111. 111. Encontro com Salomão no vale do Jordão.Parábola sobre a conversão dos corações.
18 de fevereiro de 1945.
111.1 – Admiro-me de que o Batista não esteja aqui –diz João ao Mestre.
Estão todos à margem oriental do Jordão, junto ao famoso vale, onde, algum tempo atrás, o Batista batizava.
– E nem do outro lado ele está –observa Tiago.
– Tê-lo-ão agarrado outra vez, esperando outra bolsa –comenta Pedro–. Os funcionários de Herodes são sujeitos dignos da cruz!
– Nós passaremos por lá e perguntaremos –diz Jesus.
De fato, eles passam, e perguntam a um barqueiro, que está na outra margem:
– O Batista não batiza mais aqui?
– Não. Ele está nos confins da Samaria. A que ponto chegamos! Um santo precisa ir abrigar-se junto aos samaritanos, para salvar-se dos cidadãos de Israel. 111.2E, por que vos admirais, se Deus nos abandona? Eu só me admiro de uma coisa: que não faça da Palestina toda uma Sodoma e Gomorra.
– Não o faz, por causa dos justos que estão nela, por aqueles que, ainda não sendo completamente justos, sentem a sede da justiça, e seguem a doutrina dos que pregam a santidade –responde Jesus.
– De dois, então: Do Batista e do Messias. O primeiro eu conheço, porque eu até o servi aqui no Jordão, ao levar-lhe na travessia alguns de seus fiéis, e não cobrando nada, porque ele diz que devemos contentar-nos com o justo. Parecia-me justo contentar-me com o que ganhava com outros serviços, mas que seria injusto pedir um pagamento para transportar uma alma que procura a purificação. Recebi dos amigos o nome de doido. Mas enfim… Contente eu com o meu pouco, quem pode lamentar-se? Além disso, vejo que de fome não morri ainda, e espero que, na minha morte, Abraão me sorria.
– Homem, tu estás certo. Quem és? –pergunta Jesus.
– Oh! Eu tenho um nome bem célebre, e rio disso, porque não tenho sabedoria senão no remo. Eu me chamo Salomão.
– Tens a sabedoria de julgar que quem coopera para uma purificação não deve corrompê-la com o dinheiro. Eu te digo: não é Abraão somente, mas o Deus de Abraão que sorrirá a ti em tua morte, como a um filho fiel.
– Oh! Deus! Dizes isto de verdade? 111.3Quem és Tu?
– Eu sou um justo.
– Escuta, eu te disse que há dois justos em Israel: um é o Batista, o outro é o Messias. És Tu o Messias?
– Eu sou.
– Oh! Eterna Misericórdia! Mas… um dia eu ouvi os fariseus dizerem… Deixemos para lá… Não quero sujar minha boca. Tu não és como eles diziam. Línguas bífidas, mais do que as das víboras!!
– Sou Eu e te digo: tu não estás muito longe da Luz. Adeus, Salomão. A paz esteja contigo.
– Aonde vais, Senhor?
O homem está atordoado por aquela revelação e tomou um tom completamente diferente. Antes, era um bonachão que falava. Agora é um fiel que adora.
– Vou para Jerusalém, por Jericó. Vou à Festa dos Tabernáculos.
– A Jerusalém? Mas… Tu também?
– Eu também sou filho da Lei. Não anulo a Lei. Dou-vos luz e força para segui-la com perfeição.
– Mas Jerusalém já te odeia. Quero dizer: os grandes, os fariseus de Jerusalém. Eu te disse que ouvi…
– Deixa que façam. Eles fazem seu dever, o que acham que é seu dever. Eu faço o meu. Em verdade, te digo que, enquanto não chegar a hora, nada poderão fazer.
– Que hora, Senhor? –perguntam os discípulos e o barqueiro.
– A hora do triunfo das Trevas.
– Viverás até o fim do mundo?
– Não. Haverá uma treva mais atroz do que a dos astros apagados e do nosso planeta, morto com todos os seus homens. E será, quando os homens sufocarão a Luz que Eu sou. Em muitos o delito já aconteceu. Adeus, Salomão.
– Eu vou te seguir, Mestre.
– Não. Vem, dentro de três dias, ao Bel Nidraxe. A paz esteja contigo.
