601. 601. Introdução.


10 de fevereiro de 1944.

601.1Diz Jesus:

– E agora vem. Ainda que, nesta tarde, estejas como alguém que está perto de expirar, vem, pois Eu quero conduzir-te até o meio dos meus sofrimentos. Longo vai ser o caminho que teremos que palmilhar juntos, pois que nenhuma dor me foi poupada. Não me refiro somente à dor na carne, nem só à da mente, nem só à do coração, nem só à do espírito. De todas elas Eu experimentei o sabor, com todas Eu me nutri, com todas matei minha sede, até morrer por causa delas.

Se tu apoiasses tua boca sobre os meus lábios, perceberias que eles conservam ainda o amargor de um grande sofrimento. Se tu pudesses ver minha Humanidade em sua veste, que agora está resplandecente, verias como aquele fulgor todo provém dos milhares e milhares de feridas, que cobriram, com uma veste de viva púrpura, os meus membros lacerados, exangues, fustigados e traspassados por amor de vós.

Agora a minha Humanidade está resplandecente. Mas houve um dia, que tinha em Si a perfeição da beleza física, por ser Filho de Deus e da Mulher sem mancha, apareceu, então, feio aos olhos de quem olhava para Ele com amor, com curiosidade ou com olhares de desprezo; um “verme”, como diz Davi, uma vergonha para a humanidade, uma coisa rejeitada até pela camada mais baixa da sociedade.

O amor ao Pai e às criaturas do Pai foi o que me levou a abandonar meu corpo nas mãos dos que me batiam e a oferecer meu rosto aos que me davam bofetadas e aos que escarravam sobre Mim, aos que achavam estar fazendo uma boa obra quando me puxavam pelos cabelos ou me arrancavam a barba, feriam-me a cabeça com espinhos, fazendo que a terra se tornasse cúmplice deles, e que os frutos por ela produzidos se tornassem tormentos infligidos ao Salvador, esticando meus membros, pondo à vista os meus ossos, arrancando minha roupa, dando assim à minha pureza a maior de todas as torturas, pregando-me a uma peça de madeira, que depois eles puseram em pé, comigo nela pendurado, como se fosse um cordeiro degolado e posto nos ganchos de um açougueiro, e berrando ao redor de Mim, agonizante, como acontece com um bando de lobos famintos aos quais o cheiro do sangue os faz ficar ainda mais ferozes.

Acusado, condenado e morto. Traído, renegado e vendido. Abandonado até por Deus, porque sobre Mim estavam os delitos que Eu havia assumido. Tornei-me mais pobre do que o mendigo que foi roubado pelos ladrões, pois não me foi deixada nem mesmo a minha veste que cobria minha nudez de mártir., Além da morte, não fui poupado nem mesmo da ofensa de uma ferida e das calúnias dos inimigos. Mergulhado na lama de todos os vossos pecados, fui jogado à profundeza escura da dor, sem ver mais a luz do Céu, que correspondesse ao meu olhar de moribundo, nem a voz divina que respondesse à minha última invocação.

601.2Isaías nos diz qual a razão de tão grande dor: “Verdadeiramente Ele tomou sobre si os nossos males e suportou as nossas dores.”

As nossas dores! Sim. Foi em lugar de vós que as suportei! Para aliviar as vossas, para amenizá-las, para anulá-las, se me tivésseis sido féis. Mas não quisestes sê-lo. E, com tudo isso, que foi que Eu ganhei? Vós olhastes para Mim como para um leproso, um castigado por Deus”. Sim. Estava sobre Mim a lepra dos vossos infinitos pecados, estava sobre Mim como uma veste de penitência, como um cilício. Mas como é que não vistes Deus que brilhava na luz de sua infinita misericórdia, com aquela veste posta sobre sua santidade em vosso favor?

“Coberto de chagas por causa de nossas iniquidades, traspassado pela nossa perversidade”, como diz Isaias que, com seus olhos de profeta, via o Filho do Homem transformado em uma ferida para curar a ferida dos homens. Quem dera houvesse feridas só em minha carne!

O ponto em que mais me feristes foi no sentimento e no espírito. Tanto de um como do outro vós fizestes objeto de vosso desprezo e alvo de vossos ataques; me golpeastes na amizade, que Eu vos havia oferecido, através de Judas; na fidelidade, que Eu esperava de vós, através de Pedro que me renegou; na gratidão, por meus benefícios, por meio daqueles que me gritavam: “Que Ele morra!”, depois que eu os havia ressuscitado de tantas doenças; através do amor, pela dor infligida à minha Mãe; através da religião, declarando-me um blasfemador contra Deus, Eu que, pelo zelo da causa de Deus, me havia colocado nas mãos do homem, ao encarnar-me, sofrendo durante a minha vida inteira e abandonando-me à ferocidade humana, sem dizer nenhuma palavra, sem deixar escapar nenhum lamento.

