565. 565. Samuel é perturbado por Judas de Keriot,que não compreende a natureza do sofrimento salvífico.Lição das abelhas para os operários de Deus.
10 de fevereiro de 1947.
565.1Jesus, sozinho e absorto, vai indo lentamente para o ponto mais cerrado do bosque, que fica a oeste de Efraim. Da torrente vem subindo um ruído produzido pelas águas e das árvores descem os cantos dos passarinhos. A luz de um sol primaveril e forte é suave por baixo do enredo dos ramos, e silencioso é o caminho por cima da grama, que está em seu pleno viço. Os raios solares desenham um tapete móvel com riscos ou estrias douradas sobre o verde das ervas, e uma ou outra flor ainda coberta de orvalho, formam um tapete dourado cheio de disquinhos de luz, enquanto que tudo ao redor é sombra, brilha como se suas pétalas fossem escamas preciosas.
Jesus sobe, indo até um despenhadeiro que se protende como um balcão sobre o vazio que está por baixo. Um balcão sobre o qual se levanta um colossal pé de carvalho, do qual pendem ramos flexíveis de amoras selvagens e de rosas caninas, heras e clematites que, não encontrando lugar ou apoio no local onde nasceram, por ser ele apertado demais para sua exuberante vitalidade, penduram-se no ar e ficam parecendo uma cabeleira desalinhada e solta, e se estendem, esperando poderem agarrar-se a alguma coisa. E Jesus está lá no alto do despenhadeiro. Ele se dirige para a ponta mais alongada, afastando-se do enredo das moitas. Um bando de passarinhos foge para longe e voam, dando gritos de medo.
565.2Jesus para, e fica observando o homem que foi na frente dele lá para cima e que está de bruços, quase no fim do despenhadeiro, com os cotovelos apoiados no chão, o rosto apoiado nas mãos e olhando por cima do vazio, para Jerusalém. O homem é Samuel, o ex-aluno de Jônatas ben Uziel. Está pensativo. Suspira. Balança a cabeça… Jesus sacode uns galhos para chamar a atenção dele e, vendo que foi inútil sua tentativa, apanha uma pedra no meio da grama e a faz rolar pela vereda abaixo. O rumor da pedra, saltando pela encosta abaixo, chama a atenção do jovem, que se vira surpreso e diz:
– Quem é que esta aí?
– Sou Eu, Samuel. Tu me precedeste em um dos meus lugares preferidos de oração –diz Jesus, mostrando-se, ao sair de detrás do tronco robusto do carvalho, que fica no fim da trilha. E Ele o faz como se estivesse chegando naquele momento.
– Oh! Mestre! Isso me desagrada… Mas eu te deixarei o posto livre imediatamente –diz ele, levantando-se depressa e apanhando o manto que havia tirado e estendido no chão, por baixo de si.
– Não. Por quê? Aqui há lugar para dois. E é tão belo este lugar. Tão isolado, solitário, suspenso no vazio, com tanta luz e um horizonte à nossa frente! Por que o queres deixar?
– Ora, a fim de deixar-te livre para rezar…
– E não poderemos fazê-lo juntos, e até meditar, falando um com o outro, elevando o espírito a Deus… esquecendo-nos dos homens e de suas faltas, pensando em Deus, nosso Pai e Pai bom de todos aqueles que o procuram e amam com boa vontade?
Samuel faz um gesto de surpresa, quando Jesus diz:
– Esquecendo os homens e suas faltas…
Mas não replica a nenhuma palavra. E torna a sentar-se.
565.3Jesus vai sentar-se ao lado dele na grama e lhe diz:
– Senta-te aqui. E fiquemos juntos. Olha como está límpido hoje o horizonte. Se tivéssemos olhos de águia, poderíamos ver a brancura dos povoados que estão sobre os cumes dos montes que circundam Jerusalém. E, quem sabe, talvez até veríamos um ponto que brilha como uma pedra preciosa no ar e que faria nosso coração bater: as cúpulas de ouro da Casa de Deus… Olha. Lá está Betel. Veem-se as casas brancas de lá e, mais adiante, para lá de Betel, está Berot. Que fina sutileza a dos antigos habitantes do lugar e dos seus vizinhos! Mas tudo redundou em bem, ainda que o engano nunca seja uma boa arma. Redundou em bem porque as colocou a serviço do verdadeiro Deus. Convém sempre perder as honras humanas para conquistar a vizinhança com o que é divino. Mesmo quando as honras humanas eram muitas e de valor, e a vizinhança com o divino é uma coisa humilde e desconhecida. Não é verdade?
