545. 545. O servo de Betânia refere a Jesus a mensagem de Marta. Previsão a Pedro da Roma cristã.


22 de dezembro de 1946.

545.1Já está escurecendo, quando o servo, subindo de novo por entre as plantas selvagens da beira do rio, esporeia o cavalo, que já está coberto de suor, para que ele supere o desnível que existe naquele ponto entre o rio e a estrada, que vai para o povoado. O pobre do cavalo está arfando, com penosos movimentos nos flancos, por causa da corrida veloz e longa em que veio. A manta escura está toda salpicada de suor e a escuma que encobre o freio borrifou de branco o peito do animal. Ele bufa, arqueando o pescoço e sacudindo a cabeça.

Ei-lo na viela. E logo chega à casa. O servo pula no chão, amarra o cavalo na sebe e chama. Lá de dentro da casa aparece a cabeça de Pedro e, com sua voz um pouco áspera, pergunta:

– Quem chama? O mestre está cansado. Há muitas horas que não lhe dão sossego. Já está quase de noite. Voltai amanhã.

– Não quero nada com o Mestre. Eu estou são e só tenho uma palavra a dizer-lhe.

Pedro vai para diante, dizendo:

– É da parte de quem, se é que se pode saber? Sem um reconhecimento seguro, eu não deixo passar ninguém, especialmente quem como tu, que vens com o mau cheiro de Jerusalém.

Ele foi andando para frente devagar, mais desconfiado por causa do cavalo com a manta preta e ricamente arreado, do que pelo homem. Mas quando o vê mais de perto, dá um grito de espanto, dizendo:

– És tu? Mas não és tu um dos servos de Lázaro?

O servo não sabe o que dizer. A patroa lhe disse que falasse com Jesus. Mas o apóstolo parece bem decidido a não deixá-lo passar. O nome de Lázaro, ele sabe disso, tem muita influência entre os apóstolos. Então o servo se decide a dizer:

– Sim. Eu sou Jonas, servo de Lázaro. Preciso falar com o Mestre.

– Lázaro está mal? É ele quem te manda?

– Está mal, sim. Mas não me faças perder tempo. Eu devo voltar o quanto antes.

E para fazer que Pedro se decida, diz:

– Os sinedritas estiveram em Betânia…

– Os sinedritas! Passa, passa!

E abre a cancela, dizendo:

– Puxa o cavalo. Nós lhe daremos água e capim, se quiseres.

– Eu tenho ração. Mas um pouco de capim não lhe fará mal. Dá-lhe água depois. Antes, ela lhe faria mal.

545.2Entram no grande quarto onde estão as camas e amarram o animal a um canto, para tê-lo protegido contra o ar. O servo o cobre com a coberta que estava amarrada na sela, dá-lhe ração e capim que Pedro apanhou não sei onde. Depois voltam para fora e Pedro vai guiando o servo até a cozinha, dá-lhe uma xícara de leite, tirado de uma pequena leiteira, que está ao lado do fogo aceso, em lugar da água que o servo havia pedido. Enquanto o servo bebe e se restaura junto ao fogo, Pedro, que é um herói em não fazer perguntas curiosas, diz:

– O leite é melhor do que a água que querias. E uma vez que nós aqui o temos! Tu fizeste uma viagem muito grande?

– Bem grande. E a mesma eu farei de volta.

– Ficarás cansado. E o cavalo te aguenta?

– Assim espero. Além disso, já não irei de galope, como quando vim.

– Mas a noite já vem perto. A lua já começa a elevar-se… E quando chegares ao rio, como farás?

– Espero chegar lá, antes que a lua se ponha. Se assim não for, eu ficarei no bosque até a aurora. Mas eu chegarei antes.

– E depois? Longo é o caminho do rio até Betânia. E a lua desce depressa. Ela está em seus primeiros dias.

– Tenho um bom farolete. Eu o acenderei e irei devagar. Por mais devagar que eu vá, estarei sempre me aproximando de casa.

– Queres pão e queijo? Nós temos. E peixe também, fui eu que o pesquei. Por hoje, ficamos nós dois aqui: eu e Tomé. Mas agora Tomé foi buscar o pão na casa de uma mulher que nos ajuda.

– Não. Não te prives de nada. Eu comi pelo caminho, mas tive sede e necessidade de coisas quentes. Agora estou bem. Mas não queres ir ao Mestre? Ele está em casa?

– Sim, sim. Se não estivesse querendo, eu te teria dito logo. É do lado de lá que Ele repousa. Porque vem tanta gente aqui… Eu até fico com medo de que a multidão faça barulho e os fariseus venham perturbar-nos. Toma mais um pouco de leite. Também terás que dar de comer ao cavalo… e fazê-lo descansar. Seus flancos batiam como uma vela mal esticada…

– Não. O leite vos vai fazer falta. Pois sois muitos.

– Sim. Mas exceto o Mestre, que fala muito, a ponto de ficar com o peito cansado, e os mais velhos, nós, robustos, comemos coisas que dão trabalho aos dentes. Toma. É o das ovelhinhas, deixado pelo velho. A mulher, quando estamos aqui, o traz para nós. Mas quando queremos mais, todos nos atendem. Eles nos querem bem por aqui, e nos ajudam. 545.3E… dize-me uma coisa, os sinedritas eram muito numerosos?

