627. 627. Aparição aos apóstolos no Cenáculo.


6 de abril de 1945.

627.1Estão reunidos no Cenáculo. A noite deve estar bem avançada, porque nenhum rumor chega mais da rua nem das casas. Creio que até mesmo aqueles que chegaram antes tenham se retirado, ou nas próprias casas ou foram dormir em algum canto, cansados com tantas emoções.

Ao invés, os dez, depois de terem comido peixe, que ainda está sobrando em alguma travessa apoiada no balcão, estão conversando à luz de uma única chama de lamparina, a que está mais próxima da mesa. Eles continuam sentados ali. E seus discursos são entrecortados. Só se ouvem monólogos, porque parece que cada um deles, mais do que com os companheiros, fale consigo mesmo. E os outros o deixam falar, talvez falando, eles mesmos, de coisas completamente diferentes. Porém, essas falas desconexas, que me fazem pensar em raios soltos de uma roda desfeita, percebe-se que giram ao redor de um único assunto, ainda que eles estejam espalhados. E é Jesus.

627.2– Eu não gostaria que Lázaro tivesse ouvido mal, e que as mulheres tivessem entendido melhor do que ele… –diz Judas de Alfeu.

– A que horas a romana disse que o viu? –pergunta Mateus.

Ninguém lhe responde.

– Amanhã eu vou a Cafarnaum –diz André.

– Que maravilha! Fazer que saia justamente naquele momento a liteira da Cláudia! –diz Bartolomeu.

– Nós fizemos mal, Pedro, por termos vindo às pressas nesta manhã… Se tivéssemos ficado lá, o teríamos visto assim como a Madalena –suspira João.

– Eu não compreendo como é que Ele pode estar em Emaús e no palácio ao mesmo tempo. E como pode estar aqui, na casa da Mãe, na de Madalena e na de Joana ao mesmo tempo… –diz a si mesmo Tiago do Zebedeu.

– Ele não virá. Eu não chorei ainda o bastante para merecer isso… Ele tem razão. Eu acho que Ele me fez esperar três dias por causa das minhas três negações. Mas como, como Ele pôde fazer isso?

– Como Lázaro estava transfigurado! Eu vos digo: Ele parecia um sol. Eu penso que aconteceu com ele como a Moisés, depois que ele viu Deus. E de repente — não é verdade, ó vós que estáveis lá? — logo depois de ter oferecido sua vida! –diz Zelotes.

Ninguém lhe prestou atenção.

627.3Tiago de Alfeu se volta para João e diz:

– Como foi mesmo que ele falou àqueles de Emaús? Parece-me que ele nos perdoou, não é verdade? Ele não disse que tudo aconteceu devido ao nosso erro de israelitas no modo de entender o seu Reino?

João não lhe presta nenhuma atenção e, virando-se a fim de olhar para Filipe, diz… ao ar, porque a Filipe é que ele não está falando quando diz:

– Para mim basta saber que Ele ressuscitou. E depois… E depois que o meu amor seja sempre mais forte. Ele foi visto! E foi, se prestais atenção, na proporção do amor que lhe tivemos: a Mãe, Maria Madalena, as crianças, minha mãe e a tua, e depois Lázaro e Marta… Quando é que ele foi até Marta? Eu digo que foi quando ela entoou o salmo de Davi1: “O Senhor é meu Pastor, nada me faltarà. Ele me pôs num lugar de abundantes pastagens e me conduziu às águas restauradoras. Ele chamou a Si a minha alma…” Tu te lembras de como Ele nos fez vibrar com aquele canto inesperado? E aquelas palavras se referem a tudo o que Ele disse: “Ele chamou de novo para Si a minha alma…” De fato, Marta parece ter encontrado de novo o seu caminho… Antes ela estava perdida, ela, que é forte! Talvez naquelas palavras Ele lhe tenha dito qual é o lugar em que a quer ver. E isso é certo mesmo, se marcou encontro com ela Ele deve saber onde ela estará. Que terá Ele querido dizer com aquelas palavras: “esponsais realizados?”

Filipe, que o ficou olhando por um instante e que depois o deixou monologando, se queixa:

– Eu nem sei o que dizer-lhe, se Ele vier. Eu fugi… e acho que fugirei. Primeiro era por medo dos homens. E agora é por medo Dele.

– Todos dizem: “É esplêndido!” Poderá estar mais bonito do que já era? –pergunta a si mesmo Bartolomeu.

