320. 320. Prodígios sobre o navio no mar em tempestade.


5 de novembro de 1945.

320.1 Na superfície do Mediterrâneo, suas águas verde-azuladas se chocam em vagalhões muito altos, com suas cristas cobertas de espuma. Hoje não se vê nele nenhuma nevoa, o céu está claro. Mas a água do mar, esborrifada pelos embates de um vagalhão contra outro, se transforma em um pó salgado, que queima e penetra até por baixo das roupas, avermelha os olhos, queima as gargantas, e parece espargir-se como um pó-de-arroz salino por toda parte, por sobre as coisas, que ficam parecendo terem sido pulverizadas com uma espécie de farinha luminosa, que são os diminutos cristais de sal. Isto se dá onde não chegam as bofetadas das ondas, nem as suas enxaguaduras vigorosas, que lavam a ponte do navio de um lado ao outro, precipitando-se para dentro, ao transporem a amurada, para depois tornarem a cair no mar, produzindo o ruído de uma cascata, e saindo pelos buracos da amurada oposta.

O navio sobre e desce, como uma palhinha sujeita aos caprichos do oceano, tendo-se tornado um nada em comparação com ele, e chia, e se lamenta, desde as sentinas, até à ponta de seus mastros… O mar é realmente o dono, e o navio é o seu brinquedo.

Com exceção dos que estão fazendo as manobras, ninguém mais está na ponte, nem as mercadorias, mas somente as chalupas de salvamento. Os homens da equipagem, e o cretense Nicomedes à frente de todos, estão completamente nus, e balanceiam quando o navio balança, correndo para cá e para lá, fazendo reparos, ou tomando parte nas manobras, que agora se tornaram difíceis, com a ponte sempre alagada e escorregadia. As escotilhas estão atravancadas, e não deixam que se veja o que está acontecendo sobre a coberta. Mas com certeza, eu acho que eles não estão muito sossegados lá dentro.

Não posso compreender onde é que estamos, porque só se vê mar ao redor de nós, e uma costa muito distante, que parece montanhosa, formada por verdadeiros montes, e não por colinas. Eu diria que já faz mais de um dia que estamos navegando, pois pode-se ver claramente que estas horas são da manhã, já que o so1, que aparece e desaparece, está ainda do lado do oriente.

Eu creio que o navio bem pouco esteja indo para a frente, por maior que seja o bailado que ele tem que executar. O mar parece ir ficando cada vez mais feio. Com um barulho medonho, parte-se um pedaço do mastro, não sei qual o nome desta parte da mastreação, e, ao cair, é arrastado agora por uma avalanche de água, que se precipitou sobre a ponte, junto com um verdadeiro turbilhão de vento, que derruba um pedaço da amurada.

320.2 Os que estão lá embaixo devem estar tendo a impressão de que vão para o fundo… E, para fazer parecer ainda mais isso, dali a pouco vê-se como se entreabre o postigo de uma escotilha, e por lá aparece a cabeça grisalha de Pedro. Ele olha, vê, torna a fechar, antes que uma torrente de água desça pela escotilha entreaberta. Mas depois, enquanto há uma pausa entre uma e outra onda, ele torna a abrir, e salta para fora. Pedro se agarra no que pode e fica observando aquele inferno, que é o mar, e o único comentário que faz é dar um assobio e um gemido.

Nicomedes o vê:

– Sai, Sai daí! –ele grita –. Fecha o postigo. Se o navio se encher d’água, vai para o fundo. E ainda será bom, se eu não tiver que jogar fora a carga… Nunca vi uma tempestade assim! Sai daí, eu te digo! Não quero homens da terra andando por aí. Aqui não é lugar para jardineiros, e…

Não pôde continuar, porque um outro vagalhão arrebentou a ponte, recobrindo os que estavam em cima dela.

– Estás vendo? –grita ele a Pedro, que está escorrendo água.

