465. 465. Em Betsaida, para um encargo secreto com Porfíria,e partida apressada de Cafarnaum.


1 de agosto de 1946.

465.1 – Dirige a barca para Betsaida –ordena Jesus, que está com João em uma pequena barca, que mais parece uma casca de noz. Está na metade do lago, onde a claridade já vai aumentando, com o crescer do dia. João obedece sem dizer nada. Um ventinho um tanto forte enfuna a pequena vela, a barca desliza velozmente, adernando um pouco, por causa da rapidez com que vai. A costa oriental fica logo para trás e a curva do lado setentrional do lago vai ficando sempre mais perto.

– Atraca, antes de chegarmos ao povoado. Eu quero ir à casa da Porfíria, sem que ninguém me veja, e tu vai ao meu encontro depois, no lugar de costume, e fica me esperando com a barca.

– Sim, Mestre. E se alguém me vir?

– Entretém a todos, sem dizer onde eu estou. Eu irei logo.

João corre o olhar por sobre a praia, procurando um ponto bom para aproar, o encontra em um lugar do qual ele se lembra, pois ele se faz lembrar justamente por causa de uma torrente arenosa, da qual os homens tiravam areia para o trabalho deles, de modo que lá foi ficando feito um pequenino golfo de poucos metros, mas no qual uma barca pode encostar a uma margem, que está a uma altura de uns cinquenta centimetros acima d’água.

Ele vai para lá. A barca range um pouco sobre as pedras, mas conseque encostar. João a conserva parada junto à margem, agarrando-se a uma raiz, que, saiu para fora da areia.

Jesus pula sobre a margem. João empurra o remo contra a margem, faz força para dirigir a barca de novo por sobre o lago. E o consegue. Levanta o rosto, iluminado por aquele seu sorriso bom, e diz:

– Adeus, Mestre.

– Adeus, João.

E Jesus se encaminha por entre as plantas, enquanto João vai bordejando com sua barquinha.

465.2 Jesus toma o rumo do interior, passa pelo meio das plantações de hortaliças, do outro lado de Betsaida. Ele vai depressa para evitar entrar no povoado, quando este já vai começando a movimentar-se. Sem encontrar-se com ninguém, Jesus chega à casa de Pedro. Bate à porta da cozinha. Alguns segundos depois, a cabeça da Porfíria deixa-se ver, cautelosa, por cima da mureta do terraço. Ela vê quem é e solta um oh! de surpresa. Recolhe com uma mão os seus cabelos, muito bonitos, a sua única beleza, que estão soltos sobre as costas, e corre para baixo pela escadinha, descalça como está, por causa da apressada toalete da manhã.

– Senhor! Vieste sozinho?

– Sim, Porfíria. Marziam, onde está?

– Está dormindo. Dormindo ainda. Ele ficou um pouco triste, um pouco abatido… Eu o estou poupando um pouco. Também por sua idade… O crescimento. Enquanto dorme, não pensa, nem chora.

– Ele chora frequentemente?

– Sim, Mestre. Eu creio que seja a fraqueza em que ele está. É preciso fortalecê-lo, consolá-lo… Mas ele diz: “Eu vou ficar sozinho. Todos aqueles que eu amo vão-se embora. Quando não tivermos mais Jesus…” Diz isso como se estivesses para deixar-nos… É verdade… ele tem sofrido muito em sua vida… mas eu e Simão o amamos… Amamos muito, podes crer, Mestre.

– Eu sei. Mas a alma dele sente… Porfíria, Eu preciso falar-te justamente dessas coisas. Por isso é que Eu vim sem Simão, a uma hora destas. Aonde podemos ir para falarmos de tal modo que Marziam não nos ouça, que ninguém nos incomode?

– Senhor, eu não tenho outro lugar, senão o meu quarto nupcial, ou, então, o quarto das redes… Lá em cima está Marziam, e eu também estava lá, porque, para fugir do calor, fomos dormir lá em cima…

– Vamos para o quarto das redes. Fica mais longe e Marziam não nos ouvirá, ainda que acorde.

