137. 137. Jesus volta a Águas Belas e encontro comos fariseus que agrediram e expulsaram a “velada”


15 de abril de 1945.

137.1Jesus, junto aos seus apóstolos, atravessa os campos planos de Águas Belas. O dia é chuvoso e o lugar deserto. Deve ser por volta do meio-dia, pois o sol, que de vez em quando sai como um fantasma por detrás da cortina cinzenta das nuvens, está mandando perpendicularmente os seus raios.

Jesus fala com Iscariotes e o encarrega de ir ao povoado fazer as compras mais urgentes.

Quando Jesus fica sozinho, o alcança André e, sempre tímido, lhe diz em voz baixa:

– Podes ouvir-me, Mestre?

– Sim. Vem Comigo, vamos para a frente –e alonga o passo, seguido pelo apóstolo, afastando-se alguns metros dos outros.

– A mulher não está mais aí, Mestre! –diz aflito o André.

E explica:

– Bateram nela e ela fugiu. Estava ferida e sangrando. O feitor a viu. Fui na frente, dizendo que ia ver se não havia alguma emboscada, mas era porque eu queria ir logo até ela. Esperava tanto levá-la à Luz! Rezei tanto neste dias para isso! Agora ela fugiu! Vai extraviar-se. Soubesse onde ela está, iria ao encontro dela… Não diria isto aos outros, mas a Ti, sim, porque me compreendes. Sabes que não há sensualidade nesta procura, mas só desejo — oh! tão grande, que se torna um tormento — de pôr a salvo uma minha irmã…

– Eu sei, André, e te digo que, mesmo assim como aconteceram as coisas, o teu desejo se cumprirá. Nunca fica perdida uma oração feita neste sentido. Deus quer servir-se dela e ela se salvará.

– Tu dizes isso? Oh! A minha dor se torna mais tolerável!

137.2 – Não gostarias de saber o que está havendo com ela? Não te importa nem mesmo saber se serás tu, ou não, quem a conduzirá a Mim? Não perguntas como fará?

Jesus sorri docemente, com um brilho de luz em suas pupilas azuis voltadas para o apóstolo, que vai caminhando a seu lado. É um daqueles sorrisos e daqueles olhares que constituem alguns dos segredos de Jesus para conquistar os corações.

André, com seus doces olhos castanhos, olha para Ele e diz:

– Basta-me saber que ela virá a Ti. Eu ou outro não faz diferença. Como fará? Isto Tu o sabes e eu não tenho necessidade de sabê-lo. Tenho a tua garantia e sou feliz.

Jesus lhe passa o braço por detrás dos ombros e o atrai para si, com um abraço afetuoso, que leva ao êxtase o bom André. E Jesus, segurando-o assim:

– Este é o dom do verdadeiro apóstolo. Vê, meu amigo, a tua vida e a dos futuros apóstolos será sempre assim. Algumas vezes ficareis sabendo que sois os “salvadores.” Mas, na maior parte das vezes, salvareis sem ficardes sabendo que salvastes as pessoas que mais quereríeis salvar. Só no Céu vereis virem ao vosso encontro, ou subirem para o Reino eterno, os vossos salvados. E o vosso júbilo de bem-aventurados aumentará, a cada um que for sendo salvo. Algumas vezes o sabereis, desde esta vida. São as alegrias que Eu vos dou, para infundir um vigor ainda maior para novas conquistas. Mas, feliz do sacerdote que não sente falta desses estímulos para cumprir o seu dever! Feliz daquele que não se abate, por não ver triunfos e diz: “Não vou fazer mais nada, porque não tenho satisfação.” A satisfação apostólica, tida como único incentivo para o trabalho, mostra não-formação apostólica, rebaixa o apostolado, coisa espiritual, ao nível de um trabalho humano comum. É necessário nunca cair na idolatria do ministério. Não sois vós os que devem ser adorados. Mas o Senhor vosso Deus. Só a Ele a glória pelos que se salvam. A vós competem os trabalhos para a salvação, deixando para o tempo do Céu a glória de terdes sido uns “salvadores.” 137.3Mas tu me disseste que o feitor a viu. Conta-me como foi”.