111.4 Jesus se põe a caminho, entre os discípulos pensativos.
– Em que é que estais pensando? Não tenhais medo por Mim, nem por vós. Nós passamos pela Decápole e pela Pereia, e por toda parte vimos agricultores trabalhando nos campos. Onde a terra estava ainda sob os restolhos e a grama, árida, dura, entulhada de plantas parasitas, cujas sementes os ventos do verão tinham arrastado e transportado da desolação desértica. Eram aqueles os campos dos preguiçosos e dos gozadores. Em outros lugares a terra já estava aberta pela relha e o fogo e as mãos do homem a havia limpado das pedras, das sarsas e ervas. E, o que antes era um mal, ou seja, vegetações inúteis, eis que com a purificação do fogo e do corte, transformou-se em um bem: em adubo e em sais úteis para a fecundação. A terra terá chorado com a dor que lhe foi causada pela lâmina, que a ia abrindo e remexendo, e sob a mordida do fogo, que se deslizava sobre suas feridas. Mas ela vai-se rir, mais bonita, na primavera, dizendo: “O homem me torturou, para dar-me esta abundante colheita, que me faz bela.” E estes eram os campos dos dedicados. Em outros lugares ainda, a terra já estava fofa, limpa até das cinzas, um verdadeiro leito nupcial, para os esponsais da gleba com a semente e para o fecundo conúbio, que produz esplêndidas espigas. Estes eram os campos dos generosos, até chegarem à perfeição da operosidade.
Pois bem. Com os corações sucede o mesmo. Eu sou a Relha1 e a minha palavra é o Fogo. Para preparar para o triunfo eterno.
Existem os que, preguiçosos ou gozadores, ainda não me pedem, não me querem, satisfazem-se com os seus vícios, com suas paixões malvadas, que parecem uma veste cheia de verdor e de flores, quando são apenas abrolhos e espinhos, que ferem mortalmente o espírito, o amarram, e dele fazem um feixe para a fornalha da Geena. Por enquanto, a Decápole e a Pereia estão assim… e não somente elas. Não me pedem milagres, porque não querem o talho da palavra e o ardor do fogo. Mas a hora delas chegará. Noutros lugares há os que aceitam esse talho e esse ardor, e pensam: “É penoso. Mas me purifica e me fará fértil para o Bem.” São aqueles que, ainda que não tenham o heroísmo de fazer, deixam que Eu faça. É esse o primeiro passo no meu caminho. Há, enfim, aqueles que ajudam, com seu trabalho contínuo e cuidadoso, o meu trabalho, e não caminham, mas voam pela estrada de Deus. Estes são os discípulos fiéis: vós, e os outros que estão espalhados por Israel.
111.5 – Mas nós somos poucos… contra tantos. Somos gente humilde… contra os poderosos. Como poderíamos defender-nos, se eles quiserem atacar-nos?
– Amigos. Lembrai-vos do sonho de Jacó. Ele viu uma multidão incalculável de anjos que subiam e desciam pela escada, que vinha do Céu até o patriarca. Era uma multidão, e, no entanto, não era mais do que uma parte das formações angélicas… Pois bem. Ainda que todas as formações, que cantam glória a Deus no Céu, descessem ao meu redor para defender-me, quando chegar a hora, nada poderão fazer. A justiça vai ter que se cumprir….
– A injustiça, queres dizer! Porque Tu és santo e, se te atacam, se te odeiam, são injustos.
– Por isso é que Eu digo que em alguns o delito já se consumou. Quem incuba um pensamento de homicídio, já é homicida; o de furto, já é ladrão; o de adultério, já é adúltero; o de traição, já é traidor. O Pai sabe e Eu sei. Mas Ele me permite que Eu vá. E Eu vou. Porque para isso é que Eu vim. Mas ainda as colheitas haverão de amadurecer e serão semeadas mais de uma vez, antes que o Pão e o Vinho sejam dados em alimento aos homens.
– Far-se-á, então, um banquete de júbilo e de paz!
– De paz? Sim. De júbilo? Também. Mas… Oh, Pedro, oh, amigos! Quantas lágrimas haverá entre o primeiro e o segundo cálice! E somente depois de ter bebido a última gota do terceiro cálice, é que o júbilo será grande entre os justos, e a paz firme entre os homens de vontade reta.
