512. 512. Profecia diante de um povoado destruído.
12 de outubro de 1946.
512.1Não sei em que lugar Jesus está. Certamente estará entre os montes em um lugar abandonado após ter sido destruído, ou por algum cataclisma ou por operação de guerra. Eu diria que foi por esta última, porque as ruínas das casas mostram até os sinais do fogo nos arcos que ficaram protegidos pela água, e ainda visíveis pelo meio do emaranhado das sarças, das heras e de outras plantas trepadeiras ou parasitárias, nascidas por toda parte. As largas folhas peludas de uma planta, cujo nome eu não sei, mas que eu já vi até na Itália, cobrem uma completa ruína, que parece um pequeno monte alcantilado. Mais para lá, um muro ficou de pé, e sozinho, como a contemplar os restos da casa que caiu e está invadido pelas alcaparras, pela parietária e pelo parapeito perfurado daquilo que foi um terraço está pendurada uma clematite balançando ao vento os seus ramos, como uma cabeleira solta. Uma outra casa desmoronada no centro, mas com as paredes externas ainda de pé, parece um enorme vaso de flores que, em vez de pedúnculos, tem árvores nascidas espontaneamente na cavidade, onde antes eram os quartos. Mais uma outra ficou, em parte, de pé, em degraus
, e parece um altar preparado para algum rito e todo enfeitado de verde. Para cima da ruína, levanta-se um choupo, fino e reto como uma lâmina, e parece estar perguntando ao céu qual o motivo de tão grande desgraça. E entre uma casa e outra, entre uns escombros e outros, algumas plantas teimosas, de frutos asselvajados, dominadas pelas outras vegetações, ou, então, dominando-as, tendo estas últimas nascido de frutos que caíram, todas, ou contorcidas ou eretas, rasteiras, saindo de algum buraco nas paredes, ou de algum poço seco, e mais parecem um bosque encantado. Passarinhos e pombos, que saem das fendas que estão por entre as ruínas, lançam-se, ávidos, por sobre os arredores, onde, tempos atrás, havia campos arados, e onde agora só há um emaranhado de ervilhaças duras, ressequidas pelo sol, e que abrem suas vagens para deixar cair as sementes e depois tornarem a nascer na primavera, com as cizânias e os joios. Os pombos, com ferozes golpes de asas, afastam os passarinhos menores, que estão procurando algum grãozinho de painço ou de cânhamo, que provieram talvez de alguma semente de longe, que ao longo de anos e anos continuou crescendo sobre os campos incultos, por meio de uma semeadura espontânea; e os passarinhos a reivindicam, principalmente os pardais briguentos, arrancando as magras espigas do painço que conseguiram, para as levarem embora para os seus ninhos, voando com dificuldade, tanto por causa do peso como pelo estorvo que lhes causa a incômoda carga.
512.2Jesus não tem consigo somente os apóstolos, mas também um bom grupo de discípulos, entre os quais estão Cléofas e Hermes de Emaús, filhos do velho sinagogo Cléofas, e Estevão. E há também homens e mulheres. Como se tivessem vindo de qualquer lugar para convidar Jesus para ir às terras deles, ou então, outros que o tivessem acompanhado, depois que Ele esteve em suas terras. E Jesus, atravessando o lugar arruinado, para frequentemente para observar, e para bastante, quando, de um ponto mais alto, Ele pode estar acima daquele emaranhado de entulhos e de vegetais no qual a vida animal é representada apenas pelos pombos, que certamente já foram mansos e domesticados e agora são selvagens e ferozes. Ele contempla, com os braços cruzados sobre o peito e com a cabeça um pouco inclinada, e quanto mais olha mais pálido e triste se torna.
– Por que ficas aqui, Mestre? Este lugar te causa aflição, como estamos vendo. Eu me arrependo de ter-te feito passar por aqui, porque é um caminho muito mais curto –diz Cléofas de Emaús.
– Oh! Não vejo aquilo que vós vedes!
– E o que vês, Senhor? Talvez revejas algum evento passado? Certamente foi amedrontador. É esse o sistema de Roma… –diz o outro de Emaús.
– E isto devia fazer refletir. 512.3Vede, todos vós. Aqui foi uma cidade, não muito grande, mas bonita. Era composta mais de casas senhoris do que de casas humildes. E eram de ricos estes campos esterilizados, agora cobertos de sarças, de joio, de urtigas… Antes havia belos pomares e campos cheios de messe. E as casas de então eram bonitas, com jardins cheios de flores, com poços e fontes, onde se banhavam os pombos, e os meninos brincavam. Eram felizes todos os habitantes deste lugar, mas a felicidade não os fez ficar justos. Eles se esqueceram do Senhor e de suas palavras… E eis o que aconteceu. Não há mais casas, não mais flores, nem fontes, nem messes, nem frutas. Só ficaram os pombos, e não mais felizes como naquele tempo, pois, em lugar do trigo louro e do cominho, dos quais eles eram gulosos e com que se saciavam, agora eles têm que lutar para conseguirem um pouco de ervilhas ásperas e de joios amargos. E é uma festa quando ainda encontram uma espiga de cevada, nascida por entre os espinhos!…
E, olhando, não vejo mais nem mesmo os pombos… Mas rostos e mais rostos… Dos quais muitos ainda não nasceram… e vejo ruínas e mais ruínas, e sarças e lambrusca e ervilhaças selvagens, que cobrem as terras da Pátria… E tudo isso porque não se quis acolher ao Senhor. Ouço choros de meninos definhados, mais infelizes do que estes passarinhos, para os quais Deus provê ainda com um mínimo de ajuda, para viverem, enquanto que os pequeninos ficarão privados de toda ajuda, feridos pelo castigo geral, enfraquecidos junto aos peitos enxutos das mães, que estão morrendo de inanição, de dor e de um espanto sem nome. E ouço os lamentos das mães por seus filhos, que estão morrendo de fome, agarrados aos seus seios. E os lamentos das esposas sem esposo, das virgens capturadas para darem prazer aos vencedores, dos homens amarrados com correntes, depois de terem passado por todas as humilhações da guerra, e de velhos que viveram até verem cumprida a profecia1 de Daniel.
