612. 612. A noite de Sexta-feira Santa. Lamentoda Virgem. O véu com o Rosto do Redentor.


29 de março de 1945.

612.1Maria, socorrida pelas mulheres chorosas, volta a si mesma e chora, e não tem mais forças a não ser para chorar. Até parece que sua vida vai desfazer-se e consumar-se totalmente com aquele choro.

Querem dar-Lhe algo para retomar as forças. Marta lhe oferece um pouco de vinho, a dona da casa gostaria que ela tomasse pelo menos um pouco de mel, e Maria de Alfeu, pondo-se de joelhos diante dela, oferece-lhe uma taça com leite morno, dizendo:

– Fui eu mesma que o tirei da cabra da pequena Raquel. –(Esta deve ser a filha de alguém dos que estão nesta casa de Lázaro, não sei se como inquilinos ou tomando conta casa).

Mas Maria não quer nada. Só quer chorar. Só chorar. E perguntar e ouvir dizer que vão procurar os apóstolos e os discípulos, e que serão procuradas também a lança e as vestes, e que, com a luz do dia — visto que agora não querem mesmo deixá-la ir —, deixarão que Ela entre no salão do Cenáculo.

– Sim. Se ficares um pouco mais calma, se descansares um pouco, eu te levarei até lá –diz sua cunhada–. Nós duas entraremos e, de joelhos, eu procurarei para ti todos os sinais de Jesus…

E Maria de Alfeu dá um soluço:

– Mas estás vendo? Aqui estão a taça e o pão partido por Ele, que foi usado por Ele na Eucaristia. Haverá lembrança mais santa? Estás vendo? João as trouxe para Ti hoje pela manhã, a fim de que as pudesses ver nesta tarde… 612.2Pobre do João, que está chorando e com medo…

– Medo? De quê? Vem aqui, João.

João sai da sombra, porque na sala só há uma luzinha colocada sobre a mesa junto com os objetos da Paixão, e se ajoelha aos pés de Maria, que o acaricia e lhe pergunta:

– Por que é que estás com medo?

E João, beijando as mãos dela e chorando, lhe diz:

– Porque tu estás mal. Estás com febre e com falta de ar… E não ficas quieta. E se continuas assim, vais morrer, como Ele já morreu…

– Oh! Se fosse verdade!

– Não! Mãe! Minha Mãe! Oh! É mais doce dizer: “Minha Mãe.” Como falo com a minha! Deixai-me falar… Mas como eu não vejo diferença entre a minha mãe e ti, e até amo mais a ti do que a ela, porque tu és a Mãe que Ele me deu, e és também a Mãe dele, tu não deves fazer diferença demais entre o teu Filho, que de ti nasceu e o filho que te foi dado… E ama-me um pouco como amas a Ele… Se fosse Ele que te dissesse: “Eu tenho medo de que morras,” será que tu lhe responderias: “Oh! Antes fosse verdade?” Não. Tu não o dirias. Mas, pelo contrário, tu padecerias de ir embora e deixá-lo em um mundo cheio de lobos, logo Ele, o teu Cordeiro… E por mim não te afliges? Eu sou muito mais cordeiro do que Ele. Não na bondade e pureza, mas pela estupidez e pelo medo. Se tu me faltas, o pobre João será despedaçado pelos lobos sem ter sabido dar nem um balido para falar do seu Mestre. Queres que eu morra assim sem servi-lo? Tão estúpido na morte como fui em vida? Não. Não é verdade? E, então, minha Mãe, procura ficar tranquila… Por Ele… Oh! Não dizes que Ele ressurge? Sim, tu o dizes, e é verdade. E então queres que, quando Ele ressurgir, encontre a casa vazia, sem ti? Porque certamente Ele virá aqui… Oh! pobre, pobre Jesus, se em vez do teu grito de amor Ele ouvisse os nossos pêsames, se em vez de encontrar o teu seio para nele pousar sua Cabeça martirizada e gloriosa, encontrasse o teu sepulcro fechado?… Precisas viver. Para saudá-lo quando Ele voltar… Eu não digo “ao nosso amor.” Nós merecemos toda a reprovação pelo modo como agimos. Mas ao teu amor. Oh! 612.3Como será o encontro? E Ele como estará? Mãe da Sabedoria, Mãe do ignorante João, tu que tudo sabes, dize como estará Ele quando aparecer ressuscitado.

– Lázaro já estava com as feridas das pernas cicatrizadas, mas ainda se via o sinal delas. E Ele apareceu todo envolvido em bandagens cheias de podridão –diz Marta.

– Nós tivemos que lavá-lo, e lavá-lo bem… –acrescenta Maria.

– Ele estava fraco, e tivemos que alimentá-lo, por ordem Dele

–termina Marta.

– O filho da viúva de Naim estava atordoado, e parecia uma criança incapaz de caminhar e de falar correntemente, tanto que Jesus o entregou à sua mãe para que lhe ensinasse de novo a usar as coisas boas da vida. E a filhinha de Jairo foi Ele mesmo que guiou em seus primeiros passos… –diz João.

– Eu penso que o meu Senhor nos mandará um anjo para dizer-nos: “Vinde com uma veste limpa.” E o meu amor já a preparou. Ela está no edifício. Eu não fui capaz de fiá-la. Então fiz que fosse fiada pela minha nutriz, que agora está tranquila quanto ao meu futuro, e não chora mais. Eu apanhei o linho mais precioso, e de Plautina obtive a púrpura, e Noemi a teceu na orla, eu fiz a cintura, a bolsa e o talet, bordando-as de noite para não ser vista. Eu aprendi contigo, Mãe. Não está perfeito. Mas, mais do que as pérolas que formam o seu nome sobre a cintura e sobre a bolsa, o que o torna belo são os diamantes do meu pranto e os meus beijos. Cada ponto é uma palpitação de devoção por Ele. E eu lha levarei. Tu o permites, não é?

– Ah!… Eu não pensava que iriam deixá-lo sem a sua veste… Não estou acostumada com os usos do mundo nem com sua ferocidade…Eu pensava que já a conhecia… (e as lágrimas rolam de novo ao longo de suas faces cor de cera), mas eu vejo que ainda não sabia nada… E ficava pensando assim: “Terá a veste da Mãe também depois.” Ele gostava tanto dela! Foi ele que a quis assim. E me havia dito1 há tempos: “Tu farás uma veste assim e assim. E a trarás na Páscoa… Porque Jerusalém deve me ver na veste purpúrea de rei…” Oh! Aquela lã, mais branca do que a neve, enquanto eu a fiava ia se tornando vermelha aos olhos de Deus e aos meus, porque o meu coração recebeu uma nova ferida com aquela palavra… As outras, depois de tantos anos e meses, ficaram ressecadas, senão fechadas, de tanto perderem sangue. Mas esta! Cada dia, cada hora me enfiava a espada no coração: “Um dia a menos. Uma hora a menos. E depois estará morto!” Oh! Oh!… O que foi fiado no fuso ou no tear ia ficando vermelho… Banhou-se na tinta, depois, pelo mundo… Mas já estava vermelho…

Maria chora de novo.

Procuram consolá-la, falando-lhe da Ressurreição. Susana pergunta:

– Que dizes tu? Como é que Ele será depois de ressuscitado? E como ressurgirá?