– E eu lhe direi: “Tu me perdoaste sem dizer nada quando eu era publicano. Perdoa-me também agora com o teu silêncio, pois minha covardia não merece a tua palavra” –diz Mateus.

– Longino diz que pensou assim: “Devo pedir-lhe que me cure ou que eu creia?” Mas em seu coração ele disse: “Acredita,” e logo a Voz disse: “Vem a Mim,” e ele sentiu a vontade de crer e o desejo de sua cura, ao mesmo tempo. A mim ele falou justamente assim –afirma Judas de Alfeu.

– Eu estou sempre firme no pensamento de Lázaro, que foi premiado logo por causa da sua oferta… Então, eu também disse: “A minha vida para a tua glória.” Mas ele não veio –suspira Zelotes.

627.4– Que estás dizendo, Simão? Tu que és culto, dize-me: o que lhe devo dizer para fazê-lo entender que o amo e que peço perdão? E tu, João? Tu conversaste muito com a Mãe. Ajuda-me. Não é piedade deixar sozinho o pobre Pedro!

João sente compaixão pelo companheiro aviltado, e diz:

– Mas… eu lhe direi simplesmente: “Eu te amo!” Pois no amor está encerrado também o perdão e o arrependimento. Mas… eu não sei. Simão, que achas tu?

E Zelotes diz:

– Eu diria aquilo que era o grito para pedir milagres: “Jesus, tem piedade de mim.” Ou diria “Jesus.” E basta. Porque Ele é bem mais do que o Filho de Davi!

– É bem isso que eu penso e que me faz tremer. Oh! Eu vou esconder minha cabeça… Ainda hoje de manhã eu estava com medo de vê-lo e…

– … e depois tu entraste em primeiro lugar. Mas não tenhas medo assim. Parece que tu não o conheces –encoraja João.

627.5A sala se ilumina intensamente, como se fosse um relâmpago ofuscante. Os apóstolos cobrem o rosto temendo que seja um raio. Mas não ouvindo nenhum barulho, levantam a cabeça.

Jesus está no meio da sala, perto da mesa. E abre os braços, dizendo:

– A paz esteja convosco.

Ninguém responde nada. Uns estão mais pálidos, outros mais vermelhos, e todos o fitam com medo e submissão. Estão fascinados e, ao mesmo tempo, querendo fugir.

Jesus dá um passo para a frente, aumentando o seu sorriso.

– Mas não temais assim! Sou Eu. Por que ficais assim tão perturbados? Será que não me desejáveis? Eu não vos mandei dizer que viria? Eu não vo-lo tinha dito desde a tarde da Páscoa?

Ninguém tem coragem de abrir a boca. Pedro está chorando, João está sorrindo, enquanto os dois primos, com os olhos brilhantes e um movimento de palavras sem som sobre os lábios, parecem duas estátuas representando os seus desejos.

– Por que em vossos corações tendes pensamentos tão contrastantes, entre a dúvida e a fé, entre o amor e o temor? É porque ainda quereis ser carne e não espírito, e só assim quereis ver, compreender, julgar e agir? No fogo da dor já não se queimou completamente o velho eu, e não surgiu um novo eu de uma vida nova? 627.6Sou Jesus. O vosso Jesus, ressuscitado como havia dito. Olhai. Tu que viste as feridas e vós que ignorais a minha tortura. Porque tudo o que sabeis é bem diferente do conhecimento exato que João tem. Vem tu por primeiro. Estás já todo purificado. Tão purificado que podes me tocar sem temor. O amor, a obediência, a fidelidade já te haviam purificado. O meu Sangue, com o qual foste todo borrifado quando me depuseste do patíbulo, terminou de te purificar. Olha. São verdadeiras mãos e verdadeiras feridas. Observa os meus pés. Vê como o sinal é o dos pregos? Sim. Sou Eu mesmo e não um fantasma. Tocai-me. Os espectros não têm corpo. Eu tenho uma carne verdadeira sobre um esqueleto verdadeiro.

Ele pousa a Mão sobre a cabeça de João que ousou aproximar-se dele:

– Percebes? É quente e pesada–.

Ele sopra em seu rosto:

– E isso é respiração.

– Oh! Meu Senhor!