– Três dias depois de termos partido, chegaram uns fariseus para procurar-te. E é natural que não nos encontraram. Saíram pelos povoados e pelas casas do campo, mostrando-se ansiosos por te encontrar. Mas ninguém acreditava neles. Então eles foram colocar-se na estalagem, expulsando, com prepotência, todos aqueles que lá estavam, porque, diziam, não queriam contatos com estranhos desconhecidos, que podiam até profaná-los. E todos os dias iam à casa. Depois de alguns dias, encontraram a pobrezinha, que sempre ia lá, porque talvez esperava encontrar-te e ter a sua paz. Mas eles a fizeram fugir, perseguindo-a até o seu abrigo, na estrebaria do feitor. Não a agrediram logo, porque ele tinha chegado com os seus filhos e armados de paus. Mas, depois, ao anoitecer, quando ela saiu, eles voltaram e se ajuntaram a uns outros e, quando ela foi à fonte, surpreenderam-na com pedradas, chamando-a de “meretriz” e apontando-a como o opróbrio do povoado. E, como ela queria fugir, eles a alcançaram, e a maltrataram, arrancaram-lhe o véu e o manto, para que todos pudessem vê-la e ainda bateram nela, impondo-se com sua autoridade ao sinagogo para que a amaldiçoasse, a fim de poder ser apedrejada e amaldiçoasse a Ti, que a tinhas trazido para o povoado. Mas ele não quis fazer nada e agora espera a maldição do Sinédrio. O feitor a arrancou das mãos daqueles carrascos e a socorreu. Mas, durante a noite, ela foi-se embora, deixando uma pulseira com algumas palavras escritas num pedaço de pergaminho. Ela escreveu: “Obrigada. Reza por mim.” O feitor diz que ela é jovem e muito bonita, embora muito pálida e magra. Saiu procurando-a pelo campo, porque estava muito ferida. Mas não a encontrou. E não sabe como possa ter ido longe. Talvez tenha morrido, assim, em algum lugar… e não se tenha salvado…

– Não.

– Não? Não morreu? Ou não se perdeu?

– O desejo da redenção já é uma absolvição. Ainda que ela tivesse morrido, teria sido perdoada, porque procurou a Verdade, pondo o Erro sob seus pés. Mas não morreu. Está subindo as primeiras ladeiras do monte da redenção. Eu a estou vendo… Curvada sob seu pranto de arrependimento; mas o pranto a torna sempre mais forte, enquanto que o peso diminui. Eu a estou vendo. Procede rumo ao sol. Quando tiver subido toda a encosta, estará na glória do Sol-Deus. Vai subindo… Ajuda-a com a tua oração.

– Oh! Meu Senhor!

André fica quase aterrorizado por poder ajudar uma alma em sua santificação.

Jesus sorri mais docemente ainda. E diz:

– Vai ser preciso abrir os braços e o coração para o sinagogo, que está sendo perseguido e ir abençoar o bom feitor. Vamos aos nossos companheiros para dizer-lhes isto.

137.4 Mas enquanto, refazendo o caminho já feito, alcançam os dez, que tinham parado à distância compreendendo que André está em uma conversa secreta com o Mestre, chega correndo Iscariotes. Parece uma grande borboleta volitando sobre os prados, de tão velozmente que corre, com o manto esvoaçando atrás e fazendo com os braços os mais incríveis sinais.

– Mas, que é que ele tem? –pergunta Pedro–. Terá ficado louco?

Antes que alguém possa responder-lhe, Iscariotes, tendo chegado mais perto, pode gritar com a respiração entrecortada:

– Para, Mestre. Escuta-me, antes de ires à casa… Há uma emboscada. Oh! Que covardes!! –e corre.

