423. 423. Partida de Iscariotes, que provocaa lição sobre o amor e o perdão.


25 de abril de 1946.

423.1 Já estão do outro lado do rio, tendo à direita o Monte Tabor e o pequeno Hermon à esquerda, os montes da Samaria, às costas o Jordão e à frente, além da planície, na qual se encontram as colinas, diante das quais está Magedo (se bem me lembro, esse nome foi ouvido em uma visão já distante1, aquela em que Jesus se une a Judas de Keriot e a Tomé, depois da separação causada pela necessidade de conservar oculta a partida da Síntica e do João de Endor.)

Devem ter repousado o dia inteiro em alguma casa hospitaleira, pois a tarde já chegou de novo, e é evidente que eles estão descansados. Ainda está fazendo calor, mas o orvalho já começa a cair, diminuindo a temperatura do ar. E já vão descendo as sombras arroxeadas do crepúsculo, tomando o lugar das últimas vermelhidões de um pôr-do-sol de fogo.

– Por aqui se pode caminhar bem –observa, contente, Mateus.

– Sim. Andando bem assim, estaremos, antes do canto do galo, em Magedo –responde-lhe o Zelotes.

– E, ao romper do dia, estaremos para lá das colinas, e vendo a planície de Saron –termina João.

– E do teu mar… –diz-lhe o irmão, para bulir com ele.

– Sim. Do meu mar… –responde sorrindo João.

423.2 – E tu partirás com o espírito para uma das tuas peregrinações espirituais –diz-lhe Pedro, apertando-lhe o braço, com um afeto rude e bondoso.

E termina:

– Ensina-me também como é que se faz para ter certos pensamentos assim… angelicais, ao ver as coisas. Eu já olhei para a água tantas vezes… gostei dela, mas ela nunca me serviu, a não ser para ganhar o meu pão, pescando. Que é que tu vês nela?

– Vejo água, Simão. Como tu vês, como todos veem. Assim como agora estou vendo os campos e os pomares… Mas depois, para lá de onde alcançam os olhos do corpo, tenho como que uns outros olhos aqui dentro, e já não vejo as ervas e a água, mas umas palavras de sabedoria, que saem daquelas coisas materiais. Não sou eu que penso. Pois nem seria capaz disso. É um outro que pensa em mim.

– Serás tu, por acaso, um profeta? –interroga, um pouco irônico, Iscariotes.

– Oh, não! Eu não sou profeta…

– E, então? Crês que possuis a Deus?

– Menos ainda…

– Então, tu ficas delirando.

– Poderia até ser isso, pois sou tão pequeno e fraco. Mas, se assim for, é bem doce o ficar delirando, pois me conduz a Deus. A minha doença, então, se transforma em um dom, e eu bendigo ao Senhor por isso.

– Ah! Ah! Ah! –ri-se, com fragor e falsidade, Judas.

Jesus, que tudo ouviu, diz:

– Ele não é doente, nem profeta. Mas a alma pura possui a sabedoria. E é esta que fala no coração do homem justo.

– Nesse caso, eu nunca chegarei até lá, porque não tenho sido sempre bom… –diz, desconsolado, Pedro.

– E eu, então? –responde-lhe Mateus.

Meus amigos: poucos, muito poucos seriam aqueles que poderiam possuir a sabedoria, porque são puros desde sempre. Mas o arrependimento e a boa vontade tornam o homem, que antes era culpado e imperfeito, um justo. E, então, a consciência readquire sua pureza no banho da humildade, da contrição e do amor, e, assim revigorada, pode competir com aqueles que estão limpos.

– Muito obrigado, Senhor –diz Mateus, inclinando-se para beijar a mão do Mestre.

423.3 Um silêncio. Depois Judas Iscariotes exclama:

– Estou cansado! Não sei se aguentarei caminhar a noite inteira.

– Sem dúvida alguma! Hoje quiseste ficar andando por aí como um moscardo, enquanto nós estávamos dormindo! –responde-lhe Tiago do Zebedeu.

– Eu queria ver se encontrava alguns discípulos…

– E quem é que te estava mandando? O Mestre não falou nisso. Portanto…

– Está bem. Mas eu fiz. E, se o Mestre mo permite, eu vou parar em Magedo. Creio que lá esteja um nosso amigo, que desce todos os anos por este tempo, depois da colheita dos cereais. Eu quereria falar-lhe de minha mãe e…

– Faze, então, o que quiseres. Depois de fazeres o que te interessa, dirigir-te-ás para Nazaré. Lá te alcançaremos. Assim poderás avisar minha Mãe e Maria de Alfeu que logo chegaremos a casa.