– Vem, Senhor.

Porfíria o vai guiando pelo rústico salão que é um entulho com um pouco de tudo: redes, remos, provisões, feno para as ovelhas, um tear…

Porfíria se apressa em desentulhar uma espécie de mesa, que está encostada à parede, a tirar a poeira dela com um chumaço de estopa, a fim de que nela o Mestre se assente.

– Não se incomode, mulher. Eu não estou cansado.

Porfíria levanta os seus humildes olhos para o rosto abatido de Jesus, e parece estar querendo dizer-lhe: “Sim, eu o sei.” Mas ela, habituada a calar-se, nada fala.

465.3 – Escuta, Porfíria. Tu és uma boa mulher e uma boa discípula. Eu gostei muito de ti, desde que te fiquei conhecendo, e com muita alegria te escolhi como discípula, te confiei o menino. Sei que tu és prudente e virtuosa como poucas. Sei que sabes calar-te. É esta uma virtude raríssima nas mulheres. Por todas estas coisas é que Eu vim falar-te em segredo, contar-te uma coisa que ninguém sabe, nem mesmo os apóstolos, nem Simão. Eu te conto, porque Eu preciso dizer-te como é que deves proceder para o futuro com Marziam… e com todos… Eu tenho certeza de que tu irás contentar ao teu Mestre no que te vou pedir, que serás prudente como sempre…

Porfíria que ficou vermelha como uma púrpura, ao ouvir o elogio do seu Senhor, só fica fazendo sinal de que sim com a cabeça, muito comovida, ela que é tão tímida e habituada a ser sempre pressionada pela vontade de prepotentes, que lhe impõem suas vontades, sem saberem se ela está disposta a consentir, está por demais comovida para ser capaz de responder com palavras, que consente.

– Porfíria… Eu não voltarei nunca mais a estes lugares. Nunca mais, até que tudo se tenha cumprido… Tu sabes, não é verdade, o que é que Eu devo cumprir?

Porfíria, a estas palavras, deixou cair os seus cabelos que ela ainda estava segurando recolhidos sobre a nuca com a mão esquerda, e mais do que um grito, um soluço a sufoca e a faz levar as duas mãos ao rosto, enquanto ela cai de joelhos, gemendo:

– Eu já sei, Senhor meu Deus…

E chora com um pranto silencioso, que só se nota pelas lágrimas que vão pingando no chão, passando pelos dedos que ela tem apertados sobre o rosto.

– Não chores, Porfíria. Para isto é que Eu vim. Eu estou pronto… e prontos estão aqueles que, a serviço do Mal, estão servindo ao Bem, na verdade, porque farão chegar a hora da Redenção. Poderia cumprir-se até agora, porque, tanto Eu como eles estamos preparados… e qualquer outra coisa que aconteça ou evento que sobrevier, não serão nada mais do que… um aperfeiçoamento para o delito deles… E para o meu Sacrifício. Mas também estas horas, que ainda são muitas que virão antes daquela hora, servirão… Há ainda alguma coisa para cumprir-se e a dizer-se, a fim de que tudo o que estava para cumprir-se, segundo o meu conhecimento, seja feito… Mas Eu não voltarei mais aqui… Olho pela última vez para este lugar… e entro pela última vez nesta casa honesta… Não chores… Eu não quis ir-me embora sem dar-te o adeus e a bênção do teu Mestre. Eu levarei comigo Marziam. Levá-lo-ei comigo, indo para os confins da Fenícia, depois, quando subir para a Judeia, para a Festa dos Tabernáculos. Não me faltarão meios para mandá-lo de volta, antes do inverno rigoroso. Pobre rapaz! Alegrar-se-á comigo por algum tempo. 465.4E depois… Porfíria, não é bom que Marziam esteja presente na minha hora. Por isso, tu não o deixarás partir para a Páscoa…

– E o preceito, Senhor?