João murmura em voz baixa…

– Sim. Sou o vosso Senhor. João, não fiques chorando de temor e de desejo. Vem a Mim. Eu sou sempre aquele que te amo. Vamos sentar-nos à mesa, como sempre. Não tendes nada de comer? Se o tendes, dai-me.

André e Mateus, fazendo gestos de um sonâmbulo, tiram das credências o pão e os peixes e uma bandeja que está com um favo meio roído em um canto.

Jesus oferece o alimento, come dele, e dá a cada um pouco de tudo o que Ele está comendo. Depois olha para eles. Com muita bondade. Mas Ele está tão cheio de majestade, que, diante dele, eles ficam paralisados.

627.7Quem ousa falar por primeiro é Tiago, irmão de João:

– Por que nos olhas assim?

– Porque quero conhecer-vos.

– Ainda não nos conheces?

– Assim como vós ainda não Me conheceis. Se me conhecêsseis, saberíeis quem Eu sou e como vos amo, e acharíeis palavras para Me falardes dos vossos tormentos. Vós estais calados. Estais como diante de um estranho muito poderoso e a quem vós temeis. Há pouco, vós estáveis falando… São quase quatro dias que falais a vós mesmos, dizendo: “Eu vou dizer-lhe isto…,” dizendo ao meu espírito: “Volta, Senhor, para que eu possa te dizer isto…” Agora que eu vim, vós ficais calados? Será que Eu estou tão mudado que nem mais vos pareço ser Eu? Ou será que vós é que estais tão mudados, que nem me tendes mais amor?

João, sentado perto do seu Jesus, faz, como habitualmente, o gesto de pousar-lhe a cabeça sobre o peito, enquanto murmura:

– Eu te amo, meu Deus.

Mas ele se contém, impedindo a si mesmo aquele abandono em respeito ao fulgurante Filho de Deus. Pois de Jesus parece sair uma luz, ainda que Ele seja de uma carne igual à nossa.

Mas Jesus o faz aproximar-se do seu coração, e, então, João abre o dique de seu pranto bendito. E isto valeu como um sinal para que os outros façam o mesmo.

627.8Pedro, que está dois lugares depois de João, escorrega entre a mesa e a cadeira e chora, gritando:

– Perdão, perdão! Tira-me desse inferno no qual estou há tantas horas. Dize-me que viste o meu erro como foi realmente. Não do espírito. Mas da carne, que dominou meu coração. Dize-me que viste o meu arrependimento… Ele durará até a morte. Mas Tu… mas Tu, dize-me que, como Jesus, não devo temer-te… e eu, e eu… eu procurarei agir bem a tal ponto que possa ser perdoado também por Deus… e morrer… tendo só que passar por um longo purgatório.

– Vem cá, Simão de Jonas.

– Eu tenho medo.

– Vem cá. Não sejas covarde outra vez.

– Eu não sou digno de ficar ao teu lado.

– Vem cá. Que foi que te disse a Mãe? “Se não olhas para Ele neste Sudário, não terás coragem de olhar para Ele nunca mais.” Ó homem estulto! Aquele Rosto não te estava dizendo, com aquele seu olhar doloroso, que eu te entendia e te perdoava? Contudo, eu dei aquela tela para conforto, como guia, como sinal de absolvição, de bênção… Mas o que foi que Satanás vos fez para tornar-vos tão cegos? Agora eu te digo: se não olhas para Mim agora, que ainda conservo estendido um véu sobre a minha glória para nivelar-me com vossa fraqueza, não poderás nunca mais aproximar-te sem medo do teu Senhor. E que te acontecerá então? Tu pecaste por presunção. E agora quererás tornar a pecar por obstinação? Vem, Eu estou te dizendo.

Pedro se arrasta sobre os joelhos, por entre a mesa e as cadeiras, com as mãos sobre os olhos chorosos. Jesus o faz parar quando ele chega a seus pés, pondo sua Mão na cabeça dele. Pedro, com um choro ainda mais forte, pega aquela mão e a beija por entre um verdadeiro soluçar sem freio. Mas só sabe dizer:

– Perdão! Perdão!

Jesus se livra das mãos dele e, fazendo de sua própria mão uma alavanca colocada por debaixo do queixo do apóstolo, o obriga a levantar a cabeça, fita-o nos olhos avermelhados, congestionados e torturados pelo sofrimento, com os seus Olhos fúlgidos e serenos. Fica parecendo que lhe queira perfurar a alma. Depois diz:

– Vamos. Tira-me esse opróbrio, que já foi Judas. Beija-me onde ele me beijou. Lava com o teu beijo o sinal da traição.

