408. 408. Multiplicação dos grãosnas campinas de José de Arimateia.


31 de março de 1946.

408.1 Também aqui está animado o trabalho dos ceifadores, ou melhor, esteve movimentado o trabalho dos ceifadores. Porque aqui as foices deles já são inúteis, pois não há mais em pé nenhuma haste nestes campos que estão ainda mais perto da beira do Mar Mediterrâneo, do que os de Nicodemos. Pois Jesus não foi a Arimateia, mas às propriedades que José tem na planície, perto do mar, e que, antes da colheita, deviam ser como um pequeno mar de espigas, por sua grande extensão.

Uma casa baixa, larga, branca, está lá no centro dos campos que foram roçados. É uma casa de campo, mas bem conservada. As suas quatro eiras vão-se enchendo de montões de espigas, montões que são transformados em feixes, como fazem os soldados com seus equipamentos, enquanto estão parados no acampamento. Carros e mais carros vão levando aquele tesouro dos campos para as eiras, e homens e mais homens os vão descarregando e amontoando, e José vai de uma eira para a outra, vigiando para que tudo se faça, e se faça bem.

Um camponês, do alto de um daqueles montões formado sobre um carro, dá uma notícia:

– Já acabamos, patrão. O trigo todo já está sobre as tuas eiras. Este é o último dos carros da última propriedade.

– Está bem. Descarrega e depois solta os bois e os conduze às estalas. Trabalharam bem e merecem repouso. Mas a última fadiga será leve, porque aos corações bons é dado alívio de alegrias. 408.2Agora faremos vir os filhos de Deus e daremos a eles o dom do Pai. Abraão, vai chamá-los –diz depois, voltando-se a um patriarcal camponês, que talvez é o primeiro dos servos camponeses desta terra de José. Penso isso, porque vejo que o respeito dos outros servos é muito evidente por este ancião, que não trabalha, mas vigia e aconselha, ajudando o patrão.

E o velho vai… Vejo-o dirigir-se a uma vasta e muito baixa construção, mais semelhante a um telheiro que a uma casa, munida de dois portões gigantescos que tocam o telhado. Penso que seja uma espécie de armazém, onde estejam guardados os carros e os outros instrumentos agrícolas. Entra lá dentro e sai logo seguido de uma diferente e mísera multidão de todas as idades… e de todas as misérias. Há coxos, cegos, mancos, doentes dos olhos… Muitas viúvas com muitos órfãos em torno de si, ou também mulheres de alguns doentes, tristes, envelhecidas pelas vigílias e pelos sacrifícios para cuidar dos doentes.

Vem para frente com este aspecto particular dos pobres, quando vão a um lugar em que serão beneficiados: timidez de olhares, como pobres honestos, ou com um sorriso que aflora sobre a tristeza que dias de dor imprimiram sobre seus rostos, ou uma centelha mínima de triunfo, quase uma resposta à dificuldade do destino em dias tristes, contínuos, como a dizer:

– Hoje, um dia de festa há também para nós, hoje é festa, é alegria, é alívio para nós.

Os pequeninos esbugalham os olhos, diante dos montões de feixes, já mais altos do que a casa, e dizem, mostrando-os às suas mães:

– São para nós? Ah! Que bonitos!

Os velhos murmuram:

– O Bendito abençoe ao piedoso!

Os mendigos, os aleijados, os cegos, os mutilados, os doentes da vista dizem:

– Teremos pão, afinal, nós também, sem ficarmos sempre estendendo a mão!

E os doentes dizem a seus pais:

– Pelo menos poderemos tratar-nos, ao saber que não estais sofrendo por nós. Os remédios nos farão bem agora.

