243. 243. Em Caná, na casa de Suzana.As expressões, os gestos e a voz de Jesus.Disputa entre os apóstolos sobre possessões.


4 de agosto de 1945.

243.1Na casa de Caná a festa pela chegada de Jesus é pouco menor do que foi a das bodas do milagre. Agora faltam os músicos, não estão aqui os convidados, a casa não está enfeitada com flores e ramos verdes, não está com mesas para numerosos convivas nem está aí o mestre de cerimônias, junto às credencias e às hídrias cheias de vinho. Mas tudo isso que falta é compensado pelo amor, que agora é prestado, em sua justa forma e medida, não propriamente ao hóspede, e talvez até um pouco parente, mas que não deixa de ser um homem, mas ao Hóspede Mestre, do qual já se conhece a verdadeira Natureza, cuja palavra se venera como coisa divina. Por isso, os corações em Caná amam com todas as suas forças ao Grande Amigo, que se fez ver com sua veste de linho, na entrada do jardim, por entre o verde da terra e o vermelho do pôr-do-sol, embelezando todas as coisas com a sua presença, comunicando sua paz, não somente aos espíritos, aos quais dirige sua saudação, mas também às coisas.

Na realidade, até parece que para todas as partes, para onde ele volta os seus olhos azuis, por lá se estende um véu de paz solene e cheia de alegria. Pureza e paz fluem de suas pupilas, assim como flui a sabedoria de sua boca, e o amor de seu coração.

A quem ler estas páginas parecerá impossível tudo o que eu digo. E, no entanto, o mesmo lugar que, antes da vinda de Jesus, era um lugar comum, ou melhor era um lugar de um intenso movimento de negócios, o que costuma excluir aquela paz que se pressupõe livre das aflições do trabalho, não somente, mal Ele chega, se transforma num lugar cheio de nobreza e até o trabalho se torna uma coisa bem ordenada, que não pode excluir nele a presença de um pensamento sobrenatural, que esteja intimamente ligado até aos trabalhos manuais. Não sei se me explico bem.

243.2Jesus nunca está carrancudo, nem mesmo nas horas de maior desgosto por alguma coisa que lhe acontece, mas está sempre majestosamente exemplar e comunicando essa sua exemplaridade sobrenatural ao próprio lugar em que Ele se move. Jesus não é nunca folgazão, nem pedante, com o rosto desfigurado por risos imoderados, nem com o rosto de um hipocondríaco, nem mesmo nos momentos de maior alegria ou de maior aborrecimento.

O seu sorriso é inimitável. Nenhum pintor será capaz de o reproduzir. É como se fosse uma luz, que emana do seu coração, uma luz radiosa, nas horas de maior alegria por alguma alma que se redime ou por alguma outra que se aproxima da perfeição. É um sorriso que eu diria um sorriso cor-de-rosa, quando Ele aprova as ações espontâneas dos seus amigos e discípulos e se alegra com a vizinhança deles. É um sorriso sempre semelhante as cores, como o azul, um sorriso angélico, quando Ele se inclina para as crianças, a fim de ouvi-las, a fim de ensiná-las ou abençoá-las. Um sorriso cheio de piedade, quando Ele olha para qualquer miséria da carne ou do espírito. Enfim, é um sorriso divino, quando Ele fala do Pai e de sua Mãe, ou olha para esta Mãe puríssima, ou a escuta.

Não posso dizer que o tenha visto hipocondríaco, nem mesmo nas horas de maior dor. No meio das torturas por ser traído, entre as angústias do suar sangue, nos espasmos da Paixão e, se a tristeza faz que diminua o fulgor de seu doce sorriso, contudo ela não é capaz de destruir aquela paz, que parece um diadema, feito com pedras preciosas e fulgentes e posto sobre sua fronte honrada, que é como luz a brilhar diante de sua divina Pessoa.