– Sim, Mestre. Dizes bem. Assim aconteceu comigo.
– Mas tu estás triste, ainda que a mudança te devesse fazer feliz. Estás triste. Estás sofrendo. E te isolas. Olhas para os lugares que deixaste. Pareces um pássaro cativo que, fechado pelos ferros de sua prisão, olha com muita saudade para o lugar de seus amores. Eu não te digo que não faças isso. Tu és livre. Podes ir e…
– Senhor, será que Judas te falou mal de mim para me falares assim?
– Não. Judas não me falou. A Mim ele não falou. Mas a ti, sim. E tu estás triste por isso. E te isolas, desanimado, por isso.
– Senhor, se Tu sabes destas coisas sem que ninguém as tenha dito a ti, saberás também, então, que não é pelo desejo de deixar-te, pelo arrependimento de ter-me convertido, por saudade do passado… E nem mesmo por medo dos homens, por medo dos castigos deles, como quereriam insinuar, que eu estou triste. 565.4Eu estava olhando para lá. É verdade. Eu estava olhando para Jerusalém. Mas não com o desejo de voltar para lá. Eu digo: voltar para lá para ser o que era antes. Porque voltar para lá como um israelita que gosta de entrar na Casa de Deus e de adorar o Altíssimo, é certo que há em mim um desejo disso, como há em todos nós, nem eu acho que por isso me possas reprovar.
– Eu, em primeiro lugar, em minha dupla natureza, tenho amor àquele altar e gostaria de vê-lo rodeado de santidade, como convém. Como Filho de Deus, tudo o que é honra para Ele tem para Mim uma voz suave, e como Filho do homem, como israelita, e, portanto, como Filho da Lei, Eu vejo o Templo e o Altar como o lugar mais sagrado de Israel, o lugar no qual a nossa humanidade pode aproximar-se do Divino e perfumar-se com a aura que rodeia o trono de Deus. Eu não anulo a Lei, Samuel. Para Mim ela é sagrada, porque foi dada por meu Pai. Eu a aperfeiçoo e insiro as partes novas. Como Filho de Deus eu o posso fazer. Para isso me mandou o Pai. Eu venho para fundar o Templo espiritual da minha Igreja, contra o qual nem os homens nem os demônios prevalecerão. Mas as tábuas da Lei terão nele um lugar de honra. Porque elas são eternas, perfeitas, intocáveis. Aquilo de dizer: “Não faças isso, que é pecado”, e que está contido naquelas tábuas, que contêm em sua lapidária brevidade tudo aquilo de que se necessita para ser justos aos olhos de Deus, nada daquilo será anulado pela minha palavra. Pelo contrário! Eu também vos dou aqueles dez mandamentos. Somente Eu vos digo que os cumprais com perfeição, isto é, não pelo medo da ira de Deus sobre os transgressores, mas por amor ao vosso Deus que é Pai. Eu venho pôr a vossa mão de filhos na mão do vosso Pai. Há quantos séculos aquelas mãos estão separadas! E era a Culpa que as separava. Tendo vindo o Redentor, eis que o pecado deverá ser anulado. Caem as barreiras. Vós sois de novo os filhos de Deus.
– É verdade. Tu és bom e nos confortas. Sempre. E Tu sabes. Por isso, eu não te direi qual é a minha preocupação. 565.5 Mas eu te pergunto: por que é que os homens são tão perversos, e loucos, e estultos? Como, e que artes é que eles têm para poderem diabolicamente nos sugestionar para o mal? E como é que nós somos tão cegos para não vermos a realidade e crermos assim nas mentiras? E como é que podemos tornar-nos assim uns demônios? E persistir no mal até quando se está perto de Ti? Eu estava olhando para lá e pensando… Sim. Eu estava pensando em quantos rios de tóxicos saem de lá para perturbar os filhos de Israel. Eu pensava como é que a sabedoria dos rabis pode esposar-se com tanta maldade, que até altera as coisas a fim de arrastar para o engano. Eu pensava sobretudo nisso, porque…
Samuel, que vinha falando com entusiasmo, para e inclina a cabeça.
