412. 412. Elogio do lírio dos vales, símbolo de Maria,e sacrifício de Pedro pelo bem de Judas.
8 de abril de 1946.
412.1 O grupo dos Apóstolos virou as costas para a planície e para as estradas que vão para as colinas, por entre montes e convales, e se dirige para Jerusalém. Para abreviar o caminho, não tomaram as estradas mestras, mas uns atalhos solitários, cansativos, porém muito práticos.
Neste momento eles estão no fundo de um vale rico de águas e de flores, onde não faltam as hastes perfumadas das convalárias, o que faz Tadeu observar que é muito justo chamar à convalária de “lírio do vale”, e elogiar sua beleza frágil, mas, mesmo assim, resistente, e tão delicadamente fragrante.
– Mas são uns lírios ao contrário –observa Tomé–. Eles olham para baixo, em vez de olharem para cima.
– E como são pequeninos! Temos flores mais pomposas do que esta. Não sei por que os louvam tanto… –diz Judas, batendo com desprezo em uma pequena moita de convalários em flor.
– Não! Por quê? São coisas delicadas! –intervém André, em defesa das pobres flores, e se inclina para apanhar as hastes despedaçadas.
– Parecem feno, e nada mais. Mais bonita é a flor da agave, tão majestosa e forte. Digna de Deus e de florescer para Deus.
– Eu vejo mais a Deus nestes cálices pequeninos… Olha só que graça! Denteados e côncavos assim… Parecem ser de alabastro, de cera virgem, e trabalhados por mãozinhas bem pequenas. Mas, ao contrário, quem as fez foi o Imenso! Oh! O Poder de Deus!…
André está quase extático, na contemplação e meditação das flores e da Perfeição Criadora.
– Tu me pareces uma mulherzinha doente dos nervos!… –chasqueia Judas de Keriot, rindo-se dele maldosamente.
– Não. Na verdade, eu também acho, e eu sou ourives, e, assim sendo, disso entendo, que de fato essas hastes são uma perfeição. São mais difíceis de serem feitas com o metal do que a agave. Porque, fica sabendo, meu amigo, que é o infinitamente pequeno que mostra a capacidade do artífice. Dá-me uma dessas hastes, André… E tu, que tens olhos de boi, que só sabes admirar o que é grande, vem cá, e observa. Qual o artista que poderia fazer estas corolas tão leves, perfeitas, e decorá-las com a cor de um minúsculo topázio, lá no fundo, e uni-las todas ao pedúnculo, por meio desta haste de filigrana assim encurvada, tão aérea… Mas é uma maravilha!
– Oh! Que poetas surgiram entre nós! Até tu, Tomé, já estás assim…
– Eu não sou um bobo, sabes? Não sou uma mulherzinha, sabes?
Mas sou artista. E um artista sensível. E disso me ufano. 412.2Mestre, não te agradam estas flores?
Tomé interpela o Mestre, que tinha ficado escutando tudo, mas sem falar.
– Tudo na Criação me agrada. Mas estas flores estão entre as minhas prediletas…
– Por quê? –perguntam muitos.
E, ao mesmo tempo, Judas pergunta:
– E as víboras, também te agradam?
E ele se ri.
– Elas também. Servem…
– Para quê? –perguntam muitos.
– Para morder. Ah! Ah! Ah! –ri-se, zombeteiro, Judas.
– Nesse caso, deveriam agradar-te, e muito –replica Tadeu, esmagando a risada com um subentendido bem claro. Agora, são os outros que se riem, pelo bote bem dado.
Jesus não se ri. Está até pálido e triste. Olha para os seus doze, e especialmente para os dois antagonistas, que olham, um com ira e o outro com severidade, e responde a todos, deixando para responder a Iscariotes em particular.
– Se Deus as fez, é sinal de que servem. Nada há de inútil nem de totalmente nocivo entre os seres criados. Só o mal é que é totalmente e somente nocivo, e ai daqueles que se deixam morder por ele. Um dos pontos de sua mordida é a incapacidade de distinguir melhor entre o Bem e o mal, é o desvio da razão e da consciência pervertida para coisas não boas, e é a cegueira espiritual pela qual, ó Judas de Simão, não se vê mais resplandecer o poder de Deus sobre as coisas, até sobre as pequeninas. Nesta flor, Ele está escrito pela beleza, pelo perfume, pela forma tão diferente de qualquer outra flor, por esta gota de orvalho, que treme e brilha suspensa do cílio de cera desta minúscula pétala, e parece uma lágrima de reconhecimento para com o Criador, que tudo fez, e tudo bem feito, tudo útil, tudo variado. Mas está escrito que tudo era bonito aos olhos dos progenitores, enquanto eles não tinham as cataratas do pecado… E tudo lhes falava de Deus, enquanto nas coisas, ou melhor, nas pupilas deles não foi instilado o líquido que alterou neles a capacidade de ver a Deus. Também no momento atual, quanto mais Deus se lhe revela, mais o espírito se torna soberano em uma criatura…
– Salomão cantou as maravilhas de Deus, e também Davi… e não tinham com certeza seu espírito como soberano! Mestre, desta vez te peguei num erro.
– Um sem-vergonha é que és tu! Como tens a ousadia de dizer isso? –detona Bartolomeu.
