435. 435. Início do terceiro sábado em Nazarée a chegada de Pedro com outros apóstolos.


13 de maio de 1946.

435.1Sábado é o repouso. Isto já se sabe. Repousam os homens e também descansam as ferramentas, cobertas ou depositadas em boa ordem em seus lugares.

Agora que o pôr de sol vermelho desta sexta-feira de verão está para terminar, eis que Maria, sentada à sombra de uma grande macieira, ao lado do seu tear menor, levanta-se e o cobre e, com a ajuda de Tomé, o leva para o seu lugar dentro de casa e convida Áurea que, sentada em um escabelinho a seus pés, estava cosendo, com uma mão ainda inexperiente, as vestes, que lhe foram dadas pelas romanas e readaptadas às suas medidas por Maria, a executar o trabalho com ordem e tornar a pôr tudo sobre a mesa do seu quartinho. E, enquanto Áurea vai executando o seu trabalho, a Mãe entra com Tomé no grande salão-oficina em que Jesus, junto com Zelotes, se ocupa em colocar nos seus lugares os serrotes, as plainas, as chaves de fenda, os martelos, as latinhas de verniz e de cola e a varrer dos bancos e do chão a serragem e as maravalhas que sobre eles se acumularam. Do trabalho até agora feito não sobra mais do que dois eixos, colocados no canto e apertados pelo torno, até que a cola endureça nos encaixes (talvez vá ser uma futura gaveta), e um escabelo já envernizado pela metade, além do cheiro penetrante- das tintas ainda frescas.

435.2Entra também Áurea, que vai inclinar-se diante do trabalho de buril de Tomé, e o admira, perguntando, com curiosidade e instinto feminino, para que serve e se para ela ficaria bem.

– Bem te ficaria, mas o melhor para ti é que sejas boa. Pois estes são ornamentos que só fazem parecer bonito o corpo, mas que para o espírito não servem. Pelo contrário, sendo eles um estímulo para o coquetismo, fazem mal ao espírito.

– E, então, para que o fazes? –pergunta com lógica a menina–. Queres, então, fazer mal a um espírito?

Tomé, sempre complacente, sorri diante daquela observação, e diz:

– Faz mal o que é supérfluo a um espírito fraco, mas a um espírito forte o ornamento continua a ser nem mais nem menos do que ele é: um alfinete necessário para conservar em seu lugar as roupas.

– Para quem é que o estás fazendo? Para tua esposa?

– Não tenho esposa e nunca a terei.

– Então é para tua irmã.

– Ela tem mais deles do que os de que precisa.

– Então, é para tua mãe.

– Pobre velhinha. Que queres que ela vá fazer com ele?

– Mas ele é para uma mulher…

– Sim. A qual, porém, não és tu.

– Oh! Eu nem penso nisso… E, além disso, agora que tu disseste que essas coisas assim fazem mal ao espírito fraco, eu não o quereria. Eu tirarei até aquelas orlas de minha veste. Não quero fazer mal ao que é do meu Salvador.

– Parabéns, menina. Vê bem: fizeste agora um trabalho mais bonito do que o meu com este teu desejo.

– Oh! Tu o dizes, porque és bom!

– Eu o digo, porque é verdade! 435.3Vê bem: eu peguei este bloco de prata e o dividi em folhas, pouco a pouco, à medida que ia precisando delas. E depois, com a ferramenta, ou melhor, com muitas ferramentas, o fui dobrando assim. Mas preciso fazer ainda o mais importante: reunir as partes de um modo natural. Por enquanto, completas já, estão somente estas duas folhinhas, com sua florzinha unida a elas.

E Tomé ergue, por entre os seus grossos dedos, um leve caule de lírio, que ele apanhou, na placa, que imita com perfeição as naturais. E faz um certo efeito de luz ver-se aquele brinquedo brilhando com o brilho puro da prata, por entre os dedos robustos e bronzeados do ourives.

– Oh! Que bonito! Havia tantos desse na ilha e nos deixavam colhê-los, antes que o sol se levantasse. Porque nós, louras, nunca devíamos tomar sol, para termos melhor preço. As morenas, porém, eles faziam que ficassem de fora, ao sol, até que elas se sentissem mal, para que ficassem mais morenas. As… Como é que se diz vender uma coisa, dizendo que é uma, quando ela é outra?

– Ora! Com engano… com trapaça… não sei.

– Aí está! Eles as enganavam, dizendo que eram árabes ou do Alto Nilo, de perto das nascentes do rio. A uma delas chegaram a vender como descendente da rainha de Sabá.

