489. 489. Em Nobe. Parábola do rei incompreendidopelos súditos e milagre sobre o vento.


6 de setembro de 1946.

489.1 É um lugar pacífico e de terrenos muito bem cultivados. Os moradores estão nas casas, porque está soprando um vento muito forte. Quando os discípulos vão avisar que Jesus chegou, aí todas as mulheres e meninos, e os velhos, que a idade obrigou a ficar naquele lugar, se apinham ao redor de Jesus, que está parado na pracinha principal. O lugar, estando sobre uma elevação do terreno, tem bastante ar e luz, mesmo nos dias sombrios, e os olhos podem mover-se livremente, de lá para o sul de Jerusalém e para Ramá, ao norte (eu digo Ramá, porque está escrito em um dos marcos miliários).

O povo está muito comovido. A chegada daqueles que vão hospedar ao Senhor é para eles uma novidade comovedora! Um velho, que é um verdadeiro patriarca, diz isso representando a todos, e as mulheres, com a cabeça, dão sinal do seu assentimento.

Acostumados a ser maltratados pela soberba sacerdotal e farisaica, estão com receio… Mas Jesus logo os faz ficar à vontade, pegando pelo braço uma menininha, que está já dando os primeiros passos, acariciando o velhote, e dizendo:

– Ainda não me tínheis visto.

– De longe… Vimos-te passando pela estrada… e como um homem qualquer, no Templo. Mas para nós, que moramos tão perto da cidade, fica ainda mais difícil conseguir isso do que para os outros que vem de longe –diz o velhinho.

– É sempre assim mesmo, pai. O que parece tornar fáceis as coisas, torna-as difíceis, porque todos se apóiam na ideia de que elas sejam fáceis. Mas agora nos conheceremos. 489.2Afasta-te daqui, pai. O outono está soprando os seus ventos, e eles não fazem bem aos patriarcas.

– Oh! Eu fiquei sozinho! Para mim o dia não tem mais valor…

– A filha dele se casou longe daqui e a mulher dele morreu nos dias das Encênias –explica uma mulher.

– João, tu não deves falar de Mim, logo hoje que tens em tua casa o Rabi. O Rabi que tanto desejavas! –diz uma velhinha.

– É verdade. Mas… Tu és o Messias, não é?

– Sim, pai…

– E, então? Que posso eu mais desejar, agora que eu o vi, e estou vendo cumprida a promessa feita a Abraão? Um velho, naquela ocasião era ele, cantou um dia no Templo, e eu lá estava, porque naquele dia a minha Lia estava se purificando do seu único parto, e eu estava perto dela. Antes de nós, havia acabado de cumprir o rito uma, que era pouco mais do que uma menina… quando um velho cantou, beijando o nascido daquela menina: “Agora deixa, ó Senhor, que o teu servo se vá embora em paz, porque os meus olhos já viram o Salvador”. Aquele recém-nascido eras Tu, então. Ohl Eu! Feliz de mim! Eu, então, rezei ao Senhor, dizendo: “Faze que eu também possa morrer, depois de tê-lo conhecido.” Agora eu te conheço. Tu estás aqui! A mão do meu Senhor está pousada sobre a minha cabeça. A voz dele me falou. O Eterno me ouviu.. E, que direi, senão as palavras do velho Simeão douto e justo? Eu as digo: “Deixa, ó Senhor que o teu servo se vá embora em paz, porque os meus olhos conheceram o teu Cristo!”

– Não queres esperar para veres o seu Reino? –diz uma mulher.

– Não, Maria. As festas não são para os velhos. Eu não creio nisso que os outros estão dizendo. Eu me lembro das palavras do Simeão. Ele prometeu foi uma espada no coração daquela Menina, porque o mundo todo não amará o Salvador… Ele disse que ruína ou ressurreição por meio dele, virá para muitos. Além disso, Isaías… E Davi… Não. Eu prefiro morrer, e de lá ficar esperando a sua graça. E de lá, o seu Reino…

– Pai, tu vês melhor do que os jovens. O meu Reino é o dos céus, mas para ti a minha vinda não é ruína, porque tu sabes crer em Mim.

489.3Vamos à tua casa. Eu fico contigo –e, guiado pelo velho, Jesus vai indo para uma casinha branca, por uma estradinha entre as plantações, que estão sendo despojadas de suas folhas, pelo vento que as rouba, e nela entra com Pedro, os dois filhos de Alfeu e João. Os outros se espalham pelas outras casas… para voltarem depois de algum tempo, encher a casinha, a horta, o terraço acima do teto, até começarem a subir sobre o pequeno muro de pedras soltas, que separa um lado da horta da estrada, e sobre uma nogueira robusta, sobre uma macieira igualmente forte, sem prestarem atenção no vento, que vai sempre aumentando, levantando uma nuvem de poeira.

