112. 112. Judas Iscariotes surpreendido em Jericó.Em Betania com Lázaro, que apresenta Maria.


19 de fevereiro de 1945.

112.1 A praça da feira de Jericó, com suas árvores e o vozerio dos vendedores. A um canto está Zaqueu, o cobrador de impostos, atento às suas… extorsões legais e ilegais. Deve fazer também um pouco de compra e venda de coisas preciosas, porque vejo que pesa e avalia joias e objetos de metais nobres, não sei se dados em lugar de moedas, por não poderem pagar as impostos de outro modo, ou se são vendidos por outras necessidades.

Agora é a vez de uma delgada mulher, toda coberta com um grande manto, de uma cor entre a ferrugem e o cinzento. Ela está com o rosto também coberto por um véu de linho muito espesso e amarelado, que não permite que se lhe vejam as feições. Não se nota mais do que a esbelteza do corpo, que assim se mostra também, não obstante aquele manto acinzentado que a envolve. Deve ser jovem, pelo menos a julgar do mínimo que se vê, ou seja, uma mão que, por um momento, sai de sob o manto, e deixa ver um bracelete de ouro, e pelos pés calçados de sandálias, não muito simples, mas guarnecidas com couro e com um trançado de correias, através do qual só se veem os dedos, lisos e juvenis, e um pouco dos tornozelos finos e muito brancos. Ela estende seu bracelete sem dizer nada, recebe o dinheiro sem fazer objeções, e se vira para ir embora.

Nesse momento, eu percebo que, às suas costas está Iscariotes, que a observa atentamente, e, quando ela está para ir, lhe diz uma palavra que eu não consigo entender bem. Mas ela, como se fôsse muda, não responde, e vai-se, apressada, com seu fardo de panos.

Judas pergunta a Zaqueu:

– Quem é ela?

– Eu não pergunto o nome dos meus clientes, especialmente quando são como esta mulher.

– É jovem, não é?

– Parece.

– Mas é judia?

– Quem sabe?! O ouro é amarelo em toda parte.

– Deixa-me ver aquele bracelete.

– Tu o queres comprar?

– Não.

– Então, nada feito. Que é que estás pensando? Achas que seja capaz de falar por ela?

– Queria ver se chegava a entender quem era…

– Isto te interessa tanto? Serás um necromante para adivinhar, ou um cão sabujo para farejar? Deixa disso, e sossega! Se é assim, ou ela é honesta e infeliz ou é uma leprosa. Portanto… nada há que fazer.

– Não tenho fome de mulher –responde desdenhoso Judas.

– Pode ser… Mas, com essa sua cara, não creio muito. Bem, se não queres mais nada, afaste-se, que eu tenho que atender a outros.

Judas sai irritado, e vai perguntar a um vendedor de pão e a outro de frutas se eles conhecem a mulher, que antes havia comprado deles pão e maçãs, e se eles sabem onde ela mora.

Não o sabem. E respondem:

– Faz algum tempo que ela vem aqui, cada dois ou três dias. Mas onde mora, não sabemos.

– Mas, como é que ela fala? –insiste Judas.

Os dois riem, e um deles responde:

– Com a língua.

Judas os insulta, e se vai… 112.2para ir cair justamente no meio do grupo de Jesus e os seus, que vieram comprar pão e outras coisas para a refeição diária. A surpresa é recíproca e… não muito entusiástica.

Jesus diz somente: “Estás aqui?”, e enquanto Judas balbucia qualquer coisa, Pedro dá uma estrepitosa risada e diz:

– Eis, eu sou cego e descrente. Não vejo as vinhas. E não creio no milagre.

– Mas, que é que estás dizendo? –perguntam dois ou três discípulos.

– Estou dizendo a verdade. Aqui não há vinhas. E não posso acreditar que Judas, nesta poeira, esteja vindimando, só porque é discípulo do Rabi.

– A vindima acabou faz tempo –responde secamente Judas.

– E Keriot fica daqui a muitas milhas –termina Pedro.

– Tu me atacas inesperadamente. És meu inimigo.

– Não. Sou menos bobo, do que gostarias que eu fosse.

– Basta –impõe Jesus.

Mas fala com severidade. Vira-se para Judas:

– Não pensava ver-te aqui. O que Eu pensava é que, pelo menos, devias estar em Jerusalém para a Festa dos Tabernáculos.

– Eu vou amanhã. Estava aqui à espera de um amigo da família que…

– Eu te peço: basta.

– Não acreditas em mim, Mestre? Eu te juro que…

– Não te perguntei nada, e te peço que não digas nada… Estás aqui. Isto basta. Pensas em vir conosco, ou tens ainda outros negócios a fazer? Responde-me sem rodeios.

– Não… já terminei. Mesmo porque aquele amigo não vem, e eu vou para a festa em Jerusalém. E Tu, aonde vais?

– À Jerusalém.

– Hoje mesmo?

– Esta tarde estarei em Betânia.

– Na casa de Lázaro?

