122. 122. Os discursos de Águas Belas: Honrao pai e a mãe. Cura de um hebetado[45].
3 de março de 1945.
122.1 Jesus caminha lentamente para cima e para baixo, ao longo da beira do rio. O dia deve ter começado a pouco, porque a neblina de uma triste jornada invernal ainda está estagnada sobre os caniços das margens. Não se vê ninguém, a perder de vista, em nenhuma das margens do Jordão. Somente uma névoa baixa, um sussurro da água contra os caniços, um murmúrio das águas que, com as chuvas caídas nos dias anteriores, estão um pouco lamacentas, um ou outro pio de pássaros, curto e triste, como acontece quando já passou a estação dos amores e os penudos estão aflitos, por causa da estação e do pouco alimento.
Jesus os escuta e parece interessar-se muito pelo pio de um passarinho que, com a regularidade de um relógio, inclina a cabecinha para o norte e diz um “chiruit?” lamentoso, depois inclina-a para o sul e repete o seu interrogativo “chiruit?” sem obter resposta. Finalmente, o passarinho parece ter tido uma resposta no “chip” que vem da outra beira, e bate as asas, atravessando o rio, com um pequeno grito de alegria. Jesus faz um gesto, como para dizer: “Ainda bem!”, depois retoma a sua caminhada.
122.2 – Estou te incomodando, Mestre? –pergunta João, que vem dos prados.
– Não. Que queres?
– Queria dizer-te… acho que é uma notícia que poderá dar-te um consolo, e vim logo, também para pedir-te um conselho. Estava varrendo os nossos quartos, quando chegou Judas de Keriot. Disse-me: “Vou te ajudar.” Fiquei admirado, porque sempre faz de má vontade até o que lhe é mandado, quando se trata destes trabalhos humildes… mas não lhe disse nada mais do que isto: “Oh! Obrigado! Assim acabarei logo e melhor.” Ele se pôs a varrer e acabamos logo. Então disse: “Vamos ao bosque. Sempre são os velhos que transportam a lenha. Não está bem. Vamos nós fazer isso. Eu não sei muito bem como fazê-lo. Mas se me ensinares…” E fomos. E enquanto eu estava lá amarrando os feixes com ele, me disse: “João, eu quero te dizer uma coisa.” “Fala”, eu disse. E pensava que ia fazer alguma crítica. Ao invés, ele me disse: “Eu e tu somos os mais jovens. Precisaríamos estar mais unidos. Tu tens um pouco de medo de mim, e tens razão, porque eu não sou bom. Mas, podes crer… eu não faço assim de propósito. Algumas vezes tenho necessidade de ser mau. Talvez porque, como sou filho único, me tenham acostumado mal. E eu gostaria de tornar-me bom. Os velhos, eu sei, não me olham muito bem. Os primos de Jesus estão irritados porque… sim, eu tenho faltado muito com eles, e também para com o primo deles. Mas tu és bom e paciente. Queira-me bem. Faz de conta que eu seja um teu irmão, mau sim, mas que é preciso amar, ainda que seja mau. Até o Mestre diz que é preciso fazer assim. Quando vires que estou fazendo não muito bem as coisas, dize-me. E depois, não me deixes sempre só. Quando eu vou aos povoados, vem tu também. Ajudar-me-ás a não fazer o mal. Ontem eu sofri muito. Jesus me falou e eu olhei para Ele. No meu insípido rancor, eu não olhava nem a mim mesmo, nem aos outros. Ontem eu olhei e vi… Têm razão aqueles que dizem que Jesus está sofrendo… e eu sinto que eu também tenho culpa. Não quero mais tê-la. Vem comigo. Virás? Ajudar-me-ás a ser menos mau?” Assim ele disse, e eu, confesso, estava com o coração batendo, como aquele de um pardal seguro por um menino. Batia de alegria, porque tenho prazer que ele se torne bom, por causa de Ti tenho prazer, e batia também por medo porque… não queria ficar como é Judas. Mas depois veio em minha mente tudo que me disseste no dia em que tomaste Judas, e respondi: “Sim, te ajudarei. Mas devo obedecer e, se as ordens que receber forem outras…” Pensava: agora vou dizer ao Mestre e se Ele quiser eu o faço, se não quiser, pedir-lhe-ei que me dê ordem de não ir para longe da casa.
