551. 551. Os apóstolos são informados, depois deuma permanência junto de Nique, do decretodo Sinédrio. Chegada aos confins da Judéia.


2 de janeiro de 1947.

551.1Num fresco e sereno romper da aurora, os campos ao redor da casa de Nique estão todos verdejantes, com os trigais novos já com a altura de uns poucos centímetros, delicados na cor de uma esmeralda bem clara. Mais perto da casa, o pomar, ainda despojado, parece mais escuro e maciço em comparação com a delicadeza dos caules e com o céu lá no alto, em sua serenidade paradisíaca. A casa branca, aos primeiros raios do sol, vai ficando rodeada pelo voo dos pombos.

Nique já se levantou e, cuidadosa, está dispondo todas as coisas de tal modo, que os que vão viajar tenham tudo para satisfazer às suas necessidades durante a viagem. Ela atende em primeiro lugar aos dois servos de Lázaro que ela hospedou naquela noite, e que, já refeitos, vão pondo os seus cavalos a trote. Depois ela entra na cozinha, onde as servas estão preparando o leite e os alimentos em altos fogões. Ela derrama o óleo de uma grande panela em duas panelas menores, e o vinho em pequenos odres de couro. Atenta a tudo, uma das serventes prepara algumas formas de pão, baixas como para fogaças, a fim de levá-las logo para o forno, que já está no ponto. Escolhe de umas mesas largas, sobre as quais estão se enxugando os queijos no calor da cozinha, as formas mais bonitas. Apanha o mel e o passa para pequenos recipientes, que são bem tampados depois. Em seguida, forma embrulhos, contendo todos aqueles alimentos, e um deles é um cabritinho ou cordeirinho inteiro, que a servente tira do espeto em que ele estava sendo assado. Outro embrulho é de maçãs, vermelhas como corais. Outro ainda é de azeitonas, já prontas para serem comidas. Um terceiro é de uvas passas. Outro é de cevada limpa.

551.2Ela está fechando este na sacola quando Jesus entra na cozinha e saúda todos os presentes.

– Mestre, a paz esteja contigo. Já te levantaste?

– Eu deveria tê-lo feito antes. Mas meus discípulos estavam tão cansados que Eu os deixei dormindo ainda. Que estás fazendo, Nique?

– Eu estou preparando… Não pesarão muito, estás vendo? São doze volumes. Eu calculei a força dos que vão carregá-los.

– E Eu?

– Oh! Mestre! Tu já tens o teu peso… –e nos olhos de Nique se forma um brilho de pranto.

– Vamos lá para fora, Nique. Lá falaremos com mais tranquilidade.

Eles saem e se afastam da casa.

– O meu coração está chorando, Mestre…

– Eu sei. Mas precisamos ser fortes. Fortes pensando que não me foi causado sofrimento…

– Oh! Isso nunca! Mas eu pensava comigo mesma que iria ficar perto de Ti e por isso vim para Jerusalém. Senão eu ficaria aqui onde tenho os meus campos…

– Também Lázaro, Maria e Marta pensavam em poder estar comigo. E tu estás vendo!…

– Eu vejo, sim. Estou vendo. A Jerusalém eu não voltarei mais, agora que Tu não estás lá. Mas eu estarei sempre perto de Ti, ficando por aqui e podendo ajudar-te.

– Já ajudaste tanto…

– Eu não dei nada. Gostaria de poder transportar para ti, por onde vais, a minha casa. Mas eu irei, é certo que irei ver o que te falta. Agora é justo o que me mandaste fazer. Estarei aqui enquanto estiverem persuadidos de que aqui não estás. Mas depois…

– É um caminho longo e penoso para uma mulher, e perigoso.

– Oh! Eu não tenho medo. Já estou velha demais para agradar como mulher, e não possuo tesouros para ser desejada como butim. Os ladrões são melhores do que muitos que se julgam santos, e que são uns ladrões, pois querem roubar-te a paz e a liberdade.

– Não lhes tenho ódio, Nique.

