. Mas aqui estou Eu. E Eu faço o julgamento.
A voz de Jesus é um toque de trompa, de tão penetrante que é.
O povo se comprime para ver. Somente Maria Santíssima e Maria de Alfeu é que ficaram socorrendo a mãe desmaiada.
– E eu faço julgamento assim. Dai-me uma pitada de poeira e uma gota de água em um pequeno cântaro. E, enquanto me providenciais isso, vós que acusais, e tu, que és acusado, respondei-me. És tu inocente, meu filho? Responde com sinceridade a Este que é o teu Salvador.
– Sim, eu o sou, Senhor.
– Aser, podes jurar que só disseste a verdade?
– Eu juro. Não teria motivo para mentir. Eu juro pelo altar. Que desça do Céu um fogo que me queime, se eu não estiver dizendo a verdade.
– Jacó, podes tu jurar que estás sendo sincero na acusação e que a fazes sem nenhum segredo, que te leve a mentir?
– Eu juro por Javé. Somente o amor para com o amigo morto é que me leva a falar. Com este aqui eu nada tenho de pessoal.
– E tu, servo, podes jurar que disseste a verdade?
– Mil vezes o jurarei, se for preciso! O meu patrão, o meu pobre patrão! –e chora, cobrindo a cabeça com a capa.
– Está bem. Aqui está a água, e aqui está a poeira. E a palavra é esta: “Tu, Pai Santo e Deus Altíssimo, faze o julgamento da verdade, por meio de Mim, de modo que a vida e a honra sejam dadas ao inocente e à sua mãe desconsolada, e um justo castigo seja dado aos que não são inocentes. Mas, pela graça que Eu tenho aos teus olhos, nem fogo nem morte, mas que uma longa expiação venha para aqueles que cometeram o pecado.”
Ele diz estas palavras, conservando as mãos estendidas sobre o pequeno cântaro, como faz o sacerdote no altar, durante a Missa, no ofertório. Depois mergulha a direita no cântaro e, com a mão molhada pela água, borrifa os quatro que estão sob julgamento, e os faz beber um gole daquela água. Primeiro o jovenzinho e depois aos outros três.
248.10Depois cruza os braços sobre o peito, e fica olhando para eles. A multidão também está olhando e, poucos minutos depois, eles dão um urro, e se jogam com os rostos no chão. Então os quatro, que estavam em fila, olham-se uns aos outros e também urram, por sua vez, por primeiro o jovenzinho, de espanto e os outros de horror. Porque eles se veem cobertos no rosto de uma lepra repentina, enquanto que o jovenzinho ficou imune.
O servo se joga aos pés de Jesus, que se desvia como todos, até os soldados, e ao desviar-se, toma pela mão o jovenzinho Abel, a fim de que não se contamine, ficando perto dos três leprosos. E o servo grita: “Não! Não! Perdão! Eu estou leproso! Foram eles que me pagaram para que fizesse que o meu patrão ficasse atrasado até à tarde, a fim de que pudessem feri-lo na estrada deserta. Fizeram-me tirar as ferraduras da mula, que estava calçada. Ensinaram-me a mentir, dizendo que eu havia ido na frente. Mas eu ia com eles para matá-lo. E vou dizer também porque fizeram isso. Porque Joel percebeu que Jacó amava a sua jovem mulher, e porque Aser queria a mãe deste aqui, mas ela o repelia. Então, eles combinaram ficar livres de Joel e de Abel, ao mesmo tempo, para se aproveitarem das mulheres deles. Eu já disse. Tira-me a lepra, tira-a. Abel, tu és bom, pede tu por mim!”
– Tu vai para a casa de tua mãe. Que ela, quando voltar do seu desmaio, veja o teu rosto e volte à sua vida em paz. E vós… A vós Eu deveria dizer: “Que vos seja feito aquilo que fizestes.” E seria uma justiça humana. Mas Eu vos entrego a uma expiação sobre-humana. A lepra, com a qual estais horrorizados, vos livrará de serdes apanhados e mortos, como mereceis. Povo de Belém, afasta-te, abre caminho, como as águas do mar, para deixar que estes passem indo para as suas longas galés. Terríveis galés. Mais atrozes do que uma morte rápida. E isso é ainda uma piedade divina, a fim de dar-lhes o modo de poderem arrepender-se, se o quiserem. Ide!
A multidão se move para perto dos muros, deixando livre o centro da rua, e os três, recobertos agora pela lepra, como se houvesse muitos anos que estavam doentes, vão, um atrás do outro, para a montanha. No silêncio e no crepúsculo, que vem baixando e que faz calar as vozes dos passarinhos e dos quadrúpedes, só se ouve o pranto deles.
– Purificai o caminho com muita água, depois de vos terdes queimado com o fogo. E vós, soldados, ide e contai que a justiça foi feita, segundo a mais perfeita lei de Moisés.
