584. 584. O sábado antes da entrada em Jerusalém.Parábola das duas luzes e parábola viventedo pequeno deforme curado.A dor pelo futuro da Humanidade.
26 de março de 1947.
584.1O tempo, restaurado depois das chuvas dos dias passados, mostra um céu muito límpido e um sol muito brilhante. A terra, lavada pelas chuvas, está limpa como a atmosfera. Parece ter sido criada há poucas horas, de tão fresca e limpa que está. Tudo brilha e tudo canta nesta manhã serena.
Jesus está caminhando lentamente ao longo dos estreitos corredores, por entre os canteiros dos pontos mais afastados do jardim. Somente um ou outro servo jardineiro é que observa esse passeio solitário nas primeiras horas da manhã. Mas ninguém perturba o Mestre. Ao contrário, eles saem dali silenciosamente para o deixarem em paz.
Além disso, hoje é sábado, dia de repouso, e os servos jardineiros não trabalham. Mas por um costume tão antigo como a profissão deles, estão lá fora observando as plantas, as colmeias, as flores, para as quais não há sábado, e que exalam perfumes, agitam-se e zumbem as abelhas ao sol e a este ventinho de abril.
Depois, pouco a pouco, o jardim vai-se animando. Primeiro vêm os servos da casa e as servas. Depois os apóstolos e as discípulas e, por último, Lázaro. Jesus se aproximou deles e saudou-os com a sua saudação.
– Desde que hora estás aqui, Mestre? –pergunta Lázaro, sacudindo das madeixas dos cabelos de Jesus as gotas do orvalho.
– Desde a aurora. Os teus passarinhos me chamaram para louvar a Deus com eles. E Eu vim cá para fora. Contemplar Deus nas belezas da Criação é honrá-lo e orar com espírito fervoroso. É bela a terra nestas primeiras horas do dia, em um dia como este ela nos aparece fresca como era nos primeiros dias de sua vida.
– Realmente é tempo da Páscoa. Ele começou em boa ordem. E assim continuará, porque começou com a primeira fase da lua e com vento favorável –afirma Pedro.
– Com isso fico bem alegre. A Páscoa com chuva é triste.
– Pior ainda: atrapalha as colheitas. O trigo precisa de sol, agora que estamos indo para a ceifa –diz Bartolomeu.
– Eu estou feliz por estar aqui em paz. 584.2Hoje é sábado e não virá ninguém. Entre nós não há nenhum estranho –diz André.
– Estás enganado. Há um hóspede. Um pequeno hóspede. Ele ainda está dormindo, Mestre. O leito morno e o estômago saciado lhe proporcionam um longo sono. Eu passei por lá a fim de vê-lo. Noemi o está velando –diz Lázaro.
– Mas quem é? Quando foi que veio? Quem foi que o trouxe? Por que é que tu falas como se se tratasse de um menino? –perguntam homens e mulheres.
– É um menino. Um pobrezinho. O que o trouxe até aqui foi a sua dor. Ele estava lá, agarrado às barras da cancela, a olhar para a casa. E o Mestre o recolheu.
– E ninguém sabia de nada. E por quê?
– Porque o menino tinha necessidade de paz –respondeu Jesus.
E o seu rosto fica absorto em um pensamento profundo, enquanto Ele diz:
– Na casa de Lázaro se sabe guardar silêncio.
Um dos servos vem dizer alguma coisa a Marta e depois se retira, para voltar com outros que vêm trazendo bandejas com ânforas de leite e taças, e pão com manteiga, e mel. Todos se servem, sentando-se por aqui e por ali, nas cadeiras.
584.3Mas depois eles querem reunir-se de novo ao redor do Mestre e pedem uma parábola, “uma bela parábola”, como eles dizem, “serena com este dia de Nisã.”
– Não uma vos contarei, mas duas. Ouvi.
Um homem quis um dia acender duas luzes para honrar o Senhor em uma festa. Tomou dois vasos de igual largura, colocou neles a mesma quantidade de óleo, da mesma qualidade, dois pavios iguais, um em cada um, e as acendeu na mesma hora, a fim de rezarem por ele enquanto ele trabalhava, como lhe havia sido permitido.
