92. 92. Lição aos discípulos junto à casa de Nazaré.
30 de janeiro de 1945.
92.1 Jesus instrui ainda os seus discípulos, que levou para a sombra de uma enorme nogueira que do seu lugar se inclina, sobranceira à horta de Maria, estendendo seus ramos sobre a própria horta. O dia está ameaçando tempestade, e vem vindo um temporal. Talvez por isso Jesus não se afastou muito da casa. Maria vai e vem, entre a casa e a horta, e, a cada vez que o faz, levanta a cabeça e sorri para o seu Jesus, que está sentado sobre a relva, junto ao tronco, e circundado pelos seus discípulos.
Jesus diz:
– Ontem Eu vos disse que tudo o que uma palavra imprudente havia provocado iria servir como lição hoje. Eis a lição.
Pensai bem, e que isto vos sirva de regra para agir, pois nada do que está escondido ficará sempre assim. Ou será Deus que tomará o cuidado de tornar conhecidas as obras de um filho seu através de seus sinais milagrosos, ou através das palavras dos justos, que reconhecem os méritos de um irmão. Ou, então, será satanás que, pela boca de algum imprudente — para não dizer mais nada — faz revelações sobre assuntos que os bons preferiram silenciar, a fim de não incitar a falta de caridade, ou alterar a verdade de modo a criar confusão nos pensamentos. Por isso, chega sempre um momento em que o que está oculto se torna conhecido.
Agora, tende isto sempre presente em vosso pensamento. Para que vos sirva de freio contra o mal, sem, aliás, a tentação de divulgar qual é o bem que estais fazendo. Quantas vezes alguém age por bondade, verdadeira bondade, mas bondade humana! E, sendo humana, isto é, não sendo de perfeita intenção, deseja que seja conhecida pelos homens e espuma e se encoleriza ao ver que continua ignorado, estudando um meio de fazê-lo conhecido. Não, amigos. Não é assim. Fazei o bem, e entregai-o ao Senhor eterno. Oh! Ele saberá, se for para o vosso bem que assim seja, tornar o que fizestes conhecido também pelos homens. Se ao invés, isso pudesse anular o vosso agir de justos, sob um transbordamento de orgulhosa complacência, aí, então, o Pai o conserva secreto, reservando a si render (o dia) a glória no Céu, à vista de toda a Corte celeste.
92.2 E quem vê um ato ser praticado, nunca o julgue pelas aparências. Não acuseis nunca, porque as ações dos homens podem ter aspectos feios ocultando outros motivos. Um pai, por exemplo, pode dizer a um filho preguiçoso e beberrão: “Vai-te embora”, e isso poderá parecer uma dureza e uma negação dos deveres paternos. Mas nem sempre é. Aquela sua palavra “Vai-te embora” pode estar temperada com um pranto bem amargo, mais do pai do que do filho, e é acompanhado pelas palavras e pelo desejo de que se verifiquem: “Poderás voltar, quando te arrependeres de tua preguiça.” É também justiça para com os outros filhos, porque impede que um beberrão gaste nos vícios o que é dos outros, além do que é dele. Ao invés, será má, se aquela palavra for dita por um pai que está em culpa diante de Deus e de seus filhos, porque no seu egoísmo, ele se julga mais do que Deus e acha que tem direito até sobre o espírito do filho. Não. O espírito é de Deus, e nem Deus violenta a liberdade que o espírito tem de doar-se, ou não. Para o mundo, os atos parecem iguais. Mas, como é diferente um do outro! O primeiro é justiça, o segundo é arbitrário e culpável. Por isso, não julgues nunca ninguém.
92.3 Ontem Pedro disse a Judas: “Quem é que foi teu mestre?” Não o diga mais. Ninguém acuse os outros do que vê em alguém ou em si. Os mestres têm uma mesma palavra para todos os alunos. Como é, pois, que dez alunos se tornam justos, e dez se tornam maus? É porque cada um conserva, de sua parte, aquilo que tem no coração, e isso pesa para o lado do bem, ou para o lado do mal. Como pode, então, o mestre ser acusado de ter ensinado mal, se o bem que ele ensina fica anulado pelo demasiado mal que reina num coração? O primeiro fator de êxito está em vós. O mestre trabalha o vosso eu. Mas, se vós não sois suscetíveis ao desejo de melhorar, que é que o mestre pode fazer? Que sou Eu? Em verdade vos digo que nunca haverá um mestre mais sábio, paciente e perfeito do que Eu. No entanto, eis que, também a algum dos meus não faltará quem diga: “Mas, que mestre tiveste?”