Pedro levanta a cabeça, enquanto Jesus se inclina ainda mais, e o beija levemente, só roçando no dele… Depois inclina a cabeça sobre os joelhos de Jesus e fica assim… como um velho menino que fez alguma arte, mas da qual foi perdoado.

627.9Os outros, agora que estão vendo a bondade do seu Jesus, reencontram um pouco de ousadia e se aproximam como podem.

Em primeiro lugar, vêm os primos… Eles gostariam de dizer muitas coisas, mas não conseguem dizer nada. Jesus os acaricia e encoraja com o seu sorriso.

Vem depois Mateus, com André. E Mateus diz:

– Como em Cafarnaum…

E André:

– Eu, eu… eu te amo.

Depois é Bartolomeu, que diz entre gemidos:

– Eu não fui sábio. Mas estulto. Este é que é sábio.

E mostra Zelotes, para o qual Jesus está sorrindo.

Tiago de Zebedeu se aproxima, e sussurra a João:

– Fala tu com Ele…

Jesus se vira e diz:

– Há quatro noites que disseste isso, e desde aquele dia Eu tive compaixão de ti.

Por último vem Filipe, todo encurvado. Mas Jesus manda que ele levante a cabeça, e diz:

– Para pregar o Cristo é preciso ter uma coragem ainda maior.

627.10Agora estão todos ao redor de Jesus. Readquirem coragem pouco a pouco. Reencontram o que haviam perdido ou temido de ter perdido para sempre. Emerge de novo a confidência, a tranquilidade e, mesmo se Jesus é majestoso a ponto de impor um respeito novo aos seus apóstolos, eles finalmente encontram coragem para falar.

É o primo Tiago que suspira, dizendo:

– Por que nos fizeste isso, Senhor? Tu sabias que nós não somos nada e que tudo vem de Deus. Por que não nos deste a força para podermos estar a teu lado?

Jesus olha para ele e sorri.

– Agora tudo já aconteceu. E Tu nada mais tens que sofrer. Mas não exijas mais de mim essa obediência. A cada hora eu ia envelhecendo mais um lustro2, e os teus sofrimentos, que o amor e Satanás aumentavam igualmente em minha imaginação cinco vezes mais, acabaram mesmo com todas as minhas forças. Delas não sobrou mais nada, a não ser para eu continuar a obedecer, conservando ainda, como alguém que se afoga com as mãos quebradas, a minha força unida à vontade, como uns dentes que se agarram a uma mesa para não se perderem… Oh! Não exijas mais isso do teu leproso.

Jesus olha para Simão Zelotes e sorri.

– Senhor, Tu bem sabes o que o meu coração queria. Mas depois eu não tive mais coração… foi como se o tivessem arrancado os verdugos que te prenderam… e o que sobrou para mim foi um buraco, pelo qual escapava qualquer outro pensamento que eu tivesse tido!… Por que permitiste isso, Senhor? –pergunta André.

– Eu… tu falas de coração?… Mas eu vos asseguro que eu me senti como alguém a quem falta o uso da razão. Como alguém que levou uma pancada de clava na nunca. Quando, em plena noite eu me encontrei em Jericó… Oh! Deus! Deus!… Mas será que um homem pode perder-se assim? Eu creio que a possessão seja assim. Agora eu compreendo o que é essa coisa horrível!…

E Filipe arregala ainda os olhos ao lembrar-se do que sofreu.

– Tem razão Filipe. Eu olhava para trás. Eu sou velho e não pobre de sabedoria. Eu já não sabia mais nada de tudo o que sabia até aquele momento. 627.11Eu olhava para Lázaro, que estava tão dilacerado mas seguro, e dizia: “Mas como pode ser que ele ainda saiba encontrar uma razão e eu não?” –diz Bartolomeu.

– Eu também olhava para Lázaro. E, visto que eu só sei o que Tu me explicaste, eu já não me apoiava em meu saber. Mas dizia: “Se pelo me nos no coração eu fosse igual a ele!” Mas, ao contrário, eu só sentia dor, dor, uma dor contínua. Lázaro tinha dor, mas também tinha paz. Por que é que ele tinha tão grande paz?

Jesus olha um por vez, primeiro para Filipe, depois para Bartolomeu, depois para Tiago de Zebedeu. Sorri e se cala.