E Ela, perturbada, cega nesta hora de martírio redentor, responde:

– Não sei… Não sei mais nada… Só sei que Ele morreu!…

614.4Ela tem uma nova crise de choro violento e beija o linho que estava nas laterais do Filho, e o aperta sobre o coração, e o nina como se fosse um menino…

E põe as mãos nos cravos, nos espinhos, na esponja, e grita:

– Estas! Estas! Estas coisas foram as que tua pátria te soube dar! Ferro, espinhos, vinagre e fel! E insultos, insultos, e mais insultos! E, dentre todos os filhos de Israel, foi preciso escolher um de Cirene para ajudar-te a carregar a cruz. Aquele homem para mim é sagrado, como um esposo. E, se eu conhecesse um outro que tivesse socorrido o meu Filho, eu lhe beijaria os pés. Mas, enfim, ninguém teve piedade dele? Saí! Ide embora! Só ver-vos já me causa dor! Pois entre todos vós ninguém soube pelo menos conseguir uma tortura menos cruel. Servos inúteis e inertes do vosso Rei: saí!

Ela está terrível em seu ímpeto. De pé, bem aprumada, parecendo até ser mais alta, com uns olhos de quem está dando ordens, está com o braço estendido e mostrando a porta. Ela dá ordens como uma rainha em seu trono.

Saem todos sem reagir, para não excitá-la ainda mais, e vão sentar-se lá fora da porta fechada, escutando os gemidos dela e todo rumor que Ela possa fazer. Mas, depois do barulho feito por uma cadeira, que foi empurrada, e dos seus joelhos que batem no chão, pois Ela se ajoelha com a cabeça virada para a mesa sobre a qual estão os objetos da Paixão, eles não ouvem nada mais do que o choro contínuo e sem consolo.

E Ela murmura, mas tão baixo que os de fora não possam ouvir:

– Pai, Pai, perdão! Eu estou ficando soberba e má. Mas Tu estás vendo. O que eu digo é verdade. As turbas estavam ao redor dele. E toda a Palestina está por entre os muros santos nestas festas… Santos? Não. Pois não são mais santos… Assim eles teriam ficado se Ele tivesse expirado dentro deles. Mas Jerusalém o expulsou, como fazemos com um vômito que causa náusea. Por isso em Jerusalém o que há é o Delito… Pois bem. De todo aquele povo que o seguia, não se conseguiu reunir nem um punhado que se impusesse, já não digo para salvá-lo. Porque Ele devia morrer para redimir. Mas para fazê-lo morrer sem tantas torturas. Eles ficaram na sombra, ou melhor, fugiram… O meu coração se revolta diante de tanta vileza. Eu sou a Mãe. Por isso, perdoa o meu pecado de dureza soberba…

E Ela chora… Lá fora, os outros estão em grande agitação e isso por várias razões.

612.5Tornou a voltar o dono da casa, que tinha saído para indagar, e vem trazendo notícias terríveis. Dizem que muitos morreram no terremoto, muitos outros ficaram feridos em lutas entre os seguidores do Nazareno e os judeus, que muitos foram presos e que haverá algumas execuções pelas revoltas e pelas ameaças feitas por Roma, que Pilatos ordenou a prisão de todos os seguidores do Nazareno e dos chefes do Sinédrio que estão presentes na cidade ou que já fugiram pela Palestina, que Joana está moribunda em seu Palácio, que Manaém foi preso por Herodes, por tê-lo desrespeitado em plena Corte, como cúmplice do deicídio. Em suma, um montão de notícias catastróficas…

As mulheres estão gemendo. Não tanto de medo por elas mesmas, mas principalmente pelos filhos e maridos. Susana pensa em seu esposo, conhecido entre os seguidores de Jesus na Galileia. Maria do Zebedeu pensa no marido, hóspede na casa de um amigo, e em Tiago, do qual não teve mais notícias desde a tarde anterior. E Marta soluça:

– Talvez já foram para Betânia! Quem é que não sabia o que Lázaro era para o Mestre?

– Mas ele está protegido por Roma –rebate Maria Salomé.

– Oh! Protegido! Quem sabe, com o ódio que têm por nós os chefes de Israel, que acusações levarão a Pilatos contra ele… Oh! Deus!

Marta enfia as mãos por entre os cabelos e grita:

– As armas, As armas! A casa está cheia… e também o edifício! Eu sei! Esta manhã, lá pela aurora, veio Levi, o guardião e me disse… Mas tu também já sabes! E tu o disseste aos judeus, lá no Calvário… Que tola! Puseste nas mãos dos cruéis a arma para matarem Lázaro!…

– Eu falei, sim. E disse a verdade sem saber. Mas, cala-te, ó galinha espantada! Tudo o que eu disse é a mais segura garantia para Lázaro. Tomarão bastante cuidado em aventurar-se nas buscas onde sabem que há homens armados! São uns velhacos!

– Os judeus, sim. Mas os romanos, não.

– Não tenho medo de Roma. Ela é justa e pacata em suas disposições.

– Maria tem razão –diz João–. Longino me disse: “Eu espero que sereis deixados tranquilos. Se não for assim, vem me ver, ou manda um recado ao Pretório. Pilatos é benigno para com os seguidores do Nazareno. Pois também ele o foi para com o Nazareno. Nós vos defenderemos.”

– Mas e se os judeus agirem por conta? Ontem à tarde eles eram os captores de Jesus. E se disserem que nós somos profanadores, terão o direito de prender-nos. Oh! E os meus filhos! Eu tenho quatro! Onde estarão José e Simão? Eles estavam lá no Calvário e depois desceram, quando Joana não pôde mais ficar em pé. Para ajudar a defender as mulheres. Eles, os pastores, Alfeu… todos! Oh! Certamente já mataram todos esses. Tens ouvido dizer que Joana está à morte? Certamente a feriram. E eles, antes que a plebe pudesse ferir uma mulher, a terão defendido e estarão mortos!… E Judas e Tiago? O meu pequeno Judas! O meu querido! Tiago, manso como uma menina! Oh! Eu não tenho mais filhos. Como a mãe dos filhos macabeus, eu sou!…

612.6Todas choram desesperadamente. Todas, menos a dona da casa, que foi procurar um esconderijo para o marido, e Maria Madalena, que não chora. Mas ela solta fogo pelos olhos, voltando a ser a mulher prepotente de outros tempos. Ela não fala. Mas fulmina as companheiras abatidas, e seus olhos as qualifica com um epíteto muito claro: “Pusilânimes!”

Assim vai passando o tempo… De vez em quando, um se levanta, abre a porta, dá uma olhadela e torna a fechar.

– O que Ela está fazendo? –perguntam os outros.

E quem ficou olhando responde:

– Ela está sempre de joelhos. Rezando.

Ou, então, diz:

– Parece que está falando com alguém.

E outro ainda:

– Ela se levantou e gesticulando, indo para cá e para lá pelo quarto.