– Eu também te digo, como Mateus: “Obrigado, Senhor.”

Jesus não responde nada e recebe o beijo na mão, como recebeu o de Mateus. Não é possível ver as expressões, porque este é o momento da tarde no qual a luz do dia desaparece completamente, e a luz das estrelas não começou a aparecer ainda. Está tão escuro, que com dificuldade é que eles vão pelo caminho, e, para evitar qualquer inconveniente, Pedro e Tomé resolvem acender uns galhos apanhados nas sebes, e eles pegam fogo, e crepitam… Mas a luz que antes não se via, aparece, movendo-se e soltando fumaça, não permitindo que se vejam bem as expressões dos rostos.

Enquanto isso, as colinas vão-se aproximando. Seus dorsos escuros já se delineiam, com uma cor negra mais escura do que a dos campos ceifados e branquicentos por causa dos restolhos na escuridão da noite, e sempre mais vão-se delineando, tanto porque nos aproximamos deles, como também pela claridade das primeiras estrelas…

– Eu te deixaria aqui porque o meu amigo está um pouco fora de Magedo. Estou muito cansado…

– Vai, então. Que o Senhor vele sobre os teus passos.

– Obrigado, Mestre. Adeus, amigos.

– Adeus, adeus, dizem os outros, sem darem muita importância à saudação.

Jesus repete:

– Que o Senhor vele sobre as tuas ações.

Judas lá se vai, apressado.

423.4 – Hum! Não parece estar tão cansado –observa Pedro.

– É. Aqui estava arrastando as sandálias. Agora vai correndo como uma gazela… –diz Natanael.

– A tua despedida foi santa, meu irmão. Mas, se o Senhor não o oprimir com sua vontade, não adiantará nada a assistência de Deus, fazendo-o dar bons passos e praticar ações justas.

– Judas, não é por seres meu irmão que ficas isento das censuras! Eu te censuro por seres acre e inexorável para com o teu companheiro. Ele terá lá as suas culpas. Mas tu também tens as tuas. E a primeira é a de não saberes ajudar-me a formar aquela alma. Tu o exasperas com as tuas palavras. Não é com a violência que se conquistam os corações. Achas que tens o direito de censurar tudo o que ele faz? Achas que és tão perfeito, que o podes fazer? Eu te faço lembrar que Eu, teu Mestre, não faço isso, porque amo aquela alma sem formação. Achas que ele sente prazer em seu estado? E como poderás amanhã ser mestre de espíritos, se não te exercitas com um companheiro, usando a infinita caridade que redime os pecadores?

Judas de Alfeu inclina a cabeça, desde as primeiras palavras. Mas no fim se ajoelha no chão, dizendo:

– Perdoa-me. Eu sou um pecador. E censura-me quando eu estiver culpado, pois a correção é amor, e somente um estulto é que não compreende a graça que é ser corrigido por um sábio.

– Tu vês que Eu o faço para o teu bem. Mas à censura eu acrescento o perdão, porque sei compreender a razão do teu rigor, e porque a humildade do corrigido desarma ao que corrige. Levanta-te, Judas, e não peques mais –e o conserva a seu lado, junto com João.

423.5 Os outros apóstolos comentam entre si, primeiro cochichando, depois em voz mais forte, pelo hábito que eles têm de falar em voz alta. E assim é que eu percebo que eles estão fazendo comparações entre os dois Judas.

– Se fosse o Judas de Keriot que estivesse ouvindo aquela repreensão! O teu irmão é bom –diz Tomé a Tiago.

– Mas… Eis. Não se pode dizer que ele tivesse falado mal. Ele disse uma verdade sobre Judas de Keriot. Crês tu no amigo que vai para a Judeia? Eu, não –diz com franqueza Mateus.

– Deve tratar-se de negócios de vinhas, como na feira de Jericó

–diz Pedro, lembrando-se da cena2 que ele não pode esquecer.

Todos se riem.

– Sem dúvida, só mesmo o Mestre pode ter tanta compaixão dele… –observa Filipe.