– Isto é mais difícil para mim do que qualquer outra coisa. Mas eu procurarei não odiar, por amor a Ti. Eu chorei a noite inteira, Senhor!

– Eu te ouvia andar, ir e voltar pela casa, incansável como uma abelha. E me parecias uma mãe penalizada por ver seu filho perseguido… Não chores. Quem deve chorar são os culpados. Não tu. Deus é bom para com o seu Messias. E nas horas tristes sempre Ele me faz encontrar por perto um coração materno…

– E como farás com tua Mãe? Tu me havias dito que logo ela teria vindo…

– Ela irá a Efraim. Lázaro pensa em avisá-la. 551.3Eis Simão de Jonas e os meus irmãos…

– Eles sabem?

– Por enquanto, não, Nique. Eu lhes direi quando estivermos longe…

– E eu direi a Ti, quando vieres, o que acontece por aqui e em Jerusalém.

Reúnem-se aos apóstolos, que vão saindo da casa, um depois do outro, à procura de Jesus.

– Vinde, irmãos. Refazei-vos antes de partirdes. Já está tudo pronto.

– Nique, por causa de nós, não dormiu esta noite. Agradecei à boa discípula –diz Jesus, entrando na ampla cozinha, onde, sobre uma mesa que parece de refeitório, de tão grande que ela é, estão soltando vapor umas tigelas cheias de leite, e paira no ar o bom cheiro das fogaças que acabaram de ser tiradas do forno e sobre as quais Nique passou manteiga e mel em abundância, dizendo que são alimentos fortificantes para quem vai fazer uma longa viagem àquelas horas, que estão ainda bem frias.

Em pouco tempo a refeição terminou. Enquanto isso, Nique fez os últimos embrulhos com pães que acabam de sair do forno, que estão estalando e exalando um cheiro agradável. Cada um dos apóstolos pega a sua carga, que está amarrada de tal modo que pode ser levada sem excessivo incômodo.

Já é hora de partir. Jesus saúda e abençoa. Os apóstolos saúdam. Mas Nique os quer acompanhar até o limite de seus campos, e depois volta lentamente para trás, chorando por baixo do seu véu, enquanto Jesus, com os seus, vai ficando mais longe, indo por uma estrada secundária que Nique lhes indicou.

551.4Os campos ainda estão desertos. A trilha vai passando por campos de trigo novo e por vinhedos despojados. Por isso estão faltando também os pastores, porque eles não levam os seus rebanhos por sobre os terrenos cultivados. O sol está esquentando um pouco o ar da manhã. As primeiras flores aos lados da vereda estão brilhando como pedras preciosas, sob o véu da orvalhada que o sol acendeu. Os passarinhos estão procurando solfejar seus primeiros cantos de amor. Chegou a bela estação. Tudo fica bonito, tudo renasce, tudo ama… E Jesus vai indo para o exílio que precede a sua morte, desejada pelo ódio.

Os apóstolos não estão conversando. Estão pensativos. A súbita partida os deixou desorientados. Estavam tão contentes por já terem chegado ao lugar desejado. Vão andando mais inclinados do que o peso das sacolas e provisões podia exigir deles. O que os faz ficar assim encurvados é a desilusão, a verificação do que é o mundo e do que são os homens.

Jesus, ao contrário, ainda que não esteja sorridente, não está triste nem abatido. Vai de cabeça alta na frente de todos, sem arrogância, mas também sem medo. Vai como quem sabe bem para onde deve ir e o que é que vai fazer. Vai como um forte, como um herói ao qual nada faz tremer nem ficar assustado.

A estrada secundária termina na estrada principal. Jesus vai pela estrada principal, sempre na direção do norte. E os apóstolos vão atrás dele em silêncio. E, sendo esta a estrada que vem da Galiléia, há muitos viandantes sobre ela. Mas o que há mais são caravanas de mercadores.

O tempo vai passando e o sol vai ficando sempre mais forte, quando Jesus deixa a estrada principal para tomar de novo outra trilha que, através dos campos de trigo, vai na direção das primeiras colinas.