Judas diz:

– Eu esperava chegar a ver aquilo que certamente Lázaro via. Por isso eu ficava sempre perto dele… O rosto dele!… Era como um espelho. Pouco antes do terremoto da Sexta-feira, ele estava como alguém que morre triturado. Mas depois, de repente, ele se tornou majestoso em sua dor. Deveis estar lembrados daquilo que ele disse: “O dever cumprido produz paz?” Nós todos ficamos pensando que aquelas palavras fossem só uma reprovação para nós ou uma aprovação para si mesmo. Mas agora eu penso que ele se referisse a Ti. Lázaro era um farol para nós em nossas trevas. Quantas coisas boas lhe deste, Senhor!

Jesus sorri e se cala.

– Sim. A vida. E talvez com ela tenhas dado uma alma diferente a ele. Porque, afinal, em que é que ele é diferente de nós?” Contudo, ele não é mais um homem. É alguma coisa mais do que o homem e, tendo sido aquele que foi no passado, teria devido ser ainda menos perfeito do que nós no espírito. Mas ele se formou, e nós… Senhor, o meu amor ficou vazio como certas espigas. Eu só produzi sabugo

–diz André.

E Mateus toma a palavra:

– Eu não posso pedir nada. Porque já recebi muito com a minha conversão. Mas, sim! Eu gostaria de ter o que Lázaro teve. Uma alma dada por Ti. Porque eu penso também como André…

– Também Madalena e Marta foram uns faróis. Talvez seja a raça. Vós não as vistes. Uma era piedade e silêncio. E a outra! Oh! Se nós estamos todos juntos, formando como que um feixe ao redor da Bendita, é porque a Maria de Magdala nos incentivou com as chamas do seu amor corajoso. Sim. Eu disse raça. Mas eu devia ter dito: Amor. Elas nos superaram no amor. Por isso é que elas foram quem foram –diz João.

Jesus sorri e se cala.

– Mas elas receberam um grande prêmio…

– A elas Tu apareceste.

– Aos três.

– Mas para Maria logo depois de tua Mãe…

Está claro como entre os apóstolos havia um sentimento penoso por aquelas aparições de privilégio.

– Maria, já há muitas horas, sabe que ressuscitaste. E nós, só agora é que estamos podendo te ver…

– Para elas não há mais dúvidas. Mas, para nós… somente agora é que estamos percebendo que nada acabou. Por que a elas, Senhor, se ainda nos amas e não nos repudias? –pergunta Judas de Alfeu.

– Sim. Por que às mulheres, e especialmente a Maria? Tu até tocaste na fronte dela, e ela diz que tem a impressão de estar sempre com uma grinalda eterna. E a nós, os teus apóstolos, nada…

627.12Jesus não sorri mais. O seu semblante não está alterado, mas cessa o sorriso. Olha sério para Pedro que falou por último, e que havia retomado a coragem à medida que o medo foi passando, e diz:

– Eu tinha doze apóstolos. E os amava com todo o meu Coração. Eu os havia escolhido e como uma mãe havia concentrado minha atenção no crescimento deles em minha vida. Eu não tinha segredos para eles. Dizia tudo, explicava tudo, perdoava tudo. Suas fraquezas humanas, suas desatenções, suas relutâncias… tudo. E eu tinha discípulos. Uns ricos e outros pobres. Tinha mulheres de passado nebuloso ou de constituição frágil. Mas os prediletos eram os apóstolos.

A minha hora chegou. Um deles me traiu e me entregou aos verdugos. Três deles ficaram dormindo, enquanto Eu suava sangue. Todos, menos dois, fugiram por covardia. Um me renegou por medo, ainda que estivesse vendo o exemplo do outro, jovem e fiel. E, como se isso não bastasse, entre os doze Eu tive um suicida desesperado e um que duvidou tanto do meu perdão a ponto de não acreditar facilmente, e pelas palavras da Mãe, na Misericórdia de Deus. Assim, se eu tivesse olhado para a minha fileira com olhos humanos, eu teria devido dizer: “Exceto João, fiel por seu amor, e Simão, fiel na obediência, Eu não tenho mais apóstolos.” Isto Eu teria devido dizer enquanto estava sofrendo no recinto do Templo, no Pretório, pelas ruas da cidade e sobre a Cruz.