– Escuta, João. Eu te deixo ir. Mas me deves prometer que, se ouvires alguma coisa que te perturbe, tu venhas dizer a Mim. Tens-me dado tanta alegria, João. 122.3Eis aqui Pedro com o seu peixe. Vai, João.
Jesus se volta para Pedro:
– Foi boa a pesca?
– Hum! Não muito. Uns peixinhos… Mas tudo bem. Aí está Tiago resmungando, porque algum animal roeu a corda, e se perdeu uma rede. Eu disse: “Ele não precisava comer? Tem compaixão pelo pobre animal.” Mas Tiago não entende assim… –Pedro ri.
– É o que estou falando de um que é irmão. E vós não sabeis fazê-lo.
– Estás falando de Judas?
– Estou falando de Judas. Ele sofre com isso. Tem desejos bons e tendências perversas. Mas diz-me uma coisa, tu, pescador experiente. Se Eu quisesse ir de barco pelo Jordão e alcançar o lago de Genezaré, como teria que fazer? Será que Eu o conseguiria?
– Ah! Seria um trabalhão! Mas o conseguirias, com pequenos barcos de fundo chato… É cansativo, sabes? E leva tempo! Precisaria estar sempre medindo a profundidade, estar de olho nas beiras, nos bancos de areia, nas vegetações flutuantes e na correnteza. A vela, num caso destes, não serve, ao contrário… Mas queres ir para o lago, seguindo as águas do rio? Olha que navegar contra a corrente é difícil. É preciso que sejam muitos, se não…
– Tu o disseste. Quando alguém está viciado, para caminhar rumo ao Bem precisa ir contra a corrente, e não pode, sozinho, conseguir. Judas é justamente um destes. E vós não o ajudais. O coitado vai indo rio acima, só, e bate no fundo, roça os bancos de areia, enreda-se nas vegetações flutuantes e é arrastado pelos redemoinhos. Por outro lado, se precisar medir a profundidade, não pode, ao mesmo tempo, segurar a barra do leme e o remo. Por que, então, censurá-lo, se ele não é capaz de prosseguir? Tendes piedade dos estranhos, mas dele, vosso companheiro não? Não é justo. 122.4Estás vendo lá João e ele, que vão ao povoado buscar pão e verduras? Ele pediu por favor que não o deixe sozinho. E pediu isso a João, porque não é tolo, e sabe o que vós, mais velhos, pensais a respeito dele.
– E Tu o mandaste? E se João também se estragar?
– Quem? Meu irmão? Por que haverá ele de se estragar? –pergunta Tiago, que chega, trazendo a rede, que conseguiu apanhar entre os caniços.
– Porque Judas vai com ele.
– Desde quando?
– Desde hoje, e Eu o permiti.
– Então, se Tu o permites…
– Sim, e Eu aconselho, aliás, a todos. Vós o deixais muito só. Não sejais juízes dele somente. Ele não é pior do que muitos outros. Mas é viciado desde a infância.
– Sim, deve ser assim. Se tivesse tido por pai e mãe Zebedeu e Salomé, não seria assim. Meus pais são bons. Mas eles se lembram de que têm um direito e um dever para com os filhos.
– Falaste bem. Hoje falarei justamente sobre isso. 122.5Agora vamos. Já vejo pessoas que estão se movimentando pelos prados.
– Eu não sei como haveremos de fazer para viver. Não temos mais hora de comer, de rezar, de descansar… e o povo sempre aumentando –diz Pedro, entre admirado e aborrecido.