– Eu estou vendo. Mas isto não me faz estremecer. Eu não sou somente capaz de tomar conta de jardins. Eu nasci na água, de um lago, é verdade… Mas o lago também… Antes de ser cultivador, eu fui pescador, e sei…

Pedro está muito calmo, e sabe acompanhar o balanço do navio com perfeição, conservando suas musculosas pernas bem abertas. O cretense o observa, enquanto se move para ir chegando para perto dele.

– Não tens medo? –ele lhe pergunta.

– Nem no sonho!

– E os outros?

– Três deles são pescadores como eu, quero dizer, eram. Os outros, fora o que está doente, são fortes.

– A mulher também… Olha! Olha! Cuidado!

Uma outra avalanche d’água, como chefe das outras, cai sobre a ponte. Pedro espera que ela passe, e depois diz:

– Este frescor teria sido desejado por mim neste verão… Paciência! Estavas perguntando que é que está fazendo a mulher? Ela está rezando… e tu farias bem, fazendo a mesma coisa. Mas, em que ponto exatamente nos encontramos agora? Será o canal de Chipre?

– Antes fosse! Eu iria me encostar na ilha, esperar que tudo ficasse em paz. Nós estamos apenas à altura da Colônia Júlia, ou Beritus, se te agrada mais… E agora é que vem o que é feio… Aquelas são as montanhas do Líbano.

– E não poderias entrar ali, naquele povoado?

– O porto não é bom, cheio de quebra-mares e de escolhos. Não se pode. Cuidado!…

320.3 Um outro turbilhão, e outro pedaço de mastro que se quebra, depois de ter atingido um homem, que não é jogado para fora, somente porque a onda o lança contra um obstáculo.

– Vai para baixo! Vai para baixo! Não estás vendo?

– Eu estou vendo, estou vendo… Mas, e aquele homem?

– Se não tiver morrido, vai voltar a si. Eu não posso curá-lo… Tu o estás vendo!…

De fato o cretense deve ter olhos para olhar tudo, para a vida de todos.

– Entrega-o a mim. A mulher cuidará dele…

– Tudo o que quiseres, mas sai daí…

Pedro vai deslizando até o homem, que está imóvel, agarra-o por um pé e o puxa para si.. Olha para ele, dá um assobio… E resmunga:

– Está com a cabeça aberta como uma romã madura. Seria preciso que estivesse aqui o Senhor. Oh! Se Ele estivesse! Senhor Jesus! Meu Mestre, por que nos deixaste?

Há uma grande dor em sua voz…

Ele pega o moribundo nas costas, ensangüentando-se todo, e volta para a escotilha. O cretense lhe grita:

– Estás te cansando inutilmente. Não há nada que fazer. Tu estás vendo!…

Mas Pedro, carregado como está, lhe faz um sinal, como para dizer: “Veremos”, e se abraça com um pau, para poder resistir a uma nova onda. Depois abre a escotilha, e grita:

– Tiago, João, vinde cá –e, com a ajuda deles, vai baixando o ferido, até descê-lo, trancando depois o postigo.

A luz enfumaçada de umas lâmpadas por ali penduradas, vêem Pedro, todo ensangüentado:

– Estás ferido –perguntam-lhe.

– Eu, não. O sangue é deste aqui… Mas… rezai também para que…

320.4Síntique, olha um pouco aqui. Uma vez me disseste que sabes cuidar dos feridos. Olha esta cabeça, então…

Síntique deixa, então, de atender a João de Endor, que está sofrendo muito, para ir até à mesa, sobre a qual estendera o infeliz, e fica olhando.

– É uma ferida feia! Já vi uma ferida assim duas vezes, em dois escravos feridos por seu patrão, e a outra por uma pedrada em Caprarola. Precisaríamos de água, muita água, para limpar e estancar o sangue…

– Se só queres água!… Isso temos, e até demais. Vem, Tiago, com o alguidar. Nós dois traremos mais.

