130. 130. Os discursos de Águas Belas: Não dirásfalso testemunho. O pequeno Asrael.
14 de março de 1945.
130.1 – Quanta gente! –exclama Mateus.
E Pedro responde:
– Não é possível! Também há galileus… Ai! Ai! Vamos dizê-lo ao Mestre. São três honrados salteadores!
– Talvez tenham vindo por causa de mim. Até aqui me perseguem…
– Não, Mateus. Tubarão não devora peixinhos. Ele quer pegar o homem. Presa nobre. E só mesmo quando não o encontra é que come algum peixe grande. Mas eu, tu e os outros somos peixinhos… coisa pequena.
– Dizes que vieram por causa do Mestre? –pergunta Mateus.
– E por quem então? Não estás vendo como estão olhando para todos os lados? Parecem feras que estão farejando os rastos da gazela.
– Eu vou dizer a Ele…
– Espera! Vamos dizê-lo aos filhos do Alfeu. Ele é bom demais. Bondade desperdiçada, quando cair naquelas bocas.
– Tens razão.
Os dois vão até o rio e chamam Tiago e Judas:
– Vinde. Há por lá uns tipos… Bons para o suplício. Certamente vieram para importunar o Mestre.
– Vamos. Ele onde está?
– Ainda na cozinha. Vamos depressa porque, se Ele perceber, não vai querer.
– Sim. E isso fica mal.
– Eu também acho.
Voltam para a eira. O grupo, designado “Galileu”, está falando com calma a outras pessoas. Judas de Alfeu se aproxima, como por acaso. E ouve: “… palavras devem ser apoiadas pelos fatos.”
– E Ele os faz! Ainda ontem, curou um romano endemoninhado! –rebate um robusto homem do povo.
– Que horror! Curar um pagão! Que escândalo! Estás ouvindo, Eli?
– Ele tem todas as culpas: amizades com publicanos e meretrizes, negócios com pagãos e…
– E a tolerância com os maledicentes. Isto também é uma culpa. A meu ver, a mais grave. Mas, visto que Ele não sabe e não quer defender-se, falai comigo. Eu sou seu irmão e mais velho do que Ele, e este é outro irmão, ainda mais velho. Falai.
– Mas, por quem nos estás tomando? Pensas que entre nós se fala mal do Messias? Nunca! Nós viemos de muito longe, por causa da fama Dele. Era o que estávamos dizendo a estes…
– Mentiroso! Dás–me tanto nojo que te viro as costas.
E Judas de Alfeu, sentindo que talvez estivesse em perigo a caridade para com os inimigos, vai-se embora dali.
– Porventura não é verdade? Dizei-o, vós todos…
Mas os “todos”, ou seja, os outros com os quais estes galileus falavam, calam-se. Não querem mentir e não ousam desmentir. Por isso, estão calados.
– Nós não sabemos nem como Ele é… –diz o Galileu Eli.
– Não o insultaste em minha casa, não é verdade? –pergunta Mateus, irônico–. Ou será que perdeste a memória por doença?
O “Galileu” se encapota e vai-se embora com os outros, sem responder.
– Covarde! –grita Pedro atrás dele.
130.2 – Estavam querendo contar-nos coisas horrorosas sobre Ele…, explica um homem. “Mas nós vimos os fatos. E sabemos, ao contrário, como são eles, os fariseus. Em quem acreditar, então? No Bom, que é bom mesmo, ou nos maus, que se dizem bons, mas que depois são uma praga? Eu sei que, desde que vim aqui, não me conheço mais, de tão mudado que estou. Eu era um homem violento, duro para com a mulher e os filhos, não tinha respeito para com os vizinhos e agora… Todos no povoado estão dizendo: “Azarias não é mais aquele!” E então? Já se ouviu dizer que o demônio faça alguém ficar bom? Para quem trabalha então? Para a nossa santidade? Oh! Deveras é um bizarro satanás, se trabalha para o Senhor!