Os apóstolos olham um para o outro. Talvez estejam começando a entender que não estão indo para a Galiléia pelo caminho do vale do Jordão, mas, sim, para a Samaria. Mas ainda não dizem nada.

Jesus, ao chegar aos primeiros bosques sobre as colinas, diz:

– Paremos e descansemos, enquanto comemos. O sol já está marcando a metade do dia.

Estão perto de uma pequena torrente que tem pouca água, porque há muito tempo que não chove. Mas a água dela é límpida, sobre um sulco pedregoso, e sobre suas margens há grandes blocos de pedra, que podem servir de mesas e cadeiras. Todos se assentam depois que Jesus abençoou e ofereceu os alimentos, comem em silêncio e preocupados.

551.5Jesus os excita com estas palavras:

– Não me perguntais para onde é que estamos indo? A preocupação pelo dia de amanhã terá feito ficar muda a vossa língua, e Eu não vos pareço mais ser vosso Mestre?

Os doze levantam a cabeça. São doze rostos aflitos, ou pelo menos estonteados, os que se viram para o rosto tranquilo de Jesus, e ouve-se apenas um “Oh!”, que sai das doze bocas. E depois dessa exclamação de todos, faz-se ouvir a palavra de Pedro, que fala por todos:

– Mestre, Tu sabes que és para nós sempre o mesmo. Mas é que, desde ontem de tarde, estamos como quem recebeu uma grande pancada na cabeça. E para nós tudo está parecendo um sonho. E Tu, vemos e sabemos que és Tu, mas Tu nos pareces… como se já estivesses longe. Um pouco já nos tinha ficado essa sensação, quando falaste com teu Pai antes de chamar Lázaro, e desde quando o tiraste de lá, todo amarrado, usando apenas de tua vontade, e o tornaste vivo só com a força do teu poder. Tudo isso nos dá medo. Eu falo por mim… mas creio que o mesmo se dê com todos. Agora, enfim… Nós… Aquela partida tão rápida e misteriosa!

– Será que tendes dois medos? Percebeis que está chegando o perigo? Não tendes, sentis a falta de força para enfrentar e superar as últimas provas? Dizei-o com toda a liberdade. Ainda estamos na Judéia, mas também estamos perto das estradas baixas para a Galiléia. Cada um pode ir-se embora, se quiser ir em tempo para não ser odiado pelo Sinédrio.

Os apóstolos se agitam com essas palavras. Os que estão estendidos sobre a grama, que os raios do sol fizeram ficar morna, se assentam. Os que estavam sentados põem-se de pé. E Jesus continua:

– Porque a partir de hoje, Eu sou o Perseguido pelo Sinédrio. Ficai sabendo disso. A estas horas está para ser lido nas quinhentas e tantas sinagogas de Jerusalém, e daquelas cidades que o puderam receber, o edital emitido ontem à hora sexta, onde consta que Eu sou o Grande Pecador; e que cada um que souber onde Eu estou tem o dever de denunciar-me ao Sinédrio para que ele me capture…

Os apóstolos gritam, como se já o estivessem vendo preso. João se agarra ao pescoço de Jesus, gemendo:

– Ah! Eu sempre o previa! –e soluça fortemente.

Alguns fazem imprecações contra o Sinédrio, outros invocam a Justiça divina, outros choram, e outros ficam como umas estátuas.