Jesus termina a frase:
– … porque Judas, meu apóstolo é como é, e causa sofrimento a Mim e aos que me rodeiam, ou os que vêm a Mim, como tu vieste. Eu sei. Judas tenta afastar-te daqui e te diz insinuações e escárnios…
– E não a mim somente. Sim. Ele envenenou a minha alegria de ter entrado pelo caminho da Justiça. E me envenena com tanta arte, que eu fico pensando estar aqui como um traidor de mim mesmo e de Ti. Dize-me por que é que eu me iludo em pensar que estou me tornando melhor, enquanto estarei sendo causa da tua ruína? Eu, de fato, não me conheço ainda… e poderia, ao contrariar-me com aqueles do Templo, ceder no meu propósito e ser… Oh! Antes eu o tivesse feito então, porque eu teria o atenuante de não te conhecer pelo que és, porque de Ti eu sabia somente o que se me dizia, para fazer de mim um maldito. Mas se eu o fizesse agora! Que maldição não deverá ser do traidor do Filho de Deus? Eu estava aqui… Pensativo, sim. Eu estava pensando em para onde fugir, a fim de pôr-me em lugar seguro contra mim mesmo e contra eles. Eu estava pensando em fugir para algum lugar longínquo, para ir unir-me aos da Diáspora… Longe, longe, a fim de impedir ao demônio de fazer-me pecar. Ele, o teu apóstolo, tem razão de desconfiar de mim. Ele me conhece, visto que conhece a nós todos, ao conhecer os Chefes… E tem razão em duvidar de mim. Quando ele diz: “Mas não sabes que Ele o diz a nós, que nós seremos fracos? Pensa nisso: nós, que somos os apóstolos e que estamos com Ele há tanto tempo. E tu, empestado como estás do velho Israel, tu que acabaste de chegar, e de chegar nestes momentos que nos fazem tremer, crês que vais ter forças para te conservares justo?”, ele tem razão.
E o homem, desconfortado, abaixa a cabeça.
565.6– Quantas tristezas sabem procurar para si mesmos os filhos dos homens. Em verdade, Satanás sabe fazer uso dessa tendência para aterrorizá-los de fato, e separá-los da Alegria, que vai ao encontro deles para salvá-los. Porque a tristeza do espírito, o medo do amanhã, as preocupações, são sempre armas que o homem põe nas mãos do seu adversário. E este o amedronta com os mesmos fantasmas que o homem cria para si. E há outros homens que, na verdade, se aliam a Satanás para ajudá-lo a amedrontar os irmãos. Mas, meu filho, não é verdade que há um Pai no Céu? Um pai que, assim como provê para este fio de erva nessa fenda no rochedo — esta fenda cheia de terriço, feita de tal modo que a umidade deixada pelas orvalhadas, escorrendo pela pedra lisa, vá se ajuntar naquele sulco tão estreito para que o fio da erva possa viver e florescer, produzindo esta folhinha tão pequena que não é menos admirável do que o grande sol, que resplende lá em cima: pois tanto um como o outro são obras perfeitas do Criador — um Pai que, como cuida do fio de erva que nasceu sobre o rochedo, poderá não ter cuidado com um filho seu que quer servi-lo firmemente? Oh! Na verdade Deus não decepciona os bons desejos do homem. Porque é Ele mesmo que os acende em vossos corações. A Ele, próvido e sábio, que cria as circunstâncias a fim de favorecer o desejo de seus filhos, não só para isso, mas para corrigir e aperfeiçoar um desejo de honrá-lo, que pode ter vindo por caminhos imperfeitos, transformando-o no desejo de honrá-lo por caminhos justos. Tu estavas entre estes. Acreditavas, querias, estavas convicto de estar prestando honra a Deus ao perseguir-me. O Pai viu que no teu coração não havia ódio a Deus, mas o desejo de dar glória a Deus, tirando do mundo Aquele que haviam dito ser inimigo de Deus e corruptor de almas. E, então, criou as circunstâncias para atender ao teu desejo de dar glória ao teu Senhor. E eis que tu agora estás entre nós. E poderás pensar que Deus te abandonaria, agora que te trouxe até aqui? Somente se tu o abandonares é que poderá dominar-te a força do mal.