E assim eu não posso dizer que o tenha visto entregar-se a imoderadas alegrias. Não fica por fora de um riso bom, quando o caso o requer, mas retoma, logo em seguida, a sua costumeira serenidade. E, quando Ele ri, rejuvenesce prodigiosamente, chegando a ficar com o rosto como o de um jovem de vinte anos, e parece que o mundo também rejuvenesce com o seu belo riso bom, sonoro e bem entoado.

Igualmente eu não posso dizer que o tenha visto fazer apressadamente as coisas. Tanto quando Ele fala, como quando se move, Ele o faz sempre de um modo tranquilo, ainda que nunca seja vagaroso, nem negligente. Talvez seja porque, como Ele é alto, pode dar passos longos, sem que para isso precise correr, para percorrer grandes distâncias, e igualmente Ele pode alcançar, com facilidade, objetos que estão longe dele, sem precisar levantar-se para alcançá-los. O certo é que, até em seu modo de mover-se, Ele é senhoril e majestoso.

E sua voz? É assim: eu há dois anos que o ouço falar por alguns momentos e, no entanto, algumas vezes perco o fio do assunto, porque eu fico me concentrando no estudo de sua voz. E o bom Jesus, com paciência, repete o que já disse e fica olhando para mim com o seu sorriso de Mestre bom para não deixar que nos ditados fiquem mutilações devidas à grande felicidade em que eu fico ao escutar a voz dele, ao saboreá-la, ao estudar o seu tom e o seu fascínio. Mas, depois de dois anos, ainda não sei dizer precisamente qual seu tom. Excluo absolutamente o som de baixo, como excluo também o de tenor ligeiro. Mas estou sempre incerta sobre se é uma poderosa voz de tenor ou a de um perfeito barítono, de uma gama vocal muito ampla. Eu diria que é isso, porque sua voz atinge algumas vezes notas de bronze, até quase acolchoadas, especialmente quando fala a dois com um pecador, para levá-lo de novo à Graça, ou quando indica às turbas os desvios humanos. Portanto, quando se trata de analisar e pôr no índice as coisas proibidas, de descobrir as hipocrisias, o bronze se torna mais claro, e se faz cortante como o estampido de um trovão, ao impor a Verdade e a sua vontade, até chegar a cantar, como faz o ouro batido pelo martelo de vidro; quando Ele se eleva cantando hinos de Misericórdia, ou para cantar as grandezas das obras de Deus ou, então, quando envolve de amor este timbre, para falar à Mãe ou da Mãe. Verdadeiramente, pois, está envolvida no amor essa sua voz, em um amor reverencial de Filho e com um amor a Deus, que louva a sua melhor obra. E este tom, ainda que menos marcado, é o de que Ele usa para falar aos prediletos e aos convertidos e às crianças. E não se cansa nunca, ainda mesmo no mais longo de seus discursos, porque é uma voz que reveste e completa o pensamento e a palavra, dando-lhes poder e doçura, à medida que for preciso.

E eu fico, às vezes, com a caneta na mão, a escutar, depois vejo que o pensamento já foi muito para a frente e que é impossível agarrá-lo… e fico ali… enquanto o bom Jesus não o repete, como faz quando eu tenho que interromper, para ensinar a suportar com paciência as coisas, ou as pessoas molestas que eu lhe faço pensar quanto elas me “molestam”, ao tirarem-me da felicidade de estar ouvindo a Jesus.

243.3Agora, em Caná, Jesus está agradecendo a Susana pela hospitalidade que ela deu à Aglaé. Eles estão à parte, debaixo de um viçoso suporte carregado de cachos, que já estão amadurecendo, enquanto os outros estão tomando uma refeição na ampla cozinha.

 A mulher era muito boa, Mestre. Ela não foi nenhum peso para nós. Quis ajudar-me, sempre que eu ia fazer a lavação, na limpeza da casa para a Páscoa, como se ela fosse uma criada, e trabalhou, eu te garanto, como uma escrava para me ajudar a terminar as vestes pascais. Era prudente e se afastava de todas as pessoas que chegavam e com o meu marido procurava não permanecer. Pouco falava na presença da família, comia pouco. Levantava-se antes de começar o dia para se arrumar antes que os homens se levantassem, e eu achava já o fogo sempre aceso e a casa varrida. Mas, quando ficávamos sozinhas, ela me perguntava sempre por Ti e me pedia que lhe ensinasse os salmos da nossa religião. Ela dizia: “Para eu saber orar, como ora o Mestre.” E agora, ela já parou de sofrer? Porque ela sofria muito. De tudo tinha medo e vivia suspirando e chorando. E agora, ela está feliz?

