220. 220. Os idólatras de Magdalgadeo milagre sobre a parturiente.


16 de julho de 1945.

220.1 Ascalon e suas hortas já são apenas uma recordação. Nas horas frescas de uma esplêndida manhã, virando as costas para o mar, Jesus se dirige com os seus para umas colinas muito verdes, de pouca altura mas muito aprazíveis, que se elevam da planície fértil. Seus apóstolos, descansados e satisfeitos, estão muito alegres e falando de Ananias, das suas escravas, de Ascalon, do vozerio que havia na cidade, quando eles voltaram para levar o dinheiro para Dina.

– Estava escrito que eu haveria de passar pelo pega-pega dos filisteus. O ódio e o amor têm as mesmas manifestações, se quiserdes. E eu, que não havia sofrido pelo ódio filisteu, por pouco não sou ferido pelo amor. Por pouco não nos prendem aqueles exaltados por causa do milagre, para fazer-nos dizer onde estava o Mestre. E que gritaria! Não foi, João? A cidade fervia como um caldeirão. Os que estavam inquietos não queriam ouvir razões, e queriam ir à procura dos judeus para espancá-los, enquanto os que tinham recebido benefícios, ou os amigos deles, queriam persuadir os primeiros que era um deus que tinha passado. Que confusão! Vão discutir durante dois meses. O pior é que eles discutem mais com um pau na mão, do que com a língua. Mas…que fazer? Eles se entendem. Façam o que quiserem –diz Tomé.

– Mas… eles não são maus… –observa João.

– Não. Eles são apenas obcecados por muitas coisas –responde Zelotes.

Jesus não fala durante um bom tempo da viagem. Depois, Ele diz:

– Agora Eu vou àquele lugarejo, lá no alto do monte, e vós continuareis até Azoto. Prestai atenção. Sede corteses, afáveis, pacientes. Mesmo que escarneçam de vós, suportai-o em paz, como ontem fazia Mateus, e Deus vos ajudará. Ao pôr do sol, saí e ide para perto do brejo, que fica nas cercanias de Azoto. Lá nos encontraremos.

– Mas, Senhor, eu não te deixo sozinho –exclama Iscariotes–. São uns violentos estes!… É uma imprudência.

– Não precisais temer nada por Mim.. Vai, vai, Judas, e sê prudente tu. Adeus. A paz esteja convosco.

Os doze lá se vão, não muito entusiasmados. Jesus olha como eles vão indo, depois toma o caminho da colina, fresco, sombreado, coberto de bosques de nogueiras, de oliveiras, de figueiras, de vinhedos bem cultivados e já com promessas de uma boa colheita. Nos lugares em que o terreno se inclina para a planície, há pequenos sítios com cereais e, pelas encostas, pastam as cabras louras sobre a erva verde.

220.2 Jesus alcança as primeiras casas da região. Está para entrar, quando se encontra com um estranho cortejo. São mulheres que gritam em altas vozes, homens a vozear, cantando um canto triste e alternado, em altas vozes, e todos executando uma espécie de dança, ao redor de um bode que vai à frente, com os olhos vendados, já ferido, vertendo sangue nos joelhos, por ter tropeçado e caído nas pedras do caminho. Um outro grupo, igualmente vociferando e gritando alto, agita-se ao redor de um simulacro esculpido, que na verdade é muito feio, e conserva levantadas umas frigideiras com brasas acesas, que eles alimentam jogando em cima resina e sal, pelo menos é o que parece, porque as primeiras soltam um cheiro de terebentina, e o segundo dá estalos, como faz o sal. Um último grupo rodeia um santarrão diante do qual se inclinam continuamente, gritando:

– Pela tua força! –(os homens).

– Só tu podes! –(mulheres).

– Suplica ao deus! –(homens).

– Tira o feitiço! –(mulheres).

– Comanda a mãe!

– Salva a mulher!

Depois todos juntos, com um uivo de bruxos:

– Morte à maga!

E, em seguida, de novo, com uma variante:

– Pela tua força!

– Só tu podes!

– Ordena ao deus!

– Que ele faça ver!

– Comanda o bode!

– Que mostre a feiticeira!