– Tanta? Sempre, é o que deves dizer –replica-lhe Tiago de Zebedeu.

– Se fosse comigo, eu não teria tido paciência –diz Natanael.

– Eu também, não. A cena de ontem foi muito desagradável –confirma Mateus.

– O homem não deve estar bem em suas faculdades mentais –diz, conciliador, Zelotes.

– Mas ele faz sempre bem os seus negócios. E até bem demais. Eu apostaria a minha barca, as minhas redes, e até minha casa, certo de que não perderia nada, que ele está indo ao encontro de algum fariseu, para pedir proteção… –diz Pedro.

– É verdade! Ismael. Ismael está em Magedo. Como é que nem pensamos nisso? Mas é preciso dizer isso ao Mestre! –exclama Tomé, dando uma forte palmada na testa.

– Não adianta. O Mestre o desculparia ainda, e nos censuraria

–diz Zelotes.

– Pois bem. Vamos experimentar. Vai tu, Tiago. Ele te ama, tu és parente dele…

– Para Ele, nós somos todos iguais. Aqui, entre nós, Ele não vê quais são os parentes ou amigos, mas vê somente os apóstolos, e é imparcial. Contudo, para contentar-vos, eu vou –diz Tiago de Alfeu.

E apressa o passo, para afastar-se dos companheiros e alcançar Jesus.

423.6 – Vós pensais que ele tenha ido à casa de um fariseu. A este ou àquele, pouco importa… Mas eu acho que ele saiu com aquela história para não ir à Cesareia. Ele não vai lá com muito gosto! –diz André.

– Parece que ele esteja enojado das romanas, há algum tempo

–nota Tomé.

– No entanto, enquanto vós íeis para Engadi, e eu ia com ele para a casa de Lázaro, ele ficou todo feliz, por poder falar com Cláudia…

–observa o Zelotes.

– Sim. Mas… Eu penso que foi justamente então que ele fez alguma coisa de mal. E penso que a Joana saiba disso, e que por isso é que terá chamado a Jesus, e… e… muitas coisas eu venho ruminando aqui dentro, desde quando Judas se enfureceu daquele modo em Betsur… –resmunga Pedro entre dentes.

– Que é que estás dizendo? –pergunta, curioso, Mateus.

– Mas… Não sei não. São ideias… Veremos…

– Oh! Não fiquemos pensando mal. O Mestre não quer. E nós não temos nenhuma prova de que ele tenha procedido mal –pondera André.

– Não me quererás dizer que ele faz bem em entristecer o Mestre, em faltar-lhe com o devido respeito, em causar aborrecimento, em…

– Bem, Simão! Eu te garanto que ele é um pouco doido –diz Zelotes.

– Bem. Talvez seja, mas vive sempre cometendo faltas contra a Bondade do Senhor nosso. Eu, mesmo que ele me cuspisse no rosto, me desse bofetadas, eu tudo suportaria, para oferecer tudo a Deus pela redenção dele. Eu me dispus a oferecer todos os sacrifícios para isso, e mordo a minha língua, e finco as unhas nas palmas, para dominar-me, quando ele se faz de doido. Mas o que eu não consigo perdoar é que ele seja mau para com o nosso Mestre. O pecado que comete contra Ele é como se fosse feito contra mim, e eu não o perdoo. Depois… antes isso acontecesse raramente! Mas ele vai sempre para trás. Não consigo fazer passar a raiva, que me ferve aqui dentro, quando ele faz uma das suas doideiras e logo em seguida faz outra! Uma, duas, três… Há um limite!

Pedro fala quase gritando e gesticulando, com toda a impetuosidade.

423.7 Jesus, que está uma dezena de metros na frente, vira-se, como uma sombra branca na noite, e diz:

– Não há limite para o amor e o perdão. Não há. Nem em Deus, nem nos verdadeiros filhos de Deus. Enquanto há vida, não há limites. A única barreira que se opõe à descida do perdão e do amor é a resistência impenitente do pecador. Mas, se ele se arrepende, sempre é perdoado. Ainda que pecasse, não uma, mas duas ou três vezes por dia, e muitas mais.