– Eu não quero isso. É sincera a minha vontade! –proclama o homem.
– E, então, com que é que te preocupas? Com a palavra de um homem? Deixa-o falar. Ele pensa com o pensamento dele. Pensamento de homem é sempre imperfeito. 565.7Mas Eu proverei quanto a isso.
– Eu não quero que Tu o reproves. Para mim me basta que Tu me garantas que eu não pecarei.
– Eu te garanto. Não te acontecerá isso, porque tu não queres que te aconteça. Porque, vê bem, meu filho, não te adiantaria nada ir à Diáspora e até o fim da terra para preservar a tua alma do ódio para com o Cristo nem do castigo por esse ódio. Muitos em Israel não se mancharão com o delito, mas não serão menos culpados do que aqueles que me condenarão e executarão a sentença. Contigo Eu posso falar destas coisas. Porque tu já sabes que está tudo preparado para isso. Sabes os nomes e os pensamentos dos mais encarniçados contra Mim. Tu o disseste: “Judas nos conhece todos, porque conhece todos os Chefes.” Mas se ele vos conhece, também vós, menores,porque sois como estrelas menores ao lado dos planetas maiores, do mesmo modo vós sabeis o que está sendo feito, como é que está sendo e quem é que o está fazendo, os conluios que se tramam e quais são os meios planejados… Por isso Eu posso falar contigo. Não o poderia com os outros… O que Eu sei padecer e compadecer, outros não sabem…
– Mestre, mas como podes, sabendo tanto, ser assim… 565.8Quem vem pelo caminho?
Samuel se levanta para ver. E exclama:
– Judas!
– Sim, sou eu. Disseram-me que havia passado por aqui o Mestre e, em vez dele, encontro a ti. Volto atrás, então, deixando-te com os teus pensamentos –e se ri com aquela sua risadinha, que é mais lúgubre do que o lamento de uma coruja, de tão insincera que é.
– Aqui estou Eu também. Estarão me querendo no povoado? –diz Jesus, aparecendo por detrás das costas de Samuel.
– Oh! Tu! Então, estás em boa companhia, Samuel! E também Tu, Mestre…
– Sim. É sempre boa a companhia de alguém que abraça a justiça. Tu Me querias para estar Comigo, então. Vem. Há lugar para ti, como também para João, ccaso se ele estivesse contigo.
– Ele está lá embaixo, discutindo com outros peregrinos.
– Então, é preciso que Eu vá se há peregrinos.
– Não. Eles ficam aqui o dia todo de amanhã. João os está alojando nas nossas camas, durante a permanência deles. 565.9E ele está feliz por fazê-lo. Afinal, tudo o faz feliz. Vós vos pareceis muito. E eu não sei como fazeis para serdes sempre felizes e em todas as coisas… mais desagradáveis.
– A mesma pergunta que eu estava para fazer, quando tu chegaste –exclama Samuel.
– Ah! Sim. Então, tu também não te sentes feliz e ficas admirado de que outros, em condições ainda mais… difíceis do que as nossas, possam sê-lo.
– Eu não sou infeliz. Não falo por mim. Mas fico pensando de qual fonte poderia vir a serenidade do Mestre, que não ignora o seu futuro, e que, assim mesmo, não se perturba com coisa alguma.
– Ora! Vem das fontes do Céu! É natural! Ele é Deus. Talvez tu duvides disso? Um Deus poderá sofrer? Ele não estará acima da dor? O amor do Pai é para ele como… como um vinho inebriante. E um vinho inebriante é para Ele a convicção de que as suas ações… são a salvação do mundo. E depois… Pode Ele ter as reações físicas que nós, humildes homens, temos? Isso é contrário ao bom senso. Se Adão, inocente, não conhecia dor de espécie alguma, e também não teria conhecido nunca, se permanecesse inocente, Jesus o… Superinocente, a criatura… não sei se devo dizer assim, incriada, por ser um Deus, ou criada porque tem pais, oh! quantos “porquês” insolúveis para os futuros. Mestre meu! Se Adão está isento da dor por sua inocência, poder-se-á pensar que o Cristo tenha que sofrer?