– Eu o desobrigo do preceito. Eu sou o Mestre, Porfiria, sou Deus, como tu sabes. Como Deus, Eu o posso desobrigar, antecipadamente, por uma omissão assim, que nem chega a ser omissão, porque Eu a ordeno por motivo justo. A obediência a uma minha ordem já é uma licença de deixar de cumprir o preceito, porque a obediência a Deus, esta é até um sacrifício para o Marziam, é sempre superior a qualquer outra coisa. Eu sou o Mestre. Não é um bom Mestre quem não sabe meditar sobre consequências, que um esforço superior àquele que o discípulo aguenta a suportar, pode produzir nele. Também, ao querer impor as virtudes, é necessário ser prudente, e não ficar pretendendo logo um máximo que a formação espiritual ou as forças gerais não lhe permitam fazer. Exigindo-se uma virtude ou um domínio espiritual fortes demais, até das físicas, atingidas já pela criatura humana, pode acontecer que surja uma dispersão das forças já acumuladas e uma fragmentação do indivíduo nos seus três graus: o espiritual, o moral e o físico. Marziam, pobre menino, já sofreu demais, conheceu demais a brutalidade dos seus semelhantes, até o ponto de quase odiá-los. Ele não poderia suportar o que vai ser a minha Paixão, um mar de amor doloroso no qual Eu lavarei os pecados do mundo e um mar de ódio satânico, que procurará submergir a todos os que Eu amei, e até os mais fortes se dobrarão sob a maré de Satanás, pelo menos por um breve tempo… Mas Eu não quero que Marziam se dobre e beba daquela onda de desolação. Ele é um inocente… e me é muito querido. Eu tenho piedade, muita piedade de quem já sofreu mais do que as suas próprias forças aguentavam. Eu chamei de novo, mas do outro mundo, o espírito de João de Endor…

– Morreu João? Oh! Marziam havia escrito muitos rolos para ele… Vai ser uma nova tristeza para o rapaz…

– Eu lhe falarei da morte de João… Eu dizia que o tirei desta vida justamente para preservá-lo do abalo emocional daquela hora. O próprio João já havia sofrido muito da parte dos homens. Por que despertar sentimentos que estavam adormecidos? Deus é bom. Ele prova os seus filhos. Mas Ele não é um experimentador descuidado… Oh! Se os homens soubessem fazer assim! Como seria menor o número das ruínas dos corações, como também simplesmente, quanto menor seria o número de perigosas borrascas nos corações… Mas, voltando a Marziam. Ele não deve ir à futura Páscoa. Por enquanto, tu não lhe falarás nisso. Quando chegar o momento, tu lhe falarás asim: “O Mestre me deu a ordem de não mandar-te a Jerusalém. Ele te promete um prêmio especial, se lhe obedeceres.” Marziam é bom, obedecerá… 465.5Porfíria, isto é o que Eu quero de ti. O teu silêncio, a tua fidelidade, o teu amor.

– Tudo o que quiseres, meu Senhor! Tu honras demais a tua pobre serva… E não mereço tanto… Vai em paz, meu Mestre e meu Deus. Eu farei o que tu queres…

A dor a abate, e ela se debruça com o rosto por terra. Primeiro, ela ficou de joelhos, descansando sobre os calcanhares, com os olhares fixos no rosto de Jesus, depois ficou abatida por terra, toda coberta com o manto dos seus cabelos pretos, soluçando fortemente e dizendo:

– Mas, que dor, Mestre! Oh! Que dor! O que está acabando? O que está acabando para o mundo! O que está acabando para nós que te amamos! Que é Ele para a tua serva! O Único! O Único, que de fato me amou! Que nunca me desprezou! Que não se tornou prepotente comigo! Que me tratou como às outras, a mim, tão ignorante, pobre e estulta! Oh! Eu e Marziam, porque a mim Marziam o disse primeiro, depois ficamos em paz… Todos diziam que não podia ser verdade… Todos: Simão, Natanael, Filipe… as mulheres deles… Eles sabem disso… mas eles são sábios… e Simão… Oh! o meu Simão, se tu o escolheste, deve valer alguma coisa! e todos! Todos diziam que não podia ser… Mas agora és Tu que o dizes… e não se pode duvidar de tuas palavras…

Ela está mesmo desolada e comovente em sua dor.