[Sem data2]

612.7Lamentação de Maria

– Jesus! Jesus! Onde estás? Ainda me ouves? Ouves ainda a tua pobre Mamãe, que grita agora o teu Nome santo, que foi o meu amor, o amor dos meus lábios que sentiam um sabor de mel ao pronunciarem o teu Nome, mas que agora, ao contrário, parece estar bebendo o amargor que ficou em teus lábios, o amargor da mistura atroz… O teu Nome, amor do meu coração que se enchia de alegria quando o pronunciava, assim como se havia dilatado para extravasar o seu sangue, e acolher-te, e vestir-te com ele quando desceste a mim do Céu, tu, tão pequenino, que poderias até pousar no cálice da hortelã silvestre. Tu, tão grande, Tu, o Potente, aniquilado em uma semente de homem para a salvação do mundo. O teu Nome, dor do meu coração, agora que te arrebataram das carícias de tua Mamãe para te jogarem nos braços dos verdugos, que te torturaram até te fazerem morrer!

Tenho o coração esmagado por este teu Nome, que eu tive que fechar dentro de Mim por tantas horas, cujo grito crescia quanto mais crescia a tua dor, até o ponto de arrebentá-lo e ficar como uma coisa pisada pelo pé de um gigante. Oh! Sim. A minha dor é gigantesca e me esmaga, me despedaça e não há nada que a possa aliviar. A quem é que eu direi o teu Nome? Nada responde ao meu grito. Ainda que eu gritasse até quebrar a pedra que fecha o teu sepulcro, Tu não ouvirias, porque estás morto. Não ouves mais à tua Mamãe!

612.8Quantas vezes eu já te chamei, ó meu Filho, nestes trinta e quatro anos3! Desde que fiquei sabendo que seria mãe e que o meu pequenino ia ser chamado “Jesus!” Tu ainda não eras nascido e eu, acariciando o ventre onde Tu ias crescendo, te chamava em voz baixa: “Jesus!”, e me parecia que Tu te movias para dizer-me: “Mamãe.”

Eu te dava já uma voz. Já sonhava em ouvir a tua voz. Eu a ouvia antes que ela existisse. E quando a ouvi, fraca como a de um cordeirinho que acabou de nascer, tremendo naquela noite fria em que nasceste, eu fiquei conhecendo o que é o abismo da alegria… e acreditava ter conhecido o abismo da dor, porque era o choro do meu Filho que estava com frio, que se sentia incomodado, que chorava o seu primeiro choro de Redentor, e eu não tinha nem fogo nem um berço, e não podia sofrer em Teu lugar, Jesus. Eu não tinha nada mais, a não ser um seio ardente e o meu amor para adorar-te, meu santo Filho.

Eu achava que tinha conhecido o abismo da dor… Mas era apenas o alvorecer daquela dor. Agora é o meio-dia. Agora é o fundo. Este é o abismo no qual agora eu toco, depois de ter descido até aqui, nestes trinta e quatro anos, empurrada por tantas circunstâncias e prostrada sobre um fundo horrendo, hoje, que é o da tua Cruz.

Quando eras pequenino, eu te ninava cantando: “Jesus! Jesus!” Que harmonia pode haver mais santa e mais bela do que a daquele Nome que faz sorrir os Anjos do céu? Para mim ele era mais belo do que o canto tão doce dos Anjos na noite do teu Natal. Eu via dentro do Céu, via todo o Céu através desse Nome. E agora, dizendo-o a Ti que estás morto e não me ouves nem me respondes, como se Tu nunca tivesses existido, eu estou vendo o Inferno, o Inferno todo. Isso, agora eu estou entendendo o que quer dizer ser condenados. É não poder dizer mais “Jesus.” Que horror! Que horror! Que horror!…

612.9Quanto tempo vai durar esse Inferno para a tua Mãe? Tu disseste: “Dentro de três dias Eu reedificarei este Templo.” É a partir de hoje que eu repito a mim mesma aquelas tuas palavras para não cair morta, para estar preparada a fim de saudar-te na tua volta, e continuar a servir-te… Mas como é que eu posso aguentar saber que estás morto por três dias? Por três dias na morte, logo Tu, Vida minha?

Como pode ser? Tu que tudo sabes, pois és a Sabedoria infinita, será que não sabes qual é a agonia de tua Mãe? Não podes ter uma ideia, lembrando-te de quando eu te perdi em Jerusalém e Tu me viste abrir caminho por entre a multidão, que estava ao redor de Ti, com o semblante uma náufraga que chega até à praia depois de ter lutado muito contra as ondas e contra a morte, com o rosto de quem acaba de sair de uma tortura, enfraquecida, esgotada, envelhecida e alquebrada? Naquele tempo eu podia pensar que estavas somente desaparecido. Eu podia ainda deixar-me na ilusão de que era só isso. Mas hoje, não. Hoje não. Eu sei que Tu estás morto. Não é possível que eu fique iludida. Eu vi quando te mataram. E aí está: mesmo que a dor me deixasse desmemoriada, aqui está o teu Sangue em meu véu, que me diz: “Ele morreu! Não tem mais sangue! Pois este aqui foi o último que escorreu do coração Dele.” Do coração Dele! Do coração do meu Menino! Do meu Filho! Do meu Jesus! Oh! Deus! Deus piedoso, não me deixes lembrar-me de que lhe rasgaram o Coração!…

612.10Jesus! Eu não posso ficar aqui sozinha, enquanto Tu ficas lá sozinho. Eu, que nunca gostei dos caminhos do mundo e das multidões, como Tu sabes, desde que Tu deixaste Nazaré, eu sempre procurei ir atrás de Ti, para não viver longe de Ti. Eu não podia viver longe de Ti. Enfrentei as curiosidades e os escárnios, sem contar as fadigas porque elas desapareciam quando eu te via, contanto que eu pudesse viver onde Tu estavas. E agora estou aqui sozinha. E Tu estás lá sozinho! Por que é que não me deixaram no teu sepulcro? Eu me teria sentado junto ao teu leito gelado, segurando uma de tuas mãos com as minhas, para te fazer perceber que eu estava ao teu lado. Não, para sentir que tu estavas ao meu lado. Tu não sentes mais nada. Estás morto!

Quantas vezes eu passei a noite ao lado do teu berço rezando, amando e dando-me por feliz ao te ter. Queres que eu te diga como é que dormias, com os dois punhozinhos fechados, como dois botões de flor, perto do rostinho santo? Queres que eu te diga como sorrias durante o sono e, certamente lembrando-te do leite da mamãe, mesmo dormindo fazias o gesto de chupar? Queres que eu te diga como despertavas e abrias os olhinhos e rias ao me veres inclinada sobre o teu rosto, e estendias tuas mãozinhas com uma alegria impaciente para que Eu te pegasse nos braços e, com um canto doce como o trinado de uma toutinegra, reclamavas a tua comida? Oh! Como me sentia feliz quando te agarravas ao meu seio e eu sentia o calor morno das tuas faces, as carícias de tuas mãozinhas sobre meus peitos! Tu não sabias ficar sem tua Mamãe.

