402. 402. Judas Iscariotes se sente descobertono discurso de despedida de Beter.
16 de março de 1946.
402.1 Não sei como fazer para escrever, extenuada como estou pelos contínuos ataques cardíacos, diurnos e noturnos… Mas vejo, e devo escrever.
Estou vendo Jesus à frente do palácio de Joana, em Beter. Lá o jardim, que fica antes da casa, se alarga, formando como que duas lâminas verdes de uma tenaz, uma espécie de pequena esplanada semicircular, vazia de plantas no centro, e limitada nos contornos por árvores muito altas e antigas, muito copadas e que fazem um brando frufru, quando o vento vem soprando pelos lombos destas colinas, que projetam uma agradável sombra, que nos protege contra o sol, quando ele se encontra do lado do ocidente. Sob as árvores, há uma sebe de roseiras, que forma um semicírculo de cores e de fragrâncias nos confins da esplanada. Isso só se dá lá pela hora do pôr-do-sol, que se pode ver nitidamente descendo ainda por um bom arco até o horizonte, pois este castelo se acha em um lugar elevado.
O sol já está para esconder-se atrás dos montes, que estão a ocidente, e que André está mostrando a Filipe, lembrando-se do medo que tiveram lá em Betgina, onde o Senhor, um ano atrás, curou1 a filha do albergador, no início de sua peregrinação, rumo às praias do Mediterrâneo, se é que me lembro bem. Eu estou sozinha. Não tenho quem me apanhe os fascículos de meses atrás, para que eu possa confrontá-los, pois minha cabeça não consegue lembrar-se.
Os apóstolos estão todos presentes. Não sei como foi que se deu o encontro de Jesus com Judas. Em aparência, foi no melhor dos mundos, pois não noto severidade nem alterações nas fisionomias, e Judas está desembaraçado e alegre, como se nada houvesse acontecido. Ele está todo cheio de gentilezas até com os servos mais humildes, coisa que nunca foi muito fácil para ele, e que até desaparece totalmente, quando ele está inquieto.
Está aí também Elisa, e certamente veio com os apóstolos a servente de Elisa, a Anastásica. Aí está Cusa, todo obsequioso, levando Matias pela mão, e Joana está perto de Elisa, com a pequena Maria de um lado. E Jônatas vem atrás de sua patroa.
À frente de Jesus, — ao qual serve de proteção contra o Sol, que ainda está iluminando a fachada ocidental, está um toldo estendido sobre cordas e varas, como um baldaquim, — estão todos os servos e jardineiros de Beter, e certamente não são os de costume, mas também os adventícios, recolhidos na vila que depende do castelo. Estão à sombra do semicírculo arborizado, protegidos do Sol, silenciosos, alinhados, esperando a bênção de Jesus, que parece já estar prestes a partir, esperando somente que o pôr-do-sol dê o sinal do fim do sábado.
402.2 Jesus está falando com Cusa, um pouco à parte. Não sei o que Ele está dizendo, porque eles falam em voz baixa. Mas estou vendo como Cusa faz grandes inclinações, pondo a mão direita sobre o peito, como para dizer: “Dou-lhe minha palavra: podes ficar certo de que, no que depende de mim” etc. etc.
Os apóstolos, discretos, foram reunir-se em um canto. Mas ninguém pode impedi-los, de observar, e, se nos rostos de Pedro e de Bartolomeu há um simples olhar de quem já sabe um pouco de que é que se trata, sobre o rosto dos outros, menos no de Judas, que quer sentir-se à vontade, olhando mais do que os outros, e parece querer decifrar, pelos sinais das mãos e dos lábios, o que é que Jesus e Cusa estão dizendo.