627.13Algumas mulheres me seguiam… E uma, a mais culpada no passado, foi — como João disse — a chama que saldou as fibras despedaçadas dos corações. Essa mulher é Maria de Magdala. Tu me renegaste e fugiste. Ela desafiou a morte para estar perto de Mim. Insultada, ela descobriu o rosto, pronta para receber cusparadas e bofetões, pensando assim de assemelhar-se mais ao seu Rei crucificado. Escarnecida no fundo dos corações pela sua fé tenaz na minha Ressurreição, ela soube continuar a crer. Dilacerada, ela agiu. Desolada, hoje de manhã, ela disse: “Eu me despojo de tudo, mas dai-me o meu Mestre.” Podes ainda ousar perguntar: “Por que a ela?”

Eu tinha uns discípulos pobres: eram pastores. Eu me aproximei pouco deles; no entanto, como eles souberam proclamar sua fidelidade!

Eu tinha discípulas tímidas, como o são todas as mulheres hebreias. Contudo, elas souberam deixar suas casas e vir para o meio do mar de um povo que blasfemava contra Mim, para me darem aquele socorro que os apóstolos me haviam negado.

Eu tinha umas pagãs que me admiravam, como a um “filósofo.” Para elas Eu o era. Mas aquelas poderosas romanas souberam descer até os costumes hebreus, a fim de me dizerem, naquelas horas de abandono por parte de um mundo de ingratos: “Nós somos tuas amigas.”

627.14Meu rosto estava coberto de catarro e sangue. Lágrimas e suor gotejavam sobre as feridas. Imundície e poeira o cobriam como uma crosta. De quem era a mão que me limpou? A tua? Ou a tua? Ou a tua: Não foi nenhuma das vossas mãos. Este homem estava perto da Mãe. Este, estava reunindo as ovelhas desgarradas. Vós. E se as minhas ovelhas estavam desgarradas, como podiam me socorrer? Tu escondias o teu rosto por medo do desprezo do mundo, enquanto o teu Mestre era coberto de desprezo do mundo inteiro, Ele que era inocente.

Eu tinha sede. Sim. Ficai sabendo também isso. Eu estava morrendo de sede. A febre e a dor se haviam apoderado de Mim. Já havia saído sangue de Mim no Getsêmani, pela dor de ser traído e abandonado, negado, açoitado, submergido por culpas infinitas e pelo rigor de Deus. E também no Pretório correu sangue… Quem foi que quis dar-me uma gota d’água para minha garganta que ardia de sede? Uma mão de Israel? Não. Foi a piedade de um pagão. Aquela mesma mão que, por um decreto eterno, me abriu o peito para mostrar que o Coração já tinha uma ferida mortal, e era aquela que a falta de amor, que a vileza, a traição me haviam feito. Foi um pagão. E Eu vos faço lembrar: “Eu tive sede e me deste de beber.” Em todo Israel não houve um que me desse um conforto. Ou pela impossibilidade de fazê-lo, como a Mãe e as mulheres fiéis, ou pela má vontade de fazê-lo. E um pagão foi quem teve para com o Desconhecido a piedade que meu povo me negou. Ele encontrará no Céu aquele gole que me deu.

Em verdade, Eu vos digo que — se Eu recusei todo conforto, porque como vítima não convém abrandar a sorte, e Eu não quis rechaçar o pagão, em cuja oferta Eu experimentei o mel de todo amor com que me brindarão os gentios, em recompensa pela amargura que me foi dada por Israel — Ele não me tirou a sede. Mas o desconforto, sim. Por isso, Eu tomei aquele sorvo ignorado. Para atrair a Mim aquele que já estava inclinado para o Bem. Que ele seja abençoado pelo Pai por sua piedade.

627.15Vós, não falais mais? Por que é que não perguntais também por que é que Eu agi assim? Não tendes coragem de perguntar isso? Eu vos direi. Eu vos direi tudo sobre o porque desta hora.

Quem sois vós? Os meus continuadores. Sim. Vós o sois apesar da vossa perplexidade. O que deveis fazer? Converter o mundo a Cristo. Converter! É o que há de mais delicado e difícil, amigos meus. O desprezo, a aversão, o orgulho, o zelo exagerado, tudo isso são coisas nocivas ao bom êxito. Mas, visto que nada nem ninguém vos teria persuadido a usar da bondade, da condescendência, da caridade para com aqueles que estão nas trevas, foi necessário — compreendeis? — foi necessário que vós tivésseis, de uma vez por todas, despedaçado o vosso orgulho de hebreus, de varões, de apóstolos, para dar espaço unicamente à verdadeira sabedoria do vosso ministério. À mansidão, à paciência, à piedade, ao amor sem arrogância e sem repulsa.