Vão e voltam gotejando água. E Síntique, com uns panos ensopados, vai lavando e aplicando compressas na nuca… Mas a ferida é feia. Das têmporas até à nuca, o osso está descoberto. Apesar disso, o homem torna a abrir os olhos, com uns olhares vagos, e gorgoleja, por entre estertores. É o medo instintivo de morrer que toma conta dele.

– Bem! Bem! Já estás ficando bom –conforta-o maternalmente a grega, e lho diz em grego, pois o que ele tinha falado foi em grego.

O homem, mesmo atordoado como está, olha espantado para ela e, com uma sombra de sorriso, por ouvir sua língua nativa, procura a mão de Síntique… Todo homem é um menino, logo que começa a sofrer, e procura a mulher, que lhe faz sempre de mãe nesses casos.

– Eu vou experimentar o ungüento de Maria –diz Síntique, quando o sangue começa a deixar de escorrer.

– Mas é para as dores… –objeta Mateus, que está pálido como um morto, não sei se por causa do mar, ou por causa do sangue, ou pelas duas coisas.

– Oh! Foi feito por Maria com as suas proprias mãos! E eu vou aplicá-lo rezando… Rezem vocês também. Mal não fará. O óleo é sempre uma substancia curativa….

Ela vai à sacola de Pedro, tira de lá uma vasilha de bronze, como me parece, e a abre, tira um pouco do ungüento, e o esquenta à chama de uma lâmpada, na própria tampa da vasilha. Depois, o despeja sobre um pano dobrado de linho, e o aplica à cabeça ferida. Em seguida, a enfaixa bem com uns panos de linho que ela reduziu a tiras. Põe um manto dobrado por baixo da cabeça ferida, que parece querer adormecer, e fica sentada ali perto, rezando, enquanto os outros também ficam rezando.

320.5 Lá em cima continua o desmoronamento, o navio empina e afunda sem parar, naquele vai-vem. Abre-se, depois de algum tempo, o postigo, e um marinheiro se precipita do lado de dentro.

– O que está acontecendo? –pergunta Pedro.

– O que houve é que estamos em perigo. Eu vim apanhar os incensos e as oblações para um sacrifício…

– Deixa de lado essas histórias!

– Mas Nicomedes quer oferecer um sacrifício a Vênus! Nós estamos no mar dela…

– Um mar, que é frenético, como ela –resmunga baixo Pedro.

Depois ele diz mais alto:

– Vinde, vós, vamos para a ponte. Talvez haja lá o que fazer… Tens medo de ficar aqui com o ferido e com aqueles dois?

Os dois são Mateus e João de Endor, que o enjôo marítimo deixou reduzidos a dois trapos.

– Não, não. Podeis ir, responde Síntique.

E, quando eles vão saindo por sobre a ponte, encontram-se com o cretense, que está procurando acender os incensos e que os enfrenta furioso para fazer que voltem para dentro, gritando:

– Mas, não estais vendo que, sem um milagre, haverá um naufrágio? É a primeira vez! A primeira vez, desde que comecei a navegar.

– Fica atento, que agora ele está dizendo que somos nós os que fizemos o malefício! –sussurra Judas de Alfeu.

E de fato o homem está gritando ainda mais forte:

– Malditos israelitas, que desgraças trazeis convosco? Cães hebreus, fizestes-me um malefício! Fora! Eu agora vou sacrificar a Vênus nascente…

– De modo nenhum. Quem vai sacrificar somos nós…

– Fora! Vós sois pagãos, sois uns demônios, sois…

– Escuta. Eu te juro que, se nos deixas fazer, verás o prodígio.

– Não. Fora!