– Calai-vos. 551.6Escutai. Eu nunca vos enganei. Eu sempre vos disse a Verdade. Como Eu pude, vos defendi e protegi. A vossa proximidade de Mim foi-me sempre amável, como a de filhos. Também Eu não escondi de vós a minha última hora… os meus perigos… a minha Paixão. Mas aquilo eram coisas minhas, exclusivamente minhas. Agora, são os vossos perigos, a vossa segurança e a de vossas famílias que hão de ser postos em consideração. E Eu vos peço que o façais. Tendes para isso liberdade completa. Não considereis essas coisas pensando no amor que tendes por Mim nem na escolha que de vós foi feita por Mim. Fazei de conta que eu vos dispenso de todas as obrigações para com Deus e para com o seu Cristo, fazei de conta que nos encontramos aqui, agora, pela primeira vez, e que vós, depois de me terdes ouvido, trocais ideias uns com os outros sobre se convém ou não acompanhar o Desconhecido, cujas palavras vos haviam comovido. Fazei de conta que Me estais ouvindo e vendo pela primeira vez, e que Eu vos digo: “Olhai como Eu sou perseguido e odiado e que quem me segue é perseguido e odiado como Eu, em sua pessoa, em seus interesses, em seus afetos. Vede bem que a perseguição pode terminar até com uma morte e com o confisco dos bens de família.” Pensai, e decidi. Eu vos amarei igualmente, mesmo se me disserdes: “Mestre, eu não posso ir contigo.” Ficais entristecidos? Não deveis ficar assim. Sejamos bons amigos, que decidem em paz e com amor o que se há de fazer, com uma compaixão recíproca. Eu não posso deixar-vos ir ao encontro com o futuro sem fazer-vos refletir antes. Eu não tenho falta de estima para convosco. Eu vos amo a todos. Mas Eu sou o Mestre. E o Mestre obviamente conhece os seus discípulos. Eu sou o Pastor e o pastor obviamente conhece os seus cordeiros. Eu sei que os meus discípulos, expostos a uma prova sem estarem suficientemente preparados para ela, não somente pela sabedoria que vem do Mestre e que por isso é boa e perfeita, mas também pela reflexão que deve provir deles, poderiam fracassar ou pelo menos deixar de triunfar, como os atletas nos estádios. Medir-se e medir é uma sábia medida, sempre. Tanto nas pequenas como nas grandes coisas. Eu, como Pastor, devo dizer aos meus cordeiros: “Agora, Eu vou entrar em uma terra de lobos e de sanguinários. Tereis vós coragem de andar pelo meio deles?” Eu poderia até dizer-vos quem é que não vai ter forças para passar pela prova, por mais que Eu vos possa garantir, e com toda a certeza, que nenhum de vós cairá pela mão dos carrascos que irão sacrificar o Cordeiro de Deus. A minha captura será de tal valor para eles que só ela já lhes bastará… No entanto, Eu vos digo: “Refleti.” Há tempo, Eu vos dizia: “Não temais aqueles que matam.” Eu vos dizia: “Aquele que põe a mão no arado e se vira para considerar o passado e o que pode perder ou adquirir, não está apto para a minha missão.” Mas aquilo eram normas para dar-vos a medida do que era ser discípulos, eram normas para o futuro que virá, quando Eu não for mais o Mestre, mas serão mestres os que me forem fiéis. Aquelas normas vos eram dadas para formar em vós uma alma forte. Mas mesmo essa fortaleza, que não se pode negar que alcançastes em relação ao nada que vós éreis — Eu falo do vosso espírito — é ainda muito pouco, em comparação com o tamanho da prova. Oh! Não fiqueis pensando em vossos corações: “O Mestre está escandalizado conosco!” Eu não me escandalizo. Pelo contrário, Eu vos digo que nem mesmo vós deveis nem devereis escandalizar-vos com vossa fraqueza. Em todos os tempos futuros, entre os membros da minha Igreja, tanto os cordeiros como os pastores serão pessoas inferiores à grandeza de sua missão. Haverá épocas em que os pastores ídolos serão mais do que os verdadeiros pastores e do que os verdadeiros fiéis. Haverá épocas de eclipses do espírito de fé no mundo. Mas o eclipse não é a morte de um astro. Depois a beleza dele ressurge e parece até mais luminosa. Assim é que vai ser com o meu Ovil. Eu vos digo: “Refleti.” Eu vo-lo digo como Mestre, Pastor e Amigo. Eu vos deixo em plena liberdade para discutir entre vós. Agora vou lá para o meio daquela vegetação para rezar. E, um por um, cada um me irá dizer o seu pensamento. Eu abençoarei a vossa honestidade sincera, seja qual for. E vos amarei por tudo o que até aqui já me destes. Adeus.

Jesus se levanta e se vai.