Jesus está com a cabeça inclinada. E tornou a ir sentar-se sobre a grama. Seus cabelos lhe servem de véu para proteger o rosto. Por isso é que não vejo mais quais são as suas expressões.
Samuel, de pé na frente de Judas, que também está de pé, replica:
– Mas se Ele deve ser o Redentor, precisa realmente sofrer. Não te lembras de Davi e de Isaías?
– Eu me lembro deles! Eu me lembro! Mas eles, mesmo vendo a figura do Redentor, não viam o imaterial auxílio que o Redentor teria tido para ser, digamos, por exemplo, torturado, sem sentir dor por isso.
– E que dor? Uma criatura poderá amar a dor ou sofrer por ela com resignação, conforme a sua perfeição na justiça. Mas terá que senti-la sempre. Porque, caso contrário… se não a sentisse… já não seria dor.
– Jesus é o Filho de Deus.
– Mas não é um fantasma! É verdadeira Carne! E a carne sofre, quando é torturada. E é verdadeiro homem! O pensamento do homem sofre, quando ele é ofendido e feito objeto de desprezo.
– A união dele com Deus elimina nele essas coisas do homem.
565.10Jesus levanta a cabeça e diz:
– Em verdade Eu te digo, ó Judas, que Eu sofro e sofrerei como qualquer homem, e mais do que qualquer homem. Mas Eu posso ser feliz do mesmo modo, com uma felicidade santa e espiritual, a daqueles que obtiveram a libertação das tristezas da terra, porque abraçaram a vontade de Deus como a de uma única esposa. Eu o posso, porque superei o conceito humano, a inquietação pela felicidade, assim como os homens fazem uma ideia dela. Eu não vou atrás daquilo que, segundo o homem, constitui a felicidade, mas ponho a minha alegria justamente naquilo que é o oposto do que o homem procura como tal. Aquelas são coisas evitadas, desprezadas pelos homens, porque são tidas em conta como pesadas e dolorosas, e que para Mim representam o que há de mais doce. Eu não fico olhando a hora. Eu olho as consequências que a hora pode criar na eternidade. O meu episódio termina, mas seu fruto permanece. A minha dor tem um fim, mas os valores daquela minha dor não terminam. E que Eu faria de uma hora daquilo que chamam “ser feliz” sobre a terra, uma hora conseguida depois de uma procura durante anos e lustros seguidos, quando, depois, aquela hora não poderia vir comigo para a eternidade, como uma alegria, quando Eu tivesse que gozar dela sozinho, sem que participassem dela aqueles que eu amo?
– Mas se Tu triunfasses, nós, teus seguidores, teríamos parte na tua felicidade! –exclama Judas.
– Vós? E quem sois vós, em comparação com as multidões passadas, presentes e futuras, às quais a minha dor dará alegria? Eu estou vendo para lá da felicidade terrena. Eu lanço o meu olhar para além dela, no sobrenatural. Eu vejo a minha dor transformar-se em alegria eterna para uma multidão de criaturas. E abraço a dor como a maior força para chegar à felicidade perfeita, que é a de amar o próximo até no sofrimento, para dar-lhe alegria. Até em morrer por ele.
– Não compreendo essa felicidade –exclama Judas.
– Ainda não és sábio. Se o fosses, tu a compreenderias.
– E João o é? Ele é mais ignorante do que eu.
– Humanamente, sim. Mas possui a ciência do amor.
– Está bem. Mas eu não creio que o amor impeça aos bastões de serem bastões e às pedras de serem pedras e de dar dor às carnes que eles ferem. Tu dizes sempre que te é querida a dor porque para Ti é amor. Quando realmente fores preso e torturado, sempre que isso for possível, não sei se terás ainda esse pensamento. Pensa nisso, enquanto podes fugir da dor. Pois ela será bem forte, sabes? Se os homens te puderem prender, oh! não usarão de nenhuma consideração para contigo!