As discípulas, caladas, respeitosas, também estão observando, e Joana tem um involuntário sorriso, um pouco irônico em sua tristeza, e parece estar ficando com dó do seu esposo, quando Cusa, levantando a voz no fim daquele colóquio, exclama:
– O meu débito de reconhecimento é tão grande, que, de modo algum jamais poderei desobrigar-me dele. Por isso, eu te entrego o que eu tenho de mais querido: a minha Joana… Mas deves compreender o meu prudente amor para com ela… a indignação de Herodes… sua legítima defesa… eles iriam querer vingar-se sobre os nossos bens, sobre a nossa força… e Joana está acostumada com essas coisas, é delicada… e disso tem necessidade… Eu protejo os seus interesses. Mas eu te juro que, agora que eu estou certo de que Herodes não terá que irritar-se contra mim, como se eu fosse o servo cúmplice de algum seu inimigo, não farei outra coisa, a não ser servir-te, concedendo à Joana toda a liberdade…
– Está bem. Mas, lembra-te de que trocar os bens eternos por uma breve honra humana, é como trocar a primogenitura por um prato de lentilhas. E muito pior ainda…
As palavras foram ouvidas pelas discípulas. E também pelos apóstolos. E, enquanto sobre um grande número de pessoas elas fazem tanto efeito, como se fossem um discurso acadêmico, Judas Iscariotes sente nelas um sabor especial, muda de cor e de fisionomia, lançando um olhar de espanto e de indignação para Joana. Posso perceber que, até agora, Jesus não tinha ainda falado de tudo o que aconteceu, e que somente agora é que Judas esteja sentindo a primeira suspeita de que o seu jogo tenha sido descoberto.
402.3 Jesus se vira para Joana, dizendo-lhe:
– Está bem. Agora vamos contentar a boa discípula. Eu falarei aos teus servos, antes de partir, como havias desejado.
Ele vai até à frente, até o limite da sombra, que vai se alongando, à medida que o sol desce, vai descendo lentamente, e ele já está parecendo uma laranja cortada perto da base, e sempre mais vai avançando o corte, à medida que o astro vai desaparecendo atrás dos montes de Betgina, deixando uma vermelhidão de fogo no céu sem nuvens.
– Meus amigos diletos Cusa e Joana, e vós, bons servos dela, que já conheceis o Senhor pela boca do meu discípulo Jônatas há já muitos anos, e pela boca da Joana, desde quando ela se tornou minha discípula fiel, ouvi.
Eu já me despedi de todos os lugares judeus, onde mais numerosos são os discípulos que Eu tenho pelo trabalho dos primeiros discípulos, que são os pastores, e pela correspondência deles para com o Verbo, que passou instruindo a todos para salvá-los. Agora, eu me despeço de vós, porque nunca mais voltarei a este Éden, tão bonito, mas não bonito só pelos seus roseirais e pela paz que aqui reina, não só pelos bons patrões, que aqui estão à vossa frente, mas principalmente porque aqui se crê no Senhor e se vive de acordo com a sua palavra. Um paraíso, sim. Que era o Paraíso de Adão e Eva? Era um esplêndido jardim, onde se vivia sem pecado e onde ressoava a voz de Deus, amada, acolhida com alegria pelos seus dois primeiros filhos…
402.4 Pois bem. Eu vos exorto a vigiar, a fim de que não vos aconteça o que aconteceu no Éden: que se insinue entre vós a serpente da mentira, da calúnia, do pecado, e vos morda no coração, separando-vos de Deus. Vigiai, e ficai firmes na Fé. Não vos agiteis. Não cometais atos de incredulidade. Isso poderia acontecer, porque o Maldito entrará, procurará entrar por toda parte, como já entrou em muitos lugares, para destruir a obra de Deus. E, desde quando ele entra nos lugares, o Sutil, o Astuto, o Incansável, e perscruta, escuta, e se baba, e tenta seduzir, o mal ainda é pouco. Nada e ninguém pode impedi-lo de o fazer. Ele o fez no Paraíso Terrestre… Mas mal maior é deixá-lo ficar onde está, sem expulsá-lo. O inimigo, que não se expulsa, acaba tornando-se dono do lugar, pois nele se instala e nele constrói as suas defesas, e arma seus ataques. Dai-lhe logo caça, ponde-o em fuga, usando a arma da Fé, da Caridade, da Esperança no Senhor. Mal sumo, o maior dos males é, pois, quando ele, não só é deixado, vivendo sem ser perturbado entre os homens, mas quando se deixa que ele penetre do exterior no interior, e se deixa que ele faça o seu ninho no coração do homem. Oh! Então!