551.7Os apóstolos estão aterrorizados, perplexos e comovidos. A princípio, não sabem nem falar.

Depois fala Pedro, em primeiro lugar:

– Que o Inferno me engula se eu O quiser deixar. Eu sei o que estou fazendo. Ainda que viessem contra mim todos os demônios que estão na Geena, com o Leviatã à sua frente, eu não me afastaria Dele por medo!

– Eu também não. Será que devo ser inferior às minhas filhas?

–diz Filipe.

– Eu tenho a certeza de que não lhe farão nada. O Sinédrio ameaça, mas faz assim para persuadir-se a si mesmo de que ainda existe. Sabe muito bem que nada é quando Roma não quer. As suas condenações? Roma é quem condena! –diz, arrogante, Iscariotes.

– Mas em assuntos religiosos ainda é o Sinédrio –observa André.

– Será que estás com medo, irmão? Olha bem que covardes na família nunca houve, adverte-o –ameaçador, Pedro, que sente em seu coração um espírito muito belicoso.

– Eu não tenho medo e espero poder demonstrar isso. O que eu fiz foi revelar meu pensamento a Judas.

– Tens razão. Mas o erro do Sinédrio é o de querer usar de uma arma política para não querer dizer e nem escutar falar que eles é que levantaram as mãos contra o Cristo. Disso eu sei com certeza. Eles quereriam, ou melhor, teriam querido fazer o Cristo cair em pecado para torná-lo um objeto de desprezo para as multidões. Mas matá-lo! E logo eles! Isso não! Disso eles têm medo. Um medo, não de confrontações humanas, porque é um medo espiritual. Sabem muito bem, eles, que Ele é o Messias! Eles sabem. E, tanto o sabem, que percebem que para eles tudo se acabou, pois que estão chegando os tempos novos. Eles querem abatê-lo. Mas poderão eles abatê-lo?! Não. Por isso querem descobrir uma razão política para que seja o Presidente, para que seja Roma a abatê-lo. Mas o Cristo não prejudica Roma, e por isso Roma O prejudicará. E o Sinédrio vocifera em vão.

– Então, tu ficarás com Ele?

– Sem dúvida, e mais do que todos!

– Eu nada tenho a perder ou ganhar, nem ficando nem indo-me embora. Eu só tenho o dever de amá-lo. E isso farei –diz Zelotes.

– Eu o reconheço como Messias e por isso o acompanho –diz Natanael.

– Eu também. E creio ser Ele o Messias, desde aquele momento em que João, o Batista, no-lo indicou como tal –diz Tiago de Zebedeu.

– Nós somos irmãos dele. À fé unimos o amor pelo sangue. Não é verdade, Tiago? –diz Tadeu.

– Ele é o meu Sol, há anos. Eu venho acompanhando o percurso dele. Se Ele cair no abismo que seus inimigos cavaram para Ele, eu o acompanharei –diz Tiago de Alfeu.

– E eu? Poderei esquecer-me de que Ele me remiu? –pergunta Mateus.

– Meu pai me amaldiçoaria sete vezes sete se eu o deixasse. E, afinal, ainda que fosse só por amor a Maria, eu não me separarei de Jesus –diz Tomé.

551.8João não fala. Está de cabeça baixa, abatido. Os outros tomam a postura dele como uma fraqueza, e muitos lhe perguntam:

– E tu? Só tu é que queres ir-te embora?

João levanta o seu rosto, tão puro, até em suas posturas e olhares, fitando aqueles que o interrogam com seus límpidos olhos azuis, dizendo:

– Eu estava rezando por todos nós. Porque nós queremos fazer e dizer, e presumimos de nós mesmos, e não percebemos que, ao fazê-lo, pomos em dúvida as palavras do Mestre. Se Ele diz que não estamos preparados, é sinal de que não estamos. Se depois de três anos não estamos preparados, não ficaremos preparados em uns poucos meses…

– O que dizes? Em poucos meses? O que sabes? És talvez um profeta?

Eles investem, quase reprovando.

– Eu não sou nada.