Ele voltou depois de certo tempo e viu que uma das luzes estava soltando chamas altas, enquanto que a outra tinha uma chamazinha fraca, muito fraca, que era apenas um pontinho de luz no canto onde estavam as luzes acesas. O homem pensou que era um defeito do pavio. E foi observá-la. Mas não era. O pavio estava bom. Só que ele não queria queimar tão alegremente como a outra luz, que lançava sua chama para o alto como se fosse uma língua, e parecia até que murmurasse palavras, de tão alegre que estava, e tanto que, ao agitar-se chamejando, parecia estar soltando um leve murmúrio. “Esta luz canta de verdade os louvores do Senhor Altíssimo!”, disse ele a si mesmo. “Mas esta outra! Olha só, minha alma! Parece que lhe seja pesado honrar o Senhor, pois o faz com tão pouco ardor!”, e voltou para os seus trabalhos.
Retornou algum tempo depois. Uma das chamas tinha ficado ainda mais alta. E a outra havia ficado mais baixa, e sua chama estava ficando cada vez mais parada, quanto mais a outra esplendia vibrantemente. Ele voltou uma segunda vez. A mesma coisa. Uma terceira vez: a mesma coisa. Mas ao ir pela quarta vez, viu o quarto cheio de uma fumaça mal cheirosa e escura, e somente uma chamazinha luzindo através dos véus da fumaça espessa. Ele dirigiu-se a mísula, onde estavam as luzes, e viu que aquela que tanto chamejava antes estava agora acabada e enegrecida, e tinha até sujado, com sua labareda, a parede branca. A outra, ao contrário, continuava constante, com sua luz a honrar o Senhor.
Ele estava para ir consertar o defeito, quando uma voz lhe falou bem perto dele:
“Não mude as coisas do jeito em que estão. Mas medita sobre elas, pois são um símbolo. Eu sou o Senhor.”
O homem se jogou com o rosto por terra, adorando e, com grande tremor, ousou dizer:
“Eu sou um estulto. Explica-me, ó Sabedoria, o significado dessas luzes, das quais a que parecia mais ativa em prestar-te honras, só deu prejuízo, mas a outra continua com sua luz.”
“Sim, Eu o farei. Assim é que acontece com os corações dos homens. E como aconteceu com estas duas luzes. Há aqueles que no princípio estão acesos; e brilham, e são admirados pelos homens, pelo tanto que parece perfeita e constante a chama deles. E há homens que têm um esplendor manso, que não chama a atenção, e pode até parecer uma tibieza em prestar honras ao Senhor. Mas, tendo passado a primeira labareda1, ou a segunda, ou a terceira, entre a terceira e a quarta começam a dar prejuízo e depois se apagam, com perda, porque a luz deles não era de confiança. Quiseram brilhar mais para os homens do que para o Senhor e a soberba acabou com eles em pouco tempo, no meio de uma fumaça negra e pesada, que escureceu até o ar. Os outros tiveram uma vontade única e constante: a de honrar somente a Deus, sem se preocuparem se os homens os louvavam, e se empenharam a si mesmos com uma chama longa e clara, que não tinha fumaça nem mau cheiro. Procura saber imitar a luz constante, porque só ela é agradável ao Senhor.”
O homem tornou a levantar a cabeça… o ar tinha ficado limpo da fumaça e a chama da luz fiel resplendia agora sozinha, pura, firme em honra de Deus, com o luzir do metal de sua luz como se fosse de puro ouro. E ele a ficou olhando brilhar, sempre com um brilho igual, durante horas e horas, até que docemente, sem fumaça, sem mau cheiro, em uma de suas palpitações se exalou, parecendo subir para o céu, para ir fixar-se entre as estrelas, tendo servido com dignidade ao Senhor até com sua última gota de óleo, no último instante de sua vida.
Em verdade, em verdade Eu vos digo que muitos são aqueles que produzem uma grande chama no começo e chamam a atenção do mundo, que não vê mais do que superficialmente as ações humanas. Mas depois acabam virando carvão, soltando até o fim suas fumaças de cheiro desagradável. Em verdade Eu vos digo que o chamejar desses não é tido em conta por Deus, porque Deus vê que aquilo é um orgulhoso arder para um fim humano. Bem-aventurados aqueles que sabem imitar a segunda luz e não carbonizar-se, mas subir ao céu com a última palpitação de seu constante amor.
584.4– Que parábola estranha! Mas verdadeira, bonita! Ela me agrada. Eu gostaria de saber se nós somos as chamas que sobem para o Céu.
Os apóstolos assim dizem uns aos outros as suas impressões.