– Deixa-o falar. Não lhe dou importância. São palavras que o vento dispersa, e com as quais não ficarão escandalizadas nem as ervas nem as plantas. Nós, os únicos que as escutamos, sabemos dar a elas o peso que realmente têm, não é verdade? E não pensemos mais nelas. A juventude é muitas vezes irrefletida. Tem dó dela… 412.3Mas alguém me havia perguntado por que é que prefiro o lírio dos convales. Eu lhes respondo assim: “Pela sua humildade.” Nele tudo fala de humildade… Os lugares de que ele gosta… a postura da flor… Ele me faz pensar em minha Mãe. Esta flor… Tão pequena! E, no entanto, procurai perceber o odor de um só de seus caules. O ar, ao redor, fica todo perfumado por ele… Também minha Mãe, humilde, modesta, desconhecida, que só pedia que a deixassem desconhecida… Também o perfume da santidade dela foi tão forte, que me atraiu do Céu…
– Estarás vendo um símbolo de tua Mãe naquela flor?
– Sim, Tomé.
– E achas que os nossos antigos, ao louvarem o lírio do vale, já a pressentissem? –pergunta Tiago de Alfeu.
– Naquele tempo eles a compararam a outras plantas e flores, à rosa, à oliveira, e aos mais gentis dos animais: às rolas, às pombas…
–diz quase com raiva de Iscariotes.
– Cada um dizia dela aquilo que achava ser mais belo entre as criaturas. E, entre as outras criaturas, Ela é realmente a Toda Bela. Contudo Eu a chamaria1 lírio do convale, à pacífica oliveira, se tivesse que celebrar os seus louvores, e Jesus se alegra e se ilumina, pensando em sua Mãe, e se afasta para ficar só…
412.4 A caminhada continua, apesar da hora muito quente, pois o fundo do vale tem árvores, bem perto umas das outras, que abrigam o caminho do sol.
Pedro, depois de algum tempo, apressa o passo e abraça o Mestre. E o chama, em voz baixa:
– Mestre meu!
– Sim, Pedro!
– Será que eu te perturbo, se for andando a teu lado?
– Não, amigo. Que quererás dizer-me, que é tão urgente, que te faz vir apressado para perto do teu Mestre?
– Uma pergunta. Mestre, eu sou um homem curioso…
– E, então?
Jesus sorri, ao olhar para o seu apóstolo.
– E eu gosto de saber de muitas coisas…
– Isto é um defeito, meu Pedro.
– Eu sei disso. Mas não creio que desta vez seja um defeito. Se eu quisesse saber de coisas feias, de algum mau procedimento para poder criticar a quem o praticou, oh! aí seria um defeito. Mas Tu estás vendo que eu não te perguntei se Judas tinha alguma coisa que ver, quando te chamaram a Beter, e por que…
– Mas tu tinhas uma grande vontade de ir…
– Sim. É verdade. Só que isso é até um mérito maior, não é?
– É mérito maior. Como grande mérito também é dominar-nos a nós mesmos. Isso demonstra em quem o faz uma boa e séria evolução na vida espiritual, um verdadeiramente ativo aprendizado a fim de assimilar as lições do Mestre.
– Sim, não é? E tu estás contente com isso?
– Oh! Pedro! E ainda me perguntas? Fico feliz com isso.
– Sim? Ficas mesmo? Oh! Mestre meu! Mas, então, o teu pobre Simão é quem te faz ficar assim feliz.
– Sim. Mas tu já não sabias disso?
– Eu não tinha coragem de acreditar que assim era. Mas, vendo-te tão feliz ontem, fiz que alguém te interrogasse. Porque eu pensava que bem podia ser até Judas que já estivesse melhorando… ainda que eu não tenha prova disso… Mas eu posso estar vendo mal. João me contou que Tu lhe disseste te sentires feliz, porque há um que se tornou santo… Depois, faz pouco tempo, Tu me vens dizendo que estás contente comigo, porque vou-me tornando melhor. Agora eu sei. Quem te faz feliz e alegre sou Eu, o pobre Simão… 412.5Mas agora eu quereria que os meus sacrifícios fizessem mudar o Judas. Eu não sou invejoso. Quereria que todos fossem perfeitos, para tornar-te perfeitamente feliz. Será que conseguirei?
– Tem confiança, Simão! Confia e persevera.
– Eu o farei. Certamente o farei. Por Ti… e também por ele. Porque certamente não se deve gozar, por estar sempre assim. No fundo… ele poderia quase ser meu filho… Hum! Verdadeiramente eu prefiro ser pai de Marziam. Mas… eu me farei de seu pai, trabalhando para dar-lhe uma alma digna de Ti.
– E também de ti, Simão –e Jesus se inclina e o beija sobre os cabelos.
Pedro está todo feliz… Passados poucos instantes, ele pergunta:
– E não me dizes mais nada? Não há mais nada de bom, alguma flor entre espinhos, como há em toda parte?
– Sim. Um amigo de José, que vem para a Luz.
– Deveras? Um sinedrita?
– Sim. Mas não é necessário dizê-lo. Deve-se rezar. Sofrer por isso. Não me perguntas quem é? Não és curioso?
– Muito. Mas não to pergunto. Um sacrifício em favor desse desconhecido.
– Bendito sejas tu, Simão! Hoje me fazes feliz mesmo. Continua assim, e Eu te amarei sempre mais, e sempre mais Deus te amará. Agora paremos aqui para esperar os outros.
1 a chamaria, como em Cântico dos cânticos 2,1-2; Siraque 24,14.
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