– E tu ficas aborrecido com isso? Isso é sinal de que ainda existe uma procura de Deus.
– Sim, Mestre. Mas com isso Tu sofres. Ficaste até sem comer ontem, e esta noite não terias outra coberta, se não tivesses o teu manto. Se tua Mãe ficasse sabendo disso!
– Ela bendiria a Deus que me traz tantos fiéis.
– E censuraria a mim, a quem Ela te recomendou –termina Pedro.
Vêm descendo em direção à eles, e gesticulando, Filipe e Bartolomeu. Veem a Jesus, e apressam o passo, dizendo:
– Oh! Mestre! Como iremos fazer? Vem aí uma verdadeira peregrinação; doentes, pessoas que choram, pobres sem recursos, e vêm de longe.
– Compraremos pão. Os ricos nos dão óbolos. É só fazer uso deles.
– Os dias são curtos. O telheiro já está lotado de gente, em bivaques. As noites são úmidas e frias.
– Tens razão, Filipe. Nós nos apertaremos todos em um quarto grande. Podemos fazer isso, e prepararemos os outros dois para aqueles que não podem alcançar as suas casas antes do anoitecer.
– Entendi! Daqui a pouco teremos que pedir aos hóspedes licença para mudar a veste! Serão tão invasores que nos farão fugir –resmunga Pedro.
– Verás outras fugas, meu Pedro! 122.6Que tem aquela mulher?
Eles já estão na eira e Jesus nota uma mulher chorando.
– Ora! Ela estava aqui ontem também, também chorando. Quando Tu falavas com Mananen, ela movimentou-se para ir ao teu encontro, mas depois foi-se embora. Deve morar no povoado, ou perto daqui, porque voltou. Doente ela não parece estar…
– A paz esteja contigo, mulher –diz Jesus, passando ao lado dela.
E ela responde baixo:
– E Contigo.
Nada mais.
Haverá aí pelo menos trezentas pessoas. Debaixo do telheiro, há coxos, cegos, mudos; um, muito agitado por um tremor; um jovenzinho, visivelmente hidrocéfalo, seguro pela mão de um homem, não faz mais do que ganir, babar-se, sacudir sua cabeçorra, com uma expressão de hebetismo.
– Será ele filho daquela mulher? –pergunta Jesus.
– Não sei. Simão que cuida dos peregrinos, deve saber.
Chamam o Zelote e lhe interrogam. Mas o homem não está com a mulher. Ela está sozinha.
– Ela não faz outra coisa, senão chorar e rezar. E, há pouco, ela me perguntou: “O Mestre cura também os corações?” –explica o Zelote.
– Será alguma mulher traída –comenta Pedro.
Enquanto Jesus vai em direção aos doentes, Bartolomeu com Mateus vão à purificação com muitos peregrinos.
Em seu canto a mulher chora e não se move.
122.7 Jesus não nega a ninguém o milagre. Belo milagre foi o do hebetado, no qual Ele infundiu a inteligência, com seu hálito, segurando depois a cabeçorra entre suas longas mãos. Todos se aglomeram. Também a mulher velada, talvez porque há muita gente, ousa aproximar-se um pouco, e se põe perto da mulher chorosa.
Jesus diz ao doente:
– Eu quero em ti a luz da inteligência, para abrir caminho à luz de Deus. Escuta, diz Comigo: “Jesus.” Diz. Eu quero.
O hebetado, que antes gania como um animal, e não dava mais do que um ganido, balbucia com dificuldade: “Jesus”, ou melhor, “Jejú.”
– Outra vez –ordena Jesus, continuando a segurar entre as suas mãos aquela cabeça disforme e dominando-o com o seu olhar.
– Jes-su.
– Outra vez.
– Jesus! –diz finalmente o doente.
E seu olhar já não é mais vazio de expressão, a boca tem um sorriso diferente.