Vós também pecais, e quereis o perdão de Deus, e a Ele ides, dizendo: “Pequei! Perdoa-me.” E para vós é doce o perdão, como para Deus é doce o perdoar E vós não sois deuses. Por isso é menos grave a ofensa que um vosso semelhante vos faz do que a que ele faz Àquele que não é semelhante a nenhum outro. Não vos parece? E, no entanto, Deus perdoa. Fazei vós também a mesma coisa. Olhai para vós. Cuidado para que a vossa intransigência não se transforme para vós em prejuízo, provocando a intransigência de Deus contra vós. Eu já o disse, e o repito ainda. Sede misericordiosos para obterdes misericórdia. Ninguém é tão sem pecado, que possa ser inexorável para com o pecador. Olhai para os vossos pesos, antes de ficardes olhando os que gravam o coração do outro. Tirai primeiro os vossos do vosso espírito, e depois voltai-vos para os dos outros, a fim de mostrar para com os outros, não um rigor que condena, mas um amor que ensina e os ajuda a ficarem libertados do mal. Para poderdes dizer, e não serdes silenciados pelo pecador, para poderdes dizer: “Tu pecaste contra Deus e contra o próximo.” É preciso não ter pecado, ou pelo menos ter dado uma reparação pelo pecado.

Para poderdes dizer àquele que se rebaixou por ter pecado: “Tem fé, pois Deus perdoa a quem se arrepende,” deveis mostrar muita misericórdia no perdoar. Então, podereis dizer: “Estás vendo, pecador arrependido? Eu perdoo as tuas culpas sete e sete vezes, porque sou servo daquele que perdoa vezes sem número a quem outras tantas vezes se arrepende de seus pecados. Pensa, então, como te perdoa o Perfeito, se eu, só porque o sirvo, sei perdoar. Tem fé!”. Assim é que deveis poder dizer.

423.8 Por isso, se o vosso irmão peca, repreendei-o com amor, e, se ele se arrepende, perdoai-lhe. E, se no fim do dia tiver pecado sete vezes, e sete vezes vos disser “Eu estou arrependido do que fiz,” outras tantas vezes perdoai-lhe. Entendestes? Prometeis-me que o fareis? Enquanto ele está longe, me prometeis que vos compadecereis dele? Que me ajudareis a curá-lo com o sacrifício de vos conterdes, quando ele erra? Não quereis ajudar-me a salvá-lo? Ele é um vosso irmão pelo espírito, vindo de um único Pai, e pela raça vindo de um único povo, pela missão sendo apóstolo como vós. Três vezes o deveis amar por isso. Se na vossa família tivésseis um irmão, que dá tristeza ao pai, e dá que falar de si, não procurareis corrigi-lo, para que o pai não sofra mais, e o povo não fique falando mal de vossa família? E, então? Não é a vossa uma família maior e santa, a família cujo Pai é Deus, e cujo primogênito sou Eu? Por que, então, não quereis consolar ao Pai e a Mim, e ajudar-nos a tornar bom o pobre irmão que, podeis crer, não é feliz por estar assim…

Jesus está, com muito esforço, implorando um favor do apóstolo tão cheio de faltas… E termina, dizendo:

– Eu sou o Grande Mendigo. E vos peço a esmola mais preciosa: almas, é o que vos peço. Eu as vou procurando. Mas vós me deveis ajudar… Matai a fome do meu Coração, que procura amor, e não o encontra, a não ser em muito poucos. Porque aqueles que não tendem para a perfeição são para Mim como uns pães tomados da minha fome espiritual: Dai almas ao vosso Mestre, que está aflito por ser desamado e incompreendido…

423.9 Os apóstolos estão comovidos… muitas coisas quereriam dizer, mas todas as suas palavras lhes parecem mesquinhas… Eles se unem bem perto do Mestre, e todos o querem acariciar, para lhe darem a entender que o amam.

Finalmente, é o manso André que diz:

– Sim, Senhor. Com paciência, silêncio e sacrifício, que são as armas que convertem, nós te daremos almas. E aquela também… se Deus nos ajudar…

– Sim, Senhor. E Tu, ajuda-nos com a tua oração.

– Sim, meus amigos. E, enquanto isso, rezemos juntos pelo companheiro que lá se foi… “Pai nosso, que estais no Céu…”

A voz perfeita de Jesus diz as palavras do Pai-nosso, frisando-as bem, e pronunciando-as lentamente. Os outros lhe fazem um coro obediente. E rezando, entram pela noite adentro.

1 visão já distante, de cinco meses atrás, em 334.7.
2 cena, que está em 112.2.


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