301. 301. Parábola das frontes destronadase explicação da parábola sobre a impureza.
13 de outubro de 1945.
301.1 Jesus não volta para outro lugar, mas para Endor. Ele pára na primeira casa do povoado e que é mais um aprisco do que uma casa. Mas, justamente por ser assim, com estábulos baixos, fechados, cheios de feno, é que ele pode abrigar os treze peregrinos. O dono dela, um homem rústico mas bom, se apressa em arranjar uma candeia e um baldezinho de leite espumoso, além de uns pães de forma muitos escuros. Depois, ele se retira, sendo abençoado por Jesus, que fica sozinho com os seus doze.
Jesus oferece e distribui o pão e, na falta de tigelas ou cálices, cada um ensopa suas fatias de pão no baldezinho e bebe, quando está com sede, diretamente do mesmo. Jesus bebe somente um pouco de leite. 301.2Ele está sério e silencioso… E a tal ponto que, tendo terminado a refeição e matado a fome, que nos apóstolos não falta nunca, eles acabam percebendo o mutismo dele.
André é o primeiro a perguntar:
– Que tens, Mestre? Pareces-me triste ou cansado…
– Não digo que não.
– Por quê? Por causa daqueles fariseus? Mas já devias ter-te acostumado com eles… Quase que eu já me acostumei, eu que… deixa para lá! Tu sabes como eu era nas primeiras vezes que eu tratava com eles. Eles cantam sempre aquela sua canção!… As serpentes não sabem senão sibilar, na verdade, e nunca nenhuma delas será capaz de imitar o canto do rouxinol. A gente acaba não fazendo mais caso deles –diz Pedro, um pouco por convicção, e um pouco para tranqüilizar a Jesus.
– E é desse modo que se perde o controle, e se cai em uma de suas armadilhas. Eu vos peço que não vos acostumeis nunca a ouvir as vozes do Mal, como se fossem umas vozes inofensivas.
– Oh! Está bem! Mas, se é só por isso que estás triste, fazes mal. Tu estás vendo como o mundo te ama –diz Mateus.
– Mas, será só por isso que estás triste assim? Dize-o a mim, bom Mestre. Ou será que te contaram mentiras ou insinuaram calúnia, suspeitas, que sei eu? Até a respeito de nós que te amamos –pergunta solícito e carinhoso, Iscariotes, abraçando com um braço a Jesus, que está sentado no feno, ao lado dele.
301.3Jesus vira o rosto para o lado de Judas. Seus olhos têm um brilho fosforescente, à luz trêmula da candeia, colocada acima do chão, no meio do círculo formado pelos que estão sentados em cima do feno, posta sobre uma cadeira baixa e redonda. Jesus olha bem fixamente para Judas de Keriot e, ao olhar para ele, lhe pergunta:
– E tu achas que eu sou tão tolo para aceitar as insinuações, sejam elas de quem forem, a ponto de perturbar-me com elas? São as realidades, Judas de Simão, o que me perturba –e o olhar de Jesus não deixa, nem por um instante, de se cravar, direto como um estilete, na pupila morena de Judas.
– Então, quais as realidades que te perturbam? –insiste seguro Iscariotes.
– Aquelas que Eu vejo no fundo dos corações, e que Eu leio nas frontes destronadas.
Jesus dá um forte destaque a esta palavra. Todos ficam alvoroçados:
– Destronadas? Por quê? Que queres dizer?
– Um rei é destronado, quando é indigno de ficar no trono, e a primeira coisa que lhe é tirada é a coroa, que está em sua fronte, sendo aí o lugar mais nobre do homem, o único animal que tem a fronte levantada para o céu, pois ele é animal em sua parte material, mas sobrenatural por ser dotado de uma alma. Mas, não é necessário que se seja rei sobre um trono terreno, para que se deva ser destronado. Todo homem é rei por sua alma e o trono dele é no Céu. Mas, quando um homem prostitui a sua alma, e se torna um animal, então ele se destrona. O mundo está cheio de frontes destronadas, que não estão mais levantadas para o Céu, mas inclinadas para o Abismo, e tornadas mais pesadas, por causa da palavra que Satanás esculpiu nelas. Quereis saber qual é? É a que eu leio sobre as frontes. Nelas está escrito: “Vendido!” E, para que não tenhais dúvidas sobre quem é o comprador, Eu vos digo que é Satanás, por si mesmo ou os seus trabalhadores que estão no mundo.