E os pais dizem aos doentes:

– Estais vendo? Agora não direis mais que nós ficamos jejuando a fim de deixar para vós o bom bocado. Por isso, agora estais contentes…

E as viúvas dizem aos orfãozinhos:

– Meus filhos, será preciso bendizer muito ao Pai dos Céus, que se faz de vosso Pai, e ao bom José que é o seu administrador. Agora não vos ouviremos mais chorar de fome, ó filhos que só tendes vossas mães para dar-vos tudo… As pobres mães que de ricas só têm o coração…

É um coro e um espetáculo que alegram, mas que trazem também lágrimas aos olhos…

408.3E José, tendo diante de si esses infelizes, põe-se a percorrer as fileiras, a chamar um por um, perguntando quantos são na família, há quanto tempo estão viúvas, ou quanto tempo faz que estão doentes, e assim por diante… e vai tomando nota. E, para cada caso, dá ordem aos seus servos camponeses:

– Dá dez. Dá trinta…

– Dá sessenta –diz ele, depois de ter ouvido um velho meio cego, que chegou até diante dele com dezessete netos, todos abaixo dos doze anos, filhos de dois filhos dele, que morreram, um na colheita do ano passado, e ela de parto…

E diz o velho:

– O esposo contraiu segundas núpcias um ano depois e mandou-me os seus cinco filhos, dizendo que iria pensar neles. Mas nunca concorreu com nenhum dinheiro!… Agora também minha mulher morreu, e eu fiquei sozinho… com estes…

– Dá sessenta ao velho pai. E tu, pai, fica aí, que depois te darei roupas para os pequenos.

O servo o faz notar que, se o velho ganha sessenta feixes cada vez, o trigo não vai dar para todos…

– E onde é que está a tua fé? Será para mim que eu amontoo os feixes, e os reparto? Não. É para os filhos mais queridos do Senhor. O próprio Senhor proverá a fim de que seja suficiente para todos –responde José ao servo.

– Sim, patrão. Mas número é número…

– Mas a fé é fé. E eu, para mostrar-te que a fé pode tudo, ordeno que seja dobrada a medida que já foi dada aos primeiros. Quem recebeu dez, receba mais dez, e quem recebeu vinte, outros vinte e cento e vinte sejam dados ao velho. Faze tu! Fazei vós assim!

Os servos encolhem os ombros, e fazem o que foi mandado.

E a distribuição continua, diante dos olhos espantados e alegres dos beneficiados, que veem como estão recebendo uma medida acima das suas mais loucas esperanças. E José sorri com isso, acariciando os pequeninos, que se esforçam para ajudar as mães, ou as ajuda ele mesmo, e também aos aleijados com seus pequenos fardos, ajuda os velhos decrépitos a levá-los, ou as mulheres muito enfraquecidas, e faz que sejam postos de um lado dois doentes, para dar-lhes outras ajudas, como fez com o velho dos dezessete netos. E todos receberam o que lhes tocava e em uma medida bem farta.

José pergunta:

– Quantos feixes ainda sobraram?

– Cento e doze, patrão –dizem os servos, depois de terem contado os que ficaram.

– Bem vocês irão pegar deles…

José percorre a lista dos nomes que ele marcou, e depois diz:

– Deles apanhareis cinquenta e os guardareis para semente, porque é uma semente santa. E os restantes, vós os dareis um por um a cada chefe de família aqui presente. São exatamente sessenta e dois chefes.

Os servos obedecem. Levam para debaixo de um pórtico os cinquenta feixes, e distribuem o resto. Agora as eiras não têm mais aqueles grandes montões de ouro. Mas no terreno há sessenta e dois montinhos de diferentes medidas, e os seus donos se apressam em amarrá-los e em colocá-los em umas carriolas toscas, ou então sobre os lombos de uns magros burrinhos, que eles foram soltar de uma barreira que estava atrás da casa.

408.4 O velho Abraão, que esteve conversando com os principais entre os servos camponeses, aproxima-se com eles do patrão, que os interroga:

– Que tal? Vós vistes? Houve trigo para todos, e com sobra!

– Mas, patrão! Aqui há um mistério. Os nossos campos não podem ter produzido o número de feixes que tu distribuíste. Eu nasci aqui e tenho setenta e oito anos. Ceifo há sessenta e seis anos. E sei. Meu filho tinha razão. Sem um mistério, não teríamos podido produzir tanto!

– Mas é uma realidade o fato de o termos distribuído, Abraão. Tu estavas a meu lado. Os feixes foram entregues aos servos. Não há nenhum sortilégio. Não é uma irrealidade. Os feixes podem ainda ser contados. Eles estão lá, ainda que divididos em muitas partes.