– Homem –diz Jesus ao pai–. Tu tiveste fé! Teu filho está curado. Interroga-o. O nome de Jesus é milagre contra as doenças e as paixões.
O homem diz ao filho:
– Quem sou eu?
E o menino:
– O meu pai.
O homem aperta o filho contra o seu coração e explica:
– Ele nasceu assim. Minha esposa morreu no parto e ele era retardado na mente e na fala. Agora, vê. Eu tive fé, sim. Eu estou vindo de Jope. Que devo fazer por Ti, Mestre?
– Ser bom. E o teu filho contigo. Nada mais.
– E amar-te. Oh! Vamos logo contá-lo à mãe de tua mãe. Foi ela que me persuadiu a fazer isto. Bendita seja ela!
Os dois vão felizes. Da passada desventura só ficou a cabeça grande do menino. A expressão e a palavra são normais.
122.8 – Mas ele foi curado por tua vontade, ou pelo poder do teu Nome? –perguntam-lhe muitos.
– Pela vontade do Pai, sempre benigno para com o Filho. Mas também o meu Nome é salvação. Vós o sabeis: Jesus quer dizer Salvador. A salvação é da alma e do corpo. Quem diz o Nome de Jesus com verdadeira fé, ressuscita das doenças e do pecado, porque em toda doença espiritual ou física estão as garras de satanás, o qual cria as doenças físicas para levar as pessoas à revolta e ao desespero através do sofrimento da carne, e cria as doenças morais ou espirituais para levar à condenação.
– Então, segundo o teu parecer, em todas as aflições do gênero humano não deixa de estar atuando Belzebu.
– Não deixa de estar atuando. Por ele é que a doença e a morte entraram no mundo. Também o delito e a corrupção entraram no mundo por ele. Quando virdes alguém atormentado por qualquer desventura, pensai também que ele está sofrendo pela atuação de satanás. Quando virdes que alguém está sendo causa de desventura, pensai que ele também está sendo usado como um instrumento de satanás.
– Mas as doenças vêm de Deus.
– As doenças são uma desordem na ordem. Porque Deus criou o homem são e perfeito. A desordem foi posta por satanás dentro da ordem dada por Deus, e trouxe consigo as enfermidades da carne e as consequências das mesmas, ou seja, a morte, ou então as hereditariedades funestas. O homem herdou de Adão e Eva a mancha de origem. Mas não é somente ela. E a mancha vai-se alastrando, e tomando conta das três partes do homem: a carne, sempre mais viciada e por isso, fraca e doente; a moral, cada vez mais soberba e por isso, corrompida, o espírito, cada vez mais incrédulo, ou seja, sempre mais idólatra. Por isso, como Eu fiz com aquele deficiente; é preciso ensinar o Nome que afugenta satanás, esculpi-lo na mente e no coração, colocá-lo sobre o eu como um selo de propriedade.
– Mas Tu nos possuis? Quem és Tu para te creres tão grande?
– Antes fôsse assim! Mas não é. Se Eu vos possuísse, já estaríeis salvos. E isto seria o meu direito. Porque Eu sou o Salvador. Mas aqueles que tiverem fé em Mim, Eu os salvarei.
122.9 – João… (eu estou vindo de parte de João) me disse: “Vai Àquele que está falando e batizando perto de Efraim e Jericó. Ele tem poder de ligar e desligar, enquanto que eu só posso dizer-te: faz penitência, para tornares tua alma ágil a seguir o caminho da salvação”, assim diz um dos miraculados, que antes se servia de suas muletas, e agora se move expedito.
– E o Batista não sofre, pelo fato de perder a multidão? –pergunta alguém.
Aquele que tinha falado primeiro, responde:
– Sofrer? Ele diz a todos: “Ide! Ide! Eu sou o astro que desce. Ele é o astro que sobe e se fixa eterno em seu esplendor. Para não ficardes nas trevas, ide a Ele, antes que o meu pavio se apague.”