E Jesus quer ir para onde sua Mãe e Maria de Cléofas estão continuando a socorrer a mulher que, lentamente vem voltando a si, enquanto seu filho lhe acaricia as mãos geladas e as beija.
248.11Mas as pessoas de Belém, com um respeito quase aterrorizado, pedem:
– Fala-nos, Senhor. Tu és realmente poderoso. Tu és certamente aquele de quem falou o homem, que por aqui passou anunciando o Messias.
– Eu falarei à noite, perto do redil dos pastores. Por ora, vou confortar a mãe.
E vai até à mulher, que está sentada no colo da Maria de Alfeu, e já vai recobrando os sentidos, cada vez mais, olhando para o rosto amoroso de Maria, que lhe sorri, mas não conseguindo ainda entender nada, até o momento em que desce o olhar até a cabeça morena de seu filho, que está inclinado sobre suas mãos vacilantes, e pergunta:
– Morri eu também? Este é o Limbo?
– Não, mulher. Esta é a terra, este é o teu filho, que foi salvo da morte. E este é Jesus, meu Filho, o Salvador.
A mulher faz um movimento perfeitamente humano, em primeiro lugar. Ela ajunta suas forças, e se inclina para a frente, a fim de pegar a cabeça inclinada do seu filho e, então, vê que ele está vivo e são, e o beija freneticamente, chorando, rindo, procurando lembrar-se de todos os nomes que ele teve no berço, para dizer-lhe sua alegria.
– Sim, mamãe, sim. Mas agora olha, não para mim. Olha para Ele. Para Ele que me salvou. Bendize o Senhor.
A mulher, ainda muito fraca para levantar-se, ou para pôr-se de joelhos, estende as mãos, que estão tremendo e sangrando ainda, e pega na mão de Jesus, cobrindo-a de beijos e de lágrimas.
Jesus lhe põe a mão esquerda sobre a cabeça, dizendo-lhe:
– Sê feliz. Em paz. E sê sempre boa. E tu também, Abel.
– Não, meu Senhor. A minha vida e a de meu filho são tuas. Porque Tu as salvaste. Deixa que eu acompanhe os discípulos, como eu já desejava, desde que eles estiveram aqui. Eu te dou minha vida com grande alegria e te peço que deixes que eu o siga para servi-lo e servir aos servos de Deus.
– E a tua casa?
– Oh! Senhor! Pode quem ressuscitou da morte ter ainda os afetos que tinha, antes de morrer? Mirta ficou livre da morte e do Inferno por Ti. Neste povoado eu poderia chegar a odiar aqueles que me torturaram, quando maltrataram o meu filho. E Tu pregas o amor. Eu sei. Deixa, pois, que a pobre Mirta ame ao único que merece amor, à sua missão e aos seus servos. Agora estou exausta, e não poderia acompanhar-te. Mas, logo que eu puder, permite-me, Senhor. Estarei em tua companhia e perto de meu Abel…
– Seguirás o teu filho e a Mim com ele. Sê feliz. Fica em paz agora. Com a minha paz. Adeus.
E, enquanto a mulher, ajudada pelo filho e por algumas pessoas compadecidas dela, vai entrando em casa, Jesus, com os pastores, apóstolos, sua Mãe e Maria de Alfeu, volta para fora do povoado, indo depois para o redil que fica na extremidade de uma estrada, que termina nos campos…
248.12… Uma grande fogueira foi acesa para iluminar a reunião. Sentados em semicírculos nos campos, muitos estão esperando que Jesus chegue para falar. Enquanto isso, eles estão conversando sobre os acontecimentos do dia.
Está presente também Abel, com o qual muitos se congratulam, dizendo que todos acreditavam em sua inocência.
– Mas estáveis prontos para matar-me! Até tu, que me havias saudado na porta de casa, justamente na hora em que estava sendo morto Joel –o jovenzinho não pôde conter-se sem responder.
E acrescenta:
– Mas eu perdôo em nome de Jesus.
Eis que Jesus vem vindo do redil, na direção deles. Alto, vestido de branco, rodeado pelos apóstolos, acompanhado pelos pastores e pelas mulheres.
– A paz esteja com todos vós.
Se ter vindo foi bom para instaurar o Reino de Deus entre vós, então bendito seja o Senhor. Se ter chegado em tempo para impedir um delito serve também para dar a três culpados o modo de se redimirem, bendito seja o Senhor. Agora, entre todas as muitas coisas em que este dia nos leva a meditar, e que vamos meditar, enquanto a noite vai descendo e enfaixando em suas trevas a alegria de dois corações e o remorso de outros três — e em suas trevas esconde, como um véu pudico, as lágrimas alegres dos primeiros e as ardentes dos outros, mas que Deus está vendo — há também a que nos ensina como de tudo o que Deus nos deu como Lei nada é inútil.