– Sim, patrão. Mas… não é possivel que os campos tenham dados tanto feixes assim!

– E a fé, meus filhos? E a fé? Onde colocais a fé? Podia desmentir o Senhor o seu servo que prometia em nome dele, e para um fim santo?

– Então tu fizeste um milagre? –dizem os servos, prontos já para o hosana.

– Eu não sou homem de milagres. Sou um pobre homem. O Senhor é quem o fez. Ele leu em meu coração, e nele viu dois desejos: o primeiro era o de trazer-vos à mesma fé que eu tenho. E o segundo era o de dar muito, muito, muito a esses meus irmãos infelizes. Deus atendeu aos meus desejos… e os realizou. Que Ele seja bendito por isso –diz José, com uma inclinação reverente, como se estivesse diante do altar.

– E o seu servo com Ele –diz Jesus, que ficou, até aquele momento, oculto atrás da quina de uma casinha rodeada por uma sebe, não sei se a casinha é um forno ou um lagar. Ela está aparecendo agora completamente acima da eira onde está José.

– Mestre meu, e meu Senhor! –exclama José, caindo de joelhos para venerar a Jesus.

– A paz esteja contigo. Eu vim para abençoar-te, em nome do Pai.

Vim para premiar a tua caridade e a tua fé. 408.5Serei teu hóspede por esta tarde. Tu me recebes?

– Oh! Mestre! Ainda perguntas? Somente, somente, aqui não poderei prestar-te honras. Eu estou entre os servos e os camponeses. Não tenho aqui louças finas nem mestre de mesa, nem servos capazes… Não tenho alimentos refinados… Não tenho vinhos escolhidos… Não tenho amigos… Será uma hospitalidade bem pobre… Mas Tu nos desculparás… Por que, Senhor, não me mandaste avisar? Eu teria provido a tudo. Mas anteontem, Hermes, com os seus, esteve aqui… Eu me aproveitei da passagem dele para avisar a estes, aos quais eu queria dar, entregar o que é de Deus… Mas Hermes não me disse nada! Se eu tivesse sabido!… Permite-me, Mestre, que eu dê as suas ordens e procure remediar… Por que ficas sorrindo assim?

–pergunta enfim José, que está todo desorientado pela alegria imprevista, e pela situação dele, que ele julga calamitosa.

– Eu sorrio por causa de tuas preocupações inúteis. Mas, José, que é que estás procurando? Procuras o que já tens?

– Que é que eu tenho? Não tenho nada.

– Oh! Como se vê que és homem agora. Por que não és mais o José espiritual de há pouco, quando falavas como um sábio? Quando prometias, com segurança, pela fé e para poderes dar pela fé?

– Oh! Tu ouviste?

– Ouvi e vi, José. Aquela sebe de loureiros é muito útil para ver que o que foi semeado não morreu em ti. E por isso Eu te digo que estás criando para ti uns sofrimentos inúteis. Não tens mestres de mesa nem servos habilitados? Mas, onde se pratica a caridade está Deus, e onde está Deus aí estão os seus anjos. E que mestres de casa queres ter mais habilitados do que eles? Não tens alimentos nem vinhos prelibados? E, que alimento queres dar- me, e que bebida mais prelibada do que o amor que tiveste para com estes e que tens para comigo? Não tens amigos para me prestarem honra? E estes? Que amigos mais amados do que os pobres e os infelizes, pelo Mestre, que tem o nome de Jesus? Vamos, José! Nem mesmo se Herodes se convertesse, e me abrisse suas salas para hospedar-me e prestar-me honra, em um palácio real purificado, e se com ele estivessem todos os chefes de todas as castas para me honrarem, eu teria uma corte mais seleta do que esta, à qual Eu quero, Eu mesmo, dizer uma palavra e dar um presente. Tu o permites?

– Oh! Mestre! Mas tudo o que Tu queres, eu quero! Manda.

– Dize a eles que se reúnam, e que também se reúnam os servos. Para nós sempre haverá um pão. Melhor é que agora eles escutem a minha palavra, e é melhor do que ficar correndo para cá e para lá, atarefados em preocupações sem valor.

