294. 294. O rico óbolo deixado pelo mercador.Despedida da Mãe e das discípulas.


3 de outubro de 1945.

294.1A veneração de Misaque se faz ver na manhã seguinte, depois dos primeiros quilômetros que fizeram, montados nos camelos, sobre os quais ele mandou acomodar a carga, de tal modo, que se forme lá em cima um berço bem cômodo para os improvisados cameleiros. E é discretamente burlesco ver como aparecem por cima dos pacotes e caixas as cabeças, morenas ou louras, com cabelos longos, até às orelhas, dos homens, ou com tranças que saem dos topetes escondidos por baixo dos véus das mulheres. De vez em quando, o vento, produzido pela corrida, pois os camelos vão indo velozmente, faz voar para trás esses véus, e brilham, então, ao sol, os cabelos dourados de Maria de Magdala, ou os mais suavemente louros da Virgem Maria, enquanto que as cabeças escuras, ou levemente cor de amora de Joana, de Síntique, de Marta, de Marcela, de Susana e de Sara tomam reflexos anilados ou uns bronzeados escuros, ao passo que as cabeças encanecidas de Elisa, de Salomé e de Maria de Cléofas parecem ter sido polvilhadas com pó de prata, brilhando ao forte sol que as aquece. Os homens vão indo garbosamente neste novo meio de transporte, e Marziam se ri feliz.

Eles, então se dão conta de que o que afirmou o mercador é verdade, quando, virando-se, veem Bozra lá em baixo, com as suas torres e as suas casas altas, pelo meio do labirinto de suas ruas estreitas. Umas pequenas colinas se fazem ver a noroeste. É ao pé delas que passa a estrada, que vai para Aera. E aí é que para a caravana, a fim de que os peregrinos possam descer, e depois se separarem. Os camelos se ajoelham, fazendo aquele seu balanceio, com o qual algumas mulheres gritam de susto. Agora é que estou percebendo que as mulheres tinham sido prudentemente amarradas às selas com cintos. Elas descem um pouco espantadas com todo aquele balanceio, mas repousadas.

Desce também Misaque, que havia segurado na sela Marziam e, enquanto os cameleiros ajeitam as cargas, como de costume, ele se aproxima de Jesus para despedir-se de novo.

 Eu te agradeço, Misaque. Tu nos poupaste muita fadiga, e o gasto de muito tempo.

 Sim. Mais de vinte milhas foram feitas em uma breve hora. Os camelos têm pernas compridas, mesmo quando vão num trote pouco agradável. Eu espero que as mulheres não tenham sofrido demais com isso.

As mulheres todas afirmam que se sentem repousadas e não sentindo nada.

 Agora, já estais a seis milhas de Arbela. Que o Céu vos acompanhe, vos dê um caminho bom. Adeus, meu Senhor. Permite-me que eu beije os teus pés santos. Estou feliz por ter te encontrado, Senhor. Lembra-te de mim.

Misaque beija os pés de Jesus, depois monta de novo na sela e, com seu grito, faz que os camelos se levantem. E a caravana parte a galope pela estrada plana, no meio de nuvens de poeira.

 Bom homem! Estou todo esmagado, mas, em compensação, meus pés descansaram. Cessaram as sacudidelas! Muito diferente das tempestades trazidas pelo vento norte sobre o lago! Vós estais rindo? Eu não tinha almofadas, como as mulheres. Viva a minha barca! Ela é ainda a coisa mais limpa e mais segura. 294.2E agora, vamos pôr os sacos nas costas, e vamos, afinal.

Há uma verdadeira competição, para ver quem se carrega com mais. E os que a vencem são os que ficaram com Jesus, isto é, Mateus, Zelotes, Tiago e João, Hermasteu e Timoneu, que apanham tudo para poupar os três que irão com as mulheres, ou melhor, os quatro, porque está aí também João de Endor, ainda que a ajuda dele vá ser muito relativa, de tão desprovido de meios como ele está.

Vão indo depressa por alguns quilômetros. Quando chegam ao alto da planície da colina, que fazia de para-vento do lado do ocidente, apareceu de novo uma planície fértil, rodeada por um anel de colinas mais altas do que a primeira encontrada, e tendo em seu centro uma colina comprida e isolada. Na planície está uma cidade: Arbela1.

