558. 558. Com a comitiva que retorna a Siquém.Parábola da gota que escava a rocha.
21 de janeiro de 1947.
558.1Jesus vai caminhando por uma estrada solitária. À frente dele vão os parentes dos meninos e, aos lados dele, os de Siquém. Estão em uma região deserta. Não há nenhuma cidade à vista. Os meninos foram colocados nas selas de alguns burrinhos e um dos parentes segura as rédeas, vigiando a criança. Os outros burrinhos, que estão sem cavaleiros, porque os de Siquém preferiram ir caminhando a pé a fim de poderem estar perto de Jesus, precedem o grupo dos homens, e vão andando em bando, zurrando de vez em quando pela alegria de estarem voltando para os estábulos sem estarem levando peso algum, e em um dia maravilhoso, por entre as beiradas cobertas com ervas novas, no meio das quais de vez em quando eles mergulham os focinhos a fim de apanharem uma bocada, e depois, com um choupo brincalhão, eles corcoveiam, aproximando-se de seus companheiros, que estão sendo cavalgados. E isso faz que os meninos riam.
Jesus fala com os siquemitas ou escuta o que eles estão falando. É evidente que os samaritanos estão orgulhosos por terem em seu meio o Mestre e estão sonhando mais do que convém. Chegam ao ponto de dizerem a Jesus, mostrando os altos montes que ficam à esquerda de quem está indo para o norte:
– Estás vendo? É feia a fama que tem o Rebal e o Garizim. Mas eles, pelo menos para Ti, são muito melhores do que Sião. E o seriam totalmente se Tu o quisesses, escolhendo-os para tua morada. Sião é sempre um esconderijo para os Jebuseus. E os de agora são para ti ainda mais inimigos do que os antigos para Davi1. Ele, tendo feito uso da violência, tomou a cidadela. Mas Tu, que não usas violência, lá não reinarás. Nunca. Fica conosco, Senhor, e nós te honraremos.
Jesus lhes responde:
– Dizei-me: ter-me-íeis amado se, com violência, Eu vos tivesse querido conquistar?
– Na verdade… não. Nós te amamos justamente porque és todo amor.
– Por isso, então, pelo amor, Eu reino em vossos corações?
– Assim é, Mestre. Mas é porque nós acolhemos o teu amor. Eles, os de Jerusalém, não te amam.
– É verdade. Eles não me amam. 558.2Mas vós, que tendes todos muita experiência no comércio dizei-me: quando quereis vender, adquirir ou ganhar, será que ficais desanimados porque em certos lugares não vos amam, ou fazeis tranquilamente o que tendes que fazer, preocupando-vos somente em fazer boas compras e boas vendas, sem ficardes preocupados em pensar se o dinheiro que ganhais é um dinheiro sem amor por parte daqueles de quem comprastes ou a quem vendestes?
– É só com o negócio que nos preocupamos. Pouco nos importa se para isso falta o amor daquele com quem negociamos. E, terminado o negócio, termina também o nosso relacionamento. Fizemos um bom negócio… e o resto não tem valor.
– Pois bem. Eu também, que vim para tratar dos negócios de meu Pai, só devo preocupar-me com isso. Agora, se lá onde Eu trato deles, que Eu encontre amor ou desprezo, ou aspereza, isso não me preocupa. Em uma cidade comercial não é com todos que se obtêm ganhos, e se fazem boas compras e boas vendas. Mas, mesmo quando só se faz um bom negócio com um bom ganho, dizemos que nossa viagem não foi inútil, e lá voltamos repetidas vezes. Porque o que se obtiver só com um na primeira vez, vai-se obter com três na segunda, com sete na quarta e com dez mais dez nas outras. Não é assim? Eu também, a fim de conquistar pessoas para o Céu, faço como vós em vossas feiras. Eu insisto, persevero, acho que já é bastante até o que é pequeno, no número, no tamanho, porque até uma só alma, se for salva, já é uma grande coisa e uma grande compensação para o meu cansaço. Cada vez que Eu vou lá e consigo vencer tudo aquilo que pode ser reações do Homem, desde que conquiste, como Rei do espírito, ainda que seja apenas um súdito. Não, Eu não digo que foi inútil a minha viagem, inúteis as minhas dores, inúteis os meus cansaços. Mas Eu digo que foram bons, amáveis e desejáveis os desprezos, as injúrias e acusações. E Eu não seria um bom conquistador, se parasse diante dos obstáculos e das fortalezas de granito.
– Mas seriam necessários muitos séculos para venceres tudo isso. Tu… és um homem. Não viverás muitos séculos. Por que ficas perdendo o teu tempo onde não te desejam?