As pessoas se apinham logo, cheias de espanto…

408.6 Jesus fala:

– Aqui já pudestes ficar conhecendo que a fé pode multiplicar os grãos, quando este desejo nasce de um desejo de amor. Mas não limiteis a vossa fé somente às necessidades materiais. Deus criou o primeiro grão de trigo e, desde aquela hora, o trigo vem soltando espigas para o pão dos homens. Mas Deus criou também o Paraíso, e este está à espera de seus cidadãos. Ele foi criado para aqueles que vivem na Lei, e permanecem fiéis, não obstantes as provas dolorosas da vida. Tende fé, e conseguireis conservar-vos santos, com o auxílio do Senhor, assim como José conseguiu distribuir o trigo em dupla medida, para fazer-vos duas vezes felizes e confirmar na fé os seus servos. Em verdade, em verdade Eu vos digo que, se o homem tivesse fé no Senhor, nem mesmo as montanhas, fincadas com suas vísceras na rocha do chão, poderiam resistir, mas ao comando de quem tem fé no Senhor elas se deslocariam. Tendes vós fé em Deus? –pergunta Ele, virando-se para todos.

– Sim, Senhor!

– Para vós, quem é Deus?

– O Pai Santíssimo, como ensinam os discípulos do Cristo.

– E o Cristo, quem é para vós?

– O Salvador. O Mestre. O Santo.

– Somente isso?

– O Filho de Deus. Mas não é preciso dizer isso, porque os fariseus nos perseguem, se o dissermos.

– Mas vós credes que Ele o seja?

– Sim, Senhor.

– Pois bem! Crescei na vossa fé. Mesmo que vós vos calásseis, as pedras, as plantas, as estrelas, o solo, todas as coisas proclamarão que o Cristo é o verdadeiro Redentor e Rei. Elas o proclamarão na hora da sua assunção, quando Ele estiver na púrpura santíssima, e com a coroa da Redenção. Felizes daqueles que souberem crer muito desde agora, e mais ainda o crerem naquela hora, e tiverem fé no Cristo, e a vida eterna por isso. Tendes vós essa fé inabalável no Cristo?

– Sim, ó Senhor. Ensina-nos onde Ele está, e nós lhe pediremos que aumente a nossa fé para assim sermos felizes.

E a última parte da oração, fazem-na, não somente os pobres, mas também os servos, os apóstolos e José.

– Se tiverdes tanta fé, do tamanho de um grãozinho de mostarda, essa fé vós a tereis em vosso coração como uma pérola preciosa, para que ela não vos seja roubada por nenhuma razão humana, ou sobre-humana, ou malvada, e, então, podereis dizer todos àquela amoreira gigante, que faz sombra ao poço de José: “Arranca-te daí, e vai transplantar-te entre as ondas do mar.”

408.7 – Mas, o Cristo, onde está? Nós o estamos esperando para sermos curados. Os discípulos não nos curaram, mas nos disseram: “Ele o pode.” Quereríamos ficar sãos para podermos trabalhar –dizem os homens doentes ou sem destreza.

– E credes que o Cristo o possa fazer? –diz Jesus, fazendo um sinal a José, para que não diga que Ele é o Cristo.

– Nós o cremos. Ele é o Filho de Deus. Tudo pode.

– Sim. Tudo Ele pode… e tudo quer –grita Jesus, estendendo imperiosamente o braço direito, e abaixando-o, como para jurar.

E termina com um forte grito:

– E assim seja feito, para a glória de Deus!

E faz sinal de querer virar-se para a casa: mas os curados, uns vinte, gritam e correm ao encontro dele, fechando-o em um entrelaçamento de mãos estendidas, tocando nele, bendizendo-o, procurando suas mãos e suas vestes para beijá-las e acariciá-las. Eles o separam de José, de todos…

E Jesus sorri, acaricia, abençoa… E vai-se livrando lentamente, ainda acompanhado, até que desaparece na casa, enquanto os hosanas sobem para o céu, que já se vai tornando arroxeado, com o começo do crepúsculo.