Todos querem ouvir Jesus. Mas Ele se demora por algum tempo, até que começa a falar na soleira da porta da cozinha, de tal modo que sua voz se espalhe para dentro e para fora da casa.

489.4 – Um rei poderoso, cujo reino era muito vasto, quis um dia ir visitar os seus súditos. Morava o rei num palácio majestoso, do qual, por meio de seus servos e mensageiros, mandava suas ordens e fazia distribuir os seus favores aos seus súditos que, por isso, sabiam de sua existência, do amor que ele tinha por eles, de seus propósitos, mas ainda não o conheciam pessoalmente, não tinham ainda ouvido sua voz e suas palavras. Afinal, eles só sabiam que ele existia e que era o seu Senhor, e nada mais. Como muitas vezes acontece, por causa disso muitas de suas leis e providências iam sendo alteradas, ou por má vontade, ou pela incapacidade de compreendê-las, a tal ponto, que os interesses do rei, que desejava que eles fossem felizes, ficavam prejudicados. Ele se via obrigado a puni-los às vezes e com isso sofria mais do que eles. Mas as punições não traziam nenhum melhoramento. Então, ele disse: “Eu irei até eles. Falar-lhes-ei diretamente. Eu me darei a conhecer. Eles me amarão, me obedecerão melhor, e ficarão felizes.” E deixou sua majestosa morada para ir até o meio do seu povo.

Grande surpresa causou a sua chegada. O povo ficou comovido, agitou-se, uns com alegria, outros com desconfiança, outros até com ódio. O rei, com paciência, sem deixar-se vencer pelo cansaço, foi-se aproximando dos que o amavam e dos que o temiam, e dos que o odiavam. Pôs-se a explicar a sua lei, a escutar os seus súditos, a dar-lhes assistência e a suportá-los. Muitos acabaram amando-o, não fugindo mais dele, por ser ele grande demais, e alguns poucos foram até cessando de desconfiar dele e de odiá-lo. Esses eram os melhores. Mas muitos ficaram como eram, pois não tinham boa vontade. Contudo, o rei, que era muito sábio, suportou também isso, refugiando-se no amor dos melhores, para ter neles um prêmio por seus esforços.

Mas, que foi que aconteceu? Aconteceu que até entre os melhores, nem todos o compreenderam. Ele vinha de muito longe! Sua linguagem para eles era nova! Suas vontades eram tão diferentes das dos seus súditos! E não foi compreendido por todos… Alguns até lhe causaram desgosto, e, com o desgosto lhe deram prejuízo, ou pelo menos correram o risco de lho darem, por o terem compreendido mal… Quando compreenderam que lhe haviam dado aborrecimento e prejuízo, fugiram, com tristeza, de sua presença, e não se lhe apresentaram mais, tendo medo que ele iria dizer.

Mas o rei tinha lido no coração deles, e todos os dias amorosamente os chamava, pedia ao Eterno que o ajudasse a encontrá-los de novo, para dizer-lhes: “Por que me temeis? É verdade. A vossa falta de compreensão me fez sofrer, mas eu olhei para ela sem malícia, apenas como um fruto da incapacidade de compreender a minha linguagem que é tão diferente da vossa. O que me fazia sofrer era o temor que tínheis de mim. Isto me diz que não só não me compreendestes como rei, mas nem como amigo. Por que não vindes a mim? Voltai, pois. Naquilo que a alegria de amar-vos não vos tinha feito compreender, ficou claro para vós pela dor por me terdes causado sofrimento. Oh! Vinde, vinde, meus amigos. Não aumenteis as vossas ignorâncias, ficando longe de mim, nem a vossa escuridão, escondendo-vos, nem as vossas amarguras, criando obstáculos ao meu amor. Estais vendo? Sofremos muito, tanto como vós, por estarmos separados. E mais ainda eu do que vós. Vinde, pois, e dai-me alegria.”

Assim queria falar o rei. E assim fala. Deus também fala assim àqueles que pecam. Assim fala o Senhor aos que podem ter errado. E assim fala o Rei de Israel aos seus súditos. O verdadeiro Rei de Israel, o que do pequeno reino da terra quer levar os seus súditos para o grande Reino dos Céus. Neste não podem entrar aqueles que não seguem o Rei, aqueles que não aprendem a compreender as suas palavras e o seu pensamento. Mas, como aprender, se, ao cometer o primeiro erro, logo se foge do Mestre?