– Falaste bem, homem. E Deus te proteja, porque sabes bem compreender, ver bem e agir bem. Continua assim e serás um verdadeiro discípulo do bendito Messias. Uma alegria para Ele, que quer o vosso bem, e que tudo suporta, contanto que vos faça chegar a Ele. Não vos escandalizeis, a não ser com o verdadeiro mal. E quando vedes que é em nome de Deus que Ele age, não vos escandalizeis, nem acrediteis naqueles que vos quereriam persuadir de escândalo, ainda que o estejais vendo fazer coisas novas. Este é o tempo novo. Ele veio como uma flor, nascida depois de séculos em que a raiz trabalhou. Se não tivesse sido precedido por aquela, não teríamos podido compreender a sua Palavra! Mas os séculos de obediência à Lei do Sinai nos deram aquele mínimo de preparação para podermos aspirar, do novo tempo — flor divina que a Bondade concedeu-nos contemplar — todos os incensos e todos os sucos para purificar-nos, fortalecer-nos, tornar-nos perfumados de santidade, como um altar. Sendo o tempo novo, ele tem novos sistemas, não contrários à Lei, mas todos cheios de Misericórdia e caridade, porque Ele é a Misericórdia e o Amor descido do Céu.
Tiago de Alfeu faz um gesto de saudação e vai para casa.
130.3– Como tu falas bem! –diz Pedro admirado–. Eu nunca sei o que dizer. Só digo: “Sede bons. Amai-o, escutai-o, crede nele.” Na verdade, não sei como pode estar contente comigo!
– Contudo, o é tanto –responde Tiago de Alfeu.
– Estás falando sério ou o fazes por tua bondade?
– Realmente é assim. Ontem mesmo ele o disse a mim.
– Sim?! Então hoje fico mais contente do que no dia em que me foi trazida a esposa. Mas tu… Onde aprendeste a falar tão bem?
– Sobre os joelhos da mãe dele e ao lado dela. Que lições! Que palavras! Só Ele pode falar ainda melhor do que Ela. Mas o que falta a Ela em poder, o tem em doçura… E as suas lições, como entram!! Já viste um pano tocando com uma de suas pontinhas em um óleo perfumado? Lentamente o pano absorve, não o óleo, mas o perfume e mesmo que o óleo seja removido, o perfume fica sempre para dizer: “Eu estive nele.” Assim se pode dizer Dela. Também em nós, panos grosseiros e lavados pela vida, Ela penetrou com sua sabedoria e graça, e o seu perfume está em nós.
– Por que não a faz vir? Dizia que o iria fazer! Nós nos tornaríamos melhores, menos teimosos… pelo menos eu. E essa gente também… Diante Dela seriam melhores, até aquelas víboras que de vez em quando vêm…
– Tu achas? Eu não. Nós nos tornaríamos melhores e também os humildes se tornariam. Mas os poderosos e os maus!! Oh! Simão de Jonas! Não atribuas nunca aos outros os teus sentimentos honestos! Ficarias decepcionado com isto… 130.4Eis Ele. Não lhe digamos nada…
Jesus sai da cozinha segurando pela mão um menininho, que vem, aos pulinhos, ao lado Dele, mordendo uma casca de pão untada com azeite. Jesus regula o seu longo passo, de acordo com as perninhas do seu amigo.
– Uma conquista! –diz alegre–. Disse-me este homem de quatro anos, que se chama Asrael, que quer ser um discípulo e aprender tudo: a pregar, a curar os meninos doentes, a fazer que a uva apareça nos sarmentos até no mês de dezembro, e depois, quer subir sobre um monte e gritar para o mundo todo: “Vinde, aqui está o Messias!” Não é assim, Asrael?
E o menino risonho diz que sim, que sim, e entrementes come.
– Tu só sabes comer –espicaça-o Tomé–. Não sabes nem dizer quem é o Messias.
– É Jesus de Nazaré.
– E que quer dizer “Messias”?
– Quer dizer… quer dizer: o Homem que foi mandado para ser bom e tornar-nos todos bons.
– E como faz para tornar-nos bons? Tu, que és um menino travesso, como farás?
– Eu quererei bem a Ele. E farei tudo. E Ele fará tudo, porque eu lhe quererei bem. Faz tu também assim e tornar-te-ás bom.
– E a lição foi dada, Tomé. Aí tens o preceito: “Procura querer-me bem e farás tudo, porque Eu te amarei, se me quiseres bem, e o amor fará tudo em ti.” O Espírito Santo falou. Vem, Asrael. Vamos pregar.
Fica tão alegre Jesus, quando tem consigo uma criança, que eu queria levar-lhe todas as crianças e fazê-lo conhecer a todas as crianças. Há tantas que ainda não o conhecem, nem de nome!