– Na casa de Lázaro.

– Então, eu também vou.

– Vem, pois, até Betânia. Depois André com Tiago de Zebedeu e Tomé irão ao Getsêmani para preparar a nossa chegada, e tu irás com eles.

Jesus marca de tal modo as palavras, que ele não reage.

– E nós? –pergunta Pedro.

– Tu, com os meus primos e com Mateus, ireis aonde Eu vos mandar, para voltardes à tarde. João, Bartolomeu, Simão e Filipe ficarão Comigo, ou seja, irão para Betânia, para anunciar que o Rabi chegou, e vai falar a eles à hora nona.

112.3 Vão solícitos, pelos campos despojados. Há um ar de borrasca, não no céu sereno, mas nos corações, e todos o sentem e prosseguem em silêncio.

Quando chegam a Betânia — e indo-se de Jericó por aquela estrada, a casa de Lázaro é uma das primeiras que se encontra — Jesus despede o grupo que deve ir para Jerusalém, depois o outro que manda a Belém, dizendo:

– Ide seguros. No meio do caminho encontrareis Isaque, Elias e os outros. Dizei que estarei em Jerusalém por muitos dias, os espero para abençoá-los.

Enquanto isso, Simão já bateu na cancela e fez que abrissem. Os servos dão o aviso, aparecendo então Lázaro.

Judas Iscariotes, que já se havia afastado alguns metros, volta atrás, com a desculpa de ir dizer a Jesus:

– Eu te desagradei, Mestre. E o compreendi. Perdoa-me –e entrementes olha de soslaio, da cancela aberta no jardim até o rumo da casa.

– Sim. Está bem. Vai. Vai. Não faças que teus companheiros te fiquem esperando.

Judas deve então ir. Pedro murmura:

– Ele esperava que houvesse uma contra-ordem.

– Isto nunca, Pedro. Eu sei o que faço. Mas tu, tem compaixão daquele homem…

– Vou procurar. Mas não prometo… Adeus, Mestre. Vem, Mateus, e vós dois. Vamos logo.

– A minha paz esteja convosco, sempre.

112.4Jesus entra com os quatro que ficaram e, depois de dar o beijo a Lázaro apresenta João, Filipe e Bartolomeu, e em seguida os despede, ficando sozinho com Lázaro.

Vão em direção à casa. Desta vez, sob o bonito pórtico está uma mulher. É Marta. Não é alta como a irmã, mas tem boa altura, é morena, enquanto a outra é loira e rosada. Contudo é uma bela jovem, com um corpo gorducho, e bem modelado, tem a cabeça pequena morena, uma fronte também morena e lisa,com dois doces olhos negros mansos e aveludados, por entre cílios escuros. Tem o nariz levemente encurvado para baixo, e uma boca pequena muito vermelha, entre a cor levemente morena das faces. Ela está sorrindo, e mostra uns dentes fortes e muito brancos.

Está vestida com uma lã azul escuro, com galões vermelhos e verde-escuros no pescoço e no fim das amplas mangas, curtas até o cotovelo, das quais saem outras mangas de um linho muito fino e branco, apertadas nos punhos por um cordãozinho, que as frisa. Também no alto do peito, na raiz do pescoço, aparece esta camiseta muito leve e branca, ajustada por um cordão. Como cinta, usa um lenço azul, vermelho e verde, de tecido muito fino, que lhe fecha o alto dos quadris e cai, como um laço de franjas, para o lado esquerdo. É uma veste rica e casta.

– Eu tenho uma irmã, Mestre. Ei-la. É Marta. É boa e piedosa. O conforto e a honra da família a alegria do pobre Lázaro. Antes era a primeira e a minha única alegria. Agora é a segunda, porque a primeira és Tu.

Marta se prostra até o chão e beija a orla da veste de Jesus.

– Paz à boa irmã e à mulher casta. Levanta-te.

Marta se levanta e entra na casa com Jesus e Lázaro. Depois pede licença para afastar-se dali para os trabalhos da casa.

– É a minha paz… –murmura Lázaro, e olha para Jesus. Um olhar perscrutador. Mas Jesus demonstra não vê-lo.

112.5 Lázaro pergunta:

– E Jonas?

– Morreu.

– Morreu? Então…

– Eu o tive Comigo no fim da vida. Mas morreu livre e feliz na minha casa em Nazaré, entre Mim e minha Mãe.

– Doras já havia acabado com ele, antes de entregá-lo a Ti!

– Com canseiras, sim, e também com espancamentos…

– Ele é um demônio, e te odeia. Odeia a todos aquela hiena… Ele não te disse que te odeia??

– Ele o disse.

– Desconfia dele, Jesus. Ele é capaz de tudo, Senhor… que foi que o Doras te disse? Ele não te disse que me evitasses? Não te colocou em luz vergonhosa o pobre Lázaro?

– Creio que tu me conheces o suficiente para compreender que Eu julgo por Mim mesmo e com justiça e que, quando amo, amo sem pesar se esse amor me pode fazer bem ou mal, segundo os pontos de vista do mundo.

