404. 404. Em caminho para Emaús da planície.
27 de março de 1946.
404.1 A aurora espelha uma luminosidade leitosa pela abóbada do céu, e de lá do alto por sobre o vale fresco e silencioso. Depois, sua claridade ainda confusa, que já é luz, mas ainda não é luz, desce sobre o alto dos dois declives. Parece acariciar levemente as partes mais altas dos montes judaicos, e dizer às velhas árvores que os coroam: “Eis-me aqui, estou descendo do céu, venho do oriente, precedo a aurora, expulso as sombras, sou a portadora da luz, da operosidade, sou a bênção de um novo dia, que Deus vos concede”, e as copas despertam com um suspiro em suas folhagens, com o chilrear dos primeiros passarinhos, que acordaram com aquele leve tremer das ramagens e com aquela primeira claridade. E a aurora já chega até mais abaixo, até às moitas por baixo do bosque, depois até às ervas, e depois aos declives, cada vez mais para baixo, enquanto a saúdam, sempre em número crescente, os gorjeios por entre as folhagens e o barulho, por entre as ervas, dos lagartos que já despertaram. Depois, ela chega à pequena torrente do fundo, muda as águas escuras dela, em um opaco cintilar de prata, que cada vez vai-se tornando mais nítido e brilhante. Enquanto isso, lá em cima no céu, que mal havia clareado um pouco o azul anil da noite, dando-lhe a cor de um azul celeste meio esverdeado da aurora que já vem chegando, pincela-se o primeiro anúncio da aurora, transformando-o em azul celeste com laivos cor de rosa… Depois, um cirro, minúsculo, flocoso, sai, velejando, já todo enfeitado com uma espuma rosada…
Jesus sai da gruta, e fica olhando… Depois vai lavar-se na torrente, se arruma, se veste, dá umas olhadas pela gruta… Não chama. Em vez disso, sobe pelo monte, e vai rezar sobre um pico saliente, e já tão elevado, que permite à vista um longo raio de visão por sobre o oriente todo, já rosado por causa da aurora, e sobre o ocidente ainda mergulhado no anil. Ele reza… reza ardentemente, de joelhos, com os cotovelos no chão, quase todo inclinado… E fica rezando assim, até que lá de baixo subam as vozes dos doze, que já despertaram, e o estão chamando.
Ele se levanta, e responde:
– Já vou!
E o vale estreito faz repercutir várias vezes o eco, em voz perfeita. Parece que o vale transmite à planície, que já se começa a ver a ocidente, a promessa do Senhor “já vou”, a fim de que a planície se alegre antecipadamente com isso.
Jesus já se põe a andar, dando um suspiro, e com uma frase, que resume a sua longa oração e a explica:
– E Tu, ó Pai, dá-me conforto.
Desce sem demora, e, tendo chegado lá em baixo, saúda, com um doce sorriso, aos seus apóstolos, com suas palavras de costume:
– A paz esteja convosco neste novo dia.
– E a Ti também, Mestre! –respondem os apóstolos. Todos eles.
404.2 Até Judas que, não sei se tranquilizado pelo silêncio mantido por Jesus, que não o censurou, e que o trata como a todos os outros, ou se porque tinha, durante a noite, meditado algum plano a seu favor. Ele está menos turvo e menos separado dos outros, e até é, logo ele, quem pergunta por todos:
– Vamos a Jerusalém? Se sim, é preciso voltar um pouco atrás, e através daquela ponte. Depois da ponte, há um caminho que vai direto a Jerusalém.
– Não. Vamos para Emaús da planície.
– Mas, por quê? E as festas de Pentecostes?
– Ainda há tempo. Quero ir à casa de Nicodemos e de José, pelas planícies, rumo ao mar…
– Mas, por quê?
– Porque Eu ainda não estive lá, e o povo de lá me espera… E porque os bons discípulos assim desejaram. Teremos tempo para tudo.
– Foi isso o que te disse Joana? Foi para isso que ela te chamou?
– Não era preciso isso. A Mim, diretamente a Mim, eles o disseram nos dias da Páscoa. E Eu mantenho a palavra.
– Eu não iria lá… Talvez já estejam em Jerusalém… A festa está próxima… E depois… Poderias encontrar inimigos, e…
– Inimigos, Eu encontro por toda parte, e eles estão sempre perto de Mim… –e Jesus dardeja um olhar sobre o apóstolo, que é a causa de sua dor…
Judas não fala mais. É perigoso demais continuar. Ele o percebe e se cala.