Judas sempre acha um jeito de ferroar. E a sua ferroada agora é contra Maria de Magdala e João de Zebedeu:
– Fica atenta, Maria, e tu, João. Vós dois, as luzes chamejantes entre nós… Tomara que não vos saiais mal!
Maria de Magdala está para responder, mas morde os lábios para não dizer as palavras que vem do seu coração. Ela olha para Judas. E limita-se a isso. Mas aquele seu olhar é tão ardente, que Judas cessa de rir e de fitá-la.
João, manso de coração, ainda que ardente de caridade, responde docemente:
– Pela minha capacidade, isso poderia acontecer. Mas eu confio na ajuda do Senhor e espero consumir-me até à última gota, até o último instante para honrar o Senhor nosso Deus.
584.5– E a outra parábola? Tu prometeste duas –lembra Tiago de Alfeu.
– Eis a minha segunda parábola. Está para chegar…
E mostra a porta da casa, velada pelo toldo que se move lentamente ao vento, e que se afasta, sendo retirado pela mão de um dos servos a fim de dar passagem à velha Noemi, que vai precipitar-se aos pés de Jesus, dizendo:
– Mas o menino está são. Não está mais deforme! Tu o curaste durante a noite. Ele tinha acordado, e eu estava preparando o banho para lavá-lo antes de pôr-lhe a túnica e depois a veste que eu havia costurado de noite, de uma veste que Lázaro deixou de usar. Mas quando eu lhe disse: “Vem cá, menino”, e afastei as cobertas, vi que o seu pequeno corpo, que ontem estava todo torto, já não estava mais como era. Então, eu gritei. Chegaram correndo Sara e Marcela, que nem sabiam que o menino estava dormindo em minha cama, e eu as deixei para correr até Ti…
A curiosidade tomou conta de todos. Muitas perguntas e a vontade de ver. Jesus faz um sinal para que se calem. E diz a Noemi:
– Vai lavá-lo, vesti-lo e traze-o aqui.
E depois se volta para os discípulos:
– Eis a segunda parábola, que pode ser chamada: “A genuína justiça não tira vinganças nem faz restrições.” Um homem, ou melhor, o Homem, o Filho do Homem, tem inimigos e amigos. Muitos inimigos e poucos amigos. E inimigos cujos pensamentos Ele não ignora e dos quais ele sabe qual é a vontade que não se desviará de nenhuma ação, por mais horrenda que ela seja. Nisso eles são mais fortes do que os seus amigos, nos quais o medo ou a desilusão, ou uma excessiva confiança servem como aríetes destruidores de sua fortaleza. Este Filho do Homem, que tem muitos inimigos, e do qual se censuram tantas coisas não verdadeiras, encontrou ontem um pobre menino, o mais desolado dos meninos, filho de um homem que é inimigo dele. O menino estava deforme e estropiado, e pedia uma graça estranha: a graça de morrer. Todos pedem honras e alegrias ao Filho do Homem, pedem saúde, pedem vida. Mas este menino pedia a morte, para não sofrer mais. Ele já conheceu toda a dor da carne e do coração, porque aquele que o gerou, e que me odeia sem razão, odeia também ao inocente infeliz que ele gerou. E Eu o curei, para que não sofra mais, porque, além da saúde física, possa conseguir também a saúde do espírito. Também sua pequena alma está doente. O ódio do pai e o escárnio dos homens a encheram de chagas, fizeram dela uma despojada de amor. Só o que ficou nele foi a fé no Céu e no Filho do Homem, ao qual, ou melhor, aos quais ele pede para morrer. Agora, vós o ouvireis falar.
584.6O menino, limpo e alinhado, com sua vestezinha de lã branca, que Noemi costurou rapidamente durante a noite, vem para a frente pela mão da velha nutriz. Ele é pequeno, ainda que, não estando mais corcovado nem manco, esteja hoje parecendo mais alto do que ontem. Tem um rostinho irregular e um pouco enrugado de quem a dor fez que ficasse adulto antes do tempo. Mas não está mais deformado. Seus pezinhos descalços pisam com firmeza no chão, com um passo que não tem mais aquela incerteza dos mancos, e os ombros magros estão bem de acordo com sua magreza. Seu pescoço fino passa acima dos ombros e parece mais longo, em comparação com o tamanho que tinha ontem, quando ele se afundava por entre as clavículas assimétricas.