– Eu compreendo! Aqueles fariseus, por exemplo, são empregados de um outro empregado maior do que eles, o qual é empregado de Satanás! –diz convicto Pedro.
Jesus não contesta nada.
301.4 – Mas… Sabe, Mestre, que aqueles fariseus, depois de terem ouvido aquelas tuas palavras, saíram de lá escandalizados? Quando iam saindo, deram de encontro comigo, e o diziam. Foste muito áspero –observa Bartolomeu.
E Jesus replica:
– Mas muito mesmo. Não é culpa minha, mas deles, se certas coisasdevem ser ditas. E é ainda uma caridade minha dizê-las. Toda planta, não plantada por meu Pai celeste, vai ser arrancada. Pois é planta não plantada por Ele, inútil carcaçacheia de ervas parasitas que sufocam as outras, que as oprimem, espinhosas, querendo abafar a semente da Verdade Santa. É uma caridade extirpar essas tradições e preceitos, que sufocam o Decálogo e o desfiguram, e o tornam inerte e impossível de ser observado. Para as almas honestas é uma caridade fazê-lo. E, quanto àqueles teimosos cabeçudos, fechados a toda ação e conselho do Amor, deixai-os fazer… e sejam seguidos por aqueles que são, por seu espírito e suas tendências, semelhantes a eles. São cegos que guiam outros cegos. Se um cego guia outro cego, só poderão cair os dois no mesmo buraco. Deixai-os, que se nutram de suas contaminações, às quais dão o nome de “pureza.” Elas não os podem mais contaminar, porque não fazem mais do que deitar-se na matriz, de onde provêm.
301.5 – Isto que agora estás dizendo é a continuação de tudo o que disseste na casa do Daniel, não é mesmo? Que não é o que entra no homem o que o contamina, mas sim o que sai dele –pergunta, pensativo, Simão Zelotes.
– Sim –diz brevemente Jesus.
Pedro, depois de alguns momentos de silêncio, — pois a seriedade de Jesus enregela até os caracteres mais expansivos —, pergunta:
– Mestre, eu, e não eu somente, não compreendi bem a parábola. Explica-a um pouco para nós. Como é que o que entra não contamina, e o que sai é que contamina? Eu, se pego uma ânfora limpa, e a encho com água suja, a contamino. Portanto, o que entra na ânfora a contamina. Mas, se uma ânfora cheia de água limpa, eu derramar daquela água no chão, eu não contamino a ânfora, porque da ânfora sai água pura. E, então?
301.6 E Jesus:
– Nós não somos ânforas, Simão. Não somos ânforas, amigos. E nem tudo é puro no homem! Mas, será que vós também já estais sem inteligência? Refleti no caso que os fariseus apresentavam para vos acusar. Eles diziam que vós vos contamináveis, porque leváveis alimento à boca com mãos empoeiradas, suadas, sujas, afinal. Mas, aquele alimento para onde ia? Passava da boca para o estômago, e deste para o ventre, e do ventre para a cloaca, depois de ter cumprido o seu ofício, que é o de nutrir a carne, somente ela, e indo acabar, como é justo que acabe, em um esgoto. Não é isso que contamina o homem!
O que contamina o homem é aquilo que é dele, unicamente dele, gerado e parido pelo eu dele. Quer dizer, aquilo que ele tem em seu coração, e que do coração sai para os lábios e para a cabeça, e vai corrompendo o pensamento e a palavra, e contaminando o homem todo. É do coração que vêm os maus pensamentos, os homicídios, os adultérios, as fornicações, os furtos, os falsos testemunhos e as blasfêmias. É do coração que vêm as avarezas, as libidinagens, as soberbas, as invejas, as iras, os apetites imoderados, os ócios pecaminosos. É do coração que vêm os estímulos para todas as ações. E se o coração é mau, elas serão más como o coração. Todas as ações: desde as idolatrias até as murmurações não sinceras… Todas estas coisas más, que procedem do interior para o exterior, contaminam o homem, mas não o comer sem lavar as mãos. A ciência de Deus não é uma coisa vulgar, uma lama pisada por todos os pés. Mas é uma coisa sublime, que vive nas plagas estelares e que de lá desce com raios de luz, para dar aos justos informações sobre si. Não queirais, pelo menos vós, arrancá-la dos céus, para aviltá-la na lama…
Ide descansar agora. Eu saio para ir rezar.