Jesus se inclina, até poder pôr-lhe uma mão sobre a cabeça:

– Não chores assim… Marziam vai ouvir… Eu sei… Ninguém crê em nós, ninguém quer chegar a ponto de crer, e a própria sabedoria deles e o mesmo amor deles são causa de sua falta de fé… mas assim é. Porfíria, Eu vou-me embora. Antes de deixar-te, Eu te abençoo agora e para sempre. Pensa sempre que Eu te amei e fiquei contente pelo teu amor por Mim. Eu não te digo: persevera nele. Pois Eu sei que assim farás, porque a lembrança do teu Mestre será sempre a tua doçura e nela encontrarás refúgio. A tua doçura e a tua paz, até na hora da morte. Pensa, naquela hora, que o teu Mestre morreu para abrir-te o Paraíso, que lá Ele te está esperando… Vamos, levanta-te. Eu vou despertar Marziam e entretê-lo. E tu, acaba com esses sinais do teu choro e depois vai ao nosso encontro. João está me esperando para levar-me a Cafarnaum. Se tens alguma coisa para mandar a Simão, preparaa. Lembra-te de que ele vai precisar de suas vestes pesadas…

Porfíria, uma verdadeira criatura submissa e pronta para obedecer, beija os pés de Jesus e faz o gesto de querer levantar-se. Depois uma onda de amor a faz perder a cabeça e, enrubescendo fortemente, pega as duas mãos de Jesus e as beija uma, duas, dez vezes. Depois se levanta e o deixa ir…

465.6 Jesus sai, sobe ao terraço, entra por baixo de uma espécie de pavilhão feito de velas esticadas sobre cordas, sob o qual estão as duas pequenas camas. Marziam ainda está dormindo, com o rosto quase virado para baixo, comprimido sobre o pequeno travesseiro. Não se vê dele mais do que um dos pomos do rostinho moreno e um braço comprido e magro que está fora do lençol que o cobre. Jesus se assenta no chão, perto da cama, e acaricia levemente os cachos desalinhados que estão sobre a face pálida do adormecido, o qual faz um movimento, mas por enquanto não acordou. Jesus repete aquele gesto, depois se inclina para beijar na fronte o rosto que agora está descoberto. Marziam abre os olhos, vê Jesus a seu lado, inclinado sobre ele. Quase não acredita, talvez pense que está sonhando, mas Jesus o chama e, então, o jovenzinho se levanta para sentar-se, se joga por entre os braços de Jesus e entre eles se refugia…

– Tu aqui, Mestre?

– Eu vim para te apanhar e levar comigo por alguns meses. Ficas contente?

– Oh! E Simão?

– Ele está em Cafarnaum. Eu vim com João…

– Ele também voltou? Deve estar feliz. Eu lhe darei o que escrevi.

– Eu não estou falando de João de Endor, mas de João de Zebedeu. Não ficas contente?

– Sim. Eu lhe quero bem. Mas também ao outro… e talvez até mais…

– Por que, Marziam? João de Zebedeu é tão bom.

– Sim, mas o outro é tão infeliz e eu também o tenho sido, e um pouco ainda o sou… os que sofrem se entendem, se amam…

– Ficarias contente em saber que ele não sofre mais, que está muito feliz?

– Sim, que eu ficaria. Mas ele não pode estar feliz, a não ser que esteja contigo. Ou, então… Talvez ele tenha morrido, Senhor?

– Ele está na paz, precisamos estar contentes por isso, sem egoísmo, porque ele morreu como um justo; porque agora não há mais separação entre o seu espírito e o nosso. Temos um amigo a mais que reza por nós.

Marziam está com duas grandes lágrimas sobre o rosto emagrecido e pálido, mas murmura:

– É verdade.