E acende os incensos, jogando ao mar, como pode, uns líquidos que ele antes ofereceu e provou, e uns pós, que não sei o que são. Mas as ondas apagam os incensos e, em vez de acalmar-se, o mar se enfurece ainda mais, arrastando para fora todas as tábuas usadas no rito, e por pouco não arrasta também o próprio Nicomedes…

– Bela resposta te dá a tua deusa! 320.6Agora é a nossa vez. Também nós temos uma, mais pura do que esta, feita de espuma, mas depois… Canta, João, como ontem, e nós iremos atrás de ti, e vamos ver!

– Sim, vamos ver! Mas, se acontecer coisa pior, eu vos mandarei jogar ao mar, como vítimas de propiciação.

– Está bem. Força, João!

E João entoa a sua canção, sendo acompanhado por todos os outros, até por Pedro, que não costuma cantar nunca, por ser desafinado. O cretense, com os braços cruzados, e com um sorriso meio irado e irônico no rosto, está olhando para eles. Depois, terminada a canção, eles rezam de braços abertos. Deve ser o “Pai-nosso”, mas está dito em hebraico, e eu não entendo nada. Numa segunda vez, eles cantam mais forte. E assim vão alternando, sem medo, sem interrupção, apesar dos vagalhões que os esbofeteiam. Eles não se estão agarrando a nada, e contudo, estão tão seguros, como se estivessem colados na madeira da ponte. E as ondas realmente vão diminuindo de violência, pouco a pouco. Não cessam totalmente, como também o vento não pára completamente. Mas já não é mais aquela fúria de antes, e as ondas já não alcançam mais a ponte.

O rosto do cretense é simplesmente a imagem do espanto…

Pedro olha para ele, de soslaio, e não cessa de rezar. João sorri, e canta mais forte… Os outros o acompanham, vencendo aquele fragor do mar, que vai ficando sempre menor, aplacando-se até chegar a um movimento moderado e o vento amainar-se até se tornar um sopro tolerável.

– E agora? Que nos dizes?

– Mas, que foi que dissestes? Que fórmula é?

– A do Deus verdadeiro e da sua santa Serva. Levanta, pois, as velas e prepara-as, mas… aquilo não é uma ilha?

– Sim. É Chipre… E o mar está ainda mais quieto no seu canal!… É estranho! Mas aquela estrela, que vós adorais, quem é? É sempre Vênus, não é?

– Venerais, é como dizemos, só a Deus se adora. Mas não é Vênus. É Maria, Maria de Nazaré, Maria, a hebréia, a Mãe de Jesus, Messias de Israel.

– E aquela outra coisa, o que era? Não era hebraico aquilo.

– Não. Era o nosso dialeto, do nosso lago, da nossa pátria. Mas não se pode dizer a ti, que és pagão. É um discurso feito a Javé, e só os que têm fé o podem saber. 320.7 Adeus, Nicomedes. E não fiques com saudade daquilo que foi para o fundo. Um sortilégio a menos para trazer-te desventura. Adeus, hein? Viraste de sal?

– Não… Mas… Desculpai-me. Eu vos insultei antes!

– Oh! Não faz mal! São efeitos do… culto de Vênus… Vamos, rapazes, ver os outros –e, rindo feliz, Pedro se encaminha para a escotilha.

O cretense vai atrás deles, e diz:

– Escutai! E o homem? Morreu?

– Que nada. Talvez nós to entreguemos logo, e são… É outra brincadeira dos nossos malefícios…

– Oh! Desculpai, desculpai! Mas, dizei-me, onde posso aprendê-los, para que eles me ajudem? Eu vos pagaria por isso…

– Adeus, Nicomedes! É um negócio longo e… não permitido. Que não sejam dadas as coisas sagradas aos pagãos! Adeus! Fica bem, amigo! Fica bem!

E Pedro, acompanhado por todos, vai lá para baixo, rindo, enquanto se ri também o mar, aplacado por um vento moderado do nordeste, que favorece a navegação. O sol vai descendo e no oriente se mostra uma fatia de lua, que caminha para ficar cheia.