– Oh! Estavam quase todos, e com eles outros mais: saduceus, escribas, fariseus, judeus de alto nível, um ou outro herodiano…

– E que é que aquela gente foi fazer em Betânia? José estava com eles? Nicodemos também?

– Não. Eles tinham ido dias antes. E até Manaém tinha ido. Esses outros não são dos que amam o Senhor.

– É. Eu acredito! Poucos são no Sinédrio os que o amam! Mas que é mesmo que eles desejavam?

– Saudar Lázaro, foi o que disseram na entrada…

– Hum! Que amor mais estranho!… Eles sempre o evitaram por tantas razões!… Bem!… Acreditemos, porém… Eles ficaram lá muito tempo?

– Algum tempo. E ao voltarem partiram inquietos. Eu não sou servo da casa e por isso não estava servindo às mesas. Mas os outros, que estavam lá dentro servindo, dizem que falaram com as patroas e queriam ver Lázaro. Também Elquias foi à casa de Lázaro e…

– Atrevido!… –murmura Pedro, por entre os lábios.

– Que foi que disseste?

– Nada, nada. Continua. E ele falou com Lázaro?

– Acho que sim. Ele foi até lá com Maria. Mas depois, não sei por que… Maria ficou inquieta, e os servos, prontos para acudir dos quartos vizinhos, dizem que os expulsou como a uns cães…

– Viva! É o que é preciso! E te mandaram dizer isso?

– Não me faças perder mais tempo, Simão de Jonas.

– Tens razão. Vem.

545.4E o guia para uma porta. Bate. E diz:

– Mestre, aí está um dos servos de Lázaro. Ele te quer falar.

– Entra –diz Jesus.

Pedro abre a porta, faz que o servo entre, fecha a porta e se retira, fazendo assim um ato meritório, para ir para junto do fogo a fim de mortificar sua curiosidade.

Jesus, sentado à beira de sua cama, no pequeno ambiente — onde há apenas espaço para a caminha e para a pessoa que lá mora, e que certamente era antes um depósito de víveres, pois ainda está com uns ganchos na parede e tábuas nas escadas — olha sorrindo o servo, que se ajoelhou, e o saúda:

– A paz esteja contigo.

E depois acrescenta:

– Que notícias me trazes? Levanta-te e fala.

– As minhas patroas me mandaram dizer-te que vás logo à casa delas, porque Lázaro está muito doente e o médico diz que ele vai morrer. Marta e Maria te suplicam por isso, e me mandaram dizer-te: “Vem, porque só tu é que o podes curar.”

– Dize a elas que estejam tranquilas. Essa enfermidade não é para ele morrer dela, mas é para a glória de Deus, a fim de que o seu poder seja glorificado em seu Filho.

– Mas o estado dele é muito grave, Mestre! Sua carne está caindo pela gangrena e ele não se alimenta mais. Eu fiz o cavalo ficar esgotado, por tentar chegar mais depressa.

– Não importa. É como Eu digo.

– Mas tu irás?

– Irei. Dize a elas que Eu irei, e que tenham fé. Uma fé absoluta, compreendeste? Vai. A paz esteja contigo e com quem te mandou. Eu te repito: Que tenham fé. Absoluta. Vai.

O servo saúda e se retira.

545.5Pedro corre ao encontro dele:

– Falaste bem depressa. Eu esperava um discurso longo…

E fica olhando para ele, fica olhando… A vontade de saber transpira por todos os poros do rosto de Pedro. Mas ele se contém…

– Eu me vou. Queres dar-me água para o cavalo? Depois eu partirei.

– Vem. Água! Temos até um rio inteiro para te dar, além do poço que é para nós –e Pedro, levando uma lanterna, vai na frente dele e lhe dá a água pedida.

Fazem que o cavalo beba. O servo levanta a coberta, os ferros, a cilha, as rédeas, os estribos, e explica:

– Eu corri muito. Mas as coisas estão todas em seus lugares. Adeus, Simão Pedro, e reza por nós.

Ele conduz o cavalo para fora. Segurando-o pelas rédeas, sai para a estrada e põe um pé no estribo para subir na sela. Pedro o entretém, pondo-lhe uma mão sobre o braço, dizendo:

– Eu só quero saber isto: há perigo para Ele em ficar aqui? Fizeram essa ameaça? Queriam saber das irmãs onde é que nós estávamos? Dize-me isto, em nome de Deus!

– Não, Simão. Não. Isto não foi dito. Foi por causa de Lázaro que eles lá foram… Entre nós suspeita-se que era para ver se lá estava o Mestre e se Lázaro estava leproso, pois que Maria gritava alto que ele não estava leproso, e chorava… Adeus, Simão. A paz esteja contigo.

– E contigo e com tuas patroas. Deus te acompanhe em tua volta para casa.

Ele o vê partir… Desaparece na curva do caminho, pois o servo prefere tomar a estrada mestra, que fica clara ao luar, em vez de tomar a estrada pequena, que vai através do bosque pela margem do rio. Pedro fica pensativo. Depois fecha a cancela e volta para casa.