– Mas aquele homem é feroz, é atroz no ferir e no prejudicar… Atormentou-me até há poucos dias… Ele veio aqui e me disse… Oh! Eu que já vivo tão atormentado! Por que querer arrancar-me também a Ti?

– Eu sou o conforto dos atormentados e o companheiro dos abandonados. Vim a ti também por isto.

– Ah! Então, Tu estás sabendo?? Oh! Que vergonha a minha!

– Não. Por que tua? Eu sei. E daí? Irei amaldiçoar a ti que estás sofrendo? Eu sou Misericórdia, Paz, Perdão, Amor para todos; e que serei para os inocentes? Tu não tens o pecado pelo qual sofres. Deveria Eu enfurecer-me contra ti, se até dela tenho piedade?…

– Tu a viste?

– Eu a vi. Não chores.

Mas Lázaro, com a cabeça apoiada nos braços cruzados sobre uma mesa, chora e soluça dolorosamente.

Marta aparece e olha. Jesus lhe faz sinal para que se mantenha calada. E Marta se afasta, com grandes lágrimas que descem silenciosas.

Lázaro se acalma pouco a pouco, e se sente humilhado por sua fraqueza. Jesus o conforta e, visto que o amigo deseja retirar-se por um momento, sai para o jardim, e vai passear entre os canteiros, nos quais ainda resiste uma ou outra rosa purpúrea.

112.6 Pouco depois, Marta o alcança:

– Mestre… Lázaro falou?

– Sim, Marta.

– Lázaro não consegue ter paz, desde que ficou sabendo que Tu sabes e que a viste….

– Como ficou sabendo?

– Primeiro, foi por aquele homem que estava Contigo, e que se diz teu discípulo, aquele jovem alto, moreno e sem barba… depois, pelo Doras. Este último nos chicoteou com o seu desprezo. O outro, somente disse que a vistes no lago… com os seus amantes…

– Mas, não fiques chorando por isto! Pensavas que Eu ignorasse a vossa ferida? Eu sabia dela, desde quando estava no Pai… Não te deixes abater, Marta. Eleva teu coração e tua cabeça.

– Reza por ela, Mestre. Eu rezo… mas não sei perdoar completamente, e talvez o Eterno rejeite a minha oração.

– Bem disseste: é preciso perdoar, para sermos perdoados e ouvidos. Eu já rezo por ela. Mas dá-me o teu perdão e o de Lázaro. Tu, boa irmã, podes falar e obter ainda mais do que Eu. A ferida dele está muito aberta e ardente, para que mesmo a minha mão possa tocar nela, ainda que de leve. Tu podes fazê-lo. Dai-me o vosso perdão completo e santo, e Eu farei…

– Perdoar… Não poderemos. Nossa mãe morreu de dor por causa de suas más ações e… ainda eram coisas leves, em comparação com as de agora. Eu vejo os sofrimentos de minha mãe… os tenho sempre presentes. E vejo quanto Lázaro está sofrendo.

– É uma doente, Marta, uma louca. Perdoai.

– É uma endemoninhada, Mestre.

– E, que é a possessão diabólica senão uma doença do espírito, que foi contagiado por satanás, a ponto de desnaturar-se, transformando-se em um ser espiritual diabólico? Como explicar de outro modo certas perversões nos homens? Perversões que tornam o homem muito pior que as feras em ferocidade, mais libidinosos que os macacos em sua luxúria, e assim por diante, e fazem dele um híbrido, no qual estão fundidos o homem, o animal e o demônio? Esta é a explicação daquilo que nos espanta como uma monstruosidade inexplicável em tantas criaturas. Não chores. Perdoa. Eu vejo. Porque Eu tenho uma vista, que vê mais longe do que o olho e o coração. Eu tenho a vista de Deus. Vejo. E te digo: perdoa, porque ela está doente.

– Cura-a, então!

– Eu a curarei. Tem fé. Eu te farei feliz. Mas tu perdoa e diz ao Lázaro que faça o mesmo. Perdoa. Ama-a ainda. Aproxima-te dela. Fala-lhe, como se ela fôsse como tu. Fala-lhe de Mim…

– Como queres que entenda a Ti, Santo?

– Parecerá não compreender. Mas, só o meu Nome é salvação. Faz que ela pense em Mim, e me nomine. Oh! satanás foge, quando um coração pensa em meu Nome. Sorri, Marta, diante desta esperança. Olha para esta rosa. A chuva dos dias passados a havia maltratado, mas o sol de hoje, olha, a fez desabrochar, e ela está ainda mais bonita, porque a chuva que ficou entre uma pétala e outra a enfeita com diamantes. Assim será a vossa casa… Pranto e dor agora, e depois… alegria e glória. Vai. Diz isto a Lázaro, enquanto Eu, na paz do teu jardim, rezo ao Pai por Maria e por vós…

Tudo termina assim.