E ouço a voz incansável de Isaías, ao sopro deste vento sobre as ruínas, nos queixumes dos pombos por entre os escombros: “Em palavras bárbaras, em uma língua estrangeira, falará o Senhor a este povo, ao qual Ele disse: ‘Aqui é o meu repouso. Restaurai o cansado. Este é o meu refrigério’.” Mas eles não quiseram escutar. Não. Não quiseram, e o Senhor não pôde achar repouso no meio de seu povo. O cansado, que se cansou percorrendo as suas regiões e ensinando, curando, convertendo e confortando, não acha restauração, mas perseguição. Não refrigério, mas ciladas e traições. O Pai e o Filho formam uma unidade. E se a Verdade vos ensinou2 que até um copo d’água dado a um homem terá recompensa, porque todo ato de misericórdia feito ao irmão é feito ao próprio Deus, que castigo não será, então, para aqueles que brigam até pela pedra do caminho, usada como travesseiro pelo Filho do Homem, e a fonte da montanha, que jorra por bondade do Criador, e o fruto que ficou esquecido no ramo, lá deixado, porque estava doente ou verde, a espiga disputada aos pombos, e já estão com o laço pronto para fechar a respiração na garganta; e, com a respiração, a vida?
512.4Oh! Infeliz Israel, que em ti perdeste a Justiça e que perdeste a misericórdia de Deus!
Eis, eis de novo a voz de Isaías no vento da tarde, mais tremenda do que o grito do pássaro da morte, tremenda, quase como aquela que soou no Paraíso Terrestre para condenação dos dois culpados, e — Oh! Que coisa horrível! — e não está unida esta voz do Profeta à promessa de um perdão, como naquele tempo! Não. Não há perdão para os escarnecedores de Deus, para aqueles que dizem: “Nós fizemos aliança com a Morte, fizemos um pacto firme com o Inferno. Os flagelos, quando vierem, não virão sobre nós, porque nós pusemos nossas esperanças na Mentira e por ela, que é poderosa, estamos protegidos.”
Eis Isaías, repetindo o que ouvira do Senhor: “Eis que eu, como fundamento de Sião, porei uma pedra angular, escolhida, preciosa… E farei julgamento quanto ao peso e a justiça, quanto à medida, e o granizo destruirá a esperança na Mentira, e as águas destruirão os diques, e vossa aliança será destruída pela Morte, e não existirá mais o vosso pacto com o Inferno. Quando passar, o tempestuoso flagelo vos matará, e vos matará cada vez que passar, a cada hora, e somente o castigo vos fará aprender a lição.”
Infeliz Israel! Assim como estes campos, nos quais persistem somente as áridas ervilhaças e o amargo joio, não há mais trigo, assim será em Israel; e a terra, que não quis o senhor, não terá pão para os seus filhos, e os filhos que não quiseram acolher os cansados, os feridos, escravizados como os galeotes aos remos, súditos daqueles que eles desprezavam como inferiores, irão embora. Deus triturará verdadeiramente o povo soberbo sob o peso de sua justiça e o despedaçará com a máquina de seu julgamento…
Eis o que Eu estou vendo nestas ruínas. Ruínas e mais ruínas. Ao norte, ao sul, a leste e a oeste, e sobretudo no centro, no coração, onde a cidade culpada será transformada em uma fossa fétida…
E lentas vão descendo as lágrimas sobre o rosto pálido de Jesus, que levanta o seu manto para enxugá-lo, deixando descobertos somente os olhos, que estão dilatados pela horrível visão.
E Ele recomeça a andar, enquanto os que estão com Ele cochicham, gelados pelo espanto.
1 profecia, que está em Daniel 9; voz, retomada em três distintas citações de Isaías 28,11-12.15.16-19. As referidas passagens poderiam também se referir as imprecisas profecias que se indicam em 333.2 e a condenação de Deus proposta nas últimas linhas de 344.6. Do futuro de Israel se fala explicitamente aqui (“assim será Israel” diz Jesus mais abaixo) e em 41.7 - 252.10 - 258.5 - 265.10 - 413.2 - 447.3 - 456.2 - 507.6 - 513.3/5 - 525.12/14 - 579.8 últimas linhas - 580.4/5 - 596.44 últimas linhas - 611.11 - 630.6 (referente ao Templo) - 635.11.
2 ensinou, em 265.13.
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