351. 351. O tributo do Templo pagocom a moeda na boca do peixe.
5 de dezembro de 1945.
351.1 As duas barcas que eles tomaram para voltarem a Cafarnaum vão deslizando por sobre um lago que ninguém vira antes tão calmo, um verdadeiro lajedo de cristal da cor do céu, que se recompõe rapidamente em sua superfície lisa logo que acabam de passar as duas barcas. Não são as barcas de Pedro e Tiago, mas são duas outras, que talvez tenham sido alugadas em Tiberíades. E ouço dizer que Judas está se queixando um pouco por ter ficado quase sem dinheiro, depois que foi feita essa despesa.
– Nos outros se pensou. E em nós? Como faremos agora? Eu esperava que Cusa… mas, nada. Estamos nas condições de um mendigo, um dos muitos que vão ficar nas estradas pedindo esmola aos peregrinos –resmunga ele em voz baixa para Tomé.
Mas este, com grande tranqüilidade, responde:
– Que tem isso? Eu não me preocupo nem um pouco.
– Mais esta! Mas, na hora da comida, és tu quem quer comer mais do que os outros.
– É claro. Eu tenho fome. Sou bom até para comer. Pois bem. Hoje, em vez de ficar pedindo pão e comida a quem os dá, eu vou pedir diretamente a Deus.
– Hoje! Hoje! Mas, amanhã estaremos outra vez nas mesmas condições e, depois de amanhã, o mesmo de novo. E estamos indo para a Decápole, onde somos desconhecidos, pois lá são todos meio pagãos. E não é só o pão que nos está faltando, mas também nossas sandálias, que já estão gastas e os pobres que te aborrecem, e poderíamos começar a sentir-nos mal e…
– E, se continuas por aí afora, daqui a pouco me farás morrer e terás que pensar no meu enterro. Oh! Quantos pensamentos! Eu… Não penso em nada. Estou alegre, tranqüilo, como alguém que acabou de nascer.
Jesus, que parecia estar absorto em seus pensamentos, está sentado à proa, quase perto da beira, e se vira para dizer em voz alta a Judas, que está lá na popa, mas Ele o diz como se estivesse falando a todos:
– Que nós estejamos sem uns trocados é muito bom. Assim irá brilhar a paternidade de Deus até nas coisas mais humildes.
– Para Ti, há uns poucos dias que tudo vai bem. É um bem que não haja milagres. É um bem que não tenhamos ofertas. É um bem ter dado tudo o que nós tínhamos, afinal tudo é bem… Mas eu me sinto muito em falta… Tu és um Mestre querido, um santo Mestre, mas quando se trata das coisas materiais para a vida… não vales nada –diz sem azedume Judas, como se estivesse fazendo uma observação a algum irmão bom que, de sua própria bondade despreocupada, ainda se gloria.
E Jesus, sorrindo, lhe responde:
– É o meu melhor valor ser um homem que não valho nada para a vida material… E repito: é muito bom estar sem uns trocados –e sorri de um modo muito significativo.
351.2 A barca se arrasta sobre a areia e pára. Já vão descendo dela, enquanto a outra barca também se aproxima, a fim de parar ali. Jesus, com Judas, Tomé, Judas e Tiago, Filipe e Bartolomeu, já se vai dirigindo para casa…
Pedro desembarca da segunda com Mateus, os filhos de Zebedeu, Simão Zelotes e André. Mas, enquanto todos se põem a caminho, Pedro fica na margem a conversar com os barqueiros que os transportaram e que talvez sejam seus conhecidos, e depois os ajuda a se prepararem para a volta. Em seguida, ele põe sua veste longa, sobe de novo pelo declive da praia a fim de ir para casa.
351.3 E enquanto ele vai atravessando a praça da feira, vêm dois ao encontro dele e o fazem parar, para dizer-lhe:
– Escuta, Simão de Jonas.
– Estou escutando. Que quereis?
– O teu Mestre, só porque é mestre, paga ou não paga as duas dracmas devidas ao Templo?
– Certamente que paga. Por que não o haveria de fazer?
– Ora… porque Ele se diz o Filho de Deus e…
– E porque o é –retruca em breves palavras Pedro, que já está vermelho pela irritação–. Mas, como Ele é um filho da Lei, e o melhor dos filhos que a Lei pode ter, Ele paga, como todo israelita, as suas dracmas…
– Não consta. Disseram-nos que Ele não o faz, e nós o aconselhamos a fazê-lo.
– Hum! –muge Pedro, que está com sua paciência prestes a esgotar-se–. Hum! Meu Mestre não precisa dos vossos conselhos. Ide em paz, ide dizer a quem vos mandou que as dracmas serão pagas na primeira ocasião.
– Pagais na primeira ocasião!… E por que não pagais logo? Quem nos garante que Ele o fará, se Ele está sempre para lá e para cá, sem rumo certo?
– Não paga logo porque neste momento não tem dinheiro algum. Poderíeis virá-lo de cabeça para baixo, que não cairia nem uma moedinha. Estamos todos sem dinheiro porque nós, que não somos fariseus, que não somos escribas, que não somos saduceus, que não somos ricos, que não somos espiões, que não somos umas áspides, temos o costume de dar o que temos aos pobres, conforme a doutrina dele. Compreendestes? E agora, por exemplo, acabamos de dar tudo e, se o Altíssimo não pensar em nós, podemos morrer de fome, ou ir pedir esmolas em algum canto da praça. Ide dizer isto também aos que dizem ser Ele um beberrão. Adeus!
E os deixa no ar, indo-se dali, resmungando e fervendo de irritação.