– Eu viverei muito menos. Pelo contrário, daqui a pouco não estarei mais entre vós, não verei mais auroras e o pôr do sol, que são como marcos miliários de dias que surgem e de dias que já se foram, mas os contemplarei apenas como belezas da criação e louvarei por elas o Criador que as fez, e que é o meu Pai. Não verei mais florirem as plantas, nem amadurecerem as frutas, nem terei mais necessidade dos frutos da terra para conservar minha vida, porque, tendo voltado para o meu Reino, me nutrirei com o amor. E, no entanto, Eu abaterei essas muitas fortalezas fechadas, que são os corações dos homens.
558.3Observai aquela pedra ali, por baixo daquela nascente, do lado do monte. A nascente é muito fraca, parece até que não escorre, mas que somente pinga: é uma gota que cai, talvez há séculos, sobre aquela rocha que se lança para fora do lado da montanha. E a pedra é muito dura. Não é um calcário quebradiço, nem um macio alabastro, mas um basalto duríssimo. E, no entanto, olhai como no centro da rocha convexa, embora seja rocha, se tenha formado um pequenino espelho de água, não mais largo do que o cálice de um nenúfar, mas suficiente para refletir o céu azul e matar a sede dos passarinhos. Aquela convexidade do penhasco por acaso foi feita pelo homem, para fazer aparecer uma pedra preciosa no centro do penhasco escuro, ou uma taça de refresco para os passarinhos? Não. O homem não se ocupou com isso. Talvez nos muitos séculos em que os homens passaram pela frente deste penhasco, uma gota há séculos escava, com um sincopado, inexorável trabalho — e somos nós os primeiros que o observamos — esse basalto negro, com sua turquesa líquida no centro, e admiramos sua beleza, e louvamos o Eterno por tê-la querido para delícia dos nossos olhos e refrigério para os passarinhos que fazem seus ninhos aqui por perto.
Mas dizei-me uma coisa. Terá sido talvez a primeira gota, que brotou por baixo da grande cornija basáltica que está sobreposta ao penhasco, e que cai daquela altura sobre esta rocha, a que escavou a taça para refletir o céu, o sol, as nuvens e as estrelas? Não. Milhões e milhões de gotas, uma depois da outra se foram sucedendo, brotando lá de cima como uma lágrima e descendo com o seu brilho, para bater sobre o penhasco e, com uma nota de harpa, morrer sobre ele; arranharam, numa profundidade imensurável perante o seu nada, a matéria dura. E assim, durante séculos, com um movimento como o da areia em uma clepsidra marcando o tempo: tantas gotas por hora, tantas na duração de uma vigília, tantas entre a aurora e o pôr do sol, tantas durante o dia, tantas de um sábado até o outro, tantas de uma lua nova a outra, de um Nisã a outro, e de um século a outro. Resistente o penhasco, persistente a gota.
O homem, que é soberbo e por isso impaciente e ocioso, joga para um lado o macete e o formãodepois das primeiras batidas, dizendo: “Isso não se pode escavar.” Mas a gota escavou. E era isso que ela tinha que fazer. Para isso ela foi criada. E gemeu uma gota atrás da outra, durante séculos, até conseguir escavar o penhasco. E depois ela não ficou parada, dizendo: “Agora, que o céu se preocupe com o trabalho de encher a taça que eu escavei, com seus orvalhos e chuvas, com suas geadas e neves.” Mas continuou a cair, e ela sozinha enche a minúscula taça nos calores do verão, nos rigores do inverno, enquanto as chuvas, violentas ou mansas, enrugam o espelho, mas não podem nem embelezá-lo, nem alargá-lo, nem torná-lo mais fundo, mas ele já está cheio, é útil e belo. A nascente sabe que suas filhas, as gotas, vão morrer lá na pequena bacia, mas não as detém, e sim, as empurra para o seu sacrifício e, para que não fiquem sozinhas e tristes, manda-lhes novas irmãs, a fim de que quem morrer não deixe o lugar da morta desocupado, mas que seja ocupado por outras.
558.4Assim, Eu também, batendo uma primeira vez e depois cem ou mil vezes nas fortalezas duras dos duros corações, e perpetuando-me em meus sucessores, que Eu hei de enviar até o fim dos séculos, abrirei muitas passagens; e a minha Lei entrará como um sol em todos os lugares em que estiverem as criaturas. E se depois elas não quiserem a Luz, e fecharem as passagens que trabalhadores incansáveis tiverem aberto, Eu e meus sucessores não teremos culpa disso aos olhos do nosso Pai. Se aquela nascente procurasse ir para outro caminho, ao perceber a dureza do penhasco, e tivesse gotejado mais, lá onde o terreno é de ervas, dizei-me vós, será que teríamos tido aquela joia luminosa, e os passarinhos aquele limpo e cristalino alimento?
– Ela não seria nem vista, Mestre.
– Quando muito… um pouco de erva, mais viçosa até no verão, é que mostraria o lugar onde a nascente gotejava.
– Ou então… menos ervas do que em outros lugares, porque as raízes delas, pela contínua umidade, murchariam.
– E pela lama. Nada mais. Portanto, seria um gotejar inútil.