E agora estás sozinho! Perdoa-me, meu Filho, por ter te deixado sozinho. Por não ter-me rebelado pela primeira vez na vida e ter continuado a ficar lá. Era o meu lugar. Eu teria me sentido menos desolada se tivesse ficado junto ao teu leito fúnebre, para ajeitar os panos como em outros tempos, para trocá-los… Mesmo que tu não tivesses podido sorrir-me e falar-me, a mim ficaria parecendo ter-te de novo como quando eras pequenino. Eu te teria pego no colo para não deixar-te sentir o frio da pedra, a dureza do mármore. Eu não te segurei hoje? O colo de uma mãe é sempre capaz de acolher o filho, mesmo se ele já é um homem. Para sua mãe, o filho é sempre um menino, mesmo se ele tiver sido deposto da cruz, coberto de chagas e feridas.

612.11Quantas! Quantas feridas! Quanta dor! Oh! O meu Jesus, o meu Jesus tão ferido! Tão ferido! Tão assassinado! Não. Não. Senhor, não. Não pode ser verdade. Eu estou louca! Jesus está morto? Eu estou delirando. Jesus não pode morrer! Sofrer, sim. Morrer, não. Ele é a vida! Ele é o Filho de Deus. É Deus. E Deus não morre.

Não morre? E, então, por que é que se chamou Jesus? Que quer dizer “Jesus?” Quer dizer… Oh! quer dizer “Salvador.” Morreu! Morreu porque é o Salvador. Ele devia salvar a todos, arruinando-se a si mesmo… Eu não estou delirando. Não. Nem estou louca. Não. Antes estivesse! Sofreria menos! Ele está morto. Eis aqui o seu sangue. Eis aqui a sua coroa. Aqui estão os três cravos: com estes, com estes é que O transpassaram!

Homens, olhai como foi que transpassastes Deus, o meu Filho! E eu vos devo perdoar. E vos devo amar. Porque Ele vos perdoou. Porque Ele me disse para amar-vos. Ele me fez vossa Mãe, Mãe dos assassinos do meu Filho! Uma das suas últimas palavras, lutando contra o estertor da agonia… “Mãe, eis aqui o teu filho… os teus filhos.” Ainda que eu não fosse Aquela que obedece, teria devido obedecer hoje, porque é a ordem de um moribundo.

Eis aí. Eis aí, Jesus. Eu perdoo. Eu os amo. Ah! Despedaça-se o meu coração com este perdão, com este amor. Estás-me ouvindo dizer que os perdoo e que os amo? Eu oro por eles. Aí está, oro por eles… Fecho os olhos para não ver estes objetos da tua tortura, a fim de poder perdoá-los, para poder amá-los, para poder rezar por eles. Cada cravo serve para crucificar a minha vontade de não perdoar, de não amar, de não orar pelos teus verdugos.

612.12Preciso, quero pensar que estou ao lado do teu berço. Até naquele tempo eu já orava pelos homens. Mas naquele tempo era fácil. Tu estavas vivo, e eu, por mais que pensasse que os homens eram cruéis, não chegava a imaginar que pudessem ser tanto como foram contigo, pois Tu lhes havias feito o bem além da medida. Eu orava, convicta de que a tua palavra os haveria de tornar bons. No meu coração, eu dizia, quando olhava para eles: “Vós sois maus e doentes agora, meus irmãos. Mas daqui a pouco, Ele começará a falar e vencerá em vós Satanás. E vos dará a vida que perdestes!” A vida que perdestes. Tu, Tu, Tu perdeste a vida por eles, meu Jesus!

Se, quando ainda Tu estavas em faixas, eu pudesse ter visto o horror dos dias presentes, o meu doce leite se teria transformado em um tóxico por causa do sofrimento. Simeão bem que o disse: “Uma espada te traspassará o coração.” Uma espada? Uma grande quantidade de espadas! Quantas foram as feridas que te fizeram, meu Filho? Quantos gemidos deste? Quantos espasmos? Quantas gotas de sangue derramaste? Pois bem. Cada uma delas foi uma espada para mim. Em mim há uma grande quantidade de espadas. Em ti não há um ponto da pele que não esteja ferido. E em mim, que não tenha sido traspassado. Eles me traspassaram as carnes e penetraram até no coração.

612.13Quando eu estava esperando o teu nascimento, ia preparando as fraldas e paninhos, fiando o linho mais macio da terra. Eu não fiquei olhando para o preço, a fim de poder adquirir o fio mais macio. Como Tu ficaste bonito com aquelas roupinhas postas pela tua Mamãe! Todos me diziam: “Que lindo o teu Filho, Mulher!” Eras lindo! Sobre a brancura do linho aparecia o teu rostinho rosado. Tinhas dois olhinhos mais azuis do que o céu e a tua cabecinha parecia envolta em uma névoa de ouro, de tão louros e macios eram os teus cabelos. Eles tinham o perfume da flor da amendoeira quando desabrocha. Pensavam que eu te perfumasse. Mas não. O meu Tesouro tinha só o perfume que provinha das fraldas lavadas pela tua Mamãe, e depois aquecidas e beijadas pelo coração e pelos lábios dela. Eu nunca fiquei cansada de trabalhar por Ti…

E agora? Não tenho mais nada que fazer por Ti. Há três anos que estavas longe de casa. Mas Tu eras ainda o objetivo dos meus dias. Pensar em Ti. Em tuas vestes. Em teu alimento: amassar a farinha e com ela fazer pão, cuidar das abelhas para dar-te o mel, cultivar as plantas para que te dessem os seus frutos. E como Tu gostavas das coisas que tua Mamãe te levava! Nenhum alimento das mesas ricas, nenhuma veste de estofo precioso eram para Ti como estas, tecidas, costuradas e cuidadas pelas mãos de tua Mãe! Quando ia ao Teu encontro, logo Tu olhavas para as minhas mãos, como quando eras menino, e eu e José te dávamos pequenos presentes a fim de fazer-te perceber que eras o “nosso” Rei. Tu nunca foste guloso, meu Menino, mas era o amor o que Tu procuravas. Este era o teu alimento e em nossa dedicação sempre o encontravas. Também agora encontravas, procuravas por ele, ó meu pobre Filho, tão pouco amado pelo mundo!

Agora nada mais se pode fazer. Tudo está consumado. A tua mamãe nada mais fará por Ti. Não precisas mais de nada… Agora estás sozinho… E eu também estou sozinha… Oh! Feliz de José, que não viveu nestes dias. Eu também, antes nunca tivesse estado aqui! Mas nesse caso Tu não terias tido nem mesmo o conforto de ver a tua pobre Mãe. Terias ficado sozinho sobre a cruz, como estás sozinho no sepulcro. Sozinho, com as tuas feridas.

612.14Oh! Deus! Com quantas feridas está o teu Filho, o meu Filho! Como é que eu as pude ver sem que morrer, eu que quase perdia os sentidos quando Tu, ainda pequenino, te machucavas? Uma vez Tu caíste no jardim de Nazaré e te feriste na testa. Saíram umas poucas gotas de sangue. Mas eu pensei que ia morrer ao ver gotejar o teu Sangue na Circuncisão, e José teve que me segurar, porque eu tremia como quem está para morrer, me parecia que aquela minúscula ferida iria te matar, e eu fiz o curativo nela mais com o meu pranto do que com água e óleo, mas não me senti bem enquanto ela não parou de sangrar. Uma outra vez tu estavas aprendendo a trabalhar e te feriste com um serrote. Era uma ferida pequena. Mas era para mim como se o serrote me tivesse serrado pelo meio. E eu não tive descanso, senão quando, dias depois, vi que tua mão estava bem.