 Sim. Está sobrenaturalmente feliz. Está livre dos medos. Está em paz. Eu ainda te quero agradecer pelo bem que lhe fizeste.

 Oh! Meu Senhor! Que bem foi esse? Eu não lhe dei mais do que amor em teu nome, porque outra coisa não sei fazer. Era uma pobre irmã. Eu o compreendia. E, por gratidão para com o Altíssimo, que me conservou em sua graça, eu a amei.

 E tu fizeste mais do que se lhe tivesses pregado no Bel Midrash. Agora tens aqui outra daquelas. Já a reconheceste? E quem é por aqui que não a conhece?

 Ninguém, é verdade. Mas ainda vós não conheceis, vós e as deste lugar, a segunda Maria, a que será sempre de sua vocação. Sempre. Eu te peço que acredites.

 Tu o dizes. Tu sabes. Eu creio.

 Dize também: “Eu amo.” Eu sei que é mais difícil compadecer-se de alguém e perdoar a quem cometeu uma falta, sendo dos nossos tal pessoa, do que um outro que tem a desculpa de ser pagão. Mas, se a dor foi forte por ver apostasias em uma família, mais forte seja a compaixão e o perdão. Eu perdoei por todo Israel –termina Jesus, marcando bem as palavras.

 E eu perdoarei da minha parte. Porque penso que um discípulo deve fazer o que o seu Mestre faz.

 Estás com a verdade e Deus se alegra por isso. 243.4Vamos aos outros. A tarde está chegando. Será agradável o repouso, com o silêncio da tarde.

 Não nos dirás nada, Mestre?

 Ainda não sei.

Entram na cozinha, onde estão preparadas as comidas e as bebidas para a próxima ceia. Susana vai para a frente, dizendo, com o leve rubor do seu rosto juvenil:

 Querem as minhas irmãs vir comigo para a sala de cima? Devemos preparar logo as mesas, porque precisamos arrumar as enxergas para os homens. Eu poderia fazer isso sozinha. Mas me tomaria muito tempo.

 Eu vou também, Susana –diz a Virgem.

 Não. Bastamos nós, e servirá para nos conhecermos, porque o trabalho nos irmana.

Elas saem juntas, enquanto Jesus, depois de ter bebido da água, tratada com não sei qual xarope, vai sentar-se com a Mãe, com os apóstolos e os homens da casa, ao frescor sob a sombra do suporte, deixando livres as serventes e a patroa anciã para acabarem de preparar a comida.

243.5Ouvem-se, vindos da sala de cima, as vozes das três discípulas, que estão preparando as mesas. Susana está contando o milagre que aconteceu no dia do seu casamento. E Maria de Magdala responde:

 Mudar a água em vinho é sinal de ter grande poder. Mas mudar uma pecadora em discípula é sinal de ter maior poder ainda. Queira Deus que eu faça como aquele vinho: que eu me torne sempre melhor.

 Nem tenhas dúvida disso. Ele mudou tudo de um modo perfeito. Já houve uma que, além de tudo, era pagã, convertida por Ele em seus sentimentos e em sua fé. E, então, para ti, que já és de Israel, podes duvidar que isso aconteça contigo?

 Houve uma? Era jovem?

 Era jovem. Belíssima.

 E onde está ela agora? –pergunta Marta.

 Só o Mestre sabe.