– Nada menos! Mas não as enganavam. Enganavam, sim, aos compradores. Então se diz: faziam trapaça. Que raça de gente! Uma bela surpresa para o comprador seria quando ele visse que a falsa etíope ia ficando mais clara!

– Eu estou entendendo. Mas o mais triste não está na trapaça feita contra o comprador. Está na sorte daquelas meninas.

– É verdade. Almas profanadas para sempre. Perdidas…

– Não. Deus pode sempre intervir…

– Para mim, Ele o fez. Tu me salvaste! –diz Áurea, virando-se para o Senhor, com seu olhar claro, sereno.

E termina:

– E eu estou muito feliz! –e não podendo abraçar a Jesus, vai cingir com um braço Maria, inclinando sua cabeça loura sobre o ombro da Virgem, em um gesto de confiante amor.

As duas cabeças louras se destacam em suas diferentes esfumaturas sobre a parede escura. E fica um grupo encantador! Mas Maria pensa na ceia. E elas se separam, e lá se vão.

435.4 – Pode-se entrar? –diz à porta, que do salão vai para a rua, a voz meio rouca de Pedro.

– É Simão. Abri!

– Simão? Não foi capaz de ficar fora –diz Tomé rindo-se, enquanto corre para abrir.

– Simão! Podia-se prever… –diz, sorrindo, o Zelotes.

Mas não é só o rosto de Pedro que está enquadrado no vão da porta. Aí estão os rostos de todos os apóstolos do lago, todos, menos Bartolomeu e Iscariotes. E, com eles, já estão Judas e Tiago de Alfeu.

– A paz esteja convosco! Por que viestes com este calor todo?

– Porque… não podíamos mais ficar fora. Há duas semanas e meia, sabes? Procura compreender! Duas semanas e meia que não te vemos!

E Pedro parece estar dizendo: “Dois séculos! Que enormidade!”

– Mas Eu vos tinha dito que esperásseis Judas todos os sábados.

– Sim. Mas passaram dois sábados e ele não veio… e no terceiro, viemos nós. Lá ficou Natanael que não está muito bem. E o receberá, se Judas for a ele… Mas certamente ele lá não vai. Passando por Tiberíades para vir até nós, antes de ir para o grande Hermon, Benjamim e Daniel nos disseram tee-lo visto em Tiberíades e, então… Eu te contarei depois… –diz Pedro, que ficou parado no que estava dizendo, por causa de uma puxada em sua roupa que seu irmão lhe deu.

– Está bem. Tu me dirás. Mas vós estáveis tão desejosos de um repouso, e agora que podeis repousar, ficais dando essas corridas! Quando foi que partistes?

– Ontem à tarde. O lago estava um espelho. Desembarcamos em Tariqueiaeia para evitar Tiberíades e para… não nos encontramos com Judas…

– Por quê?

– Porque, Mestre, queríamos gozar da tua presença em paz.

– Sois uns egoístas!

– Não. Ele tem as suas alegrias… Mas eu não sei quem lhe dá tanto dinheiro para ele ir gozar com… Sim, eu entendi, André. Mas não me puxes mais a roupa com tanta força. Eu só tenho esta e tu sabes disso. Queres fazer-me sair daqui com a roupa toda rasgada?

André fica corado. Os outros se riem. Jesus sorri.

– Está bem. Nós descemos em Tariqueiaeia também porque, aí está, não me censures… será o calor, será porque longe de Ti vou ficando pior, será porque pensar que ele se separou de Ti para ir unir-se a… Afinal, para de ficar puxando minha manga. Vê bem que eu sei parar em tempo!… Portanto, Mestre, será por tantas coisas… eu não queria pecar, mas, se eu visse Judas, o faria. E, então, dirigi-me para Tariqueiaeia. E, ao romper do dia, pusemo-nos a caminho.

– Passastes por Caná?

– Não. Não queríamos prolongar o caminho… Mas assim mesmo ele ficou longo do mesmo jeito. E os peixes iam-se embora… Nós os havíamos dado a uma casa em troca de abrigo por algumas horas, as mais quentes. E partimos na metade do tempo, à hora nona… Um forno!

– Podíeis ter-vos poupado isso. Pois logo Eu teria ido…

– Quando?

– Depois que o sol saiu do leão.

– E te parece que pudéssemos ficar tanto tempo sem Ti? Mil calores como este nós temos desafiado e então viemos ver-te. És o nosso Mestre! O nosso adorado Mestre!

E Pedro se abraça com o seu reencontrado Tesouro.