No entanto, muitos homens já o acolheram em seu coração, contra o Cristo. Acolheram a Satanás, com suas más paixões, e expulsaram o Cristo. E, se eles não tivessem ainda conhecido o Cristo em sua Verdade, se o seu conhecimento tivesse sido só superficial — tal como se vê nos viandantes, que se encontram por acaso em um caminho, e que, muitas vezes apenas se olham por um instante, pois são desconhecidos, que se estão vendo pela primeira e última vez, outras vezes são os que apenas trocam algumas palavras para perguntar qual o caminho certo, ou para pedir um punhadinho de sal, ou isca para acender o fogo, ou a faca para preparar as carnes —, se tivesse sido assim o conhecimento do Cristo nesses corações que agora, e amanhã mais ainda, e sempre mais, expulsam o Cristo para dar lugar a Satanás, ainda se poderia ter compaixão deles, porque não conhecem o Cristo. Mas, ai daqueles que me conhecem por quem Eu sou realmente, que com minha palavra e o meu amor foram nutridos, e que agora me expulsam, acolhendo a Satanás, que os seduz com mentiras, promessas de triunfos humanos, cuja realidade será a condenação eterna.
Vós, vós que sois humildes, e não viveis sonhando com tronos e coroas, vós, que não procurais as glórias humanas, mas a paz e o triunfo de Deus, o seu Reino, o seu amor, a vida eterna, e somente isso, não os imiteis nunca. Vigiai! Vigiai. Conservai-vos puros das corrupções, fortes contra as insinuações, contra as ameaças, contra tudo.
Judas, que compreendeu que Jesus já sabe de alguma coisa, tornou-se uma máscara terrosa de bílis. Seus olhos lampejam com maldade sobre o Mestre e sobre Joana… Ele se retira, escapando por detrás dos companheiros, como se quisesse apoiar-se ao muro. Na verdade, ele assim faz, para não ser visto em seu desapontamento.
402.5 Jesus prossegue, depois de uma breve interrupção, feita por Ele como para separar a primeira parte do assunto da segunda. Ele diz:
– Houve um tempo2 em que o israelita Nabot tinha uma vinha perto do palácio real de Acab, rei da Samaria. Era uma vinha recebida de seus pais, por isso muito querida por seu coração, quase sagrada para ele, porque era herança, que o pai lhe tinha deixado, depois de a ter, por sua vez, herdado do pai dele, e este também do seu, e assim por diante. Gerações de parentes haviam suado naquela vinha para a fazerem ficar cada vez mais florida e bonita. Nabot a amava muito. E Acab lhe disse: “Cede-me a tua vinha, que está perto de minha casa e, por isso, me servirá para fazer dela uma horta para mim e para os que estão comigo. Em troca, eu te darei uma vinha melhor, ou dinheiro, se o preferires.” Mas Nabot respondeu-lhe: “Desagrada-me não fazer os teus gostos, ó rei. Mas não posso contentar-te. Aquela vinha eu recebi como herança de meus pais, e para mim é sagrada. Deus me livre da dar-te a herança dos meus pais.”
Meditemos nessa resposta. Ela é muito pouco meditada, e por muito poucas pessoas em Israel. Os outros, a maior parte, aqueles de quem Eu falei antes, inclinados a expulsar o Cristo, para darem acolhida a Satanás, não levam em muita consideração a herança de seus pais, e, sim, o terem muito dinheiro, ou então honras, e a segurança de não serem suplantados com facilidade, e aceitam a proposta, cedendo a herança de seus pais. Assim, a ideia do Messias, sendo o que ela é em verdade, como foi revelada aos santos de Israel, e que sagrada haveria de ser considerada em seus menores detalhes, não esbanjada, não alterada, não aviltada por limitações humanas. Quantos, quão numerosos são os que trocam a luminosa ideia messiânica, toda santa e espiritual, por um fantoche da realeza humana, agitado como um espantalho, como um prejuízo e uma blasfêmia, contra as autoridades e contra a verdade!
402.6 Eu, a Misericórdia, não chego a maldizer esses tais com as tremendas maldições de Moisés contra os transgressores da Lei. Mas atrás da Misericórdia vem a Justiça. Que cada um se lembre disso! Eu, por minha conta, lembro a esses — e, se entre os presentes houver algum, que ele receba de bom coração esta advertência — Eu lhes recordo outras palavras3 de Moisés, ditas àqueles que queriam ser mais do que aquilo que Deus estabelecera para eles.
Disse Moisés a Coré, Datã e Abiron, que se diziam santos como Moisés e Aarão, e se rebelavam por serem somente filhos de Levi no meio do povo de Israel: “Amanhã o Senhor fará conhecer quem é que lhe pertence e fará que se aproximem dele os santos, e aqueles que Ele tiver escolhido se aproximem dele. Ponde fogo em vosso turíbulo, e sobre o fogo ponde incenso, diante do Senhor, e vinde, vós e os vossos, com Aarão. E veremos quem é que o Senhor irá escolher. Vós vos exaltais um pouco demais, ó filhos de Levi!”