Vós estais vendo como todos vos superaram na fé e no agir, entre aqueles que vós olháveis com desprezo ou com uma compaixão orgulhosa. Todos. Até a pecadora de outros tempos. Até Lázaro, impregnado de cultura profana, foi o primeiro que perdoou e guiou em meu Nome. E as mulheres pagãs. E frágil mulher do Cusa. Frágil? Na verdade, ela ganha de todos vós! É a primeira mártir da minha fé. E os soldados de Roma. E os pastores. E o herodiano Manaém. E até Gamaliel, o rabino. Não te espantes, João. Pensas tu que o meu espírito estivesse nas trevas? Todos vós pensáveis assim. E isso aconteceu convosco para que amanhã, lembrando-vos do vosso erro, não fecheis o coração para os que se aproximam da Cruz.

Eu vo-lo digo. E Eu já sei que, ainda que Eu o tenha dito, vós não o fareis, a não ser quando a Força do Senhor vos dobrar como uma varinha à minha Vontade, que é a de ter cristãos por toda a Terra. Eu venci a Morte. Mas ela é menos dura do que o velho hebraísmo. Mas Eu vos dobrarei.

627.16Tu, Pedro, ao invés de ficares desanimado e chorando, tu que deves ser a Pedra da minha Igreja, imprimi essas verdades amargas no coração. A mirra é usada para preservar da corrupção. Embebe-te de mirra, portanto. E quando quiseres fechar o coração e a Igreja a alguém de outra fé, recorda que não foi Israel, não foi Israel, não foi Israel, mas Roma que me defendeu e quis ter piedade. Recorda-te que não foste tu, mas uma pecadora é que soube estar aos pés da Cruz e mereceu ver-me por primeiro. E para não seres digno de censura, sê imitador do teu Deus. Abre o coração e a Igreja, dizendo: “Eu, o pobre Pedro, não posso desprezar, porque, se desprezar, serei desprezado por Deus e o meu erro ficará novamente vivo a Seus olhos.” Ai de ti se Eu não tivesse te despedaçado assim! Terias te tornado não um pastor, mas um lobo.

627.17Jesus se levanta. Majestoso.

– Meus filhos. Agora Eu vos falarei durante o tempo em que Eu estiver entre vós. Mas, enquanto isso, Eu vos absolvo e perdoo. Depois da prova, que foi aviltante e cruel, mas que também foi salutar e necessária, venha a vós a paz do perdão. E com essa paz no coração, tornai-vos meus amigos fiéis e fortes. O Pai me mandou a este mundo. E Eu vos mando pelo mundo a fim de continuardes a minha evangelização. Misérias de toda sorte virão sobre vós pedindo alívio. Sede bons, pensando em vossa miséria, quando ficastes sem o vosso Jesus. Sede iluminados. Nas trevas não se pode ver. Sede puros, para ensinardes a pureza. Sede amor, para poderdes amar. Depois virá Aquele que é Luz, Purificação e Amor. Mas enquanto Ele não chega, a fim de preparar-vos para este ministério, Eu vos comunico o Espírito Santo. A quem perdoardes os pecados, estarão perdoados. E a quem os retiverdes, ficarão retidos. A vossa experiência vos faça justos, para julgardes. O Espírito Santo vos faça santos, para santificardes. A vontade sincera de corrigir-vos de vossas faltas vos torne heroicos para a vida que vos espera. Tudo o que estou por dizer, Eu vo-lo direi quando aquele que está ausente tiver chegado. Rezai a ele. Permanecei em minha paz, e sem nenhuma ansiedade ou dúvida sobre o meu amor a vós.

E Jesus desaparece, como havia entrado, deixando um lugar vazio entre João e Pedro. E Ele desaparece no meio de um vivo clarão, que os faz fechar os olhos, de tão forte que é. E, quando os olhos ofuscados se abrem, percebem somente que a paz de Jesus ficou entre eles como uma chama que queima e que cura, que consome as amarguras do passado e as transforma em um único desejo: o de servir.

1 salmo de Davi, isto é: Salmo 23.
2 um lustro: equivalente a cinco anos (NDT).


1
2
3
4