 Ah! Então é aquela de que te falei. Lázaro estava com Jesus naquela tarde1 e ouviu as palavras ditas por ela. Que perfume havia naquela sala! Lázaro ficou com ele em sua roupa durante muitos dias. E, no entanto, Jesus disse que o perfume do coração da convertida era, pelo seu arrependimento, mais duradouro ainda. Quem sabe para onde ela terá ido? Eu acho que foi para o deserto…

 Ela no deserto e era estrangeira. E eu aqui e sou conhecida. A expiação dela era no deserto, e a minha consiste em viver no meio do mundo que me conhece. Eu não invejo a sorte dela, porque estou com o Mestre. Mas espero poder imitá-la um dia, para ficar sem nada que me afaste dele.

 Tu o deixarias?

 Não. Mas Ele diz que irá embora. E, então, o meu espírito o acompanhará. Com Ele eu posso desafiar o mundo. Sem Ele, eu teria medo do mundo. Então, eu colocarei o deserto entre mim e o mundo.

 E eu e Lázaro, como faremos?

 Fareis como fizestes em vossa dor: Vós vos amareis e me amareis. E sem ficardes envergonhados. Porque então estareis sozinhos, mas estareis sabendo que eu estou com o Senhor. E que no Senhor eu vos amarei.

 É forte e purificada Maria, em suas decisões –comenta Pedro, que estava ouvindo.

E Zelotes responde:

 É uma lâmina reta, como foi seu pai. De sua mãe ela herdou as feições. Mas do pai tem o espírito indomável.

E aquela, que tem esse espírito indomável, desce agora, ágil, indo para onde estão os companheiros, para dizer-lhes que as mesas estão prontas.

243.6A campina desaparece na noite serena, mas, por enquanto, sem luar. Somente uma fraca claridade dos astros serve para ajudar a ver os vultos escuros das árvores e os vultos brancos das casas. Nada mais. Alguns pássaros noturnos estão voando com seu vôo mudo, ao redor da casa de Susana, procurando mosquitos e passando rente às pessoas, que estão sentadas no terraço, ao redor de uma candeia que projeta uma fraca luz amarelenta sobre os rostos que se voltam para Jesus. Marta, que deve ter um grande medo de morcegos, solta um grito cada vez que algum grande morcego passa por perto dela. Jesus, por sua vez, se preocupa com as mariposas, que a luz da candeia atrai e, com sua longa mão, procura afastá-las da chama.

 São animais muito estúpidos, tanto estas como aqueles –diz Tomé–. Os primeiros nos tomam por grandes mosquitos e os segundo acham que esta chama é o sol e se queimam. Eles não têm nem a sombra de cérebro.

 São animais. Queres que eles raciocinem? –pergunta Iscariotes.

 Não. Eu quereria que eles tivessem pelo menos o instinto.

 Eles não tem tempo para tê-lo. Eu estou falando das mariposas. Porque, depois da primeira metamorfose, são belas, mas mortas. Seu instinto só se revela e se torna forte, depois das primeiras trabalhosas surpresas –comenta Tiago do Alfeu.

 E os morcegos? Eles deviam ter o instinto, porque eles vivem por alguns anos. Eles são estúpidos, é isto –rebate Tomé.

 Não, Tomé. Não são mais estúpidos do que os homens. Também os homens se parecem com morcegos estúpidos, muitas vezes. Eles voam, ou melhor, esvoaçam, como bêbados, ao redor de coisas que não servem senão para fazer sofrer. 243.7Eis aqui: meu irmão, com uma boa sacudida do seu capote, já derrubou um. Dá-me –diz Jesus.

Tiago de Zebedeu, a cujos pés caiu o morcego que agora, espavorido, agita-se pelo chão e movendo-se com dificuldade, pega-o com dois dedos por uma de suas asas membranosas e, segurando-o pendurado, como se fosse um trapo sujo, o coloca no colo de Jesus.

 Aqui está o imprudente. Deixemo-lo aqui e vereis que ele se recobra, mas não se corrige.

 É um salvamento inútil, Mestre. Eu acabaria de matá-lo –diz Iscariotes.

 Não. Por quê? Ele também tem uma vida e a defende –responde-lhe Jesus.

 Não me parece. Ou ele não sabe que a tem ou, então, não a defende. Pois ele a põe em perigo!