Vós, bons israelitas, conheceis qual foi a resposta de Deus àqueles que queriam exaltar-se um pouco demais, esquecendo-se de que só Deus é quem determina os postos para seus filhos e escolhe, escolhe com justiça, escolhe até o ponto justo. Também Eu devo dizer: “Há alguns que querem se exaltar um pouco demais, e serão punidos de tal modo, que os bons compreenderão que eles blasfemaram contra o Senhor.”
Aqueles que trocam a ideia messiânica, como a revelou o Altíssimo, pela pobre ideia deles, pesada, limitada, vingativa, não são eles, por acaso, semelhantes àqueles que queriam julgar o santo que estava em Moisés e Aarão? Aqueles que, além de atingirem o seu escopo, a realização de sua pobre ideia, ainda querem tomar suas iniciativas por si próprios, com soberba dizendo que elas são mais justas do que as de Deus, não vos parece que estejam querendo exaltar-se demais e, da estirpe de Levi passar para a de Aarão ilegalmente? Aqueles que sonham com um pobre rei de Israel e o preferem ao Rei dos reis espiritual, aqueles cujas pupilas eles tornaram doentes pela soberba e pela ambição, e que, através delas, veem, deformadas, as verdades eternas escritas nos livros santos, e aos quais a febre de uma humanidade cheia de concupiscências faz que fiquem incompreensíveis as palavras claríssimas da Verdade revelada, não são talvez eles que trocam por um nada sem valor a herança de toda a estirpe? A mais sagrada das heranças?
Mas, se eles assim fazem, Eu não trocarei a herança do Pai e dos pais, e morrerei fiel a esta promessa, que vive desde quando houve necessidade de redimir, a esta obediência, que vem de sempre porque Eu nunca decepcionei a meu Pai, e nunca o decepcionarei por temor de uma morte, por mais horrível que ela seja. Procurem os inimigos, os falsos testemunhos, finjam ter zelo e práticas perfeitas. Isso não mudará o seu delito nem a minha santidade. Mas aquele e aqueles que, sendo seus cúmplices depois de terem sido seus corruptores, crerem que poderão estender a mão sobre o que é meu, encontrarão os cães e os abutres pastando o sangue deles, o corpo deles sobre a terra, e os demônios pastando sobre o sacrílego espírito deles, sacrílego e deicida, no Inferno.
402.7Isto Eu vos disse para que o fiqueis sabendo. Para que cada um saiba. E para que quem é mau possa arrepender-se, enquanto ainda o pode fazer, imitando Acab, e para que quem é bom não fique perturbado na hora das trevas.
Oh! filhos de Beter, adeus. O Deus de Israel esteja sempre convosco, e a Redenção faça descer as suas orvalhadas sobre um campo limpo, a fim de que se abram nele todas as sementes espalhadas em vossos corações pelo Mestre que vos amou até à morte!
Jesus os abençoa, e fica olhando como eles vão indo lentamente.
Somente uma cor vermelha no céu, que vai-se amortecendo pouco a pouco, passando para uma cor arroxeada, é o que resta como lembrança do Sol. O repouso do sábado terminou.
Jesus já pode partir. Ele beija os pequeninos, saúda as discípulas, saúda Cusa. E, na soleira da cancela, Ele se vira ainda, e diz com voz forte, para que todos ouçam:
– Eu falarei, quando puder fazê-lo, àquelas criaturas. Mas tu, ó Joana, procura fazê-los entender que em mim não há nada mais do que o inimigo da Culpa e o Rei do Espírito. E lembra-te também disso, ó Cusa. E não tremas. Ninguém deve ter medo de Mim. Nem mesmo os pecadores, pois Eu sou a salvação. Os que ficarem impenitentes até à morte é que deverão ter medo do Cristo, Juiz, depois de ter sido Todo Amor. A paz esteja convosco.
E sai, em primeiro lugar, começando a descida4.
1 curou, em 215.7.
2 Houve um tempo… é o início do episódio relatado em 1 Reis 21.
3 outras palavras, como aquelas de Números 16,4-7.
4 começando a descida… O esboço do MV, que reproduzimos aqui, está em um pedaço de papel costurado na última página do próximo capitulo. Nele, lemos os quatro pontos cardeais e, no círculo em direção ao sudeste, está Beter.
1
2
3
4
5
6
7
8