E agora? E agora? Agora, Tu estás com as mãos, os pés e o lado abertos, agora a tua carne está caindo como farrapos, agora estás com o rosto machucado, aquele Rosto que eu não ousava beijar nem levemente, com a fronte e a nuca cheias de chagas. E não houve ninguém que te fizesse um curativo e te desse conforto.

612.15Olha para o meu coração, ó Deus que me feriste no meu Filho! Olha para Ele. Não está ferido como o Corpo do Filho meu e teu? Os flagelos caíram sobre mim como granizo, enquanto Ele recebia as pancadas. O que é a distância para o amor? Eu padeci as torturas do meu Filho! Antes eu sozinha as tivesse recebido. Se eu estivesse sobre a pedra do sepulcro! Olha para mim, ó Deus! Não está gotejando sangue o meu coração?

Eis aqui o círculo dos espinhos. Eu o sinto. É uma faixa que me aperta e perfura. Aqui está a perfuração feita pelos cravos: são três punhais fincados no coração. Oh! Aqueles golpes! Aqueles golpes! Como é que não desabaram os Céus por aqueles golpes sacrílegos nas carnes de Deus? E não se pode gritar! Não poder arrojar-me e tomar a arma dos assassinos, e fazer delas uma defesa para o meu Filho, que estava morrendo. Mas ter que ficar ouvindo-os e não fazer nada! Um golpe sobre o cravo, e o cravo entra nas carnes vivas. Outro golpe, e entra mais ainda, E mais um, e mais um, e se quebram os ossos, rompem-se os nervos, e fica ferida profundamente a carne do meu Menino, e o coração de sua Mãe! E quando eles te levantaram já pregado na tua cruz? Quanto deves ter sofrido, meu santo Filho! Eu estou vendo ainda como se vai rasgando a tua mão quando a cruz é sacudida ao resvalar para entrar na cova. Eu fico com o coração rasgado, como ela.

Eu também fico contundida, lacerada, flagelada, aguilhoada, ferida, traspassada como Tu. Eu não estava contigo sobre a cruz. Mas olha como está tua Mãe. Está diferente de Ti? Não. Não há diferença no martírio. Pelo contrário: o teu terminou. O meu ainda continua. Tu não ouves mais as acusações mentirosas; eu as ouço. Tu não ouves mais as horrendas blasfêmias. Eu as ouço ainda. Tu não sentes mais o picar dos espinhos e dos cravos, nem a sede ou a febre. Eu estou cheia de pontas de fogo, como quem morre por entre ardores e delirando.

612.16Se pelo menos uma gota d’água eles me tivessem permitido dar-te! Mas o meu pranto eu dei, mesmo quando a ferocidade dos homens negava ao seu Criador a água que Ele criou. Eu te dei somente leite, porque éramos pobres, meu Filho, e na fuga para o Egito perdemos muitas coisas e tivemos que fazer de novo uma casa, uns móveis, comprar as vestes e o alimento, e não sabíamos quanto tempo aquele exílio iria durar nem o que iríamos achar ao voltarmos para a nossa terra. Eu te amamentei além do tempo de costume, para que não sentisses a falta de comida. Enquanto não adquirimos uma casa, a tua cabra fui eu, menino de tua Mãe. Tu já tinhas muitos dentinhos e mordias… Oh! que alegria era ver-te rindo em tua brincadeira infantil!

Tu já estavas começando a caminhar. Eras muito são e forte. Eu te levava nos braços por horas e horas, e não sentia dores nos rins ao estar inclinada sobre Ti, que já davas os teus passinhos e dizias a toda hora: “Mamãe, Mamãe!” Oh! Que felicidade ouvir-se cantar aquele nome! E o dizias também hoje: “Mamãe, Mamãe.” Mas a tua Mãe só podia ver-te morrer. Nem mesmo acariciar-te os pés eu podia! Os pés? Ah! Eu não teria podido, mesmo que eles estivessem ao alcance de minha mão. Porque tocar neles poderia aumentar o tormento. Como deviam sofrer os teus pobres pés, ó meu Jesus! Se eu pudesse subir até Ti e colocar-me entre o teu corpo e o madeiro da cruz, e impedir que, nas convulsões da agonia Tu esbarrasses contra o madeiro. Eu ainda estou ouvindo a tua cabeça batendo no madeiro em teus últimos estremecimentos. E aquele som me faz enlouquecer. Eu o tenho em minha cabeça como o de um martelo.

Volta, volta, Filho querido, Filho adorado, Filho santo! Eu estou morrendo. Eu não resisto a esta minha desolação. Mostra-me de novo o teu rosto. Chama-me de novo. Eu não posso pensar que tu não falas, que não podes ver, que és uns restos mortais frios e sem vida!

612.17Oh! Pai, socorre-me! Jesus não me ouve. A Paixão já não terminou? Não está tudo consumado? Não bastam estes cravos, estes espinhos, este sangue, este pranto? Será que ainda é necessária alguma outra coisa para curar o homem?

Pai, eu te falo dos instrumentos que foram causa de suas dores e do meu pranto. Mas tudo isso é o mínimo. O que o fez morrer, torturado de modo sobre-humano, foi ter sido abandonado por Ti. O que me tem feito gritar é me sentir abandonada por Ti. Eu não te ouço mais. Onde estás, Pai Santo? Eu era a Cheia de Graça. O Anjo me disse: “Ave, Maria, cheia de graça, o Senhor está contigo, e tu és bendita entre todas as mulheres.”

Não. Não é verdade! Não é verdade! Eu sou como uma amaldiçoada por Ti, por seu pecado. Tu não estás mais comigo. A Graça se retirou de Mim, como se eu fosse uma segunda Eva pecadora. Mas eu sempre tenho sido fiel a Ti. Em que foi que eu te desagradei? Tens feito de mim o que quiseste, e eu sempre te tenho dito: “Sim, Pai, eu estou pronta!” Será, então, que os anjos podem mentir? E Ana4, que me garantiu que Tu me terias mandado o teu anjo na hora da dor? Eu estou sozinha. Não tenho mais graça aos teus olhos, não tenho mais a Ti, Graça, em mim. Não tenho mais o anjo. Será, então, que os Santos mentem? Em que foi que te desagradei, se eles não mentem e eu mereci passar por esta hora?

E Jesus? Em que foi que faltou Ele, o teu cordeiro puro e manso? Em que foi que te ofendemos, para que, além do martírio dado pelos homens, devamos ainda receber esta tortura enorme do teu abandono? Ele, Ele, então, Ele que era o teu Filho, e que te chamava com aquela voz que fez estremecer a Terra e sacudir-se em um soluço de piedade! Como pudeste deixá-lo sozinho em tão grande tormento?