– Mas… mas este é o filho de Ana de Naum. Que milagre desperdiçado! Achas que com isso irás fazer teus amigos o pai do menino e Naum? Tu os tornarás mais odientos ainda. Porque eles estavam esperando somente a morte deste menino, fruto de um infeliz casamento –exclama Judas de Keriot.
– Eu não faço milagres para granjear amigos. Mas por piedade das criaturas e para prestar honra ao meu Pai. Não faço distinções nem cálculos, nunca, quando Eu me curvo com piedade sobre uma miséria humana. Não me vingo de quem me persegue…
– Naum tomará isso como um ato de vingança.
– Eu nada sabia a respeito desse menino. E ainda nem sei o nome dele.
– Matusala ou Matusalém, como dizem por desprezo2.
– A mãe me chamava Salém. Minha mãe me amava. Não era ruim como és tu e como são aqueles que me odeiam –diz o menino com um brilho nos olhos, aquele brilho de ira que têm os homens e os animais maltratados demais.
584.7– Vem aqui, Salém. Vem aqui comigo. Estás contente por estares são?
– Sim… mas eu preferia morrer. Ficarei do mesmo jeito, sem ser amado. Se minha mãe ainda estivesse viva, teria sido bom. Mas assim!… Serei sempre um infeliz.
– Ele tem razão. Ontem encontramos este menino. Ele perguntou-nos se Tu estavas em Betânia, na casa de Lázaro. Queríamos dar-lhe uma esmola, pois pensamos que ele era um mendigo. Mas ele não quis. Ele estava no limite de um campo… –diz Zelotes.
– Nem tu o conhecias? É estranho –diz Judas de Keriot.
– Mais estranho é que tu saibas tão bem estas coisas. E te esqueces de que eu estive entre os perseguidos e depois entre os leprosos, enquanto não vim ficar com o Mestre?
– E tu te esqueces de que eu sou amigo de Naum, que é homem de confiança do Anás? Eu nunca vos escondi isso.
– Bem! Bem! Isso não tem importância. O que tem importância é sabermos agora o que faremos deste menino. O pai dele não o ama, é verdade. Mas tem sempre alguns direitos sobre ele. Não podemos tirar-lhe o filho assim, sem dizer-lhe. É preciso que sejamos cautelosos, e não irritá-los, pois eles parecem estar melhores para conosco –diz Natanael.
Judas ri muito, sarcasticamente, e não dá explicação de sua risada.
584.8Jesus, que pôs o menino entre os joelhos, diz lentamente:
– Eu enfrentarei Naum… Não serei mais odiado por isso. O ódio dele não pode crescer. Não pode. Já cresceu o quanto podia.
Anália, que ainda não falou, toda absorta em seu pensamento que a torna feliz, abre a boca para dizer:
– Se eu fosse ficar aqui, teria gostado de tomá-lo comigo. Sou jovem, mas tenho um coração de mãe…
– Tu vais embora? Quando? –perguntam as mulheres.
– Brevemente.
– Para sempre? E aonde vais? É para fora da Judéia?
– Sim. Para longe. Muito longe. Para sempre. E me sinto muito feliz.
– Isto que não podes fazer, outras farão, se o pai o ceder.
– Eu o direi a Naum, se quereis. É a ele que importa dizer. Mais do que ao verdadeiro pai. Amanhã eu lho direi –promete Judas de Keriot.
– Se não fosse sábado… eu iria à casa daquele Josias, sob cujos cuidados ele estava –diz André.
– Para ver se estão aflitos por o terem perdido? –pergunta Mateus.
– Eu creio que, se extraviasse uma de suas abelhas, eles ficariam mais aflitos… –resmunga por entre dentes Maximino, que se aproximou há pouco.
584.9O menino não fala. Ele está abraçado a Jesus, estudando os rostos que estão ao seu redor com aquela agudeza de olhar que muitas vezes têm as pessoas doentias, e que viveram na dor. Parece que ele perscruta mais as almas do que os rostos, e quando Pedro lhe pergunta: “Que achas de nós?”, o menino lhe responde pondo sua mão na mão dele, e dizendo:
– Tu és bom.
E depois corrige:
– Todos sois bons. Mas… eu não queria ter sido reconhecido. Tenho medo…
E olha para Judas de Keriot.
– Medo de mim, não é verdade? De que eu fale ao teu pai. É certo que eu o deverei fazer, se devo pedir-lhe que te deixe conosco. Mas ele não te levará!
