648. 648. Pedro despede-se de Maria Santíssimadepois de uma conversa com João.


4 de novembro de 1948

648.1No terraço da casa de Simão, toda iluminada pela lua que está no auge, estão Pedro e João. Falam em voz baixa, acenando em direção à casa de Lázaro, que está toda fechada e silenciosa. Falam longamente, indo e voltando no terraço. Depois, quem sabe por qual motivo, a discussão fica mais animada e as vozes deles, antes sussurradas, ficam com um tom mais alto e bem claras.

Pedro, dando um murro sobre o parapeito, exclama:

– Mas tu não entendes que é preciso fazer assim? Em Nome de Deus eu te falo, e tu, escuta-me, e não queiras ser teimoso. Convém fazer como eu digo. Não por covardia e medo, mas para impedir o extermínio total, que seria a destruição da Igreja de Cristo. Agora todos os nossos passos estão sendo seguidos. Eu percebi isso, e Nicodemos confirmou que eu vi bem. Por que foi que não pudemos ficar em Betânia? Foi justamente por isso. Por que não é mais prudente ficar nesta casa, ou na de Nicodemos, ou na de Nique, ou na de Anastásica? É sempre por esse motivo. Para impedir que a Igreja morra, com a morte dos seus chefes.

– O Mestre nos garantiu muitas vezes que nem mesmo o inferno poderia jamais exterminá-la –responde-lhe João.

– É verdade. E o inferno não prevalecerá, como não prevaleceu sobre o Cristo. Mas sobre os homens, sim. Como prevaleceram sobre o Homem-Deus, que venceu Satanás, mas não pôde ter vitória sobre os homens.

– Porque Ele não quis vencer. Devia redimir e, portanto, morrer. E daquela morte. Mas se Ele tivesse querido vencê-los! Quantas vezes Ele fugiu das ciladas deles, e ciladas de todas as espécies1!

– Também a Igreja será alvo de insídias, mas ela não perecerá totalmente se sempre tivermos muita prudência para impedir que se faça o extermínio dos chefes atuais, antes que muitos outros sacerdotes e servidores, de qualquer grau que seja, tenham sido formados para os seus ministérios. Não te iludas, João! Os fariseus, os escribas, os sacerdotes e sinedritas farão tudo o que puderem para matar os pastores, a fim de que o rebanho se disperse. Pois o rebanho, por enquanto, ainda é fraco e medroso. Especialmente este rebanho da Palestina. Não devemos deixá-lo sem pastores, enquanto muitos dos cordeiros de hoje não puderem, por sua vez, tornar-se pastores. Tu já viste quantos caíram mortos. 648.2Pensa bem quantas partes do mundo nos esperam! A ordem foi clara: “Ide e evangelizai todos os povos, batizando-os em nome do Pai, do Filho e do Espírito Santo, ensinando-os a observar aquilo que vos comandei.” E a mim, na margem do lago, por três vezes Ele comandou de apascentar as suas ovelhas e os seus cordeiros, e profetizou que somente quando eu for velho é que serei amarrado e conduzido para confessar o Cristo com o meu sangue e a minha vida. E bem longe daqui! Se eu bem entendi um discurso Dele2, antes da morte de Lázaro, eu devo ir a Roma e fundar a Igreja imortal. E Ele mesmo não achou que não era oportuno retirar-se em Efraim, porque ainda não se havia completado a evangelização? E só no momento exato retornou à Judeia para ser preso e crucificado. Imitemo-lo. Certamente não se pode dizer que Lázaro, Maria e Marta fossem pessoas medrosas. E também tu estás vendo que eles, embora com grande dor, afastaram-se daqui para levar a Palavra divina a outro lugar, porque aqui seria sufocada pelos judeus. Eu, eleito Pontífice por Ele, decidi. E comigo os outros, apóstolos e discípulos, igualmente decidiram. Nós nos espalharemos. Alguns irão para a Samaria, alguns em direção ao grande mar, alguns para a Fenícia, indo sempre mais adiante, para a Síria, as ilhas, a Grécia, ao Império Romano. Se aqui nestes lugares o joio e o veneno judeu tornam estéreis os campos e as vinhas do Senhor, vamos para outro lugar e semeemos outras sementes, em outros campos e outras vinhas, para que a colheita não só aconteça, mas seja abundante. Se nesses lugares o ódio judeu envenena as águas e as corrompe, para que eu, pescador de almas, e os meus irmãos não possam pescar almas para o Senhor, vamos para outras águas. É preciso ser prudentes e astutos ao mesmo tempo. Acredita, João.

– Tens razão. 648.3Mas eu estava insistindo por Maria. Eu não posso, não devo deixá-la. Sofreremos demais, os dois. E seria uma ação má de minha parte… –responde-lhe João.

– Tu ficas. E Ela fica, porque tirá-la daqui seria uma coisa absurda…

– Com a qual Maria não concordaria nunca. Eu irei juntar-me a vós depois. Quando Ela não estiver mais sobre a Terra.

– Tu virás. Pois és jovem… Tu terás ainda muito tempo que viver.

– E Maria, muito pouco.

– Por quê? Ela está doente? Está sofrendo ou enfraquecida, talvez?

– Oh! Não. O tempo e as dores não tiveram poder sobre Ela. Ela está sempre jovem, no aspecto e no espírito. Está sempre serena, eu diria. feliz.