– E Tu estarás aqui, não é verdade?
– Eu?? Quando é que se viu faltar o chefe da família ao rito? E não sou Eu o Chefe da grande família de Cristo?
111.6Simão Zelote, que até agora não falou, diz2, como se estivesse falando a si mesmo:
– “Quem é Este que vem com as vestes tingidas de vermelho? Ele é belo em sua veste e caminha na grandeza de sua força.” “Sou Eu que falo com justiça e proteção para que todos se salvem.” “Por que então, tuas vestes estão tingidas de vermelho, e estão como as de quem pisa no lagar?” “Somente Eu pisei no lagar. E chegou o ano da minha redenção.”
– Tu compreendeste, Simão –observa Jesus.
– Eu compreendi, meu Senhor.
Os dois se olham; os outros olham para eles assombrados, e entre si perguntam:
– Mas ele fala das vestes vermelhas vestidas por Jesus agora, ou da púrpura de rei, da qual Ele se cingirá quando chegar a hora?
Jesus se abstrai, e parece não estar ouvindo mais nada.
Pedro puxa à parte a Simão e lhe pergunta:
– Tu que és sábio e humilde, explica à minha ignorância as tuas palavras.
– Sim, irmão. O nome dele é Redentor. Os cálices que são do banquete de paz e de júbilo entre o homem e Deus, entre a terra e o Céu, Ele por si mesmo os encherá com o seu Vinho, pisando a si mesmo no sofrimento por amor de todos nós. Por isso, estará presente, não obstante os poderes das Trevas tenham aparentemente sufocado a Luz que Ele é. 111.7Oh! É preciso amar muito a este nosso Cristo, porque muito Ele vai ser desamado. Procuremos, que, na hora do abandono, não nos apanhe e censure aquele lamento de Davi3: “Um bando de cães (e entre eles, nós também) colocou-se ao meu redor”.
– Tu dizes isto?? Mas nós o defenderemos, à custa de morrer com Ele.
– Nós o defenderemos… Mas nós somos homens, Pedro. E a nossa coragem desaparecerá, antes ainda que a Ele lhe sejam desconjuntados os ossos… Sim. Nós faremos como a água gelada do céu que um raio derrete e transforma em chuva, e que depois o vento congela de novo no chão. Seremos assim! Seremos assim! A nossa presente coragem de discípulos — porque o seu amor e a sua proximidade nos tornam resistentes e cheios de uma ousadia viril — sob o golpe fulminante de satanás e dos satanases, se derreterá… E, de nós, que sobrará? Após a aviltante e necessária prova, eis que a fé e o amor nos tornarão de novo firmes e consistentes seremos então como cristal que não tem medo de ser riscado. Mas isto será possível, se o amarmos muito, enquanto o tivermos conosco. Então… sim, penso que não seremos, segundo as Suas palavras, nem inimigos, nem traidores.
– Tu és sábio, Simão. Eu… sou iletrado. E me envergonho de ter que perguntar a Ele tantas coisas… E me sinto mal, quando percebo que são coisas que terminam em lágrimas… Olha o seu rosto: parece que está sendo lavado por um pranto secreto. Olha os seus olhos. Não estão olhando nem para o céu, nem para o chão. Estão abertos para um mundo que nós não conhecemos. O seu modo de andar é todo encurvado e cansado! Parece ter envelhecido no seu pensar. Oh! Eu não posso vê-lo assim! Mestre! Mestre! Sorri. Não posso ver-te assim triste. Para mim és querido como um filho, e eu te daria o meu peito como travesseiro, para fazer-te dormir e sonhar com outros mundos… Oh! Perdoa, se eu te chamei de “filho”! É que eu te amo, Jesus.
– Eu sou o Filho… Este é o meu Nome. Mas não estou mais triste. Estás vendo? Eu sorrio, porque vós sois amigos. 111.8 Eis lá ao longe Jericó, toda vermelha no pôr-do-sol. Dois de vós vão procurar alojamento. Eu e os outros iremos esperar-vos ao lado da sinagoga. Ide.
E tudo termina, enquanto João e Judas Tadeu partem à procura de uma casa que os hospede.
1 Relha: peça do arado que abre o sulco na terra [N.T.].
2 diz o que se lê em: Isaías 63,1-4.
3 lamento de Davi em: Salmos 22,17.