Jesus olha para ele e está muito pálido, mas seus olhos bem abertos parecem estar vendo, para além do rosto de Judas, todas as torturas que o esperam e, assim mesmo, em sua tristeza, continuam mansos e doces, e sobretudo serenos: dois olhos límpidos de um inocente em paz. E Jesus lhe responde:
– Eu o sei, Eu sei também aquilo que tu não sabes. Mas Eu espero na misericórdia de Deus. Ele, que é misericordioso para com os pecadores, usará de misericórdia também para comigo. Eu não lhe peço para não sofrer, mas para saber sofrer. 565.11E agora vamos, Samuel. Vai um pouco a nossa frente e lembra ao João que logo estarei no povoado.
Samuel se inclina e vai sem demora.
Jesus começa a descer. O caminho é tão estreito, que eles precisam ir um atrás do outro. Mas isso não impede a Judas de falar:
– Tu confias demais naquele homem, Mestre. Eu já te disse quem ele é… Ele é o mais exaltado, e fácil de exaltar-se, dos discípulos de Jônatas. Agora, já é tarde. Tu te colocaste nas mãos dele. Ele é um espião ao teu lado. E Tu, que mais de uma vez, e os outros ainda mais do que Tu, haveis pensado que eu é que o era! Eu não sou um espião.
Jesus para e se vira. A dor e a majestade formam uma só coisa, é o que se vêm em seu rosto e no seu olhar, que está fitando o apóstolo. E diz:
– Não. Não és um espião. Tu és um demônio. Tu roubaste à Serpente a prerrogativa dela de seduzir e enganar para afastar de Deus. O teu tratamento não é nem com uma pedra, nem com um bastão. Mas me fere mais do que uma pedrada ou uma bastonada. Oh! No meu sofrimento atroz não haverá coisa maior do que o teu comportamento, capaz de dar o martírio ao Mártir.
Jesus cobre o rosto com as mãos, como para esconder o horror que sente e, em seguida, põe-se a descer de carreira pela trilha.
Judas vai correndo atrás dele e lhe grita:
– Mestre! Mestre! Por que me fazes sofrer? Aquele falso, com certeza te terá dito algumas calúnias… Escuta-me, Mestre!
Mas Jesus não escuta. Corre, voa encostas abaixo. Passa sem parar junto aos lenhadores ou pastores que os saudam. Passa, sauda, mas não para. Judas se resigna a ficar calado.
565.12Já estão quase embaixo, quando se encontram com João que, com seu rosto tranquilo e luminoso, e seu pacato sorriso, já vai subindo ao encontro deles. Ele chega, puxando pela mão um meninozinho, que tagarela, e está chupando um favo de mel.
– Mestre, eis-me aqui. São pessoas da Cesaréia de Filipe. Elas ficaram sabendo que Tu estás aqui e vieram. Mas que coisa estranha! Ninguém falou e todos sabem onde Tu estás. Agora eles estão descansando. Estão muito cansados. Eu fui à casa de Dina, para ver se ela tinha leite e mel, porque entre eles há um doente. Eu o coloquei em minha cama. Não tenho medo. E o pequeno Anás quis vir comigo. Não toques nele, Mestre, porque está todo lambuzado de mel.
E o bom João se ri, porque está com muitas gotas e respingos de mel na roupa. Ele se ri, procurando segurar atrás de si o menino, que quereria ir oferecer a Jesus o seu favo, já meio chupado, e que grita:
– Vem. Há muitos para Ti.
– Sim. Já estão apanhando os favos lá na casa da Dina. Eu já o sabia. As abelhas dela enxamearam há pouco –explica João.
565.13Eles voltam para o caminho, e chegam à primeira casa, onde ainda estão batendo o tã-tã, como costumam fazer os apicultores, não sei exatamente por qual razão. Os cachos de abelhas — parecem uns grandes cachos de uma uva estranha — pendem de alguns ramos, e uns homens os recolhem a fim de levá-los para novas colmeias. Mais para lá, de umas colmeias já formadas, saem e entram as incansáveis e zumbidoras abelhas.
Os homens se saúdam, e uma mulher aparece com favos muito bonitos, que oferece a Jesus.