248.13A lei dada por Deus, de nome é muito observada em Israel. Mas na realidade não o é. A lei está lá, analisada, esviscerada, esmiuçada, até fazê-la morrer, torturada por pequenas sutilezas. Ela lá está. Mas, assim como um cadáver mumificado não tem vida, respiração, circulação do sangue, ainda que tenha a aparência de alguém que está imobilizado pelo sono, assim a Lei não tem vida, nem respiração, nem sangue em muitos, muitos, muitos corações. Em uma múmia, sentamo-nos como em um escabelo. Sobre uma múmia podem apoiar-se objetos, vestes e também sujeiras, certos de que ela não se revolta porque está morta. Assim muitos fazem da Lei um escabelo, um apoio, um desencargo para suas sujeiras, certos de que ela não se revolta nas suas consciências, porque para eles ela está morta.
Eu poderia comparar uma grande parte de Israel às florestas petrificadas, que se veem espalhadas pelo vale do Nilo e no deserto do Egito. Eram bosques e mais bosques de plantas vivas, nutridas de linfa, sussurrando ao sol, belas de copas, de flores, de frutos. Faziam dos pontos onde surgiam, pequenos paraísos terrestres, queridos pelo homens e pelos animais, que esqueciam da aridez desolada do deserto, a sede ardente, que as areias produzem no homem, penetrando-lhe até às faces com seu pó quente. Esqueciam-se então do sol desapiedado que calcifica os cadáveres em pouco tempo, descarnando-os, consumindo em pó as carnes e deixando estendidos por entre as camadas de areia esqueletos e mais esqueletos, polidos, como por um atento operário. Esqueciam tudo nesta sombra verde, sussurrante, rica de águas e de frutos que restauravam, consolavam, davam audácia para novos percursos.
Depois, por uma ignorada causa, como coisas malditas, foram não só secando, como fazem as plantas que, tendo morrido, servem ainda para fazer fogo nas lareiras do homem, ou fogueiras para alumiar a noite, para conservar longe as feras e diminuir a umidade da noite para os peregrinos que vêm de povoados distantes. Mas estas aqui não serviram como lenha. Viraram pedra. Pedra. A sílica do solo parece ter subido, por algum sortilégio, das raízes para o tronco, para os ramos, para a copa. os ventos quebraram depois os pequenos galhos, mais fraquinhos, que se tornaram semelhantes ao alabastro, que é duro e mole ao mesmo tempo. Mas os galhos mais robustos lá estão sobre seus troncos poderosos, para enganar as caravanas cansadas que, no reflexo deslumbrante do sol, ou à luz espectral da lua, veem perfilar-se às sombras dos troncos em pé sobre seus planaltos, ou no fundo dos vales que só conhecem água no tempo das grandes cheias, e que, por necessidade de um refúgio, de tomar alimento, de um poço, de frutas frescas e, pelo cansaço dos olhos ofuscados pelo sol nos areais sem abrigo, precipitam-se rumo às florestas fantasmas. Verdadeiros fantasmas! Ilusórias aparências de corpos vivos! Reais presenças de coisas mortas.
Eu as vi. Ficaram impressas em Mim, ainda que eu fosse pouco mais do que uma criança, como uma das coisas mais tristes da terra. Assim me haviam parecido, enquanto Eu não toquei, não medi, não pesei as coisas totalmente tristes da Terra, porque são coisas completamente mortas, as coisas imateriais, ou seja, as virtudes e as almas mortas. Mortas as primeiras nas almas, mortas as almas porque se mataram.
248.14A Lei está em Israel. Mas está ali como as plantas petrificadas estão no deserto: tornaram-se sílica. Morte. Objeto de engano. Objeto destinado à corroer-se sem servir. Antes prejudicando, porque criando miragens que seduzem, afastando dos verdadeiros oásis, fazendo morrer de sede, de fome, de desolação, atraindo-os para a morte. Morte que atrai outros para a morte, como se lê em certas fábulas dos mitos pagãos.
Vós hoje tendes um exemplo do que é uma Lei reduzida a pedra, em uma alma também reduzida a pedra. É pecado de toda espécie, e criador de desventura. Que isto vos sirva para aprenderdes a viver e para fazerdes viver a Lei em vós, na sua integridade, que Eu ilumino com luzes de misericórdia.
A noite já vai alta. As estrelas estão olhando para nós e, com elas, Deus. Levantai o olhar para o céu estrelado, e elevai o espírito para Deus. E, sem críticas para com os infelizes, já punidos por Deus, e sem orgulho por estardes sem o pecado deles, prometei a Deus e a vós mesmos não cair na aridez das plantas malditas dos desertos e dos vales do Egito.
A paz esteja convosco.
Ele os abençoa, e depois se retira para o amplo recinto do redil, rodeado pelos rústicos pórticos, sob os quais os pastores estenderam muito feno para servir de cama para os servos do Senhor.
1 a poeira etc. são os elementos para realizar o julgamento de Deus prescrito em Números 5,11-31.
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