271. 271. Partida em direção de Tariqueiacom os apóstolos que voltaram a Cafarnaum.


5 de setembro de 1945

271.1Já é alta noite, quando Jesus volta para casa. Ele entra pela horta, sem fazer barulho, e olha, por um instante, para a cozinha escura. E vê que nela não está ninguém. Olha para os dois quartos, onde estão as esteiras e as camas, que também estão vazias. Somente as roupas, que foram mudadas, estão amontoadas no chão, dando a entender que os apóstolos já voltaram. A casa parece não ter mais moradores, de tão silenciosa que está.

Jesus, fazendo menos barulho do que uma sombra, sobe pela escadinha, sua alvura aparece à luz branca da lua cheia, e Ele chega ao terraço. Depois dá uns passos por ele, e parece um fantasma que, que se vai movendo sem fazer barulho. É um fantasma luminoso. Ao brilho branco da lua, Ele parece tornar-se mais delgado e mais alto. Levanta com a mão o toldo que está na porta, do quarto de cima. Esta tinha ficado fechada desde quando os discípulos de João ali entraram com Jesus. Dentro, sentados aqui e ali, em grupos, ou isolados, estão os apóstolos com os discípulos de João e Manaém e, adormecido, com a cabeça sobre os joelhos de Pedro, está Marziam. A lua se encarrega de iluminar o quarto, entrando, com seus jorros de luz fosforescente, pelas janelas abertas. Ninguém fala nada. E ninguém está dormindo, a não ser o menino, sentado em uma esteira estendida no chão.

271.2Jesus entra devagar, e o primeiro que o vê é Tomé.

 Oh! Mestre! –diz ele levando um susto.

Os outros se assustam todos. Pedro, impetuoso como sempre, procura levantar-se com um pulo, mas logo se lembra do menino, e o faz lentamente, colocando a cabeça morena de Marziam sobre sua cadeira, e assim ele chega até Jesus por último, enquanto o Mestre, com a voz cansada de quem sofreu muito, responde a João, a Tiago e a André, que lhe falam da dor que estão sofrendo:

 Eu o compreendo. Mas só os que não creem é que têm que sentir-se entristecidos por essa morte. Não nós, que sabemos e cremos. João não está mais separado de nós. Antes estava. Antes até nos separava. Ou estar comigo, ou estar com ele. Agora não é mais assim. Onde ele está, Eu estou. Ele está perto de Mim .

Pedro intromete sua cabeça grisalha, por entre as cabeças juvenis, e Jesus o vê:

 Tu também choraste, Simão de Jonas?

E Pedro, com uma voz mais rouca que de costume:

 Sim, Senhor. Porque eu também havia sido de João… E depois… depois… Bem que eu dizia, na sexta-feira passada, que eu estava angustiado, porque aquela presença dos fariseus nos iria tornar amargo o sábado! Eu tinha trazido o menino… para ter um sábado ainda mais bonito… Mas, ao contrário…

 Não fiques abatido, Simão de Jonas. João não está perdido. Digo isso a ti também. E, em compensação, temos três discípulos bem formados. Onde está o menino?

 Está lá, Mestre. Está dormindo…

 Deixa-o dormir –diz Jesus, inclinando-se sobre a cabecinha morena, que dorme tranquilamente.

E depois pergunta ainda:

 Vós já ceastes?

 Não, Mestre. Nós estávamos Te esperando, e já estávamos apreensivos por causa do atraso, não sabendo onde devíamos ir procurar-te… e já nos parecia que havíamos perdido a Ti também.

 Ainda temos algum tempo para ficarmos juntos. Vamos, preparai a ceia, porque tenho necessidade de ficar sozinho entre amigos, e amanhã, se ficarmos aqui, estaremos sempre rodeados de pessoas.

 E eu te juro que não as suportaria, especialmente aquelas serpentes, que são as almas farisaicas. E seria insuportável, se escapasse deles ainda que só um sorriso, olhando para nós na sinagoga.

 Bem, Simão!… Eu também pensei nisso. Por isso é que voltei para levar-vos comigo.