Passa diante da mulher velada e antes de alcançá-la, diz ao menino:
– Diz àquela mulher: “A paz esteja contigo.”
– Por quê?
– Porque tem dodói, como tu quando cais. E chora. Mas se tu lhe falares assim, o choro dela vai passar.
– A paz esteja contigo, mulher. Não chores. Foi o Messias quem disse a mim. Se lhe queres bem, Ele te quer bem e te cura –grita o menino, enquanto Jesus o vai puxando consigo, sem deter-se. Existe mesmo em Asrael a a estofa de missionário. Ainda que seja, por enquanto, um pouco… intempestivo em suas pregações, dizendo mais do que lhe foi mandado dizer.
130.5 – A paz esteja com todos vós.
“Não dirás falso testemunho”, foi dito.
Que existe de mais nauseante do que um mentiroso? Não se pode dizer que ele concentra crueldade com impureza? Sim, pode. O mentiroso — falo do mentiroso em coisas graves —, é cruel. Ele mata uma estima com sua língua. Portanto, não é diferente do assassino. Aliás, digo: é mais do que um assassino. Este mata somente um corpo. O mentiroso mata também o bom nome, a lembrança de um homem. Por isso, é duas vezes assassino. É o assassino impune, porque não derrama sangue, mas fere a honra, tanto do caluniado, como de toda a sua família. E não me estou referindo nem ao caso de alguém que, jurando falso, mande outro à morte. Sobre este já estão acumulados os carvões da Geena. Mas estou falando só de alguém que, com palavras mentirosas, insinua e persuade a outros em desfavor de um inocente. Por que faz isso? Ou por um ódio sem razão, ou pela avidez de ter o que o outro possui. Ou então, por medo.
Ódio. Tem ódio só quem é amigo de satanás. O bom não odeia. Nunca. Por nenhuma razão. Mesmo desprezado, mesmo prejudicado, ele perdoa. Não odeia nunca. O ódio é o testemunho que uma alma perdida dá de si mesma, e o testemunho mais belo que é dado ao inocente. Porque o ódio é a revolta do mal contra o bem. Não se perdoa a quem é bom.
Avidez. “Ele tem o que eu não tenho. Eu quero o que ele tem. Mas somente com espalhar uma desestima contra ele, eu posso chegar ao lugar dele. E eu vou fazer isso. Minto? Que importa? Roubo? Que importa? Posso chegar a arruinar uma família inteira? Que importa?” Entre tantas perguntas que o astuto mentiroso faz a si mesmo, ele se esquece, quer esquecer-se, de uma pergunta. É esta: “E se eu fôsse desmascarado?” Esta ele não faz a si mesmo, porque, dominado pelo orgulho e pela avidez, está como se tivesse os olhos vendados. Não vê o perigo. É ainda como um ébrio. Está embriagado pelo vinho satânico e não pensa que Deus é mais forte do que satanás e se encarrega de fazer a vingança pelo caluniado. O mentiroso entregou-se à Mentira e, estultamente, confia na sua proteção.
Medo. Muitas vezes alguém calunia para tirar a culpa de si mesmo. É a forma mais comum de mentira. O mal já foi feito. Teme-se que ele seja descoberto e reconhecido como obra nossa. Então, usando e abusando da estima que ainda se tem junto aos outros, eis que se inverte o fato, e daquilo que nós fizemos, atribuímos a culpa a um outro, do qual teme-se só a honestidade. Também se faz isso, porque o outro, às vezes, pode ter sido, sem querer, testemunha de alguma má ação nossa, e, então, queremos colocar-nos a seguro contra algum testemunho dele. Acusam-no, para que se torne malvisto onde, se ele falar, ninguém creia nele.
130.6 Mas, procedei bem! Procedei bem! E desta mentira nunca tereis necessidade. Não pensais, quando estais mentindo, que vos estais impondo a vós mesmos um pesado jugo? Ele consiste em vossa sujeição ao demônio, no medo contínuo de um desmentido e na necessidade de ficar sempre se lembrando da mentira dita, com os fatos e os particulares com que foi dita, mesmo depois de anos, sem cair em contradição. É um trabalho de galeote. E se isso ainda servisse para o Céu! Mas só serve para preparar-vos um lugar no inferno!