Ninguém fique abatido por ter pecado e ter-se arrependido, se errou e reconhece o seu erro. Que ele venha à fonte que corrige os seus erros, que dá à luz a sabedoria, mate sua sede nela, que está ansiosa por doar-se, e veio do Céu para doar-se aos homens.

489.5 Jesus se cala. Somente o vento está fazendo ouvir a sua voz, cada vez mais forte. No cocoruto do pequeno monte, sobre o qual está Nobe, o vento se torna tão forte, que as árvores já estão estalando amedrontadoramente.

As pessoas estão sendo obrigadas a se retirar para suas casas. Mas, quando o número de pessoas diminuiu, Jesus voltou para casa e fechou a porta. Matias, acompanhado por Manaém e por Timoneu, abre por detrás um buraco no pequeno muro, entra na pequena horta, indo bater à porta, que está fechada.

É Jesus mesmo que vai abrir.

– Mestre, ei-los aqui! –diz Matias, mostrando os dois, que tinham ficado envergonhados no limite da horta, e ficaram sem coragem de erguer o rosto e olhar para Jesus.

– Manaém! Timoneu! Meus amigos! –diz Jesus, saindo para a horta, a fim de dar a entender aos que estão lá dentro que não saiam para satisfazer sua curiosidade.

Vai até os dois, de braços abertos, já abertos para o abraço.

Os dois levantam o rosto, comovidos pelo amor que tremula na voz do Mestre, veem o rosto e os olhos dele, cheios de amor, e o seu medo cessa, correm para a frente, com um grito rouco pelo pranto: “Mestre!”, e caem aos seus pés desnudos, molhando-os com suas lágrimas.

– Amigos meus! Aí, não. Mas aqui sobre o coração. Eu vos esperei tanto! Compreendi tanto. Vamos.

E procura levantá-los.

– Perdão! Oh! perdão! Não no-lo negues, Mestre. Temos sofrido muito!

– Eu sei. Mas, se tivésseis vindo antes, antes Eu já vos teria dito: “Eu vos amo.”

– Tu nos amas, Mestre, como antes? –diz, em primeiro lugar Timoneu, levantando um rosto interrogativo.

– Mais do que antes, porque agora estais curados de toda fraqueza humana em vosso amor por mim.

– É verdade! Oh! O meu Mestre!

Manaém solta os pés de Jesus e não resiste mais. Joga-se sobre o peito de Jesus, e Timoneu o imita…

– Estais vendo como se está bem aqui? Não é melhor aqui do que em um pobre palácio do rei? Onde me acharíeis melhor, mais poderoso, mais afável, mais rico de tesouros sem fim, senão ao me terdes como Salvador, Redentor, Rei espiritual e Amigo amoroso?

– É verdade. É verdade. Oh! Eles nos seduziram, parecia-nos estar te prestando honras, e que o pensamento deles fosse justo.

– Não penseis mais nisso. Já passou. Pertence ao passado. Deixai que o tempo, passando veloz, como o turbilhão que nos está atacando, o leve para longe e o perca para sempre… 489.6Mas, entremos em casa. Não é possível ficarmos aqui…

De fato, é um verdadeiro turbilhão, o que se arroja, vindo do norte, sobre o povoado. Galhos são arrancados, telhas estão voando, um ou outro dos pequenos muros dos terraços sobre os tetos, caem com fragor. A nogueira e a macieira se torcem, como se quisessem arrancar-se do chão.

Entram em casa, e os quatro apóstolos olham, espantados, o rosto ainda úmido dos dois discípulos, por causa das lágrimas, em contraste com o sorriso que agora está em seus rostos. Mas não dizem nada.

– Alguma desgraça está para acontecer –diz o velho João.

– Sim. Aqueles que agora estão debaixo das cabanas, não sei como farão –diz Pedro.

O vento está tão forte, que as chamas de uma candeia de três bicos, que foram acesos para iluminar o quarto fechado, estão vacilando, mesmo com as portas fechadas.

Com o grande barulho que o vento está fazendo, ao levantar por sobre a casa o terriço e os detritos, a tal ponto que parece estar caindo uma chuva de granizo muito miúdo, a tudo isso se ajuntam os gritos das mulheres, ouvidos cada vez mais perto. São as esposas espantadas e as mães angustiadas:

– Ai de nossos maridos! Ai de nossos filhos. Eles estão na estrada. Estamos com medo. Um muro da casa abandonada já caiu… Senhor! Jesus! Piedade!