404.3 Estão de volta João e André, com umas pequenas frutas, parece-me que da família das framboesas, ou dos morangos, parecidas também com amoras ainda não maduras, e as oferecem ao Mestre:
– Gostas delas. Nós as vimos ontem à tarde, e subimos a fim de colhê-las para Ti. Come-as, Mestre. São boas.
Jesus acaricia os dois bons e jovens apóstolos, que lhe oferecem os seus frutos sobre uma grande folha, que eles lavaram na torrente, e porque, mais do que aqueles frutos, eles lhe querem oferecer o seu amor. Ele escolhe as mais bonitas daquelas frutinhas, e dá um pouco delas a todos, e eles as comem com pão.
– Nós procuramos leite para Ti… Mas ainda não havia chegado nenhum pastor… –desculpa-se André.
– Não faz mal. Vamos andar depressa, para chegarmos a Emaús, antes do calor forte.
Eles lá se vão, e os que estão com maior apetite ainda, estão comendo, enquanto vão pelo vale fresco, que se torna mais largo, e termina desembocando em uma fértil planície, onde já está em plena atividade o trabalho dos ceifadores.
– Eu não sabia que Nicodemos tinha casa em Emaús –diz Bartolomeu.
– Não é em Emaús. É noutro lugar. São campos de parentes, herdados por ele… –explica Jesus.
– Que bela campina –exclama Tadeu.
De fato, é um mar de espigas de ouro, entremeado com pomares de sonhos, por vinhas que já estão prometendo grande abundância de cachos. Esta região é rica de água por causa dos montes vizinhos, que derramam nela centenas e centenas de pequenas torrentes, justamente nos meses em que é necessária a irrigação. Além disso, ela é dotada de lençóis de água subterrâneos, o que é um verdadeiro Éden para os agricultores.
– Hum! Está mais bela do que a do ano passado –resmunga Pedro–. Pelo menos agora temos água e frutas…
– Mas a de Saron é também muito bonita –lhe responde o Zelotes.
– Mas Saron já não é esta?
– Não. É a que vem depois desta. Mas esta já tem alguma coisa de…
Os dois apóstolos se põem a falar um com o outro, afastando-se um pouco.
404.4 – Coisa de fariseus, hein? –pergunta Tiago de Zebedeu, mostrando a bela campina.
– De judeus, certamente. Eles pegaram os primeiros lugares, usurpando-os de mil modos, tomando-os de seus primeiros donos
–responde-lhe Tadeu, que talvez esteja se lembrando dos bens paternos na Judeia, dos quais eles foram expulsos, perdendo a prosperidade em que viviam.
Iscariotes se ressente com isso:
– Se aqueles bens vos foram tomados, é porque vós, os galileus, sois menos santos, sois inferiores.
– Eu peço que te lembres de que Alfeu e José eram da estirpe de Davi. E tanto assim eram, que o Edito os fez irem recensear-se em Belém de Judá. E Ele nasceu lá, foi por isso –responde calmo Tiago de Alfeu, tomando a frente da resposta pungente do seu impetuoso irmão e mostrando o Senhor, que está falando com Filipe e Mateus.
– Oh! Bem! Por mim, eu digo que o bom e o mau existem em toda parte. Em nosso comércio nós nos temos aproximado de pessoas de todas as raças, e eu vos garanto que encontrei gente honesta e gente desonesta em todas as raças. E depois… por que gabar-se de ser judeu? Será que nós é que quisemos isso? Hum! Será que eu sabia bem, quando estava no seio de minha mãe, o que era ser judeu ou galileu?! Eu estava lá… e só isso. E, uma vez que eu nasci, puseram-me faixas, que produziam um calor agradável, sem ficar eu perguntando a mim mesmo se o ar que eu estava respirando era judeu ou galileu… Eu nada mais conhecia do que o bico do peito de minha mãe… E, como eu, assim todos vós. Agora, por que ficar dizendo essas coisas, porque um nasceu um pouco mais para cima, e o outro um pouco mais para baixo? –diz, conciliador e justo, Tomé.
– Tens razão, Tomé –responde João.
E conclui:
– E, além disso, nós agora somos de uma só e mesma estirpe: a de Jesus.