E, com um uivo de condenados:

– Que odeia a casa de Fará!

220.3 Jesus faz parar um dos do último grupo, e pergunta com doçura:

– Que acontece? Eu sou um forasteiro…

O homem, enquanto a procissão parou um pouco para bater no bode, para jogar resina sobre as brasas, e para tomarem fôlego, explica:

– A esposa de Fará, o grande de Magdalgad, está morrendo de parto. Uma que a odeia, pôs nela um feitiço. Suas vísceras deram um nó e o filho não pode nascer Procuramos a feiticeira para matá-la. Só assim a esposa de Fará será salva e, se não encontramos a feiticeira, sacrificaremos o bode para impetrar misericórdia da deusa mãe. –(Pode-se então compreender que aquela garatuja de boneco é um deusa…)

– Parai. Eu sou capaz de curar a mulher e de salvar o filho. Dizei isso ao sacerdote –diz Jesus ao homem e a outros dois que se aproximam dele.

– És médico?

– Mais ainda.

Os três abrem a multidão, e vão ao sacerdote idólatra. E lhe falam. A notícia corre. A procissão, que tinha recomeçado a andar, para. O sacerdote, imponente em seus farrapos multicores, faz um sinal a Jesus e lhe diz:

– Jovem, vem cá!

E, quando Jesus já está perto, lhe diz:

– É verdade o que dizes? Olha bem que, se o que dizes não acontece, nós pensaremos que o espírito da feiticeira se incorporou em Ti e te mataremos no lugar dela.

– É verdade. Levai-me logo à mulher e, enquanto isso, dai-me o bode. Preciso dele. Tirai-lhe as vendas e trazei-o aqui.

Eles assim fazem. O pobre animal, espantado, cambaleando, sangrando, é levado a Jesus, que o acaricia, passando-lhe a mão sobre o espesso pelo negro.

– Mas agora é preciso que me obedeçais, sem exceção. Vós o fareis?

– Sim! –grita a multidão.

– Vamos. Não griteis mais, não queimeis resinas. Eu o ordeno.

220.4 Vão indo, entram no povoado e, por um caminho que é o melhor, chegam a uma casa que fica no meio de um pomar. Uivos e choros saem pelas portas escancaradas e, acima de tudo, ouve-se o lamento triste e atroz da mulher, que não pode dar à luz o filho.

Correm para ir avisar Fará, que vem na frente, lívido, ladeado por mulheres que choram e por uns inúteis santarrões, que vêm queimando incenso e folhas em duas frigideiras.

– Salva minha mulher!

– Salva minha filha!

– Salva-a, salva-a! –gritam, um por um, o homem, a velha e a multidão.

– Eu a salvarei, e com ela, o teu filho, pois vai ser um menino e muito viçoso, com dois olhos cor de azeitona que está amadurecendo, e a cabeça coberta de cabelos pretos como esta lã.

– Como é que sabes disso? Será que vês? Até nas vísceras?

– Em tudo Eu vejo e penetro. Tudo Eu conheço e posso. Eu sou Deus.

Se tivesse mandado um raio, teria produzido menos efeito. Todos se jogam no chão como mortos.

– Levantai-vos. Escutai. Eu sou o Deus poderoso, e não suporto outros deuses diante de Mim. Acendei um fogo e jogai nele aquela estátua.

A multidão se revolta. Começam a dúvidar do “deus” misterioso que ordena a queima da deusa. Os mais irados são os sacerdotes.

Mas Fará e a mãe da esposa, aos quais interessa muito a vida da mulher, opõem-se à multidão hostil. E como Fará é o grande do povoado, a multidão refreia a sua ira. Mas o homem pergunta:

– Como posso crer que Tu és um deus? Dá-me um sinal, e eu mandarei que se faça tudo o que quiseres.

– Olha. Estás vendo as feridas deste bode? Estão abertas, não estão? Estão sangrando, não é? O animal está quase morrendo, não está? Pois bem. Eu quero que não seja mais assim… Aí está. Olha, agora.

O homem se inclina e olha… e grita:

– Está sem as feridas!

E se joga no chão gritando:

– A minha mulher, a minha mulher!