 

Disegno%20pg%20433 

Descem, e logo já estão na planície. Andam ainda por algum tempo, depois Jesus para, dizendo:

 Chegou a hora da separação. Vamos tomar juntos a refeição, e depois nos separemos. Aqui é a encruzilhada, de onde se vai para Gadara. Vós pegareis aquele caminho. É o caminho mais curto, e, antes da tarde podereis estar nas terras que Cusa tem em consignação.

Não há muito entusiasmo. Mas, afinal, obedecem.

294.3Enquanto estão tomando a refeição, Marziam diz:

 Então, chegou também o momento de entregar-te esta bolsa. Ela me foi entregue pelo mercador, enquanto eu estava com ele na sela. Ele me disse: “Tu a darás a Jesus, antes de separar-te deles, e lhe dirás que me ame, como te ama.” Aqui está ela. Estava me pesando na roupa. Parece cheia de pedras.

 Deixa ver! Deixa ver! O dinheiro pesa!

Estão todos curiosos.

Jesus desata as cordinhas de couro retorcido, que conservam bem fechada a bolsa de pele de gazela, pelo que me parece, pois tem uma aparência de pele de camurça, e despeja o conteúdo sobre sua veste. Rolam para fora algumas moedas. Mas isto é o menos. Rolam também para fora muitos pacotinhos amarrados com um fio. Várias cores se veem através do linho muito tênue, e o sol parece acender um fogo naqueles pacotinhos, fazendo-os parecerem umas brasas, por baixo de uma leve camada de cinza.

 Que é? Que é? Desata, Mestre.

Todos estão inclinados sobre Ele que, muito calmo, está desatando o nó do primeiro pacotinho, de um fogo louro: são topázios de diversos tamanhos, ainda não trabalhados, e que brilham, quando expostos ao sol. Um outro pacotinho: são rubis, como gotas de sangue coagulado. Um outro: contém um doce sorrir verde de fragmentos de esmeraldas. Um outro: são como umas escamas do céu, genuínas safiras. Um outro: amortecidas ametistas. Outro: o anil violeta dos berilos. Um outro: são esplendores sombrios do ônix… E assim por diante, nos doze pacotinhos. No último, o mais pesado, vê-se o brilho de ouro dos crisólitos, e um pequeno pergaminho, onde se lê: “Para o teu Racional de verdadeiro Pontífice e Rei.”

Sobre os joelhos de Jesus há agora um pequeno prado no qual estão desfolhadas muitas pétalas luminosas… Os apóstolos mergulham as mãos nesta luz, que se tornou matéria multicor. Eles estão assombrados… Pedro murmura:

 Se estivesse aqui Judas de Keriot…

 Cala a boca! É melhor que ele não esteja aqui –diz brevemente Tadeu.

294.4Jesus pede um pedaço de pano, para pôr as pedras todas em um só pacotinho e, enquanto estão fazendo os comentários, Ele fica pensando.

Os apóstolos dizem:

 Como era rico aquele homem!

E Pedro faz que todos riam, dizendo:

 Nós viemos trotando sobre um trono de pedras preciosas. Eu não podia crer que estava sobre tais esplendores! Que vais fazer delas agora?

 Vou vendê-las para os pobres.

Levanta depois os olhos e, com um sorriso, olha para as mulheres.

 E onde irás encontrar aqui um joalheiro que te compre isso?

 Onde? Aqui. Joana, Marta e Maria, quereis adquirir o meu tesouro?

As três mulheres, mesmo sem antes se consultarem, dizem: “sim”, impetuosamente.

Mas Marta acrescenta:

 Aqui temos pouco dinheiro.

 Procurai-o comigo em Magdala, na lua nova.

 Quanto queres, Senhor?

 Para Mim, nada. Para os pobres, muito.

 Dá aqui. Muito receberás –diz Madalena, e pega a bolsa, pondo-a no seio.

Jesus segura só as moedas. Ele se levanta. Beija sua Mãe, os primos, Pedro, João de Endor e Marziam. Abençoa as mulheres, e se despede delas. E eles lá se vão, até que os esconda uma curva do caminho.

Com os que ficaram, Jesus vai indo para Arbela. Agora a comitiva é pequena, formada por apenas oito pessoas. Vão indo apressados e em silêncio para a cidade, que já está cada vez mais perto.

[…]

1 Arbela. Segue aqui o desenho de MV. Na transversal, que une Bozra (a sudeste) a Arbela (a noroeste), é a Estrada principal Bozra-Arbela, que cruza a vertical caravaneira para Aera.


1
2