– Os fariseus não falam assim! Eles estão cheios de rancor, porque Tu atrais as multidões. Estás sabendo disso?
– Eu estou sabendo –responde Jesus em poucas palavras.
Trava-se, então, uma discussão sobre a razão ou semi-razão do modo de agir dos fariseus. Mas Jesus a interrompe, com um: “Não critiqueis”, que não admite réplica.
122.10 Voltam Bartolomeu e Mateus com os que foram batizados.
Jesus começa a falar.
– A paz esteja com todos vós.
Estive pensando — posto que agora estais vindo aqui, desde a manhã, e mais cômodo vos seja partirdes ao meio dia —, em falar-vos de Deus pela manhã. Pensei também em alojar os peregrinos que não podem voltar para suas casas no meio da tarde. Eu, por minha vez, sou peregrino e não possuo senão o mínimo indispensável que me foi dado pela piedade de um amigo. João tem ainda menos do que Eu. Mas a João se dirigem pessoas sãs ou simplesmente pouco doentes, encolhidos, cegos, mudos. Mas não os que estão à morte ou febris, como os que vêm a Mim. Vão a ele pelo batismo da penitência. A Mim vêm também para a cura de seus corpos. A Lei diz1: “Ama ao teu próximo como a ti mesmo.” Eu penso: como Eu poderia mostrar que amo os irmãos, se Eu fechasse o meu coração às suas necessidades, mesmo físicas? E concluo: darei a eles o que me foi dado. Estendendo a mão aos ricos, pedirei o pão para os pobres, levantando-me da cama, acolherei nela o cansado e o que sofre.
Somos todos irmãos. E o amor não se prova com palavras, mas com fatos. Aquele que fecha o coração ao seu semelhante, tem um coração de Caim. Aquele que não tem amor é um rebelde ao mandamento de Deus. Somos todos irmãos. Contudo, Eu vejo, e vós vedes, que também no interior das famílias — lá onde o sangue igual reforça, também com o sangue e a carne, a irmandade que nos vem de Adão — há ódios e atritos. Os irmãos estão contra os irmãos, os filhos contra os pais, os esposos, inimigos um do outro.
Mas, para não serem sempre maus irmãos e esposos adúlteros um dia, é preciso aprender, desde a primeira idade, o respeito para com a família, organismo que é o menor e o maior do mundo. O menor, em relação ao organismo de uma cidade, de uma região, de uma nação, de um continente. Mas o maior, porque é o mais antigo; porque foi colocado por Deus, quando ainda o conceito de pátria e de cidade não existia, mas já era vivo e operante o núcleo familiar, fonte da raça e das raças, pequeno reino no qual o homem é rei, a mulher a rainha, e súditos os filhos. Poderá um reino ter duração, se ele tiver divisões e inimigo em cada um dos seus habitantes? Não pode durar. E, na verdade, uma família não dura, se nela não houver obediência, respeito, economia, boa vontade, operosidade, amor.
122.11 “Honra o pai e a mãe” –diz o decálogo. Como é que se honra? Por que devem ser honrados?
Honram-se com uma verdadeira obediência, com um amor justo, com um respeito confiante, com um temor reverencial, que não impede a confiança, mas, ao mesmo tempo, não nos faz tratar os maiores, como se fôssemos servos e inferiores. Devem ser honrados, porque depois de Deus, os doadores da vida, e de todas as necessidades materiais da vida, os primeiros mestres, os primeiros amigos do jovem ser, que nasceu sobre a terra, são o pai e a mãe.
Diz-se: “Deus te abençoe” ou “obrigado” àquele que recolhe um objeto caído ou nos dá um pedaço de pão. E a estes, que se cansam no trabalho para nos sustentar, para nos dar nossas vestes e conservá-las limpas, a estes que se levantam para escrutarem o nosso sono, que sacrificam seu repouso para cuidar de nossa saúde, que fazem de seus colos um leito para as nossas mais dolorosas canseiras, não lhes haveremos de dizer, com amor: “Deus te abençoe”, “obrigado”?