Então o sacerdote da procissão diz:

– Teme Fará. Não conhecemos quem é este. Teme a vingança dos deuses!

O homem fica tomado por dois medos: dos deuses, da mulher… e pergunta:

– Quem és Tu?

– Eu sou aquele que sou, no Céu e na Terra. Toda força me está sujeita, todo pensamento é por Mim conhecido. Os habitantes do Céu me adoram, os habitantes do Inferno me temem. E os que crêem em Mim verão realizar-se todo prodígio.

– Eu creio! Eu creio… O teu nome!

– Jesus Cristo, o Senhor Encarnado. Ponde aquele ídolo no fogo! Não suporto deuses na minha frente. Que se apaguem aqueles turíbulos. Não tendes mais do que o meu Fogo, que pode e quer. Obedecei, ou Eu porei fogo em vosso ídolo vazio e me irei embora, sem salvar ninguém.

É terrificante o aspecto de Jesus, vestido com sua veste de linho, e de cujos ombros pende o manto azul, cuja cauda se arrasta atrás dele, enquanto seu braço está elevado, num gesto de comando, e seu rosto está fulgurante. Ficam com medo dele, ninguém diz mais nada… No meio daquele silêncio, só se ouve o uivo, cada vez mais fraco e dilacerante, da sofredora. Mas eles demoram em obedecer. O rosto de Jesus se torna ainda mais insuportável ao ser olhado. É realmente um fogo que queima matérias e espíritos. E as frigideiras de cobre são as primeiras a sofrer por vontade dele. Os que as estão segurando precisam jogá-las fora, porque não resistem mais ao calor delas.. E, no entanto, os carvões parecem estar apagados… Depois, são os portadores do ídolo que precisam pôr no chão a cadeirinha que eles estavam sustentando nos ombros por meio de varais, porque a madeira deles vai sendo reduzida a carvão, como se alguma misteriosa chama os estivesse lambendo e, logo que a padiola foi posta no chão, pega fogo. O povo foge, aterrorizado…

220.5 Jesus se vira para Fará:

– Podes agora crer de fato no meu poder?

– Eu creio, creio. Tu és o Deus Jesus.

– Não, Eu sou o Verbo do Pai, de Javé de Israel, vindo em Carne e Sangue, Alma e Divindade para redimir o mundo e para dar-lhe a fé no Deus verdadeiro, uno, trino, que está nos céus altíssimos. Venho dar ajuda e misericórdia aos homens para que deixem o Erro e cheguem à Verdade, que é o único Deus de Moisés e dos profetas. Podes crer ainda?

– Creio. Creio!

– Eu vim trazer o Caminho, a Verdade e a Vida aos homens, vim abater os ídolos, ensinar a sabedoria. Por Mim o mundo terá redenção, porque Eu morrerei por amor do mundo e pela salvação eterna dos homens. Podes crer ainda?

– Creio. Eu creio!

– Eu vim para dizer aos homens que eles, se crêem no Deus Verdadeiro, terão a vida eterna no Céu, junto ao Altíssimo, que é o Criador de todos os homens, animais, plantas e astros. Podes crer ainda?

– Creio! Creio!

Jesus nem entra na casa. Somente ergue os braços para o lado do quarto da sofredora, com as mãos estendidas, como fez na ressurreição de Lázaro, e grita:

– Sai à Luz, a fim de que conheças a Luz Divina e, por ordem da Luz, que é Deus!

É uma ordem trovejante, à qual, um momento depois, faz eco um grito de triunfo, que em seu som é como um gemido de alegria e depois se ouve o queixoso choro de um recém-nascido, um queixume que sempre vai crescendo, como pela força que vai aumentando.

– Teu filho já está chorando e saudando a terra. Vai a ele, e dize-lhe, agora e depois, que a pátria não é esta terra, mas é o Céu. Educa-o, e tu cresce com ele, para o Céu. Esta é a Verdade, que está falando contigo, e estas (e mostra as frigideiras de cobre, enroladas como folhas secas, inúteis para qualquer uso, jogadas no chão, e as cinzas que mostram o lugar onde estava a padiola do ídolo) são a Mentira, que não ajuda nem salva. Adeus.