Jesus não fala mais nada sobre o assunto, nem faz observações sobre o estado físico e moral de Marziam, que está visivelmente enfraquecido. Mas, ao contrário, Ele diz:

– Eia, vamos. Eu já falei com Porfíria. Certamente ela já preparou a tua roupa. Põe-te em ordem, tu também, que João nos está esperando. Faremos uma surpresa a Simão. Mas, não é aquela a barca dele, que está voltando para Cafarnaum? Talvez ele tenha pescado na volta…

– É ela, sim. Para onde vamos, Senhor?

– Para o norte e depois para a Judeia.

– Por muito tempo?

– Por muito tempo.

Marziam, animado pela ideia de estar com Jesus, levanta-se depressa, desce correndo para ir lavar-se no lago, e volta com os cabelos ainda úmidos, gritando:

– Eu vi João. Ele me fez um sinal de saudação. Ele está na desembocadura, por entre os caniços…

– Vamos.

465.7 Eles descem. Porfíria está acabando de fechar dois sacos, e explica:

– Pensei em mandar depois as vestes pesadas pelo meu irmão, na festa dos Tabernáculos, no Getsêmani. Estareis mais livres para caminhar, tanto tu, como o teu pai.

E, enquanto vai acabando de amarrar os cordões, mostra o que preparou: leite, pão e frutas…

– Apanharemos tudo e iremos comer na barca. Eu quero ir, antes que a margem se encha de gente. Adeus, Porfíria. Deus te abençoe sempre e a paz dos justos esteja sempre contigo. Vem, Marziam.…

Atravessam logo o breve trecho de estrada e, enquanto Marziam vai até João, Jesus vai indo para a barca, e logo é alcançado pelos dois, que correm por entre os caniços e pulam para a barca, movendo logo o remo para entrarem nas águas profundas.

O breve trajeto logo fica para trás, eles param na praiazinha de Cafarnaum, à espera da barca de Pedro, que está para chegar. A hora os livra da multidão do povo, e podem comer em paz o seu pão e as frutas, deitados sobre a areia, à sombra da barca.

Simão não conhece a barquinha e por isso, somente quando põe o pé sobre a margem, vê erguer-se por detrás a barca de Jesus, é que ele se lembra dele.

– Mestre! E tu, Marziam! Mas, desde quando?

– Desde agora. Eu passei por Betsaida. Anda depressa. É preciso partir logo…

Pedro olha para Jesus e não diz nada. Ele e os companheiros descarregam a barca dos peixes que apanharam, dos sacos de roupas, inclusive a de João, que agora finalmente vai poder revestir-se. Simão pergunta qualquer coisa ao companheiro, que lhe faz um sinal, como se dissesse: “Espera…”

Vão para casa. Entram. Os apóstolos que ficaram apresentam-se.

– Andai depressa. Vamos sair logo. Apanhai tudo, porque não voltaremos aqui –ordena Jesus.

Os apóstolos trocam olhares uns com os outros, fazem uso de uma mímica de sinais entre um grupo e o outro. Mas obedecem. Eu até penso que eles o façam logo para poderem falar entre si nos outros quartos.

465.8 Jesus fica na cozinha com Marziam e se faz acompanhar pelos donos da casa. Mas Ele não lhes diz: “Eu não volto mais”, nem o diz, ao passar pela rua, aos que são de Cafarnaum e o veem e saúdam. Ele os saúda simplesmente como faz todas as vezes que se vai embora de lá. E para somente na casa de Jairo. Mas Jairo ainda não voltou…

Jesus encontra perto da fonte a velhinha que mora perto da casa do pequeno Alfeu, e lhe diz:

– Daqui a pouco virá aqui uma viúva. Ela te procurará. Ela quer estabelecer-se aqui. Sê uma amiga para com ela, amai muito o menino e os irmãos dele… Fazei isso santamente, em meu Nome.

Depois volta e continua a andar, dizendo:

– Eu gostaria de saudar todos os meninos…

– Podes fazê-lo, Mestre. Por que não foste descansar? Estás muito cansado. O teu rosto está pálido, estás com os olhos cheios de sono. Isso te fará mal… Está fazendo calor e certamente Tu ficaste sem dormir tanto em Tiberíades como lá na propriedade de Cusa…

– Eu não posso, Simão. Tenho que ir a alguns lugares, estou com pouco tempo.