São os nossos mestres. O mestre é temido e respeitado. Mas ele toma conta de nós, quando já sabemos o indispensável sobre o modo de comportar-nos, de alimentar-nos e de dizer as coisas essenciais, e ele nos deixa, quando o mais árduo ensinamento da vida, ou seja, “o viver” nos deve ainda ser ensinado. E são o pai e a mãe que nos preparam à escola primeiro e à vida depois.
São os nossos amigos. Mas que amigo pode ser mais amigo do que um pai? E quem mais amiga do que uma mãe? Podeis tremer, diante deles? Podeis dizer: “Serei traído por ele, por ela”? Contudo, eis o jovem tolo, e a moça, mais tola ainda, que se fazem amigos de estranhos, e fecham seus corações ao pai e à mãe, estragando suas mentes e corações com relacionamentos que são imprudentes, quando não chegam a ser até culpáveis, causando lágrimas paternas e maternas, que sulcam como se fossem gotas de chumbo fundido seus corações paternos. Aquelas lágrimas, porém, Eu vo-lo digo, não caem no chão nem no esquecimento. Deus as recolhe e as conta. O martírio de um pai espezinhado receberá um prêmio do Senhor. Mas o ato do filho, que é o suplício de um pai, tampouco será esquecido, mesmo quando o pai e a mãe, em seu doloroso amor, suplicam a piedade de Deus para o filho culpado.
“Honra o pai e a mãe”, se queres viver longos dias sobre a terra, foi dito. “E eternamente no Céu”, Eu acrescento. Pequeno demais seria o castigo de viver pouco aqui por ter faltado com os pais! O além não é uma fábula, e do lado de lá haverá prêmio ou castigo, conforme o modo como tivermos vivido. Quem falta com seus pais, falta para com Deus, porque Deus deu para os pais um mandamento de amor, e quem não ama, peca. Por isso, ele perde mais do que a vida material, perde a verdadeira vida de que Eu vos falei, e vai ao encontro da morte, pois sua alma está fora da graça do Senhor, está culpada pelo delito, visto que fere o amor mais santo que há depois do de Deus, e já traz em si os germes dos futuros adultérios, porque o filho mau se torna um pérfido esposo, já tem em si os estímulos da perversão social, porque um filho mau já é o desabrochar de um futuro ladrão, do truculento e violento assassino, do frio usurário, do libertino sedutor, do gozador cínico, do repugnante traidor da pátria, dos amigos, dos filhos, da esposa, de todos. E podereis ter estima e confiança em quem foi capaz de trair o amor de uma mãe e de zombar dos cabelos brancos de um pai?
122.12 Porém, ouvi ainda: Aos deveres dos filhos corresponde um dever igual dos pais. Maldição ao filho culpado! Mas maldição também ao culpado pai. Fazei que os vossos filhos não vos possam criticar, nem imitar no mal. Fazei-vos amar por um amor dado com justiça e Misericórdia. Deus é Misericórdia. Os pais, que acima de si só têm a Deus, sejam misericordiosos. Sede exemplo e conforto para os filhos. Sede paz e guia. Sede o primeiro amor de vossos filhos. Uma mãe é sempre a primeira imagem da esposa que nós quereríamos. Um pai, para suas filhas jovenzinhas, tem o rosto que elas sonham que seu esposo vai ter. Fazei que, sobretudo, os filhos e as filhas escolham com sabedoria os consortes recíprocos, pensando na mãe, no pai, e desejando que o seu consorte tenha o que o pai ou a mãe tem: uma virtude veraz.
Se Eu tivesse que falar até esgotar o argumento, o dia e a noite não seriam suficientes. Vou abreviá-lo por amor de vós. O resto, que vo-lo diga o Espírito eterno. Eu jogo a semente, e passo adiante. Mas a semente nos bons lançará raízes e produzirá espigas. Ide. A paz esteja convosco.
