240. 240. Em Betsaida, com Porfíria e Marziam,que ensinam a Madalena a oração de Jesus.


1º de agosto de 1945.

240.1Voltou o tempo sereno sobre o Mar da Galileia. Tudo agora está até mais bonito do que antes da tempestade, porque tudo está de novo limpo da poeira. A atmosfera está de uma claridade perfeita, e o olho, observando o firmamento, tem a impressão de que ele ficou mais alto e mais leve… um velário quase transparente, estendido entre a terra e os fulgores do Paraíso. O lago espelha este azul perfeito e se ri, tranquilo, com suas águas cor de turquesa.

É um início de aurora. Jesus, com Maria, Marta e Madalena, sobe para a barca de Pedro. Com Ele estão, além de Pedro e André, também Zelotes, Filipe e Bartolomeu. Mateus, Tomé, os primos de Jesus e Iscariotes estão na outra barca de Tiago e João. Rumam direto para Betsaida. É um trajeto breve, e o vento está a favor. Por isso, o percurso se faz em poucos minutos.

Quando já estão para chegar, Jesus diz a Bartolomeu e a Filipe, este inseparável daquele:

 Ireis avisar as vossas mulheres. Hoje Eu irei à vossa casa.

E fita os dois de um modo significativo.

 Assim será, Senhor. Não concedes nem a mim, nem a Filipe que Te tenhamos por hóspede?

 Não pararemos aqui, senão até o pôr do sol, pois Eu não quero privar Simão Pedro da alegria de estar com Marziam.

A barca já está passando rente pela beira, e para. Descem, e Filipe e Bartolomeu e se afastam dos companheiros, para irem ao povoado.

 Aonde irão eles dois? –pergunta Simão ao Mestre, que desceu por primeiro e está ao lado dele.

 Foram avisar as mulheres deles.

 Eu vou, então, também avisar à Porfíria.

 Não é preciso. Porfíria é tão boa, que não é necessário prepará-la para nada. Seu coração só tem doçura para dar.

Simão Pedro fica contente, por ouvir aquele louvor à sua esposa, e não diz mais nada.

Nesse ínterim, já desceram as mulheres, para as quais foi colocada uma tábua, a fim de servir de prancha, e agora estão indo para a casa de Simão.

240.2Quem as vê por primeiro é Marziam, que está saindo com as suas ovelhinhas para levá-las a pastar a erva fresca, sobre as primeiras encostas de Betsaida e, com um grito de alegria, dá a notícia, correndo para ir refugiar-se no peito de Jesus, que se inclina para beijá-lo. Depois, ele vai a Pedro. Sai correndo para lá também Porfíria, com as mãos enfarinhadas, e se inclina para saudar.

 A paz esteja contigo, Porfíria. Tu não nos esperavas tão cedo. Mas Eu quis trazer-te minha Mãe e duas discípulas, além de minha bênção. Minha Mãe estava desejando ver o menino. E ele já está nos braços dela. As discípulas desejavam conhecer-te… Esta é a mulher de Simão. A discípula boa e silenciosa, ativa mais do que muitas outras, em sua obediência. Estas são Maria e Marta de Betânia. Duas irmãs. Querei-vos bem.

 Aqueles que me apresentas são para mim mais queridos do que se fossem meus parentes, Mestre. Vem. A minha casa fica mais bonita, cada vez que nela pões os pés.

Maria se aproxima sorrindo, e abraça Porfíria, dizendo-lhe:

 Eu vejo que em ti está verdadeiramente viva a mãe. O menino cresceu e está feliz. Obrigada.

 Oh! Mulher abençoada mais que qualquer outra! Eu sei que por ti é que eu tive a alegria de ser chamada mamãe. E tu ficas sabendo que não te darei o desgosto de deixar de sê-lo, com tudo o que de melhor houver em mim. Entra, entra com as irmãs…

240.3Marziam fica olhando curiosamente para Madalena. Por sua cabeça passam muitos pensamentos, e, enfim, ele diz:

 Mas… em Betânia tu não estavas…

 Não estava lá. Mas agora lá estarei sempre –diz Madalena, enrubescida, e esboçando um sorriso.

E acaricia o menino, dizendo:

 Ainda que nos conheçamos só agora, tu me queres bem?

 Sim, porque és boa. Tu choraste, não é mesmo? É por isso que és boa. E te chamas Maria, não é verdade? Minha mãe também se chamava assim e era boa. E todas as mulheres que se chamam Maria são boas –e assim termina, para não entristecer Porfíria e Marta–, mas há boas também entre aquelas que têm outro nome. Tua mamãe, como se chamava?

 Euquéria… e era muito boa –e duas grandes lágrimas caem dos olhos de Maria de Magdala.

 Estás chorando porque ela morreu? –pergunta o menino e a acaricia, tocando em suas bonitas mãos, cruzadas sobre a veste escura, certamente uma veste de Marta, adaptada para ela, pois pode-se ver que a aba foi abaixada.

E ele acrescenta:

 Mas não precisas chorar. Afinal, não estamos sozinhos, sabes? As nossas mamães estão sempre perto de nós: Jesus diz assim. E são como anjos da guarda. Jesus diz isso também. E, se formos bons, elas vêm ao nosso encontro, quando morremos e então, subimos para Deus nos braços da mamãe. Isso é verdade, sabes? Foi Ele que disse.

Maria de Magdala dá um abraço apertado no seu pequeno consolador dizendo:

 Reza, então, para que eu me torne boa assim.

 Mas tu não o és? Com Jesus só andam os que são bons…E, quando ainda não o somos bem, aprendemos a sê-lo, para aprendermos a ser os discípulos de Jesus, porque não se pode ensinar o que não se sabe. Não se pode dizer: “Perdoa”, se primeiro nós não perdoamos. Não se pode dizer Deves amar ao teu próximo, se antes mão o amamos. 240.4Tu já sabes a oração de Jesus?

 Não.

 Ah! É verdade. Estás há pouco tempo com Ele. É uma oração muito bonita, sabes? Diz todas estas coisas. Escuta como é bonita.

E Marziam vai dizendo, devagar, o “Pai-nosso”, com sentimento e fé.

 Como tu a sabes bem! –diz, admirada, Maria de Magdala.

 Ela me foi ensinada por minha mãe de noite e pela Mamãe de Jesus de dia. E, se quiseres, eu te ensinarei. Queres vir comigo? As ovelhinhas estão balindo. Estão com fome. Agora eu vou levá-las ao pasto. Vem comigo. Eu te ensinarei a rezar e te tornarás boa –e a segura pela mão.

 Mas, eu não sei se o Mestre quer…

 Vai, vai, Maria. Tens por amigo um inocente e cordeirinhos. Então, vai. Tranquilamente…

Maria de Magdala sai com o menino e é vista, quando vai-se afastando dali, precedida pelas três ovelhinhas. Jesus fica olhando… e todos os outros ficam olhando.

 Pobre de minha irmã! –diz Marta.

 Não tenhas dó dela. É uma flor que reergue o pedúnculo, depois da tempestade. Estás ouvindo?… Ela ri… A inocência conforta sempre.