– Eu sei. Mas é uma outra coisa… Eu quereria ir para longe, bem longe, como vai aquela mulher… Para a terra de minha mãe. Lá existe um mar azul, no meio de montanhas todas verdes. Podemos ver lá embaixo, com muitas velas brancas que ficam esvoaçando, e belas cidades ao redor. E sobre os montes há muitas grutas, onde as abelhas selvagens fazem o seu mel doce, muito doce. Nunca mais comi mel, desde quando minha mãe morreu e eu fui entregue a Josias. Filipe, José, Elisa e os outros meninos, eles sim que o comiam. Mas eu, não. Se eles tivessem colocado o vaso de mel embaixo, eu o teria roubado, de tanto que eu queria. Mas eles o colocavam nas prateleiras mais altas, e eu não podia subir sobre as mesas, como fazia Filipe. Tenho tanto desejo de mel!
– Oh! Pobre filho! Vou buscar para ti o quanto quiseres –diz Marta, comovida, e sai correndo.
584.10– Mas de onde era a mãe dele? –pergunta Pedro.
– Ela tinha casas e propriedades perto de Sefet. Era filha única, órfã e herdeira, já velha, feia e mancava levemente. Mas era muito rica. O velho Sadoque foi quem preparou o casamento dela, e assim o filho do Anás a teve como sua mulher… O contrato foi um verdadeiro negócio indigno, sendo tudo calculado, mas tudo sem amor. E tendo sido vendida a propriedade da mulher que, diziam, estava longe demais daqui, só restou uma casinha que antes era do feitor e que ele havia recebido como doação feita pelo velho patrão por toda a vida dele e de seus herdeiros até à quarta geração. E ele acabou com tudo em especulações infelizes. Mas… nisto eu não creio. Porque ele tem belas terras do outro lado do rio, que antes não possuía. Depois, tendo passado alguns anos do casamento, a mulher, estando já no limite do seu tempo, teve este filho… e isto serviu de pretexto para expulsar a mulher e tomar uma outra, da planície de Saron, ainda jovem, bonita e rica… A divorciada se refugiou com o velho feitor e lá morreu. Não sei por que não ficaram com este menino. O pai achava que ele tinha morrido, explica Iscariotes.
– Porque João havia morrido e Maria também, e seus filhos foram trabalhar como servos em outros lugares. E quem é que devia ficar comigo, se eu não era seu filho nem bom para o trabalho? Mas eram bons Miguel e Isaque, e boas eram Ester e Judite. E são bons. Quando eles vêm para as festas, trazem-me roupas. Mas Josias as toma e leva para os filhos dele.
– Mas eles não gostam de ti –replica Judas.
– Agora que eu estou aprumado e forte gostarão de mim. Eles são servos! Ele não podia, como eu lhes disse, dizer ao patrão: “toma este estropiado doente.” Mas agora podem.
584.11– Mas se tu fugiste de Josias, como é que te irão encontrar? –diz Bartolomeu, fazendo-o refletir.
O menino fica chocado por aquela justa observação e reflete, pois a enfermidade tanto o fez ficar reflexivo em seus pensamentos como também precocemente adulto no rosto e, desconfortado, ele diz:
– É verdade. Eu nem havia pensado nisso.
– Volta para lá. Por estes dias eles virão…
– Voltar para lá? Não. Para lá eu não volto. Não quero voltar para lá. Prefiro matar-me!
Ele está como um selvagem, naquela sua fúria que o agita, mas depois se põe a chorar sobre os joelhos de Jesus, dizendo:
– Por que não me fizeste morrer?
Marta, que já está voltando com um vaso de mel, fica espantada com aquela desolação. E Bartolomeu está aflito por tê-la provocado, e assim se desculpa:
– Eu achava que tinha dado um bom conselho. Bom para todos. Para o menino, para Ti, Mestre, e para Lázaro. Nenhum de vós e nenhum de nós está precisando de um novo ódio…
– É verdade! É uma pena! –exclama Pedro.
E, meditando sobre aquele caso, de lá vai tirando silenciosas conclusões com aquele seu característico assobio, que é o sinal do seu estado de alma diante de problemas difíceis e graves, que precisavam ser resolvidos.
Uns propõem uma coisa, outros outra. Ir a Naum. Ou ir a Josias e dizer-lhe que mande Miguel e Isaque a Lázaro, ou a outro lugar onde estará presente o menino, pois não é prudente fazer que odeiem Lázaro mais do que já o odeiam por causa de sua amizade com Jesus. Outra ideia foi a de não dizer nada a ninguém e fazer desaparecer o menino, dando-o a algum discípulo de confiança.