122.13 Os que partem, vão embora rápido. Os que ficam, entram no terceiro quarto grande e comem pão, ou o que os discípulos lhes oferecem em nome de Deus. Sobre os rústicos cavaletes foram colocadas tábuas e palhas e lá podem dormir os peregrinos.
A mulher velada vai embora, com passo rápido, a outra que antes já chorava, e que continuou chorando enquanto Jesus estava falando, perambula incerta, mas depois resolve ir embora.
Jesus entra na cozinha para alimentar-se. Mas, mal começa a comer, batem à porta.
André se levanta, pois está mais perto da porta, e sai para a eira. Fala, e depois torna a entrar:
– Mestre, uma mulher, aquela que estava chorando, quer falar Contigo. Ela diz que precisa ir embora, e que deve falar-te.
– Mas, desse modo, quando e como é que o Mestre vai poder comer? –exclama Pedro.
– Devias ter-lhe dito que viesse mais tarde –diz Filipe.
– Silêncio. Eu comerei depois. Continuai, vós.
Jesus sai. A mulher está lá fora.
– Mestre… uma palavra… Tu disseste… Oh! Vem atrás da casa! É penoso dizer a minha dor!
Jesus faz-lhe a vontade, sem dizer nada. Só quando estão atrás da casa, Ele pergunta:
– Que queres de Mim?
– Mestre… eu te ouvi antes, quando estavas falando no meio de nós… e depois eu te ouvi, quando estavas pregando. Parecia que estavas falando para mim. Tu disseste que em toda doença física ou moral está satanás… Eu tenho um filho que está doente no coração. Se ele te tivesse ouvido, quando falaste dos pais! É o meu tormento! Ele se desviou com maus companheiros e é… é justamente como Tu dizes… ladrão… em casa, por enquanto, mas… É rixento… prepotente… Jovem como é, se arruína com luxúrias e crápulas. Meu marido quer expulsá-lo. Eu… eu sou a mãe… e sofro mortalmente. Estás vendo como o meu peito está arquejando? É o meu coração que se despedaça de tanta dor. Desde ontem estou querendo falar-te porque… espero em Ti, meu Deus. Mas não ousava dizer nada. É tão doloroso para uma mãe ter que dizer: “Eu tenho um filho cruel!”
A mulher chora, encurvada e angustiada, diante de Jesus.
– Não chores mais. Ele vai ficar curado do seu mal.
– Se ele pudesse ouvir-te, sim. Mas ele não quer ouvir-te. Oh! Ele nunca ficará são!
– Mas tu não tens fé por ele? Não queres tu por ele?
– E o perguntas a mim? Venho lá da Alta Pereia para pedir-te por ele…
– Então vai. Quando chegares em casa, teu filho virá ao teu encontro, arrependido.
– Mas, como?
– Como? Pensas que Deus não pode fazer o que Eu peço? Teu filho está lá. Eu estou aqui. Mas Deus está em toda parte. Eu digo a Deus: “Pai, piedade por esta mãe.” E Deus trovejará o seu chamado no coração do teu filho. Vai, mulher. Um dia passarei pelas regiões da tua cidade e tu, orgulhosa do teu filho homem, virás ao meu encontro junto a ele. E quando ele estiver chorando sobre os teus joelhos, pedindo-te perdão e contando-te sua misteriosa luta, da qual saiu com uma alma nova, e te perguntar como foi que aconteceu aquilo, tu lhe dirás: “É por Jesus que renasceste para o Bem.” Fala a ele de Mim. Se tu vieste a Mim, é sinal que sabes. Faz que ele saiba e pense em Mim, para que tenha consigo a força que salva. Adeus. Paz à mãe que teve fé, ao filho que volta, ao pai contente, à família recomposta. Vai.
A mulher vai-se em direção ao povoado e tudo termina.
1 diz, em: Levítico 19,18.