Estão perto da margem. Jesus chama os empregados de Pedro e os saúda, dando-lhes ordem para que a barquinha seja levada para o lugarejo que fica perto de Hipo, e lá seja entregue ao Saul de Zacarias.

Entra pelo caminho sombreado que vai margeando o rio. E o acompanha até uma encruzilhada, encaminhando-se depois para esse rumo.

– Para onde é que vamos, Senhor? –pergunta Simão, que até agora havia falado em voz baixa com os seus companheiros.

– Vou à casa de Judas e de Ana, e de lá vou a Corozaim. Quero saudar aos meus bons amigos…

Uma outra olhadela dos apóstolos uns para os outros, e mais umas conversas em voz baixa.

465.9 Finalmente, Tiago de Alfeu vai para a frente, alcança a Jesus, que vai à frente de todos com Marziam.

– Irmão, não vamos voltar mais por aqui, e dizes que queres saudar os amigos? Nós gostaríamos de ter ficado sabendo disso.

– Certamente vós voltareis aqui. Mas daqui a muitos meses.

– E Tu?

Jesus faz um gesto evasivo… Marziam se afasta discretamente, indo reunir-se com os outros, isto é, com todos, menos com Tiago de Alfeu, o qual está com Jesus, e com Iscariotes, que está sozinho lá atrás, bastante sombrio, como quem não quer saber de nada.

– Irmão, que foi que te aconteceu? –diz Tiago, pousando a mão sobre o ombro de Jesus.

– Por que perguntas?

– Porque… Não sei não. Todos nós te perguntamos. Tu nos pareces diferente… Vieste sozinho com João. Simão disse que tinhas estado como hóspede de Cusa… Que não descansas mais. Será que não merecemos mais saber? Nem eu? Tu me amavas… Disseste-me coisas que só eu fiquei sabendo…

– Eu te amo ainda. Mas não tenho nada a dizer. Perdi um dia a mais do que era previsto. E o estou recuperando.

– Era necessário ir para o norte?

– Sim, meu irmão.

– Então… Tu sofreste. Sinto muito por isso…

Jesus o abraça, passando um braço por trás das costas do primo:

– Morreu João de Endor. Tu estás sabendo?

– Simão me disse, enquanto eu estava preparando as vestes. E depois?

– Eu separei-me de minha Mãe.

– E depois?

Tiago, que é mais baixo do que Jesus, olha para Ele de alto a baixo, insistente, indagador.

– E depois estou contente por estar contigo, e convosco e com Marziam. Este Eu o terei comigo por alguns meses. Ele precisa disso. Está triste e sofrendo. Tu o viste?

– Sim. Mas não é nada disso… Não o queres dizer. Não importa. Eu te quero bem, mesmo se não me tratares como amigo.

– Tiago, tu para Mim és mais do que amigo. Mas o meu coração tem necessidade de repouso…

– E, para isso, tem também necessidade de não ficar falando daquilo que te faz sofrer. Eu compreendo. É Judas que te faz sofrer?

– Judas, teu irmão?

– Não. O outro.

– Por que essa pergunta?

– Não sei. Enquanto tu estavas fora, Judas foi procurado muitas vezes por um mensageiro que não sabemos de quem. Ele o repeliu sempre, mas…

– Para vós todo ato de Judas é sempre um delito. Por que faltar com a caridade?

– Porque ele é muito turvo, perturbado. Ele evita os companheiros. É um que não sabe o que quer…

– Deixai-o agir. Há mais de dois anos que ele está conosco e foi sempre assim. Pensa só como ficarão felizes os dois velhos. E sabes porque é que Eu vou até lá? Quero recomendar-lhes o pequeno carpinteiro de Corozaim…

Eles se afastam falando. Atrás deles, em grupo, vêm os apóstolos que ficaram esperando Judas, para não deixá-lo atrás sozinho, apesar de estar ele tão evidentemente aborrecido, que ninguém se anima a tê-lo em companhia.