Á luz das candeias acesas dos dois lados da mesa se veem melhor as alterações dos rostos. Só Jesus é de uma majestade solene, e Marziam sorri no sono.

 O menino comeu antes –explica Simão.

 Então, é melhor deixá-lo dormir –diz Jesus.

E, no meio dos seus, oferece e distribui o pouco alimento, que vai sendo comido sem vontade. E logo a ceia termina.

271.3 Dizei-me agora que fizestes –encoraja Jesus.

 Eu estive com Filipe nas campinas de Betsaida, e lá evangelizamos e curamos um menino doente –diz Pedro.

 Na verdade, foi Simão que curou†–diz Filipe, que não quer ficar com uma glória que não é dele.

 Oh! Senhor! Eu nem sei como o fiz. Eu rezei muito, de todo coração, porque o doentinho me causava dó. Depois, eu o ungi com óleo, e o esfreguei com as minhas mãos rudes… e ele ficou são. Quando eu vi que a cor lhe ia voltando ao rosto e que ele estava abrindo os olhos, que ele revivia, finalmente eu comecei a ficar com medo.

Jesus lhe põe a mão sobre a cabeça, sem dizer nada.

 João causou muita admiração por ter expulsado um demônio. Mas, para falar, foi a minha vez –diz Tomé.

 Também o teu irmão Judas o fez –diz Mateus.

 Depois também André –diz o Tiago de Alfeu.

 Por sua vez, Simão, o Zelotes, curou um leproso. Oh! Ele não teve medo de tocar nele. E depois ele me disse: “Não é preciso ter medo. Nós não pegamos nenhum mal físico, por vontade de Deus” –diz Bartolomeu.

 Disseste bem, Simão. E vós dois? –pergunta Jesus a Tiago de Zebedeu e a Iscariotes, que estão um pouco afastados, o primeiro falando com os três discípulos de João, e o segundo sozinho e amuado.

 Oh! Eu não fiz nada –diz Tiago–. Mas Judas fez três milagres grandes: um cego, um paralítico e um endemoninhado. A mim ele parecia um lunático. Mas o povo dizia assim…

 E tu, por que ficas com esta cara, se Deus te ajudou tanto? –pergunta Pedro.

 Sei ser humilde eu também –respondeu Iscariotes.

 Depois fomos hospedados por um fariseu. Eu me sentia embaraçado. Mas Judas sabe fazer melhor as coisas, e o amansou logo. No primeiro dia, ainda o suportamos, mas depois… Não é verdade, Judas?

Judas concorda, sem dizer nada.

 Muito bem. E fareis sempre melhor. Na próxima semana estaremos juntos. Entretanto… Simão, vai preparar as barcas. E tu também, Tiago…

 Para todos, Mestre? Não caberemos nelas.

 Não se pode conseguir uma outra?

 Se pedirmos ao meu cunhado, sim. Eu vou.

 Vai. E, logo que conseguires, volta. E não fiques dando muitas explicações.

Os quatro pescadores partem. Os outros descem para apanhar os sacos e os mantos.

271.4Só fica Manaém com Jesus. O menino continua a dormir.

 Mestre, vais para longe?

 Não sei ainda. Eles estão cansados e entristecidos. E Eu também. Espero ir até Tariqueia, nas campinas, para lá isolar-nos em paz…

 Eu tenho um cavalo, Mestre. Mas, se me permites, eu irei beirando o lago. Ficarás lá muito tempo?

 Talvez a semana toda, e não mais.

 Então, eu irei. Mestre, abençoa-me nesta primeira despedida. E tira um peso do meu coração.

 Qual Manaém?

 Eu tenho remorso de ter deixado João. Talvez, se eu estivesse lá…

 Não. Era a hora dele. E ele certamente deve ter ficado contente, ao ver que vinhas a Mim. Não tenhas esse peso. Procura, antes, livrar-te logo e bem do único peso que tens: o gosto de ser homem. Torna-te espírito, Manaém. Tu o podes. Há em ti a capacidade de sê-lo. Adeus Manaém. A minha paz esteja contigo. Brevemente nos veremos na Judeia.