Teria bastado um olhar meu para reduzir a cinzas tanto os acusadores e os juízes, como os carrascos. Mas Eu tinha vindo voluntariamente para consumar o sacrifício, e como um cordeiro — pois Eu era o Cordeiro de Deus e continuo a sê-lo eternamente — deixei-me levar para ser despojado e morto, e para fazer de minha Carne a vossa Vida.

Quando fui levantado na cruz, eu já estava acabado pelos sofrimentos sem nome, com todos os nomes. Eu comecei a morrer desde Belém, ao ver a luz da terra tão cheia de angústia e diferente para Mim, que era o Vivente do Céu. Continuei a morrer na pobreza, no exílio, na fuga, no trabalho, na incompreensão, nas torturas, nas mentiras, nas blasfêmias. Foi isso que o homem deu a Mim, que tinha vindo para uni-lo a Deus!

601.3Maria, olha para o teu Salvador. Ele não é branco em sua veste, nem louro em sua cabeça. Não tem aqueles olhos de safira que tu já conheces. Sua veste está vermelha por causa do sangue, rasgada e coberta de imundícies e de escarros. Seu rosto está inchado e torturado, seu olhar está coberto pelo sangue que escorre e pelo pranto, e está olhando para ti através dessa crosta e da poeira que pesa sobre as pálpebras. Estás vendo minhas mãos? As duas já estão feridas e esperando a última ferida.

Olha, pequeno João, como me olhou o teu irmão, João. Atrás de Mim, por onde Eu passei, há rastos cheios de sangue. O suor, que ainda ficou da agonia no Horto, faz escorrer o sangue das feridas feitas pelos flagelos. A palavra sai, com um hálito já cansado de um coração que está morrendo por uma tortura que nem tem nome, dos lábios secos e machucados.

De agora em diante, me verás muitas vezes assim. Eu sou o Rei da dor e virei falar-te da minha dor com a minha veste real. Acompanha-me, não obstante a tua agonia. Eu saberei, pois Eu sou Piedoso, pôr diante dos teus lábios, intoxicados pela minha dor, também o mel perfumado de contemplações mais serenas. Mas, por enquanto, deves ter preferência por estas de sangue, porque por estas tu tens a Vida, e com elas levarás outros à Vida. Beija a minha mão ensanguentada, e vigia, meditando sobre Mim Redentor.

601.4Vejo Jesus como Ele se descreve. Esta noite, das 19h em diante, (agora já são 1,15h) eu estou agonizando.

601.5Diz-me Jesus nesta manhã de 11 de fevereiro, às 7,30h:

– Ontem à tarde, Eu quis apenas falar-te de Mim sofredor, e por isso iniciei a descrição e a visão dos meus sofrimentos. Ontem à noite foi a introdução. E tu estavas tão acabada, querida amiga! Mas antes que aquela agonia volte, Eu devo fazer-te uma doce censura.

Ontem pela manhã tu foste egoísta. Tu disseste ao Pai1: “Esperemos que eu viva, pois o meu cansaço é o maior.” Não. O dele é o maior, pois é bem cansativo e não é compensado pela felicidade de ver e de ter Jesus presente, como tu o tens, até com sua santa Humanidade. Não sejas nunca egoísta, nem nas coisas mínimas. Uma discípula, um pequeno João deve ser muito humilde e muito caridoso como o seu Jesus.

E agora vem ficar Comigo. “As flores desabrocharam… Chegou o tempo da poda… Nos campos, já se ouviu a voz da rolinha…”. E são as flores nascidas nas poças de Sangue do teu Cristo… E Aquele que vai ser cortado, como um ramo podado, é o Redentor. E a voz da rola, que chama a esposa para o banquete de suas núpcias dolorosas e santas, é a minha que te ama.

Levanta-te e vem, como diz2 a missa de hoje. Vem para contemplar e sofrer. É esse o dom que Eu concedo aos prediletos.

1 ao Pai, isto é, a Padre Migliorini, cujo cansaço está explicado na nota de 174.10.
2 diz, de: Cântico dos cânticos 2,10-12, que inclui a citação mencionada acima, entre aspas. Para as referências a Davi e Isaías, como para outras que não anotaremos, orientamos ao índice temático no final do volume.


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