489.7 Jesus põe-se de pé, abre com dificuldade a porta,que o vento está empurrando com toda a sua violência. Algumas mulheres, que se inclinaram para melhor poderem resistir ao vento — uma verdadeira tromba de ar sob um céu apavorante — gemem estendendo os braços.

– Entrai. Não temais! –diz Jesus.

Ele olha para o céu e para as árvores que já estão para ser arrancadas.

– Vem para dentro, Jesus! Não vês como os galhos já estão sendo arrancados e as telhas estão caindo? Não é prudente ficar do lado de fora –grita Judas de Alfeu.

– Pobres oliveiras! Agora é chuva de pedras! Onde ela está caindo, acabaram de fazer a colheita –diz Pedro.

Jesus não vai para dentro. Ao contrário, sai completamente para fora, no meio do turbilhão, que lhe torce a veste e faz esvoaçarem seus cabelos. Ele abre os braços, reza, depois dá esta ordem:

– Basta! Assim Eu quero! –e torna a entrar em casa.

O vento dá um último gemido e cessa de repente. É impressionante o silêncio que se faz, depois daquele fragor todo tão estranho que, nas casas veem-se nas janelas os rostos assombrados. O que sobra são os sinais do aeromoto: as folhas, os galhos quebrados, os farrapos das tendas. Mas está tudo quieto. O firmamento responde à terra, não mais transtornada, mas com o amenizar-se das nuvens que, de escuras se tornam claras, espalham-se sem fazer mal, mas deixando cair uns borrifos de chuva, que acaba de purificar o ar, que ficou ainda turvo, de tanta poeira.

– O que aconteceu?

– Terminou assim?

– Parecia o fim de tudo, agora o tempo está sereno.

São essas as perguntas que estão fazendo em cada uma das casas.

As mulheres, que haviam recorrido a Jesus, saem:

– O Senhor! O Senhor está conosco! Ele fez o milagre! Fez o vento parar! Rasgou as nuvens! Hosana! Hosana! Louvor ao Filho de Davi. Paz! Bênção! Cristo está conosco! Conosco está o Bendito! O Santo! O Santo! O Messias está conosco! Aleluia!

O povoado derrama para fora todos os seus moradores reais e os ocasionais, isto é, os apóstolos e discípulos que correm todos para a casinha onde está Jesus. Todos querem beijá-lo, tocar nele, exaltá-lo.

– Louvai ao Senhor Altíssimo. Ele é o dono dos ventos e das águas. Se Ele ouviu ao seu Filho, assim o fez para premiar a fé e o amor que vós tendes tido para com Ele.

Quereria despedir-se deles. Mas quem é que pode acalmar um povoado em festa, agitado por um evidente milagre? Especialmente quando é um povoado cheio de mulheres. Os esforços de Jesus foram em vão. Ele sorri, paciente, enquanto o velho, que o hospeda, o lava com suas lágrimas e lhe beija a mão esquerda.

489.8 Eis os primeiros homens ofegantes, apavorados, que estão chegando de volta de Jerusalém. Talvez estejam com medo de alguma desgraça. Mas eles estão vendo o povo em festa.

– Que é? Que houve? Não tivestes uma tempestade? Lá do monte se via como a cidade ia desaparecendo sob nuvens de poeira. Nós pensavamos que ela estivesse destruída. Mas aqui está tudo salvo!

– O Senhor! Foi o Senhor! Ele veio a tempo para salvar-nos da ruína. Somente caiu a casa maldita e alguma telha, algum galho. E a vós? Que aconteceu em Jerusalém?

As perguntas e as respostas se cruzam. Mas os homens abrem caminho para irem venerar o Salvador. Somente depois é que explicam que na cidade o medo era da tempestade iminente, e que todos fugiam das cabanas para as casas e que os donos dos olivais já estavam chorando, pensando na colheita… quando, de repente, o vento se acalmou e o céu foi clareando com pouca chuva… e que a cidade estava assombrada. Como a fantasia trabalha rapidamente em certos casos, os homens contavam que, enquanto o povo ia fugindo, muitos que tinham ficado no Templo nos dias anteriores, vendo que o Monte Mória era o mais atacado pelas rajadas, a tal ponto que os bancos dos trocadores de moedas haviam sido derrubados e que estragos haviam sido feitos na casa do Pontífice. E diziam: que era o castigo de Deus pelos insultos feitos ao Messias. E por aí afora… Quanto mais homens iam chegando, com mais cores iam contando a história. Em alguns momentos torna-se mais apocalíptica a história do que a do dia da Sexta-Feira Santa…