– Que estás dizendo? O que tu sabes? Em uns poucos meses? Será que és um profeta? Tu sabes sempre os segredos dele… –diz, com inveja, Judas de Keriot.

– Não me odeies, meu amigo, se eu sei compreender que o tempo da serenidade terminou. Quando será? Não sei. Só sei que virá. Ele o diz. Quantas vezes Ele o disse! E nós não queremos crer. Mas o ódio dos outros confirma as palavras dele… É por isso que eu rezo. Pois não há outra coisa a fazer. Pedir a Deus que nos torne fortes. Não te lembras, ó Judas, quando Ele nos disse1 que orou ao Pai para ter força nas tentações? Toda força vem de Deus. Eu imito ao meu Mestre, como é justo que se faça…

– Mas, afinal, tu ficas? –pergunta Pedro.

– E para onde queres que eu vá, senão ficar com Ele que é a minha vida e o meu bem? Mas, visto que eu sou um pobre menino, o mais miserável de todos, tudo eu peço a Deus, que é o Pai de Jesus e de nós.

– Está dito. Então, todos ficamos com Ele. 551.9Vamos ao encontro dele. Certamente Ele está triste. Mas a nossa fidelidade o fará contente –diz Pedro.

Jesus está prostrado em oração. Com o rosto no chão, por entre a grama, certamente está suplicando ao seu Pai. Mas Ele se levanta, ao ouvir o barulho dos passos, e olha para os seus doze. Olha para eles com uma seriedade meio triste.

– Fica contente, Mestre. Nenhum de nós te abandona –diz Pedro.

– Vós decidistes depressa demais e…

– Horas ou séculos não mudarão os nossos pensamentos –diz Pedro.

– Nem as ameaças o nosso amor –professa Iscariotes.

Jesus para de olhá-los todos juntos e passa a fitá-los um por um. É um longo olhar, suportado sem medo por todos. Seu olhar se demora especialmente sobre Iscariotes, que olha para Ele com mais segurança do que todos. Jesus então abre os braços, como quem faz um gesto de resignação, e diz:

– Vamos. Vós todos definistes o vosso destino.

Depois Ele volta ao seu lugar de antes, apanha sua sacola. Ordena:

– Tomemos a estrada que vai para Efraim, que é a que nos foi ensinada.

– Na Samaria?!

O estupor é enorme.

– Na Samaria. Pelo menos nos confins da Samaria. Também João andou por aqueles lugares, para viver até à hora marcada para sua pregação sobre Cristo.

– Mas não ficou salvo com isto! –objeta Tiago do Zebedeu.

– Eu não estou procurando salvar-me. Mas, sim, salvar os homens. E os salvarei na hora marcada. Às ovelhas mais infelizes é que vai o Pastor perseguido. Para que elas, as abandonadas, tenham sua parte de sabedoria que as prepare para os tempos novos.

Jesus vai com um passo apressado, depois da parada que serviu para repousar e para respeitar o sábado, querendo chegar antes que a noite torne intransitáveis os caminhos.

551.10Quando eles chegam à pequena torrente que vem de Efraim e vai para o Jordão, Jesus chama Pedro e Natanael, e lhes dá uma bolsa, dizendo:

– Ide à frente. E procurai Maria de Jacó. Lembro-me de que Malaquias2 me disse ser ela a mais pobre do lugar, ainda que sua casa tenha ficado grande agora que nela não estão mais os seus filhos e filhas. Ficaremos na casa dela. Dai-lhe umas boas moedas para que nos receba como hóspedes logo, sem ficar conversando com muitos. A casa, vós sabeis qual é. É aquela grande, sombreada por quatro romãzeiras, que está perto da ponte sobre a torrente.

– Nós sabemos, Mestre. Faremos como dizes.

E eles vão sem demora e Jesus os acompanha com os outros a passos lentos.