Sede sinceros. É tão bela a boca do homem que não conhece mentira! É pobre, ou rústico, ou desconhecido? Ou melhor, ele é tudo isso? Sim. Mas sempre é um rei. Porque é um sincero. E a sinceridade é dos reis, mais do que o ouro e do que um diadema; e eleva o homem acima das multidões, mais do que um trono o eleva; e forma uma corte de bons, mais do que tudo o que pode ter um monarca. Segurança e tranquilidade é o que dá a vizinhança com um homem sincero. Ao passo que é um incômodo a amizade com um homem não sincero. Só a vizinhança dele já é um incômodo. Será que aquele que mente não pensa que depois ele é sempre considerado suspeito?– porque bem depressa a mentira se descobre de mil modos. Como se poderá mais aceitar o que ele diz? Mesmo quando diz a verdade, os que ouvem querem crer, mas, no fundo ficam sempre com uma dúvida: “Não estará mentindo agora também?”
Vós direis: “Mas onde está o testemunho falso?” Toda mentira é um falso testemunho. Não somente a mentira diante da lei.
Sede simples como simples é Deus e o menino. Sede verídicos em todos os momentos de vossa vida. Quereis ter boa reputação? Sede bons de verdade. Ainda que um maledicente quisesse falar mal de vós, cem bons diriam: “Não. Não é verdade. Ele é bom. Suas obras falam por ele.”
Em um livro sapiencial está escrito1: “O homem apóstata procede com perversidade em seus lábios… em seu coração perverso prepara o mal e em todo tempo vive semeando discórdias… Seis coisas o Senhor abomina e a sétima é por Ele execrada: os olhos soberbos, a língua mentirosa, as mãos que derramam sangue inocente, o coração que medita desígnios iníquos, os pés que correm apressados para o mal, a falsa testemunha que profere mentiras, e aquele que semeia discórdias entre os irmãos… Pelos pecados da língua, a ruína se aproxima do homem mau… Quem mente é uma testemunha fraudulenta. Os lábios verídicos não mudam nunca, mas é testemunho de um momento quem trama linguagem de fraude. As palavras do murmurador parecem simples, mas elas penetram até às entranhas. O inimigo é reconhecido por sua fala, quando prepara a traição. Quando fala com voz baixa, não confies nele, porque no coração ele traz sete malícias. Com dissimulação ele esconde o seu ódio, mas a sua malícia será revelada… Quem cava um buraco, cairá nele e a pedra cairá em cima de quem a vai rolando.”
Velho como o mundo é o pecado da mentira e sem mudança é o pensamento do sábio a seu respeito, como sem mudança é o juízo de Deus sobre quem é mentiroso.
Eu digo: “Tende sempre a mesma linguagem. O sim seja sempre sim, e o não seja sempre não, mesmo diante dos poderosos e dos tiranos. E grande mérito tereis por isso no Céu.”
Eu vos digo: “Tende a espontaneidade da criança que, por instinto, vai atrás de quem é bom, sem procurar outra coisa, que não seja a bondade. Ela diz o que a sua própria bondade a faz pensar, sem calcular se está falando demais, podendo ser por isso repreendida.”
Ide em paz. Que a Verdade se torne vossa amiga.
130.7 O pequeno Asrael, que esteve o tempo todo sentado aos pés de Jesus, com a cabecinha levantada, como um passarinho que escuta o canto de seu pai, tem um movimento cheio de doçura: esfrega o rostinho contra os joelhos de Jesus e diz:
– Eu e Tu somos amigos, porque Tu és bom e eu te quero bem. Agora, eu também vou dizê-lo.
E fazendo força com sua vozinha, para fazer-se ouvir por todo o vasto quarto, ele diz, gesticulando como viu Jesus fazer:
– Todos vós, escutai. Eu sei para onde vão as pessoas que não dizem mentiras e querem bem a Jesus de Nazaré. Vão subindo pela escada de Jacó. Acima, acima, acima… junto com os anjos e vão parar quando encontram o Senhor –e ri feliz, mostrando todos os dentinhos.
Jesus o acaricia e desce para o meio do povo. Leva de novo o pequenino para a mãe:
– Obrigado mulher, por me teres dado o teu menino.
– Ele ficou te aborrecendo….
– Não. Deu-me amor. É um pequeno do Senhor, e o Senhor esteja sempre com ele e contigo. Adeus.
Tudo termina.
1 está escrito, por exemplo em: Provérbios 6,12-19; 12,13-28.