E faz sinal de quem vai embora.

220.6 Mas uma mulher vem correndo com um recém-nascido cheio de vida, enrolado em um pano, e gritando:

– É um menino, Fará. É belo, robusto, tem os olhos cor de amora, como as azeitonas quando amadurecem, e os cachinhos mais pretos do que os de um cabrito sagrado. E a mulher, feliz, está descansando. Não está mais sofrendo, como se nada tivesse acontecido. Foi uma coisa repentina, quando já estava quase morrendo… e depois daquelas palavras…

Jesus sorri e, visto que o homem lhe apresenta o recém-nascido, Ele lhe toca na cabeça com as pontas dos dedos. As pessoas, menos os sacerdotes que foram embora, indignados ao verem a defecção de Fará, todas se aproximam curiosas para verem o recém-nascido e olharem para Jesus.

Fará gostaria de dar-lhe objetos e dinheiro pelo milagre. Mas Jesus diz com doçura e firmeza:

– Nada. O milagre não se paga, a não ser com a fidelidade a Deus, que o concedeu. Eu fico somente com este bode, como lembrança da tua cidade.

E vai-se com o bode, que sai trotando perto dele, como se Jesus fosse o seu dono, curado, feliz, berrando, como para dizer a sua alegria por estar com alguém que não bate nele… Descem assim os barrancos da colina, para pegarem de novo a estrada mestra, que vai para Azoto….

220.7 Quando à tarde, ao lado do brejo sombreado, Jesus vê que os discípulos vêm vindo, a admiração é dos dois lados, deles por verem Jesus com aquele bode, e dele, por vê-los com aqueles rostos humilhados de quem não conseguiu fazer o que queria.

– Foi um desastre, Mestre! Eles não nos bateram. Mas nos expulsaram para fora da cidade. Andamos vagando pela campina e pagando bem caro é que conseguimos achar comida. E, no entanto, procuramos agir com doçura… –dizem eles, desolados.

– Não tem importância. Também em Hebron, no ano passado, nos expulsaram, e desta vez até que nos prestaram honras. Não deveis desanimar.

– E Tu, Mestre? E este animal? –perguntam eles.

– Eu fui à Magdaldad. Queimei um ídolo e os turíbulos dele, fiz nascer um menino, preguei o Verdadeiro Deus por meio de milagres e apanhei para Mim o bode, que estava destinado ao rito idolátrico, como pagamento. Pobre animal. Ele estava todo ferido!

– Mas agora está bem! É um animal muito bonito.

– É um animal sagrado, oferecido ao ídolo… Um animal são. Sim. O primeiro milagre para convencê-los de que Eu era o poderoso e não o pedaço de madeira deles.

– E que vais fazer dele?

– Vou levá-lo para Margziam. Ontem um boneco, hoje um bode. Eu o farei feliz.

– Mas queres que ele vá atrás de Ti até Beter?

– Certamente. Nada vejo de horroroso nisso. Se Eu sou o Pastor, poderei ter um bode. Depois o daremos às mulheres. E irão assim para a Galileia. Encontraremos uma cabrita. Simão, tu te tornarás pastor de cabritas. Melhor seria que fossem ovelhas… Mas o mundo é mais de bodes, que de cordeiros… Isto é um símbolo, meu Pedro. Lembra-te disso. Com o teu sacrifício, farás dos bodes, cordeiros. Vinde. Cheguemos até aquela vila, por entre os pomares. Encontraremos alojamento ou nas casas ou nos feixes de palha que estão amarrados nos campos. E amanhã iremos a Jábnia.

Os apóstolos estão admirados, entristecidos, desanimados. Admirados dos milagres, entristecidos por não terem estado lá e desanimados por sua incapacidade, enquanto que Jesus é capaz de tudo. Mas Ele, pelo contrário, está muito contente!… E chega a persuadi-los de que “nada é inútil. Nem mesmo a derrota. Porque ela serve para formar-vos na humildade, enquanto que falar serve para fazer ressoar um nome, que é o meu e para deixar uma lembrança nos corações.”

E está tão convincente e luminoso em sua alegria, que eles também se tranquilizam.

[…]