– Sim, o Qual— e até creio que tenha sido querido pelo Altíssimo, para ensinar-nos que as divisões são contra o amor ao próximo, e que Ele foi mandado para recolher a todos, como a amorosa galinha, da qual falam1 os livros santos — o Qual é de estirpe judaica, mas concebido e residente na Galileia, depois de ter nascido em Belém, como que para dizer-nos, pela voz dos fatos, que Ele é o Redentor de todo Israel, do setentrião ao meio-dia. Só porque Ele é chamado “o Galileu,” não se deveria ter desprezo para com os galileus –diz com doçura e firmeza Tiago de Alfeu.
Jesus, que parecia estar distraído, a conversar com Mateus e Filipe a alguns metros à frente, vira-se e diz:
– Falaste bem, Tiago de Alfeu. Tu compreendes a Verdade e as verdades e as justiças de cada ato de Deus. Porque Deus, lembrai-vos disso todos e sempre, nada fez sem uma finalidade, assim como não deixa sem prêmio nada daqueles que têm um coração reto. Felizes daqueles que sabem ver as razões de Deus nos acontecimentos, até nos mais simples, e as respostas de Deus aos sacrifícios dos homens.
Pedro se vira, e está com vontade de falar. Mas ele fecha a boca, e se limita a sorrir para o seu Mestre, que agora se reúne com os seus apóstolos.
404.5 O lugar por onde eles estão caminhando é uma larga estrada mestra, por entre campos de ouro. Vão indo para Emaús, que já está perto. É um amontoado de casas de cor branca deslumbrante, por entre o louro dos grãos maduros e o verde dos excelentes pomares.
– Mestre! Mestre! Para! Olha os teus discípulos! –gritam umas vozes distantes, e um punhado de homens, deixando no ar uns camponeses que estão descansando, um pouco à sombra de um pomar, vai correndo para Jesus, indo por uma estradinha ensolarada.
São Matias e João, ex-pastores e depois discípulos do Batista. Com eles estão Nicolau, Abel, o ex-leproso, Samuel, Hermasteu e mais outros.
– A paz esteja convosco. Estais aqui?
– Sim, Mestre. Percorremos todas as praias do mar. Agora estamos indo para Jerusalém. Mais acima estão Estevão e os outros. E, mais acima ainda, Hermes e mais outros. E depois, Isaque, o pequeno mestre de todos nós, ainda mais acima. Pelo menos ele lá estava. Como também estava Timoneu no Além-Jordão. Mas já estarão todos juntos para irem à festa do Pentecostes. Aqui estamos assim divididos, em tantos grupos, pequenos, mas não inertes. Assim, se nos perseguirem, poderão capturar alguns, mas não todos –explica Matias.
– Fizeste bem. Eu estava admirado por não vos ter encontrado em nenhuma das partes da Judeia meridional.
– Mestre… Tu é que ias por lá… E quem melhor do que tu? Além disso, essa parte recebeu mais do que é preciso para fazer-se santa! Mas, pelo contrário!… Ela atira pedras em quem lhe leva a palavra do Céu. Elias e José, nas gargantas do Cedron foram atacados, e de lá saíram, indo para o Além-Jordão, para a casa de Salomão. José quase foi morto, com uma pedrada na cabeça. Durante oito dias, viveram em uma gruta profunda, com um que foi mandado por ti, e que conhecia todos os segredos dos montes. Depois, de noite, pouco a pouco, foram indo para outro lugar…
Os discípulos e os apóstolos estão agitados, uns a relembrarem, e outros ao ficarem sabendo dessas perseguições. Mas Jesus os acalma, dizendo:
– Os Inocentes tingiram com a púrpura do seu sangue inocente o caminho do Cristo. Mas aquele caminho deve ser de novo sempre tingido de púrpura para apagar os rastos do Mal sobre o caminho de Deus. É uma estrada real. Tingem-na de púrpura os que são mártires por amor de Mim. Felizes entre os felizes os que por Mim sofrem perseguição.
– Mestre, nós estávamos falando àqueles camponeses. Não lhes falarás Tu agora? –pergunta o ex-pastor João.
– Ide dizer-lhes que ao pôr-do-sol lhes falarei, junto à porta de Emaús. Agora o sol os incomoda. Ide. E Deus esteja convosco. Eu estarei no fim desta estrada.
Ele os abençoa, e recomeça a andar, procurando uma sombra, pois o sol está ardente, brilhando sobre a estrada branca, na qual há apenas duas estreitas áreas de sombra, que descem dos plátanos plantados a fim de servirem de abrigo para a estrada, e de limites para as beiras da mesma.
1 falam, com imagens análogas, em Deuteronômios 32,11; Rute 2,12; Salmo 17,8; 36,8; 61,5; 63,8; 91,4.
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