– Assim o dissestes. É um gotejar inútil e ocioso. Eu também, se tivesse que preferir unicamente os lugares onde os corações estão dispostos a acolher-me, por justiça ou por simpatia, Eu faria um trabalho imperfeito. Porque Eu trabalharia, isto sim, mas sem me cansar, aliás, com muita satisfação para o eu, com um compromisso complacente, entre o dever e o prazer. Não é pesado trabalhar onde o amor nos ordena e onde o amor torna dóceis as almas que hão de ser trabalhadas. Mas se não há cansaço, não há merecimento e não há muito ganho, porque poucas conquistas se fazem se nos limitarmos só àquelas que são justas. Eu não seria Eu, se não procurasse redimir, primeiro para a Verdade, e depois para a Graça, todos os homens.
558.5– E achas que o conseguirás? Que mais poderás fazer, além de tudo o que já fizeste, para persuadir os teus adversários a aceitar a tua palavra? Que mais? Se nem mesmo a ressurreição do homem de Betânia valeu para que os judeus dissessem que Tu és o Messias de Deus?
– Eu tenho ainda alguma coisa a fazer, uma coisa muito grande, muito maior do que as já feitas.
– Quando, Senhor?
– Quando a lua de Nisã estiver cheia. Portanto, prestai atenção.
– Haverá algum sinal no céu? Dizem que, quando Tu nasceste, o céu falou com luzes, cantos e estranhas estrelas.
– É verdade. Para dizer que a Luz havia chegado ao mundo. Então, pelo Nisã, haverá sinais no céu e na terra, e parecerá o fim do mundo, pelas trevas e pelo terremoto, pelo rugir dos trovões, pelos raios no firmamento e pelos tremores nas vísceras abertas da terra. Mas isso ainda não será o fim. Primeiro, na minha vinda, o Céu deu à luz para os homens o Salvador, e, visto que era um ato de Deus, a paz vinha acompanhando o acontecimento. No Nisã, será a terra que, por sua própria vontade, dará à luz, por si mesma, o Redentor. E como vai ser um ato de homem, não terá como companheira a paz. Mas haverá uma horrenda convulsão. E por entre os horrores da hora do século e do inferno, a terra terá rasgado o seu seio sob as flechas ardentes da ira divina, e gritará qual é a sua vontade ébria demais para compreender o alcance do acontecimento, e dominada por Satanás, para ser capaz de impedi-lo. Como uma parturiente louca, pensará em destruir o fruto considerado maldito, e não compreenderá que, ao contrário, o estará exaltando até alturas às quais a dor e as insídias nunca o conseguiriam elevar. A planta, a nova planta, desde então estenderá os seus ramos por toda a Terra, por todos os séculos e Este que vos fala, com amor ou com ódio, será reconhecido como verdadeiro Filho de Deus e Messias do Senhor. E ai daqueles que o reconhecerem sem quererem aceitá-lo, e sem se converterem a Mim.
558.6– Onde acontecerá isso, Senhor?
– Em Jerusalém. Esta é bem a cidade do Senhor.
– E nós não estaremos lá, porque no Nisã a Páscoa nos detém aqui. Nós somos fiéis ao nosso Templo.
– Melhor seria que fósseis fiéis ao Templo vivo, que não está sobre o Mória nem sobre o Garizim, mas, sendo divino, é universal. Mas Eu sei esperar a vossa hora, na qual amareis a Deus e ao seu Messias em espírito e verdade.
– Nós cremos que Tu és o Cristo. E por isso te amamos.
– Amar é deixar o passado para entrar no meu presente. Vós não me amais ainda com perfeição.
Os samaritanos olham um para o outro de soslaio, e se calam. Depois um deles diz:
– Por Ti, para irmos ficar contigo, nós o faríamos. Mas não podemos, ainda que o quiséssemos, entrar onde estão os judeus. Tu sabes disso. Eles não gostam de nós…
– Nem vós também gostais deles. Mas tende paz. Daqui a pouco, não haverá mais duas regiões, dois Templos, dois pensamentos opostos. Mas um único povo, um Único Templo, uma única fé para todos os que desejam a verdade. 558.7E agora Eu vos deixo. Os meninos já estão mais consolados e entretidos; e longo é para Mim o caminho de volta a Efraim, para chegarmos lá antes da escuridão. Não vos agiteis. Os vossos atos poderiam chamar a atenção dos pequenos, e não convém que eles percebam a minha partida. Prossegui. Eu paro aqui. O Senhor vos guie pelos caminhos da terra e pelos caminhos de sua Vida. Ide.
Jesus se aproxima do monte e deixa que eles se afastem. A última coisa que se percebe da caravana, que está de volta a Siquém, é a alegre risada de um menino, que se propaga, e é ouvida ao longo do caminho que vai para a montanha.
1 Davi ao tomar Jerusalém, fato narrado em: 2 Samuel 5,6-10; 1 Crônicas 11,4-9.
1
2