Manaém se ajoelha, e Jesus o abençoa. Depois, o levanta e o beija.

Tornam a entrar os outros e se saúdam, tanto os apóstolos, como os discípulos de João. Por último, chegam os pescadores:

 Tudo pronto, Mestre. Podemos ir.

 Está bem. Saudai Manaém, que fica aqui até o pôr do sol de amanhã. Recolhei os alimentos, ide buscar água, e vamos. Fazei pouco barulho.

Pedro se inclina para despertar Marziam.

 Não, deixa. Ele poderia chorar. Eu vou tomá-lo nos braços –diz Jesus, e docemente levanta o menino, que geme um pouco, mas depois, instintivamente, se acomoda nos braços de Jesus.

271.5Apagam as candeias, e saem. Fecham as portas e descem. Na soleira do lado da horta, saúdam de novo Manaém, e depois, em fila, por um caminho iluminado pelo luar, vão ao lago: ele está parecendo um imenso espelho de prata, sob a luz da lua, que está no zênite. Três gotas vermelhas sobre o plácido espelho é o que parecem ser os faroletes das proas já imersas na água. Sobem, e vão-se distribuindo pelas barcas, entrando por último os pescadores: Pedro e um empregado vão para onde está Jesus, João e André vão para a outra barca, Tiago e o outro empregado vão para a terceira.

 Para onde vamos, Mestre –pergunta Pedro.

 Para Tariqueia. Foi onde desembarcamos1 depois do milagre dos gerasenos. Agora não há pântano. Tudo está tranquilo.

Pedro chega ao alto mar, e os outros, com suas barcas atrás, cada uma no sulco deixado pela outra. Ninguém fala. Somente quando já estão ao largo e Cafarnaum desaparece no clarão do luar, que uniformiza tudo com a sua poeira de prata, Pedro, como se estivesse conversando com a barra do timão, diz:

 É disto que eu gosto. Amanhã nos procurarão, minha velha, e graças a ti não nos encontrarão.

 Com quem falas, Simão? –pergunta Bartolomeu.

 À barca. Não sabes que para os pescadores ela é como uma esposa? Quanto eu já falei com ela! Mais do que com Porfíria, Mestre!… Está bem coberto o menino? De noite há orvalho no lago…

 Sim. Escuta, Simão. Vem cá. Eu preciso te falar…

Pedro entrega a barra do timão ao grumete, e vai a Jesus.

 Eu falei Tariqueia. Mas lá bastará que estejamos depois do sábado, para saudar de novo Manaém. Não poderias encontrar um lugar perto de lá, para ficarmos em paz?

 Oh! Mestre! Em paz nós, ou as barcas também? Para elas, precisamos estar em Tariqueia, ou então, nos portos da outra margem. Mas, se é para nós, basta que Tu te embrenhes do lado de lá do Jordão, onde só os animais te poderão descobrir… ou talvez algum pescador, que esteja vigiando as redes lançadas aos peixes. Podemos deixar as barcas em Tariqueia. Lá chegaremos ao raiar do dia, e iremos diretamente para o outro lado do vau.

 Está bem. Faremos assim…

 Também a Ti o mundo causa nojo, não é? Preferes os peixes e os pernilongos, não é? Tens razão.

 Eu não tenho nojo. Não é preciso tê-lo. Mas eu quero evitar que vós façais escândalos, e quero me consolar convosco nestas horas do sábado.

 Meu Mestre!

Pedro o beija na fronte e lá se vai, enxugando uma grande lágrima, que quer mesmo vir para fora, e já lhe vinha descendo pela barba. Ele volta ao seu timão e se dirige para o sul, com firmeza, enquanto a claridade do luar já vai diminuindo, pois o satélite já vai sumindo atrás de uma colina, tirando seu grande rosto da vista dos homens, mas deixando ainda o céu esbranquiçado por sua luz, e o lago prateado nas praias do lado do oriente. O resto é tudo um anil escuro, que mal se distingue à luz do farol da proa.

1 desembarcamos, em 187.1.


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