– Por que te privas deles? Já deste deles a João…
– Oh! as minhas abelhas produziram muito fruto. Não me faz falta o que eu ofereço. Mas peço-te que abençoes os nossos enxames. Olha: já estão apanhando o último. Este ano tivemos o dobro de colmeias.
Jesus vai indo às pequeninas cidades das abelhas e as abençoa uma por uma, levantando a mão por entre o zumbido das operárias, que não param em seu trabalho.
– Estão todas em festa e todas agitadas. Estão de casa nova…
–diz um homem.
– E com novas núpcias. Parecem mesmo uma mulher preparando a festa nupcial –diz um outro.
– Sim. Mas as mulheres conversam mais do que trabalham. Mas estas, ao contrário, trabalham caladas, e trabalham até nos dias das festas de núpcias. Trabalham sempre, quando se trata de construírem o seu reino e suas riquezas –responde um terceiro.
– Trabalhar sempre para adquirir a virtude é permitido, e até é um dever. Mas trabalhar sempre só para adquirir lucro, não. Isso podem fazer somente aqueles que não sabem que existe um Deus que deve ser honrado em seu dia. Trabalhar em silêncio tem um merecimento, e todos deveriam aprender com as abelhas. Porque no silêncio é que se fazem santamente as coisas santas. E vós, sede como as abelhas na justiça. Incansáveis e silenciosas. Deus está vendo. Deus premia. A paz esteja convosco –diz Jesus.
565.14E, tendo ficado sozinho com os seus dois apóstolos, diz:
– E aos operários de Deus especialmente Eu proponho como modelos as abelhas. Elas depõem no segredo da colmeia o mel formado no interior desta com o trabalho assíduo sobre as corolas sadias. O cansaço delas nem dá na vista, porque elas fazem tudo com boa vontade, voando, como uns pontinhos de ouro, de flor em flor, e depois, carregadas de sucos, vão indo elaborar o seu mel no interior das pequenas células. Seria necessário saber imitá-las, aprender os ensinamentos, doutrinas, amizades sadias, capazes de produzir sucos de verdadeira virtude, e depois saber isolar-se para elaborar, com aquilo que foi recolhido com tanto cuidado, a virtude, a justiça, que é como mel tirado de muitos elementos sadios, não sendo a última a boa vontade, sem a qual os sucos apanhados aqui e ali não servem para nada. Saber meditar humildemente, no interior do coração, sobre o que tiverem visto de bom e ouvido de bom, sem invejas se ao lado das operárias estão as rainhas, isto é, se há alguém que é mais justo do que quem medita. Necessárias são todas as abelhas da colmeia, tanto as operárias como as rainhas. Ai delas se todas fossem rainhas; ai delas se todas fossem operárias. Morreriam tanto estas como aquelas. Porque as rainhas não teriam alimento para procriarem, se faltassem as operárias, e as operárias cessariam de existir se as rainhas não procriassem. Mas não são para serem invejadas as rainhas. Elas também têm as suas fadigas e sua penitência. Elas não veem o sol mais do que uma vez, quando dão o seu único voo nupcial. Antes e depois é somente uma clausura, por entre as paredes cor de âmbar da colmeia. Cada um tem sua tarefa e cada tarefa tem sua eleição, e cada eleição é um cargo, mais do que uma honra. E as operárias não perdem tempo em voos inúteis ou em voos perigosos sobre flores doentes ou venenosas. Elas não saem atrás de aventuras. Não desobedecem à sua missão, não se revoltam contra o fim para o qual foram criadas. Oh! Que pequenos seres admiráveis. Quanto vós ensinais aos homens!…
Jesus se cala, mergulhando em sua meditação.
565.15Judas, de repente se lembra de ir para não sei onde, e sai de lá quase correndo. Ficam Jesus e João. João olha para Jesus sem se deixar notar. É um olhar atento, com uma amorosa ânsia. Jesus levanta a cabeça e se vira um pouco, encontrando o olhar do Predileto, que o está estudando. E seu rosto se ilumina de novo, enquanto o puxa para Si.
João, assim abraçado, ao sair, pergunta:
– Judas te deu outro sofrimento, não é? E deve ter perturbado até Samuel.