Ei-lo junto a Jesus:

– Ó Mestre! Não se pode mais ir para lá! Os fariseus estão no povoado, e todos os dias vão à casa. Eles estão te esperando para te prejudicarem. Estão mandando embora os que vêm procurar-te. Com maldições horrendas os amedrontam. Que queres fazer? Aqui serias perseguido e a tua obra reduzida a nada… Um deles me viu e me agrediu. É um velho feio e narigudo, que me conhece, porque é um dos escribas do Templo. Porque há também uns escribas. Ele me agrediu, agarrando-me com suas mãos e unhas e insultando-me com sua voz de falcão. Enquanto insultou a mim e me arranhou, olha… (e mostra um pulso e uma das faces marcados com claros sinais de unhadas) eu o deixei fazer. Mas quando ele quis babar sobre Ti, eu o peguei pelo pescoço…

– Mas Judas! –grita Jesus.

– Não, Mestre. Eu não o estrangulei. Somente o impedi de blasfemar contra Ti e depois o deixei ir-se embora. Agora, ele está lá morrendo de medo pelo perigo por que passou… Mas nós vamos embora, é o que te peço. Mesmo porque ninguém mais poderia vir a Ti…

– Mestre!

– Mas é um horror!

– Judas tem razão.

– Eles estão de emboscada, como hienas!

– Fogo do céu que desceste sobre Sodoma, por que não voltas?

– Mas sabes que foste um bravo, rapaz? É pena que eu também não estava lá; eu te teria ajudado.

– Oh! Pedro! Se estivesses lá, tu também, aquele falcãozinho teria perdido as penas e a voz para sempre.

– Mas como fizeste para… para não chegar até o fim?

– Ah!! Foi uma luz que brilhou em minha mente, o pensamento que me veio, talvez do fundo do coração: “O Mestre condena a violência”, e então eu parei, sentindo com isso um choque ainda mais profundo do que aquele que tinha recebido da parede contra a qual me havia jogado o escriba, quando me agrediu. Fiquei com os nervos moídos… tanto que depois não mais teria tido força para enfurecer. Como cansa vencer a si mesmo!!

– És mesmo um bravo! Não é verdade, Mestre? Não dizes o que achas?

Pedro está tão feliz com o ato de Judas, que nem vê como Jesus mudou daquele rosto iluminado de antes, para um rosto severo, que lhe escurece o olhar e fecha-lhe a boca, que parece se torne mais fina.

Ele a abre para dizer:

– Eu digo que estou mais desgostoso com o vosso modo de pensar, do que com a conduta dos judeus. Eles são uns infelizes, no escuro. Vós, que estais com a Luz, sois duros, vingativos, murmuradores, violentos, aprovadores do ato brutal, como eles. Digo-vos que me estais dando a prova de serdes sempre aqueles que éreis, quando me vistes pela primeira vez. E fico sentido com isso. Quanto aos fariseus, ficai sabendo que Jesus Cristo não foge. Vós, retirai-vos. Eu os enfrento. Não sou um covarde. Quando tiver falado com eles e não os tiver convencido, me retirarei. Não se há de dizer que Eu não procurei, por todos os meios, atraí-los a Mim. Eles também são filhos de Abraão. Eu faço o meu dever até o fim. A condenação deles há de ser causada unicamente por sua má vontade e não por algum descuido de minha parte para com eles.

E Jesus vai em direção à casa, que mostra o seu telhado baixo, para lá de uma fileira de árvores despidas. Os apóstolos o seguem de cabeça baixa, falando baixo entre si.

137.5 Ei-los na casa. Em silêncio entram na cozinha. E põem-se a trabalhar ao redor do fogão. Jesus está absorto em seu pensamento.

Estão para começar a comer, quando um grupo de pessoas aparece à porta.

– Aí estão eles –cochicha Iscariotes.

Jesus se levanta logo e vai ao encontro deles. É tão majestoso, que o pequeno grupo recua um passo, por um instante. Mas a saudação de Jesus os tranquiliza:

– A paz esteja convosco. Que desejais?