545.6Vai até Jesus, que está sempre sentado na cama, com as mãos sobre a beira dela, e absorto. Depois Ele volta a Si, percebendo que Pedro está perto, olhando para ele, como quem quer fazer uma pergunta. E Jesus lhe sorri.

– Tu estás sorrindo, Mestre?

– Eu te sorrio, Simão de Jonas. Assenta-te aqui perto de Mim. Os outros já voltaram?

– Não, Mestre. Nem Tomé. Terá encontrado o que falar.

– Isto é bom.

– É bom que ele fale? Ainda que os outros tardem a chegar? Ele fala até demais. Está sempre alegre. E os outros? Eu estou sempre preocupado, enquanto os outros não chegam. Estou sempre com medo.

– Medo de quê, meu Simão. Não acontecerá nada de mal, por enquanto, podes crer. Põe-te em paz, e imita Tomé, que está sempre alegre. Tu, pelo contrário, estás muito triste de uns tempos para cá.

– Eu duvido que possa haver quem te ame e não fique assim. Eu já estou velho e reflito mais do que os jovens. Pois eles também te amam, mas são jovens e pensam menos. Mas se eu te agrado por ser mais alegre, eu o serei, e me esforçarei para sê-lo. Dize-me a verdade, meu Senhor. Eu te peço de joelhos (e de fato ele cai de joelhos). Que foi que te disse o servo de Lázaro? Que eles estão procurando por ti? Que te querem fazer mal? Que…

Jesus põe a mão sobre a cabeça de Pedro:

– Não, Simão. Nada disso. Ele veio para dizer-me que o mal de Lázaro se agravou muito e nada mais falou sobre Lázaro.

– É verdade, Mestre?

– É verdade, Simão. E Eu respondi que tivessem fé.

– Mas em Betânia estiveram os do Sinédrio. Estás sabendo disso?

– É uma coisa natural. A casa de Lázaro é uma casa grande, E o nosso costume é prestar honras a um poderoso, que está para morrer. Não fiques agitado, Simão.

– Mas, não crês mesmo que eles tenham lançado mão de uma desculpa para…

– Para verem se Eu estava lá. Pois bem. Eles não me encontraram. Vamos. Não fiques mais espantado, como se já me tivessem prendido. Volta para cá, para o meu lado, pobre Simão, que absolutamente não queres persuadir-te de que a Mim nada pode acontecer de mal enquanto não chegar o momento decretado por Deus, e que, então, nada será capaz de defender-me do Mal…

Pedro se lhe agarra ao pescoço e lhe tapa a boca, beijando-o sobre ela, e dizendo:

– Cala-te! Cala-te! Não me digas essas coisas! Eu não as quero ouvir!

Jesus consegue desembaraçar-se dele, o tanto necessário para poder falar, e murmura:

– Não as queres ouvir? Isto é um erro! Mas Eu tenho compaixão de ti… 545.7Escuta, Simão. Já que só tu estavas aqui, de tudo o que aconteceu Eu e tu somente é que devemos saber. Tu me entendes?

– Sim, Mestre, não falarei com nenhum dos companheiros.

– Quantos sacrifícios, não é mesmo, Simão?

– Sacrifícios? Quais? Aqui se está bem. Temos o necessário.

– Sacrifícios para não perguntar, para não falar, para suportar Judas… Por estares longe do teu lago… Mas de tudo Deus te dará a compensação.

– Oh! Se é disso que queres falar!… Em lugar do lago eu tenho o rio, e faço que isso me baste. Quanto a Judas… eu tenho a Ti, o que me compensa em medida cheia… E quanto às outras coisas, são tolices… e me servem para tornar-me menos rústico e mais semelhante a Ti. Como eu fico feliz por estar aqui contigo! Entre os teus braços! O palácio de César não me pareceria mais belo do que esta casa, se eu pudesse sempre estar aqui, assim em teus braços.

– Que sabes tu do palácio do César? Por acaso, já o viste?

– Não. E não o verei nunca. Não me preocupo com isso. Mas penso que é grande, belo, cheio de coisas belas… e de sujeira. Como eu imagino que seja Roma toda. Eu não ficaria lá, nem que me cobrissem de ouro!

– Lá, onde? No palácio do César ou em Roma?

– Em ambos os lugares. Anátema!

– Mas justamente por serem assim é que precisam ser evangelizados.

– Que é que queres fazer em Roma? Aquilo é um prostíbulo. Não há nada a fazer-se lá, a não ser que vás para lá. Então!…

– Eu irei para lá. Roma é a capital do mundo. Tendo-se conquistado Roma, está conquistado o mundo.

– Vamos a Roma? Tu te proclamas rei lá. Pela Misericórdia e o Poder de Deus! Isto é um milagre!

Pedro se pôs em pé e está com os braços levantados diante de Jesus, que está sorrindo, e responde:

– Eu irei para lá nas pessoas de meus apóstolos. E vós a conquistareis para Mim. E lá estarei convosco. Mas de lá já temos alguns. Vamos, Pedro.