– Por quê? Ele te falou nisso?
– Não. Mas eu compreendi. Ele somente disse: “Geralmente, ao conviver com alguém verdadeiramente bom se fica bom também. Mas Judas não o é, ainda que esteja vivendo com o Mestre, há três anos já. É profundamente corrompido, e a bondade do Cristo não penetra nele pelo tanto que ele está cheio de maldade.” Eu não soube o que dizer… porque é verdade… 565.16Mas por que é que Judas é assim? Será possível que ele não mude nunca? No entanto… Todos nós temos as mesmas lições… e quando ele veio para o meio de nós não era pior do que nós…
– Meu João! Meu doce menino!
Jesus o beija na fronte, tão aberta e pura, e lhe murmura por entre os cabelos, que se levantam um pouco, louros e leves no alto dela:
– Há criaturas que parecem viver para destruir o bem que há nelas. Tu és pescador e sabes como é que a vela faz quando um turbilhão cai sobre ela. Ela se abaixa tanto sobre a água que quase revira a barca e se torna perigo para ela, de modo que às vezes é preciso abaixá-la e ficar sem asas para ir ao ninho, porque a vela, dominada pelo turbilhão, já não é mais uma asa, mas um lastro que leva para o fundo, mais para a morte do que para a salvação. Mas se o sopro feroz do furacão se aplaca, ainda que por breves instantes, eis que a vela de repente se transforma em asa e voa velozmente para o porto, levando para a salvação. Assim acontece com muitas almas. Basta que o turbilhão das paixões se amaine para que a alma, dominada e quase submersa pelo… pelo que não é bom, torne a ter desejos do que é bom.
– Sim, Mestre. Mas com isso… Dize-me… Chegará um dia Judas ao teu porto?
– Oh! Não me faças ficar olhando para o futuro de um dos meus mais queridos! Tenho na minha frente milhões de almas para as quais terá sido inútil a minha dor!… Tenho diante de Mim todas as feiuras do mundo. E a náusea Me transtorna. A náusea de todo esse borbulhar de coisas imundas que, como um rio, cobrem a Terra e a cobrirão, com aspectos diversos, mas sempre horrendos aos olhos da Perfeição, até o fim dos séculos. Não me faças ficar olhando! Deixa que Eu sacie a minha sede e a satisfaça com uma fonte que não conhece corrupção, e que Eu me esqueça da podridão cheia de vermes em demasia, olhando só para ti, minha paz!
E o beija ainda entre um e o outro cílio, mergulhando o seu olhar nos olhos do virgem e amoroso…
565.17Entram na casa. Na cozinha está Samuel, rachando a lenha para poupar à velha esse trabalho para acender o fogo.
Jesus se volta para a mulher:
– Os peregrinos estão dormindo?
– Creio que sim. Não estou ouvindo nenhum barulho. Agora vou levar esta água para os animais. Eles estão debaixo do depósito de lenha.
– Deixa que eu faça, mãe. É melhor que tu vás à casa da Raquel. Ela me prometeu queijo fresco. Dize a ela que no sábado lhe pagarei –diz João, pegando as duas tinas cheias de água.
Ficam só Jesus e Samuel. Jesus vai para perto do homem, que se inclinou sobre o fogo e está soprando para acender a chama, e lhe põe a mão sobre o ombro, dizendo:
– Judas nos interrompeu lá em cima… E quero dizer-te que te mandarei com os meus apóstolos no dia depois do sábado. Talvez prefiras assim…
– Obrigado, Mestre. Não me agrada ficar longe de Ti. Mas nos teus apóstolos eu te encontro também. E prefiro, sim, ficar longe de Judas. Mas eu não tinha coragem de te pedir…
– Está bem. Está combinado. Mas, tem piedade dele. Assim como Eu tenho. E não o digas a Pedro, nem a ninguém…
– Eu sei calar-me, Mestre.
– Depois virão os discípulos. Lá estão Hermes com Estevão e também Isaque, dois sábios e um justo, e muitos outros. Tu te acharás bem. Entre verdadeiros irmãos.
– Sim, Mestre. Tu compreendes e socorres. Tu és verdadeiramente o Mestre Bom –e se inclina para beijar a mão de Jesus.