– E, então por que dizes…

– Porque compreendo, que este seu reflorescer em beleza e alegria é sinal de que Ela já sente próxima a união de novo com o seu Filho. Reunião total, quero dizer. Porque a união espiritual nunca cessou. Eu não quero levantar véus sobre os mistérios de Deus. Pois estou certo de que Ela vê cada dia o seu Filho em sua veste gloriosa. E a felicidade Dela é esta. Eu creio que, ao contemplá-lo, o seu espírito se ilumina e chega a conhecer todo o futuro, assim como Deus o conhece. Também o seu futuro. Ela ainda está sobre a terra com o seu corpo; mas eu quase poderia dizer, sem medo de errar, que o seu espírito está nos Céus. É tão grande a sua união com Deus, que eu não creio de não estar dizendo uma palavra sacrílega se disser que nela está Deus como quando o trazia em seu seio. E até mais ainda. Assim como o Verbo se uniu a Ela para se tornar Jesus Cristo, assim agora Ela se une de tal modo ao Cristo, que se torna um segundo Cristo, a ponto de ter assumido uma nova humanidade, a do próprio Jesus. Se eu estiver dizendo uma heresia, que Deus me faça conhecer o erro e me perdoe. Ela vive no amor, e esse fogo de amor no-la arrebatará no momento marcado, sem dor para Ela, sem corrupção para o seu corpo… A dor vai ser nossa… Sobretudo minha… Não teremos mais a Mestra, a Guia, a nossa confortadora… Eu ficarei verdadeiramente sozinho.

E João, cuja voz já estava trêmula por causa de um choro reprimido, explode em um soluçar dilacerante, como ele nunca teve, nem mesmo aos pés da Cruz nem no Sepulcro.

648.4Também Pedro, embora mais calmamente, começa a chorar e entre lágrimas suplica a João de avisá-lo, se puder, para estar presente na morte de Maria ou ao menos no seu sepultamento.

– Eu o farei, se me for possível. Mas eu duvido muito disso. Algo me diz, em meu interior, que assim como aconteceu a Elias, que foi arrebatado por um turbilhão celeste sobre o carro de fogo, assim acontecerá com Ela. Não. Eu não chegarei a tempo de perceber que sua morte está próxima, pois Ela já estará com sua alma no Céu.

– Mas pelo menos o corpo ficará, pois o do Mestre ficou! E Ele era Deus!

– Para Ele era necessário que assim acontecesse. Para Ela, não. Ele devia, com sua ressurreição, desmentir as calúnias dos judeus e, com suas aparições, persuadir o mundo que estava cheio de dúvidas ou negando já diretamente por causa de sua morte na Cruz. Mas Ela não tem necessidade disso. Contudo, se eu puder fazê-lo, te avisarei.

648.5Adeus, Pedro, Pontífice e irmão meu em Cristo. Volto para Ela que certamente me espera. Deus esteja contigo.

– E contigo também. E dize a Maria que reze por mim, e que me perdoe ainda por minha covardia na noite do Processo, lembrança que eu não consigo apagar do coração, uma coisa que não me deixa em paz…

E as lágrimas descem pelas faces de Pedro, que termina dizendo:

– Que seja minha Mãe. Mãe amorosa para o infeliz seu filho pródigo…

– Não é preciso que eu Lhe diga. Ela te ama mais do que uma mãe segundo o sangue. Ela te ama como Mãe de Deus e com a caridade de Mãe de Deus. Se Ela estava pronta para perdoar Judas, cuja culpa não tinha medida, pensa só se Ela não te perdoou! A paz a ti, meu irmão. Eu já me vou.

– Eu te acompanho, se tu o consentes. Eu quero vê-la uma vez ainda.

– Vem. Eu sei qual é o caminho que se toma para chegar ao Getsêmani sem sermos vistos.

648.6Eles se põem a caminho e vão, rápidos e silenciosos, para Jerusalém, passando porém pela estrada alta, que chega ao Monte das Oliveiras pela parte mais distante da cidade.

Chegam lá ao alvorecer. Entram no Getsêmani e descem até a casinha.

Maria está no terraço e os vê chegando. Lança um grito de alegria e desce o encontro deles.

Pedro lhe cai aos pés, com o rosto no chão e dizendo-lhe:

– Mãe, perdoa-me!

– Perdoar-te de quê? Será que pecaste em alguma coisa? Aquele que me revela toda a verdade não me revelou outra coisa senão que tu és o seu digno sucessor na Fé. Como homem, eu te achei sempre justo, ainda que, às vezes, impulsivo. Que é, então, que eu te devo perdoar?

Pedro chora e fica calado.

João explica:

– Pedro não é capaz de achar paz por haver renegado Jesus no Pátio do Templo.

– É coisa passada. Já está cancelada, Pedro. Será que Jesus te reprovou?

– Oh! Não!

– Ele estava menos amoroso contigo do que antes?

– Não. Na verdade, não. Pelo contrário!…

– E isto não te está dizendo que Ele, e eu com Ele, te entendemos e perdoamos?

– É verdade. Eu sou sempre o mesmo estulto.

– Então, vai, e fica em paz. Eu te digo que nos encontraremos todos, eu, tu, os apóstolos e os diáconos, todos no Céu, perto do Homem-Deus. Por aquilo que me é possível, eu te abençoo.

E, como fez para Gamaliel, Maria põe as mãos sobre a cabeça do Pedro e sobre ela faz um sinal de cruz.

Pedro se inclina para beijar-lhe os pés, depois se levanta muito mais sereno do que antes, e sempre acompanhado por João volta à cancela alta, atravessa-a e lá se vai, enquanto João, depois de ter fechado bem aquela entrada, volta para a casa de Maria.

1 de todas as espécies! No original autografado, e também na cópia datilografada, seguem imediatamente as palavras Também a Igreja…, sem a separação das aspas e sem fazer novo parágrafo, como se João continuasse a falar.
2 um discurso Dele, em 545.7.


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