Da bacia, que a torrente divide em duas meias-bacias, vê-se o branquejar das casas do povoado aos últimos raios da luz do dia e aos primeiros clarões da lua. Não há ninguém passando por ali, quando eles chegam à casa, que já está toda branca pela luz da lua. Só a voz da torrente é que se ouve no meio do silêncio da tarde. Virando para trás e olhando para o horizonte, vê-se um grande espaço de céu estrelado que se curva sobre uma boa extensão de terrenos, que se vão inclinando para o deserto plano e indo para o Jordão. Uma paz profunda reina sobre a terra.

Batem à porta. Pedro abre.

– Tudo foi feito, Senhor. A velha chorou ao ver que lhe eram dadas as moedas. Ela não tinha mais nenhuma moedinha. E eu lhe disse: “Não chores, mulher. Onde está Jesus de Nazaré não há mais dor.” E ela me respondeu: “Eu sei. Eu tenho sofrido durante toda a minha vida e agora já estava mesmo no limite do sofrimento. Mas o Céu se abriu para mim nesta minha tarde e me traz a Estrela de Jacó, para dar-me paz.” E agora ela já está preparando os quartos, que estão fechados há muito tempo. Hum! Não há muita coisa. Mas a mulher é muito boa. Ei-la aí! 551.11Mulher! O Rabi está aqui!

Vem para frente uma velhinha ressequida, com os olhos cheios de tristeza. Ela, toda confusa, para a alguns passos de Jesus. Está amedrontada.

– A paz esteja contigo, mulher. Não te darei muito incômodo.

– Eu… quereria… quereria que andasses sobre o meu coração, a fim de tornar para Ti mais doce a entrada em minha pobre casa. Entra, Senhor, e que Deus entre contigo.

Voltaram-lhe já o fôlego e a coragem, sob a luz do olhar de Jesus.

Todos entram. Fecham a porta. A casa é ampla como uma pousada e vazia como um lugar abandonado. Somente a cozinha é alegre graças a um fogo que já está aceso no fogão, que está no centro do cômodo.

Bartolomeu, que estava alimentando o fogo, vira-se e sorri, dizendo:

– Conforta a mulher, Mestre. Ela está aflita por não poder prestar-te honras.

– Basta-me o teu coração, mulher. Não te preocupes com nada. Amanhã tomaremos providências, Eu também sou um pobre. Tragam as provisões. Entre pobres se divide o pão e o sal sem se envergonharem e com amor fraterno. Para ti é como se Eu fosse teu filho. Porque poderias ser minha mãe. E eu te presto honras por isso…

A mulher derrama lágrimas silenciosas, lágrimas de uma velha aflita, enxugando seus olhos com o véu, e murmurando:

– Eu tinha três filhos homens e sete meninas. Um dos filhos homens foi levado pela torrente e o outro pela febre. O terceiro me abandonou. Das meninas, cinco pegaram o mal do pai e morreram, a sexta morreu de parto e a sétima… o que a morte não fez, fez o pecado. Na minha velhice eu não sou honrada pelos filhos, e ela ainda me faz assim… No povoado são bons. Mas com a pobre mulher… Tu és bom com a Mãe…

– Eu também tenho uma mãe. E em toda mulher que é mãe Eu vejo e honro minha Mãe. Mas não chores. Deus é bom. Tem fé, e os filhos que ficaram voltarão para ti ainda. Os outros estão em paz…

– Eu penso que é um castigo ser eu destes lugares…

– Tem fé. Deus é mais justo do que os homens…

Voltam os apóstolos que tinham ido com Pedro pelos outros quartos. Eles vêm trazendo os alimentos. Esquentam ao fogo o cordeirinho que foi assado por Nique. E o levam para a mesa. Jesus oferece e abençoa a mesa, e quer que a velhinha esteja com eles e não em seu cantinho, comendo os pobres agriões de sua ceia…

O exílio nos confins da Judéia já teve início…

1 nos disse, em 80.10.
2 Malaquias é o nome do chefe da sinagoga de Efraim, com veremos em 552.5 e sucessivamente. Poderia ser o notável encontrado em 484.1/2, o qual poderia ter falado de Maria de Jacó a Jesus quando caminhou com Ele, como é mencionado em 484.7.


1
2
3
4