– E quem haveria de pensar que, quando estamos juntos, não fazeis outra coisa senão lamentar-vos do tempo e do comprimento do caminho…

– Porque nós somos uns estultos. Porque, enquanto estamos juntos, não compreendemos bem o que Tu és para nós… mas eis-nos aqui. Agora já temos lugar. Uns na casa de Maria de Alfeu, outros na de Simão de Alfeu, outros na de Ismael, outros na de Aser, e outros na do Alfeu, perto daqui. Agora vamos repousar e amanhã tornaremos a partir, mais contentes.

435.5 – No sábado passado, tivemos aqui Noemi e Mirta que vieram ver de novo a menina –diz Tomé.

– Está vendo como, logo que pode, ela vem aqui?

– Sim, Pedro. E vós, que andastes fazendo nestes últimos tempos?

– Temos pescado… envernizado as barcas… remendado as redes… Agora Marziam sai muitas vezes com os empregados e isso faz que diminuam as repreensões injuriosas de minha sogra contra esse grande vadio que deixa a mulher morrendo de fome, depois de ter trazido para ela um bastardo. E pensai bem que Porfíria nunca esteve tão bem como agora que ela tem Marziam no coração e… em tudo mais. As pequenas ovelhas, de três passaram a ser cinco, e logo já serão mais… Já não é pouca coisa para uma família pequena como a nossa! E Marziam, com a pesca, supre tudo o que eu não faço mais, a não ser raramente. Mas aquela mulher tem uma língua viperina tanto quanto a sua filha a tem de uma pomba… Mas Tu também tens trabalhado, pelo que vejo…

– Sim, Simão. Temos trabalhado. Todos. Os meus irmãos na casa deles e Eu, com estes, na minha. Para fazer contentes e descansadas as nossas mães.

– Sim! Nós também –dizem os filhos de Zebedeu.

– E eu tenho a mulher, que trabalha em colmeias e vinhedos –diz Filipe.

– E tu, Mateus?

– Eu não tinha ninguém para fazer feliz, e então fiz feliz a mim mesmo, escrevendo as coisas que mais me agradam, ao recordar-me delas…

– Oh! Então te contaremos a parábola do verniz. Fui eu que a provoquei como um pintor muito inexperiente… –diz Zelotes.

– Mas logo aprendeste o ofício. Olhai como ele lixou bem esta cadeira –diz Tadeu.

O acordo entre eles é perfeito. E Jesus, com um rosto mais repousado, desde quando está em sua casa, solta centelhas de alegria por ter ao redor de si os seus caros apóstolos.

435.6 Áurea vem entrando e pára, surpresa, na soleira.

– Oh! Ei-la aí. Mas olha só como está bem! Parece até uma pequena hebreiaeia, vestida assim!

Áurea fica corada e não sabe o que dizer. Mas Pedro é tão benevolente e paternal que depois ela se contém e diz:

– Eu me esforço para chegar a ser… e, com a minha Mestra, espero sê-lo logo… Mestre, vou dizer à tua Mãe que estes estão aqui…

E se retira rapidamente.

– É uma boa menina –declara Zelotes.

– Sim. Eu gostaria que ela ficasse conosco em Israel. Bartolomeu perdeu uma boa ocasião e uma alegria ao rejeitá-la… –diz Tomé.

– Bartolomeu é muito apegado às fórmulas –desculpa-o Filipe.

– É o seu único defeito –observa Jesus.

Maria vem entrando.

– A paz esteja contigo, Maria –dizem os que vieram de Cafarnaum.

– A paz esteja convosco… Eu não sabia que estáveis aqui. Agora, vou providenciar… Enquanto isso, vinde…

– Lá de casa virá nossa mãe com diversos pratos, e Salomé também. Não te preocupes, Maria –diz Tiago de Alfeu.

– Vamos para a horta. Está levantando-se a aragem da tarde e nos sentiremos bem! –diz Jesus.

E todos entram na horta e vão-se sentando aqui e ali, em fraterna conversa, enquanto os pombos estão arrulhando e estão disputando os últimos grãos que Áurea jogou no chão. Depois é a rega dos canteiros floridos, oferecendo suas utilidades nas belas verduras tão necessárias ao homem. Os apóstolos querem fazer isso com alegria, enquanto Maria de Alfeu, que acaba de chegar, em companhia de Áurea e de Maria, preparam a refeição para os hóspedes. E o bom cheiro das viandas, que estão sendo refogadas, se mistura ao da terra regada, assim como aos pios dos passarinhos que disputam na briga um bom lugar por entre as folhas viçosas da horta e se misturam às vozes baritonais ou agudas dos apóstolos…