Pobre coração de Jesus, que tanto te amava! Onde está o sinal da ferida do coração? Ei-lo aqui. Olha-o, ó Pai, olha este sinal. Aqui está a marca deixada por minha mão, que penetrou no rasgão feito pela lança. Aqui… Aqui… Nem o beijo nem o pranto da Mãe, à qual já ardiam os olhos e se lhe consumiam os lábios em chorar e beijar, o cancelam. Este sinal grita e censura. Este sinal, mais do que o sangue de Abel, grita a Ti, da Terra. E Tu, que amaldiçoaste Caim e fizeste as vinganças, não quiseste intervir em favor do meu Abel, já esgotado pelos seus Cains, e permitiste este último desprezo! Tu lhe esmagaste o coração com o teu abandono, e deixaste que um homem o pusesse nu para que eu o visse e ficasse esmagada. Mas, quanto a mim, não importa. É a respeito Dele, é Dele que eu te falo e te peço que me respondas. Não devias…

612.18Oh! Perdão, Pai. Perdão, Pai santo! Perdoa a uma Mãe que chora por seu Filho… Ele está morto! Está morto o meu Filho! Morto e com o coração rasgado. Oh! Pai! Pai, piedade! Eu te amo. Nós te temos amado e Tu nos amaste muito. Como foi que permitiste que fosse ferido o coração de nosso Filho? Oh! Pai!… Pai, tem piedade de uma pobre mulher! Eu estou blasfemando, Pai! Eu, tua serva, este teu nada, ouso censurar-te! Tem piedade! Tu tens sido bom. Tens sido bom. A ferida, a única ferida que não lhe fez mal foi esta. O teu abandono serviu para fazê-lo morrer antes do pôr do sol, a fim de evitar-lhe outras torturas.

Tu tens sido bom. Tudo fazes com um fim bom. Nós somos criaturas que não compreendemos. Tens sido bom. Bom tens sido! Dize, ó minha alma, dize esta palavra para curar a mordida do teu sofrimento. Deus é bom e sempre te amou, minha alma! Desde o berço, até estes momentos, sempre te amou. Deu-te toda alegria do Tempo. Toda. Ele se te deu a Si mesmo. Tem sido bom. Bom. Bom. Obrigada Senhor, e que Tu sejas bendito pela tua infinita bondade!

Obrigada. Jesus, eu digo ‘obrigada’ também a Ti. Ao menos isso não senstiste, meu Filho! Eu sozinha o senti no meu coração, quando vi o teu coração aberto. Agora é no meu que a tua lança está, e rasga, e destroça. Mas é melhor assim! Tu não a percebes. Mas, Jesus, piedade! Dá um sinal de Ti! Uma carícia, uma palavra para a tua pobre Mãe, que está com o coração despedaçado. Um sinal, um sinal, Jesus, se é que me queres encontrar viva, na tua volta!

[29 de março de 1945]

612.19Uma batida forte na porta de entrada faz que todos levem um susto. O dono da casa foge corajosamente. Maria de Zebedeu quereria que o seu João o acompanhasse, e até o empurrou para o pátio. As outras, menos Madalena, se apertam umas às outras, gemendo. E é Maria de Magdala que vai em linha reta até à porta de entrada e pergunta:

– Quem é que está batendo?

E é uma voz de mulher que responde:

– Eu sou Nique. Tenho uma coisa para dar à Mãe. Abri! Depressa, pois a ronda está andando por aí.

João, que se livrou de sua mãe e correu para perto de Madalena, vai abrir as muitas fechaduras da casa, que estão todas bem fechadas nesta noite. Ele abre. Nique entra com uma criada e um homem musculoso, que as veio escoltando. Fecham a porta.

– Eu tenho uma coisa…

E Nique chora, sem conseguir falar…

– Que é? Que é?

E todos, muito curiosos, se aproximam dela.

– Sobre o Calvário… Eu vi o Salvador naquele estado… Eu havia preparado o véu lombar, para que Ele não ficasse com os andrajos dos verdugos… Mas Ele estava tão suado, com os olhos cheios de sangue, que eu pensei em dar-lhe para que Ele se enxugasse. E Ele assim fez. Depois me entregou o véu. E não o usei mais… Eu queria guardá-lo como relíquia com o suor e com o sangue. E vendo a fúria dos juízes, pouco depois, com Plautina e as outras romanas, Lídia e Valéria, que estavam juntas, decidimos voltar, por medo de que nos tomassem aquele linho. As romanas são mulheres viris. Colocaram-nos no meio delas, a mim e à criada, e nos protegeram… É verdade que para Israel isso é uma contaminação… e que tocar Plautina é um perigo. Mas essas coisas nós pensamos em tempos de calma. Hoje todos estavam embriagados… Lá em casa eu chorei… durante horas… Depois veio o terremoto e eu desmaiei… Mas, ao voltar a mim, quis beijar aquele pano, e vi… oh! Vi por cima dele a face do Redentor5!…

– Deixa-me ver! Deixa-me ver!

– Não. Primeiro a Mãe. É o seu direito.

– Ela está muito esgotada, não vai resistir…

– Oh! Não o digas! Pelo contrário, para Ela será um conforto. Avisai-a!

612.20João bate de leve na porta.

– Quem é?

– Sou eu, Mãe. Aqui fora está Nique… Ela veio de noite… E te trouxe uma lembrança… um presente… Espera dar-te um conforto com ele.

– Oh! Só há um presente que me pode confortar! É o sorriso do Rosto dele.

– Mãe!

E João a abraça, temendo que Ela caia, e diz, como se lhe estivesse confidenciando qual é o verdadeiro Nome de Deus:

– Pois é isso. É o sorriso do seu Rosto impresso no linho com o qual Nique o enxugou no Calvário.

– Oh! Pai! Deus Altíssimo! Filho Santo! Eterno Amor! Sede benditos! O Sinal! O Sinal que eu vos pedi. Faze-a, faze-a entrar!

Maria se assenta, porque não se sustenta mais e, enquanto João faz um sinal às mulheres, que estão espiando, que Nique passe, Ela se recompõe.

Nique entra e vai pôr-se de joelhos aos pés dela, com a criada a seu lado. João, de pé perto de Maria, está com o braço em seus ombros, como para sustentá-la. Nique não diz nem uma palavra. Ela somente abre o cofre, tira o linho e o estende. E o Rosto de Jesus, o Rosto vivo de Jesus, o doloroso e ainda sorridente Rosto de Jesus, olha para sua Mãe e lhe sorri.

Maria dá um grito de amor doloroso e estende os braços. As mulheres lhe fazem eco, lá do vão da porta, onde estão aglomeradas. E a imitam, ao se ajoelharem diante do Rosto do Salvador.

Nique não é capaz de dizer nem uma palavra. Ela passa o linho de suas mãos para as mãos maternas de Maria, e se inclina para beijar a orla do tecido. Depois desce, andando para trás, sem esperar que Maria volte do seu êxtase.

E vai-se embora… Já está fora de casa, em plena noite, quando lá dentro se lembram dela…

Não há nada a fazer senão fechar a porta como antes.

Maria está de novo sozinha. Em um colóquio de sua alma com a efígie de seu Filho, pois todos já se retiraram de novo.

612.21Passa mais algum tempo. Depois Marta diz:

– Que é que vamos fazer com os unguentos? Amanhã é sábado…

– E não poderemos pegar nada… –diz Salomé.

– Mas seria necessário fazê-lo… Muitas são as libras de aloés e de mirra… mas Ele estava tão mal lavado…

– Seria necessário estar com tudo pronto pela aurora do primeiro dia depois o sábado –observa Maria de Alfeu.

– E os guardas? Como faremos? –pergunta Susana.