Então os infames acham que podem atrever-se a tudo e arrogantemente o intimam:

– Em nome da Lei santa, te ordenamos que deixes este lugar. Tu, perturbador das consciências, violador da Lei, corruptor das tranquilas cidades de Judá. Não tens medo do castigo do Céu, Tu, arremedador do Justo que está batizando no Jordão, Tu, que proteges as meretrizes? Fora da terra santa de Judá! Que o teu hálito não passe para dentro dos muros da cidade santa.

– Eu não faço nada de mal. Ensino como rabi, curo como taumaturgo, expulso os demônios como exorcista. Estas categorias existem também em Judá. E Deus, que as quer, as faz respeitar e venerar por vós. Eu não peço veneração. Só peço que me deixem fazer o bem aos que estão enfermos na carne, na mente ou no espírito. Por que é que me proibis?

– Tu és um possesso. Sai daí.

– O insulto não é uma resposta. Eu vos perguntei por que me proibis, enquanto que a outros o permitis.

– Porque és um possuído, e expulsas os demônios e fazes milagres com a ajuda dos demônios.

– E os vossos exorcistas então? Com ajuda de quem o fazem?

– Com a sua vida santa. Tu és um pecador. E para aumentar o teu poder, ainda te serves das pecadoras porque, no conúbio se aumenta a posse da força diabólica. A nossa santidade purificou a zona da tua cúmplice. Mas não permitimos que Tu fiques aqui, para não ficares atraindo outras fêmeas.

– Mas esta casa é vossa? –pergunta Pedro, que se aproximou do Mestre, com um aspecto pouco recomendável.

– A casa não é nossa. Mas todo Judá e todo Israel está nas mãos santas dos puros de Israel.

– Que seríeis vós! –termina Iscariotes, que foi também para a saída e que termina com uma risada zombeteira.

Depois, pergunta:

– E o outro amigo vosso, onde está? Ainda está tremendo? Ó desavergonhados, ide-vos embora! E já. Senão eu vos farei arrepender de…

– Silêncio, Judas. E tu, Pedro, volta ao teu lugar. 137.6Ouvi, vós, ó fariseus e escribas. Para o vosso bem, por piedade da vossa alma. Eu vos peço que não combatais contra o Verbo de Deus. Vinde a Mim. Eu não vos odeio. Conheço a vossa mentalidade e me compadeço dela. Mas quero levar-vos a uma mentalidade nova, santa, capaz de santificar-vos e de dar-vos o Céu. Mas credes vós que Eu tenha vindo para combater-vos? Oh! Não! Eu vim para salvar-vos. Eu vim para isto. Eu vos tomo sobre o coração. Eu vos peço amor e entendimento. Justamente porque sois os mais sábios de Israel, deveis compreender, mais do que todos, a verdade. Sede alma e não corpo. Quereis que Eu vos suplique de joelhos? A aposta é tão grande — a vossa alma — que sob os pés colocar-me-ia, para conquistá-la para o Céu, certo que o Pai não julgaria um erro essa minha humilhação. Dizei! Dizei uma palavra, que estou esperando!

– Maldição é o que dizemos.

– Está bem. Está dito. Então, ide. Eu também me vou.

E Jesus vira-lhes as costas, voltando ao seu lugar. Inclina a cabeça sobre a mesa e chora.

Bartolomeu fecha a porta, para que nenhum dos cruéis, que o insultaram, e que se vão com ameaças e blasfêmias contra o Cristo, veja este pranto.

Um longo silêncio, e depois Tiago do Alfeu acaricia sobre a cabeça o seu Jesus e diz:

– Não chores. Nós te amamos. Também por eles.

Jesus ergue o rosto e diz:

– Não choro por Mim. Choro por eles, que se matam, surdos a todos os convites.

– Que faremos agora, Senhor? –pergunta o outro Tiago.

– Iremos para a Galileia. Amanhã de manhã partiremos.

– Por que não hoje, Senhor?

– Não. Eu preciso saudar os bons deste lugar. E vós ireis Comigo.