 Oh! Judas! Judas! Como serias severo com os pecadores, com os homens! Porque os homens sabem que têm esta vida e uma outra vida e não têm dúvidas em colocar em perigo tanto uma quanto a outra.

 Temos, então, duas vidas?

 A do corpo e a da alma, tu sabes disso.

 Ah! Eu pensei que te estivesses referindo às reencarnações. Alguns creem nelas.

 Não existe reencarnação. Mas há duas vidas. No entanto, o homem põe em perigo todas as suas duas vidas. Se tu fosses Deus, como é que julgarias os homens, que são dotados de razão, além do instinto?

 Julgaria severamente. A menos que fosse algum mentecapto.

 Não levarias em conta as circunstâncias, que tornam alguns moralmente loucos?

 Eu não as levaria em conta.

 Assim sendo, de alguém que conhece a Deus e a Lei e, no entanto peca, dele não terias piedade?

 Não teria piedade. Porque o homem deve dominar-se.

 Deveria.

 Deve, Mestre. É uma vergonha imperdoável que um adulto caia em certos pecados, especialmente e ainda mais, se não tiver sido obrigado por alguma força.

 A que pecados te referes?

 Aos da sensualidade, em primeiro lugar. É uma degradação que não tem remédio…

Maria de Magdala inclina a cabeça… E Judas continua:

 E um modo de corromper os outros também, porque do corpo dos impuros sai como que fermento, que perturba até os puros e os leva a imitá-los…

243.8Enquanto Madalena vai inclinando cada vez mais a cabeça, Pedro diz:

 Oh! Devagar! Não sejas tão severo! A primeira a cometer esta imperdoável vergonha foi Eva. E não me queiras dizer que ela foi corrompida por algum fermento impuro saído de algum luxurioso. No entanto, tu sabes que, por minha conta, nada se agita, mesmo se sento ao lado de um luxurioso. Isso é lá com eles…

 A vizinhança suja sempre a gente. Se não a carne, a alma, o que é pior ainda.

 Tu me pareces um fariseu! Mas, desculpa-me: se for assim, será preciso que nos fechemos dentro de uma torre de cristal e lá fiquemos lacrados.

 E fica certo, Simão, de que isso em nada te ajudaria. Na solidão, as tentações são muito mais terríveis –diz Zelotes.

 Oh! Ainda bem. Ficaria tudo só em sonhos. Nada mal –responde Pedro.

 Nada mal? Mas não sabes que a tentação leva-nos ao pensamento e este à procura de algum meio para satisfazer, de algum modo, ao instinto que grita e que esse meio termo prepara o caminho para um refinamento no pecado, no qual se une a sensualidade com o pensamento? –interroga Iscariotes.

 Não entendo nada disso, caro Judas, talvez porque eu nunca me tenha entregue a certos pensamentos, como tu dizes, sobre certas coisas. Só sei que, pelo que me parece, sempre estivemos bem longe dos morcegos e que é bom que tu não sejas Deus. Se assim não fosse, tu ficarias sozinho no Paraíso com toda a tua severidade. 243.9Que dizes a isso, Mestre?

 Eu digo que é bom não sermos muito incondicionais, porque os anjos do Senhor ouvem as palavras dos homens e as registram nos livros eternos. Poderia ser desagradável, para algum de vós, ouvir que se lhe diz: “Que te seja feito conforme julgaste.” Eu digo que, se Deus me mandou, é porque Ele quer perdoar todas as culpas de que o homem se arrepende, sabendo como ele é fraco por causa de satanás. Judas, responde-me: admites que satanás pode apoderar-se de uma alma, a ponto de exercer sobre ela uma coerção tal que diminua o pecado dela aos olhos de Deus?

 Não admito isso: satanás só pode atacar a parte inferior do homem.

 Mas, tu estás blasfemando, Judas de Simão! –dizem quase juntos Zelotes e Bartolomeu.

 Por quê? Em quê?