92.4 Não vos excedais nunca, ao julgar, por motivos pessoais. Ontem Judas, por amor excessivo à sua região, julgou ver em Mim injustiça para com ela. Frequentemente o homem se submete a esses elementos imponderáveis, que são o amor à pátria, ou o amor a uma ideia, e se desvia como um alce desorientado de sua meta. A meta é Deus. É preciso ver tudo em Deus, para ver bem. Não colocar a si mesmo ou outra coisa acima de Deus. E, se de fato alguém erra — ó Pedro! Ó todos vós! — não sejais intransigentes. O erro que tanto vos irrita, quando cometido por um de vós, não o tereis cometido vós mesmos também? Estais seguros de que não? E, suposto que não o tenhais nunca cometido, que é que vos resta fazer? Agradecer a Deus, e basta. E vigiar. Vigiar muito. Continuamente. Para não cairdes amanhã naquilo que até hoje conseguistes evitar. Estais vendo? Hoje o céu está escuro, por causa da chuva de pedras que está para cair. E nós, perscrutando o céu, dissemos: “Não nos afastemos de casa.” Pois bem, se assim sabemos julgar as coisas que, por mais perigosas que sejam, são como um nada em comparação aos perigos de perder a amizade de Deus pelo pecado, por que não sabemos julgar onde pode estar o perigo para a alma?
92.5 Olhai, eis ali a minha Mãe. Podeis pensar que haja Nela alguma tendência para o mal? Pois bem, posto que o amor a impele a seguir-me, Ela deixará sua casa, quando o meu amor o quiser. Mas esta manhã, depois de me pedir outra vez — sendo Ela, a minha Mestra, me dizia: “Entre os teus discípulos esteja também tua Mãe, Filho. Eu quero aprender a tua doutrina”, Ela que possuiu esta doutrina em seu seio e, antes ainda, em seu espírito, por um dom dado por Deus à futura Mãe do seu Verbo encarnado — disse: “Contudo… Julga Tu se eu posso vir sem perder minha união com Deus, sem que o que é do mundo, e que Tu dizes ter fedores penetrantes, possa vir corromper este meu coração, que foi, e é, e quer ser só de Deus. Eu me examino, e, tanto quando sei, parece-me que o possa fazer, Por que… (e aqui, sem saber, deu-se o mais alto louvor) porque não vejo diferença entre aquela minha cândida paz, de quando eu era uma flor do Templo, e esta que tenho em mim agora, que já faz mais de seis lustros que sou dona de casa. Mas eu sou uma serva indigna, que mal conhece, e pior ainda julga, as coisas do espírito. Tu és o Verbo, a Sabedoria, a Luz. E podes ser luz para a tua pobre Mãe, que aceita não te ver mais, sem deixar de ser grata ao Senhor.” E Eu tive que dizer-lhe, com um coração que tremia de admiração: “Mãe, Eu te digo: Tu não serás corrompida pelo mundo. Mas o mundo será perfumado por ti.”
Minha Mãe, vós o estais ouvindo, soube ver os perigos de viver no meio do mundo, pois havia perigos até para Ela. E vós, homens, não
os veríeis? 92.6Oh! verdadeiramente satanás está de atalaia. E somente os que vigiam haverão de vencer. Os outros? Perguntais pelos outros? Aos outros será aquilo que está escrito.
– Que é que está escrito, Mestre?
– “Caim saltou sobre Abel e o matou. E o Senhor disse a Caim: ‘Onde está o teu irmão? Que fizeste dele? A voz do seu sangue está gritando a Mim. Por isso, serás maldito sobre a terra, que conheceu o sabor do sangue humano pela mão de um irmão que abriu as veias de seu irmão, e não cessará mais esta horrível fome da terra pelo sangue humano. E a terra, envenenada por esse sangue, será para ti mais estéril do que uma mulher que a idade dessecou. E tu terás que fugir, procurando paz e pão. E não os encontrarás. O teu remorso te fará ver sangue em cada flor e erva, nas águas e nos alimentos. O céu te parecerá de sangue; assim como o mar, e virão a ti três vozes do céu, da terra e do mar: a de Deus, a do Inocente e a do Demônio. E, para não ouvi-las, darás morte a ti mesmo’.”
– O Gênesis não diz assim1 –observa Pedro.
– Não. Não o Gênesis. Eu o digo. E não erro. Eu o digo aos novos Cains dos novos Abeis. Àqueles que, por não vigiarem sobre si mesmos e sobre o Inimigo, se tornarão uma só coisa com ele!
– Mas entre nós não haverá desses, não é verdade, Mestre?
– João, quando o Véu do Templo for rasgado, uma grande verdade brilhará, escrita sobre toda Sião.
– Qual, meu Senhor?
– Que os filhos das trevas em vão estiveram em contato com a Luz. Lembra-te disto, João.
– Serei eu, Mestre, um filho das trevas?
– Não. Tu não. Mas lembra-te disto, para explicar o delito ao mundo.
– Que delito, Senhor? O de Caim?
– Não. Aquele foi o primeiro acorde do hino de satanás. Eu falo do delito perfeito. Do inconcebível delito. Aquele que, para se compreender, precisa ser olhado através do sol do divino Amor, e através da mente de satanás. Porque só o Amor perfeito e o perfeito ódio, só o infinito Bem e o infinito Mal é que podem explicar tal oferta e tal pecado. Ouvistes? Parece que satanás o está ouvindo, e urrando com o desejo de levar isso logo à execução. Vamos, antes que a nuvem se rompa em raios e chuva de pedras.
E descem correndo colina abaixo, pulando dentro da horta de Maria, enquanto a tempestade arrebenta veemente.
1 O Gênesis não diz assim, referindo-se a Gênesis 4,8-16.