– Perguntaremos a José se não nos deixam entrar –responde Marta.

– Nós não conseguiremos mover a pedra.

Responde Madalena:

– Oh! Sendo nós cinco, tu dizes que não podemos? Somos todas robustas… e o amor fará o resto.

– Além disso, eu vos ajudarei –diz João.

– Tu não vais mesmo. Eu não quero perder meu filho também.

– Mas não se preocupe. Nós conseguiremos.

– Enquanto isso, quem nos dará os aromas?

Ficam todas desanimadas… Depois Marta diz:

– Podíamos ter perguntado a Nique se era verdade o que se ouviu falar de Joana… a respeito dos tumultos.

– É verdade! Nós somos umas tolas. Nós podíamos apanhar até os aromas. Isaque estava à porta quando nós voltamos…

612.22– No palácio há muitos vasinhos com essências e incenso fino. Eu vou buscá-los.

E Maria Madalena se levanta do seu lugar e põe o seu manto.

Marta lhe grita:

– Tu não irás.

– Eu irei.

– Estás doida! Eles te prenderão!

– Tua irmã tem razão. Não vás!

– Oh! Que mulheres inúteis e barulhentas que sois vós. De fato Jesus tinha um belo grupo de seguidores! Será que já acabastes com toda a reserva de coragem que tínheis? Comigo é o contrário: quanto mais eu uso dela, mais ela aumenta.

– Eu irei com ela. Eu sou homem.

– E eu sou tua mãe e te proíbo.

– Calma, Maria Salomé, e calma, João. Eu vou sozinha. Não tenho medo. Eu sei o que é andar de noite pelas ruas. Eu já fiz isso mil vezes para o pecado… e deveria ter medo logo agora que eu vou a serviço do Filho de Deus?

– Mas hoje a cidade está em revolta. Tu ouviste o que o homem disse.

– Ele é um coelho. E vós também. Eu vou.

– E se os soldados te encontram?

– Direi: “Eu sou a filha de Teófilo, o sírio, servo fiel de César.” E eles me deixarão ir. E depois… O homem, diante de uma mulher jovem e bela, vira um brinquedo tão inofensivo como um punhado de palha. Para minha vergonha, eu sei disso…

– Mas onde queres achar perfumes no palácio, se ninguém mora nele, há anos?

– Tu achas que é assim? Oh! Marta! Não te lembras de que Israel vos obrigou a deixá-lo porque era um dos meus lugares de encontro com os meus amantes? Nele eu tinha tudo o que servia para fazê-los ficar mais doidos ainda por mim. Quando eu fui salva pelo meu Salvador, eu escondi, em um lugar que só eu sei, os alabastros e os incensos de que eu fazia uso para minhas orgias de amor. E eu jurei que somente o pranto e a adoração do Santíssimo Jesus haveriam de ser as águas perfumadas e os incensos a serem queimados pela Maria penitente. E daqueles sinais de um culto profano prestado à sensualidade e à carne, eu os teria usado somente para santificá-los, pondo-os sobre Ele e ungindo-o. Agora é a hora. Eu me vou. Vós ficai aqui. E ficai tranquilas. Comigo vai o anjo de Deus e nada de mal me acontecerá. Adeus. Eu vos trarei notícias. E a Ela não digais nada… Aumentareis sua aflição…

E Maria Madalena sai, segura e imponente.

612.23– Mãe, que isto lhe ensine… E te diga: “Não faças que o mundo diga que o teu filho é vil”. Amanhã, ou melhor, hoje, pois, já passou a segunda vigília, eu irei procurar os companheiros, como Ela quer…

– É sábado… Tu não podes… –observa Salomé para segurá-lo.

– “O sábado morreu,” digo também eu com José. Começamos uma era nova. As leis são outras, nelas são outros os sacrifícios e as cerimônias.

Maria Salomé inclina a cabeça sobre os joelhos e chora sem protestar mais.

– Oh! Se pudéssemos saber alguma coisa de Lázaro! –geme Maria de Cléofas.

– Se me deixais ir, ficareis sabendo. Porque os companheiros — Simão Cananeu recebeu ordens a respeito disso — foram conduzidos por ele à casa de Lázaro. Jesus assim falou, estando eu lá presente, a Simão.

– Ai de mim! Estão todos lá? Então estão todos perdidos!

Maria Salomé e Maria de Cléofas choram sem parar.

O tempo vai passando entre choros e expectativa. 612.24Depois volta Maria Madalena. Vem triunfante, trazendo bolsas cheias de vasinhos preciosos.

– Estais vendo como nada aconteceu? Aqui estão óleos de todas as qualidades, e nardo, e incenso, e benjoim. Não há mirra nem aloés… Eu não queria ir atrás de amarguras… E as bebo todas agora… Mas, por enquanto, amassaremos estas e amanhã iremos apanhar… oh! Se pagarmos, Isaque nos atenderá até em dia de sábado… E então compraremos a mirra e o aloés.

– Eles te viram?

– Nenhum deles. Não está andando por aí nem um morcego.

– E os soldados?

– Os soldados? Eu creio que estejam roncando em seus catres.

– Mas as sedições… e os arrestos.

– Foi o medo que fez que aquele homem visse tudo isso…

– Quem é que está morando no Palácio?

– Ora, lá está Levi com sua mulher. Sossegados como crianças. Os que estavam armados fugiram… Ah! Ah! Que valentes fanfarrões nós temos!… Eles fugiram logo que souberam da condenação. Eu digo a verdade: Roma é dura e faz flagelar. E com isso ela se faz temer e se faz servir. E ela tem homens e não coelhos. Oh! Sim. Ele dizia: “Os meus seguidores terão a mesma sorte que Eu.” Hum! Se muitos entre os romanos passarem para o lado de Jesus, isso pode ser. Mas se devemos ter mártires entre os israelitas! Ele ficará sozinho. É isso… Esta é a minha bolsa. E esta outra é de Joana, que… Sim. Nós não somente somos uns vilões, mas somos mentirosos. Joana está apenas abatida. Ela e Elisa se sentiram mal lá no Gólgota. Uma delas é uma mãe cujo filho morreu, e ouvir os estertores de Jesus fez que ela se sentisse mal. A outra é delicada, não está acostumada a caminhar tanto e sob um Sol tão forte. Mas nada de ferida, nem de agonias. Ela chora como nós, claro. Mas nada mais além disso. Ela se queixa de ter sido levada embora. Mas amanhã virá. E mandou estes aromas. Eram os que ela tinha. Com ela tinha ficado Valéria, por ordem de Plautina, e agora ela foi-se embora com os escravos, foi para a casa de Cláudia, porque ela tem muito incenso. Quando ela vier, porque ela também, pela graça do Céu, não é uma lebre que treme, não comeceis a gritar como se estivésseis sentindo a espada em vossas gargantas. Eia! Levantai-vos. Peguemos o pilão. E vamos trabalhar. Chorar não adianta. Ou pelo menos chorai e trabalhai. Ficará diluído com o choro o nosso bálsamo. E Ele o perceberá sobre Si… experimentará o nosso amor.

Ela morde os lábios para não chorar e para dar força às outras, que estão realmente desfeitas.

Elas trabalham com afinco.

612.25Maria chama João.