Judas de Keriot não fala nada. E até parece ser um estranho naquela discussão. E fica brincando com os flocos de sua veste, penteando-os e despenteando-os com os dedos.
Jesus também não fala. Ele acaricia e acalma o menino, e faz que ele levante o rosto pondo em suas mãos o pequeno vaso de mel.
584.12Salém é um menino, um pobre menino de dez anos que sempre tem sofrido, mas é sempre um menino, mesmo a dor tendo-o já amadurecido; e, diante daquele grande tesouro de mel, ele passa de suas últimas lágrimas para um assombro extático. E levantando os olhos, que são a sua única beleza, de cor castanha, grandes, inteligentes, e fixos em Jesus e em Marta, um depois do outro, ele pergunta:
– Quanto posso pegar? Uma destas conchas, ou duas?
E mostra uma concha redonda, de prata, que vai afundando lentamente no louro mel.
– Quantas quiseres, menino. Como te agradar. O resto tu o tomarás amanhã e depois. Ele é todo teu –diz Marta, acariciando-o.
– Todo meu! Oh! Eu nunca tive tanto mel! Todo meu! Oh!
E ele aperta o vaso contra o peito como se fosse um tesouro.
Mas depois ele percebe que, mais do que o vaso, o precioso mesmo é o amor que o dá, e coloca o pequeno vaso sobre os joelhos de Jesus, levantando depois os braços para segurar o pescoço de Marta, que está inclinada sobre ele, e beijá-la. Isto é tudo o que ele pode fazer, o seu agradecimento, tudo o que ele pode dar, o abandonado, que nada tem para dar.
584.13Os outros deixam de ficar fazendo planos para observarem a cena. E Pedro diz:
– Este é mais infeliz do que Marziam, que pelo menos tinha o amor do avô e dos camponeses. É bem verdade que há sempre dores maiores do que aquelas que nós julgamos grandes demais!
– Sim. O abismo da dor humana ainda não foi explorado até o fundo. Quem sabe quantos segredos ele ainda esconde… e esconderá pelos séculos futuros? –diz, pensativo, Bartolomeu.
– Tu, então, não crês na Boa Nova? Não crês que ela mudará o mundo? Isto foi dito pelos profetas. E o Mestre o repete. Tu és um incrédulo, Bartolomeu –diz o Iscariotes, com leve ironia.
Mas Zelotes lhe responde:
– Não vejo onde é que está a incredulidade de Bartolomeu. A doutrina do Mestre confortará todas as desventuras, modificará até a ferocidade dos usos e costumes, mas não eliminará a dor. Torná-la-á suportável com as suas divinas promessas de futuras alegrias. Para ser abolida a dor, ou pelo menos uma parte da dor, pois sempre ficariam as doenças, as mortes e os cataclismos naturais, seria necessário que todos tivessem o coração que o Cristo tem, mas…
Interrompe-o Iscariotes:
– Assim de fato deve acontecer. Porque, senão, que adiantaria que o Messias viesse sobre a terra?
– Assim deveria acontecer, digamos. Mas dize-me uma coisa, Judas: por acaso foi isso que aconteceu entre nós? Nós somos doze e há três anos vivemos com Ele, recebemos a sua doutrina como o ar que respiramos. E daí? Se fôssemos todos santos, nós doze? Que é que fazemos de diverso daquilo que faz Lázaro, do que faz Isaque, Manaém, José e Nicodemos, e as mulheres e os meninos? Eu falo dos justos desta nossa Pátria. Todos eles, sejam sábios e ricos ou pobres e ignorantes, fazem o que nós fazemos: um pouco de bem e um pouco de mal, mas sempre sem renovar-nos totalmente. E até te digo que muitos fazem mais do que nós. Sim. Muitos seguidores fazem mais do que nós apóstolos. E tu pretenderias que o mundo todo tivesse o coração que o Cristo tem, se nós, os apóstolos, não o temos em nós? Nós temos melhorado mais ou menos… pelo menos esperamos que assim seja, porque dificilmente o homem se conhece e conhece o irmão que vive a seu lado. É espesso e opaco demais o véu da carne e atento demais o pensamento do homem em não se deixar penetrar, para que o homem conheça o homem. Sempre observando ou sendo observados, ficamos num conhecimento superficial; seja quando examinamos a nós mesmos, porque não queremos nos conhecer para não sofrermos no orgulho ou na necessidade de nos modificarmos, seja quando se trata do exame dos outros, porque o nosso orgulho de examinadores nos faz juízes injustos e o orgulho do examinado se fecha, como uma ostra faz com suas conchas, cobrindo tudo o que tem em seu interior –diz Zelotes.