351.4 Entra na casa e sobe para o quarto onde está Jesus, ouvindo a um que lhe está pedindo que vá a uma casa, que fica em um monte para lá de Magdala, onde alguém está à morte.
Jesus se despede do homem, prometendo-lhe ir logo, e depois, tendo ele partido, vira-se para Pedro, que se sentou, pensativo a um canto e lhe diz:
– Que me dizes Simão? Conforme as regras, os reis da terra, de quem recebem os tributos e impostos? É dos próprios filhos ou dos estranhos?
Pedro tem um sobressalto, e diz:
– Como sabes, Senhor, aquilo que eu te ia dizer?
Jesus sorri, fazendo um gesto, como para dizer: “Deixa para lá.” Depois diz:
– Responde ao que te perguntei.
– Dos estranhos, Senhor.
– Portanto, os filhos estão isentos deles, como, de fato, é justo. Porque um filho é do sangue e da casa do pai e não deve pagar ao pai outra coisa senão o tributo de amor e obediência. Por isso, Eu, Filho do Pai, não teria que pagar o tributo ao Templo, que é a casa do Pai. Tu respondeste bem a eles. Mas, visto que há uma diferença entre ti e eles, e é esta: tu crês que Eu sou o Filho de Deus e eles e os que os mandaram não o crêem. Então, para não escandalizá-los, Eu pagarei o tributo e logo, enquanto eles ainda estão aí na praça recebendo.
– E com que, se não temos nem uma moedinha? –pergunta Judas, que se aproxima com os outros–. Estás vendo como é necessário ter alguma coisa?
– Nós iremos pedir emprestado ao dono da casa –diz Filipe.
Jesus faz um sinal com a mão para que se calem, e diz:
– Simão de Jonas, vá à beira do mar e joga, o mais longe que puderes, uma linha de pescar munida de um anzol dos grandes. E, logo que o peixe abocanhar, puxa a linha para ti. Será um peixe grande. Na beira do mar, abre a boca dele e nela encontrarás a moeda de um estáter. Pega-a, vai no encalço daqueles dois, e paga-lhes por Mim e por ti. Depois, traze-nos o peixe. Nós o assaremos e Tomé nos fará a caridade, com um pouco de pão. Nós comeremos e, em seguida, iremos àquele que está para morrer. Tiago e André preparai as barcas, pois iremos com elas a Magdala, e voltaremos a pé, de tarde, para não estorvarmos a pesca de Zebedeu e do cunhado de Simão.
351.5 Pedro lá se vai e logo depois já o vemos na beira, subindo para uma pequena barca, que está pela metade sobre a água, e joga um cordel fino, munido de uma pedrinha ou chumbo perto da ponta e terminando numa cordinha mais fina que a linha verdadeira e propriamente dita. As águas do lago se abrem em borrifos de prata quando aquele peso bate e se afunda nelas. Depois tudo volta a ficar muito quieto, enquanto as águas se vão acalmando, depois de terem-se afastado daquele ponto em círculos concêntricos…
Pouco depois, a cordinha, que estava frouxa dentro das mãos de Pedro, de repente se estica e vibra… Pedro puxa, puxa, puxa, enquanto a cordinha vai recebendo sacudidas cada vez mais fortes. Por fim, ele dá um arranco e a cordinha vem toda para fora com a sua presa, que está dando pinotes no ar, fazendo um arco acima da cabeça do pescador e vindo cair sobre a areia amarelada, onde se contorce, pelo espasmo que lhe causa o anzol nela agarrado e que lhe rasga o palato, e pela asfixia que já começa.
É um peixe muito bonito, que tanto tem de grosso como de rombudo, pesando uns três quilos. Pedro lhe arranca o anzol dos beiços carnudos, enfia-lhe pela garganta o seu dedo grosso e de lá tira uma grande moeda de prata. Levanta-a entre o polegar e o indicador para mostrá-la ao Mestre, que está no parapeito do terraço. Depois, recolhe a cordinha e a enrola, apanha o peixe e sai correndo pela praça.
Os apóstolos estão todos assombrados… Jesus sorri e lhes diz:
– E assim teremos evitado um escândalo…
351.6 Pedro está de volta:
– Eles estavam para vir até aqui. E com Eli, o fariseu. Eu procurei ser gentil como uma moça para com eles e os chamei, dizendo: “Ó vós, os enviados pelo fisco! Tomai. Estas são quatro dracmas, não é? Duas pelo Mestre e duas por mim. E estamos quites, não é mesmo? Até a vis-ta, no vale de Josafá, especialmente contigo, meu caro amigo.” Eles ficaram ressentidos porque eu falei em “fisco.” “Nós somos do Templo, não do fisco.” “Vós cobrais taxas, como os arrecadadores. Todo arrecadador para mim é do ‘fisco’”, respondi eu. Mas Eli me disse: “Insolente! Tu me desejas a morte?” “Não, amigo! De modo nenhum! Eu te auguro uma feliz viagem até o vale de Josafá. Tu não vais pela Páscoa a Jerusalém? Então, poderemos encontra-nos por lá, amigo.” “Eu não desejo e não quero que tomes a liberdade de me chamar de teu amigo.” “De fato, é honra demais”, respondi eu. E vim-me embora. O bonito mesmo foi que lá estava a metade de Cafarnaum e me viu pagando por Ti e por mim. E aquela velha serpente não poderá dizer mais nada.
Os apóstolos todos devem ter rido do que Pedro contou e dos seus gestos. Jesus quer ficar sério. Mas um leve sorriso escapa de seus lábios enquanto ele diz:
– És pior do que a mostarda.
E termina:
– Assai o peixe e vamos logo. Ao pôr-do-sol Eu quero estar aqui novamente.