– Mãe, que é que tens?

– Essas batidas…

– Estão triturando o incenso.

– Ah! Mas… perdoai… Não façais esse barulho… Parecem-me marteladas.

De fato, os pilões de bronze contra os almofarizes de mármore parecem realmente marteladas.

João vai dizer isso às mulheres e elas saem para o pátio, a fim de serem menos ouvidas. João volta à Mãe.

– Como foi que os conseguiram?

– Maria de Lázaro foi buscar. Em sua casa e na de Joana… E mais outros ainda serão trazidos…

– Não veio ninguém?

– Depois de Nique, ninguém.

– Mas olha para Ele, João, como está bonito, apesar de sua dor!

E Maria se abstrai com as mãos juntas sobre o tecido, que ela estendeu sobre uma caixa, deixando-o seguro por dois pesos.

– É bonito, sim, Mãe. E está sorrindo para ti… Não chores mais… Já se passaram algumas horas. Temos de esperar menos pelo seu retorno…

E João chora…

Maria o acaricia no rosto. Mas está olhando somente para a efígie do seu Filho.

João sai, meio cego por causa das lágrimas.

612.26Até Madalena, que voltou para apanhar as ânforas, está nas mesmas condições. Mas ela diz ao apóstolo:

– Não é necessário deixar-se ver chorando. Porque, senão, aquelas lá não sabem fazer mais nada. E é preciso trabalhar…

– … e é preciso crer –termina João.

– Sim. Crer. Se não se pudesse crer, seria um desespero. Eu creio. E tu?

– Eu também…

– Tu o dizes mal. Ainda não amas bastante. Se amasses com todo o teu ser, não poderias deixar de crer. O amor é luz e é voz. Até diante das trevas da negação e do silêncio da morte, diz: “Eu creio.”

Madalena está esplêndida, alta e imponente como é, imperativa em sua confissão de fé! Deve estar com o coração torturado. Seus olhos vermelhos pelo pranto anunciam isso. Mas sua alma está invicta.

João olha admirado para ela, e murmura:

– Tu és forte!

– Sempre fui. Eu fui a ponto de saber desafiar o mundo. E naquele tempo, eu estava sem Deus. Agora que eu tenho Ele, sinto que posso desafiar até ao inferno. Tu, que és bom, deverias ser mais forte do que eu. Porque a culpa nos deprime, sabes?… Mais do que uma consunção. Mas tu és inocente. Por isso Ele te amava muito…

– Amava também a ti…

– E eu não era inocente. Mas eu era a Sua conquista e…

612.27Estão batendo com força no portão.

– Deve ser Valéria. Abre.

João vai fazê-lo sem medo, dominado pela calma de Maria.

De fato, é Valéria com os seus escravos, que vieram transportando a liteira da qual ela desceu. Ela entra saudando à moda latina:

– Salve!

– A paz esteja contigo, irmã. Entra –diz João.

– Será que eu posso oferecer à mãe a homenagem de Plautina? Também Cláudia contribuiu. Mas isso, se para Ela não for doloroso me ver.

João entra e vai até Maria.

– Quem é que está batendo? É Pedro? É Judas? É José?

– Não. Valéria. Ela trouxe resinas preciosas. E quereria oferecê-las a ti… se não te causa sofrimento.

– Eu devo superar o sofrimento. Ele chamou para o seu Reino os filhos de Israel e os pagãos. Chamou a todos. Agora… está morto… Mas eu estou aqui no lugar dele. E recebo a todos. Entra.

Valéria entra. Tirou o manto escuro e está toda de branco com a sua estola. Ela se inclina até o chão. Depois saúda e fala:

– Senhora, Tu bem sabes quem somos nós. Somos as primeiras redimidas do obscurantismo pagão. Lama e treva nós éramos. Teu Filho nos deu asas e luz. Agora Ele está… está adormecido em paz. Conhecemos os vossos costumes. E queremos que também os bálsamos de Roma sejam esparzidos sobre o Triunfador.

– Deus vos abençoe, ó filhas do meu Senhor. E… perdoai se eu não sei dizer mais nada…

– Não te canses, Mulher. Roma é forte. Mas sabe também compreender a dor e o amor. Te compreende, Mãe Dolorosa. Adeus.

– A paz esteja contigo, Valéria! A Plautina, a todas vós a minha benção.

Valéria se retira, deixando os seus incensos e outras essências.

– Estás vendo, Mãe? O mundo todo dá para o Rei do Céu e da Terra.

– Sim –diz Maria–. Todo o mundo. E a Mãe só lhes poderá dar o seu pranto.

612.28Um galo canta, alegre, em algum lugar vizinho. João estremece.

– Que é que tens, João? –pergunta a Virgem.

– Eu estava pensando em Simão Pedro…

– Mas ele não estava contigo? –pergunta Madalena, que tinha voltado para o quarto.

– Sim. Na casa de Anás. Depois eu achei que devia vir para cá. E não o vi mais.

– Daqui a pouco é a aurora.

– Sim. Abri.

Eles abrem as venezianas, e os rostos ficam ainda mais pálidos sob a luz esverdeada da aurora.

A noite da Sexta-Feira Santa chegou ao fim.

1 me havia dito, em 303.4 e em 477.9.
2 sem data é o “Lamento da Virgem”, que está escrito não nos cadernos como toda a obra, mas nas oito fachadas de duas grandes folhas dobradas ao meio. Foi inserido aqui porque, a esse ponto do caderno autógrafo, MV anota: Aqui lamento II° de Maria, III ponto Desolada (anotação compreensível para o Padre Migliorini). — Assim escreve MV numa longa nota, da qual relatamos algumas partes em 242.6: […] Do berço à cruz, Maria viveu toda para Jesus, e Jesus recebeu tudo de Maria. Pacífica – mais do que isso: serena – como se ignorasse o futuro, sempre tinha para Jesus o sorriso e a palavra que encorajavam o aflito Mestre e consolaram o divino Mártir. Semelhante a um mar que esconde, sob o azul risonho das suas águas plácidas, as tempestades e as lutas do fundo, até que “tudo foi consumado”, amparou – distinta, forte e suave ao mesmo tempo – o seu Filho com todos os confortos. Somente depois deixou que desabassem as digas da sua fortaleza e que o oceano da sua dor de Mãe e de Crente a submergissem, até que Deus permitiu, de modo que fosse ainda mais a Corredentora. […] … heroica no seu suplício, assim como perfeita no seu dúplice amor de Mãe e de Crente Ss., foi também, até o extremo respiro do Mártir, o seu supremo Conforto. Consumada, por sua vez, a “sua” paixão, incruenta, mas não menos atroz, depois da hora nona deu livre vasão à sua dor infinita pelo horrendo deicídio e o lancinante homicídio do Filho unigênito de Deus e seu, porque Ele não necessitava mais de maternas consolações.
3 trinta e quatro anos: não porque Jesus tenha vivido 34 anos — anota MV numa cópia datilografada — mas porque Maria acrescenta os 9 meses de gestação.
4 Ana é Ana de Fanuel, encontrada em: 6.4/5 - 10.2/7 - 11.3/4 - 12.5 - 13.3 - 32.6.9.
5 a face do Redentor, segundo uma promessa insinuada em 382.7.


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