– Falaste bem, irmão. Tu verdadeiramente disseste palavras de sabedoria! –aprova-o Judas Tadeu.
E os outros lhe fazem coro.
584.14– E então, para que veio, se nada deve mudar? –rebate Iscariotes.
Jesus toma a palavra:
– Muitas coisas mudarão. Mas não todas. Porque contra a minha Doutrina haverá no futuro o que já estão fazendo: o ódio daqueles que não amam a luz. Porque contra a força dos meus seguidores estará a dos seguidores de Satanás, e quantos! E de quantas espécies! À minha doutrina imutável, porque perfeita, quantas doutrinas de heresias sempre novas se lhe oporão! Quanta dor germinará delas. Vós não conheceis o futuro. A vós vos parece grande a dor que agora há no mundo… Mas Aquele que sabe vê horrores que nem seriam entendidos, se Eu vo-los explicasse… Ai se Eu não tivesse vindo! Eu vim para dar aos futuros um código que freia os instintos nos melhores e traz uma promessa de paz futura! Ai se o homem não tivesse, pela minha vinda, os elementos espirituais capazes de conservá-lo “vivo” na vida do espírito, e conservá-lo confiante em um prêmio!… Se Eu não tivesse vindo, com o correr dos séculos a terra iria se transformar em um vasto inferno terrestre e a raça humana se dilaceraria, pereceria, maldizendo o Criador…
– O Altíssimo prometeu3 não mandar mais castigos universais como o Dilúvio. E promessa de Deus não falha –diz Judas.
– Sim, Judas de Simão. É verdade. E o Altíssimo não mandará mais flagelos universais como o Dilúvio. Os homens mesmos é que criarão por si e para si flagelos cada vez mais atrozes, em comparação aos quais o Dilúvio e a chuva de fogo, que arrasou4 Sodoma e Gomorra, poderão ser considerados castigos brandos. Oh!…
Jesus se põe de pé, com um gesto de angustiosa piedade para com os povos do futuro.
584.15– Está bem! Tu sabes… Mas, enquanto isso, que faremos para este menino? –pergunta Iscariotes, mostrando o menino, que está saboreando em pequenas doses o seu mel e se sente feliz.
– Para cada dia a sua preocupação. O amanhã nos dirá. Preocupar-nos hoje pelo amanhã é inútil, se não soubermos nem mesmo quem ainda estará vivo amanhã.
– Eu não penso como Tu. Eu digo que seria necessário saber onde iremos morar, onde consumiremos a Ceia. São tantas coisas. Se ficarmos esperando, a cidade se enche. E para onde iremos nós? Para o Getsêmani, não. Para José de Séforis, não. Para a casa de Joana, não. Para a de Nique, não. Para a de Lázaro, não. E, então, onde?
– Onde o Pai preparar um refúgio para o seu Verbo.
– Pensas que eu queira saber para ir contar?
– Tu o disseste. Eu não falei nada. Vem aqui, Salém. Minha Mãe já ouviu falar de ti, mas ainda não te viu. Vem que eu te levarei a Ela.
– Mas está doente a tua Mãe? –pergunta Tomé.
– Não. Está rezando. Ela tem muita necessidade de oração.
– Sim. Ela está sofrendo muito. Chora muito. E para Maria não há nada que console mais que a oração. Sempre a tenho visto rezando muito. Nos momentos de maior dor Ela vive de oração, eu poderia dizer… –explica Maria de Alfeu, enquanto Jesus vai-se afastando, segurando o menino pela mão, e tendo do outro lado Anália, que foi convidada para ir com Ele até Maria.
1 tendo passado a primeira labareda se diz sobre os primeiros, isto è, aqueles que são admirados pelos homens e causam danos.
2 por desprezo, talvez porque a sua deformidade trazia à lembrança a velhice, que se tornara proverbial em Matusalém: Gênesis 5,27.
3 prometeu, em: Gênesis 9,11.15.
4 arrasou, como se lê em: Gênesis 19,23-25.
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