 Desmentindo a Deus e ao Livro. Neste se lê2 que Lúcifer atacou até a parte superior e Deus, por boca do seu Verbo, já o disse infinitas vezes –responde Bartolomeu.

 Foi dito também que o homem tem o livre arbítrio. Isto significa que sobre a liberdade humana de pensar e de sentir, satanás não pode fazer violência. Nem Deus a faz.

 Deus não, porque é Ordem e Lealdade. Mas satanás, sim, porque ele é a Desordem e o ódio –replica Zelotes.

 O Ódio não é o sentimento oposto à Lealdade. Dizes mal.

 Digo bem, porque só Deus é Lealdade, e, por isso, não falta à palavra dada, para deixar o homem livre em suas ações. O demônio não pode mentir a esta palavra, pois não prometeu ao homem liberdade de arbítrio. Mas também é verdade que isso é Ódio, e ele se arremessa entre Deus e o homem, e assim se arremessa, indo contra a faculdade intelectiva do homem e contra a carne dele, levando para a escravidão essa liberdade a homens que por ele, fazem coisas que, se eles estivessem livres de satanás, não fariam –afirma Simão, Zelotes.

 Eu não admito isso.

 Mas, e então os endemoninhados? Tu negas a evidência –grita Judas Tadeu.

 Os endemoninhados são surdos, ou mudos ou loucos. Mas não luxuriosos.

 Tens somente este vício em tua lembrança? –pergunta, irônico, Tomé.

 Porque é o mais espalhado e o mais baixo.

 Ah! Eu pensava que fosse o que conhecias melhor –diz Tomé, rindo.

Mas o outro se põe de pé, de repente, como se quisesse reagir. Depois, ele se domina e desce a escadinha, afastando-se e indo através dos campos.

243.10Um silêncio… Depois, André diz:

 A ideia dele não está totalmente errada. Dir-se-ia que satanás, de fato, domina seus possessos somente nos sentidos corporais: os olhos, os ouvidos, a fala e o cérebro. Mas, então, Mestre, como se explicam certas maldades? Por acaso, não são elas possessões? Por exemplo, o caso de Doras?…

 O caso de Doras, como dizes, para não faltar à caridade com ninguém, e Deus por isso te dê a recompensa, como o caso de Maria, como todos e ela em primeiro lugar, pensemos, depois nas alusões claras e contra caridade feitas por Judas, são os casos dos possuídos mais completamente por satanás, que estende o seu poder sobre os três graus do homem. As possessões mais tirânicas e sutis, das quais se livram somente aqueles que estão tão pouco degradados no espírito, que ainda sabem compreender os convites da Luz. Doras não foi um luxurioso. Mas, mesmo assim, não soube ir ao Libertador. Aí está a diferença. Porque, enquanto nos lunáticos, nos mudos, nos surdos ou nos cegos, por obra do demônio, os parentes procuram e pensam em trazê-los a Mim, nesses outros, possuídos em seus espíritos é somente o espírito deles que trata de procurar a liberdade. Por isso, esses são perdoados além de serem libertados. Porque a vontade deles é que iniciou a possessão pelo Demônio. E agora vamos descansar. Maria, tu que sabes que é estar presa, reza por aqueles que se oferecem intermitentemente ao Inimigo, fazendo pecado e causando dor.

 Sim, meu Mestre. E sem rancor.

 A paz esteja com todos. Deixemos aqui a causa de tão grande discussão. Que a Treva esteja com a treva lá fora, na noite. E nós, entremos de novo, para dormirmos sob o olhar dos anjos.

E Jesus põe no chão o morcego, que faz as primeiras tentativas abaixo de um banco. Depois Jesus se retira com os apóstolos para o salão de cima, enquanto as mulheres, com os donos da casa, descem para o térreo.

1 naquela tarde, em 200.7.
2 se lê, interpretando o texto do Gênesis 3,1-15; Foi dito também, em Siraque 15,14 e, implicitamente, em qualquer lugar que se fale de livre escolha entre bem e mal, a começar por nos remeter anteriormente ao livro do Gênesis.


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