445. 445. Duas parábolas durante uma tempestadeem Tiberíades. Chegada de Maria Santíssima eimpenitência de Judas Iscariotes.
3 de junho de 1946.
445.1 Jesus chega com os seus a Tiberíades numa manhã tempestuosa. Chega pelo caminho mais curto, que vai de Tariqueia a Tiberíades, tendo ido com as barcas que estão balouçando fortemente sobre o lago muito encapelado e pardacento, como também está o céu sobre o qual passam voando, desenfreadamente, umas nuvens borrascosas, que não prometem coisa boa.
Pedro perscruta o céu e o lago e dá ordem aos empregados para que coloquem as barcas em lugar seguro:
– Daqui a pouco, ireis ouvir uma música! Eu não serei mais Simão, o pescador, se os vagalhões do céu e os do lago não fizerem estragos. Não haverá ninguém no lago? –pergunta ele a si mesmo, olhando para o agitado mar da Galileia.
Vê que ele está deserto, percorrido somente por aqueles vagalhões, cada vez mais fortes, por baixo da capa de um céu sempre mais ameaçador. Pedro se consola, ao ver que no mar não há ninguém e por isso não haverá vítimas humanas, continua a acompanhar mais contente o Mestre, que vai para a frente, por entre as lufadas de um vento tão forte que os homens se esforçam para acompanhar com dificuldade, por entre nuvens de poeira, com suas vestes firmemente esvoaçantes.
Em Tiberíades, nesta parte da periferia da cidade, onde moram as famílias dos pescadores e dos pequenos operários que se ocupam em trabalhos ligados à pesca, há um grande vaivém dos que estão pondo dentro de casa tudo o que o temporal poderia estragar: um vai correndo carregado de redes ou com os remos das barcas, já postas em segurança, outro vai arrastando para casa as ferramentas de trabalho. Tudo vai sendo feito ao som do assobio dos ventos, sob a passagem das nuvens de poeira e ao bater das portas. A outra Tiberíades, que fica mais ao norte, a dos palácios que se estendem ao longo do lago, dos belos parques que se veemee sobre a curva da margem, está dormindo ociosa. Somente os servos ou escravos, conforme as casas sejam de israelitas ou de romanos, estão atarefados em levantar e desarmar as tendas no alto dos terraços, em retirar as barcas ligeiras de esporte e as cadeiras espalhadas pelos jardins…
445.2 Jesus, que ia à frente para esse lado, diz a Simão Zelotes e a seu primo Judas:
– Ide perguntar ao porteiro de Joana de Cusa se nenhum dos nossos perguntou por nós, Eu fico esperando aqui.
– Está bem. E Joana?
– Nós a veremos logo. Ide e fazei o que estou mandando.
Os dois vão, apressados, enquanto os outros ficam esperando a volta deles, Jesus manda uns para um lado, outros para outro, a fim de procurarem alimento “para eles e para as mulheres, pois não é justo pôr o peso de todos sobre a família do discípulo”, diz Jesus. E fica sozinho, encostado ao muro de um jardim, do qual está vindo o barulho de um furacão, pois grande é a luta que as plantas altas estão suportando contra o vento.
Jesus está recolhido em Si mesmo e em suas vestes, que Ele cobriu bem com o manto puxado por sobre a cabeça e amarrado sobre ela como um capuz para defender-se da ventania, que lhe está jogando os cabelos sobre os olhos. Assim, todo empoeirado, com o rosto meio escondido pelas orlas do manto, onde a rua faz encruzilhada com uma outra bonita rua, que vem do lago para o centro da cidade, Jesus fica parecendo um mendigo à espera de esmola. Alguns passam e olham para Ele. Mas, visto que Ele não diz nada, não pede nada, fica assim com a cabeça inclinada, ninguém para e não lhe dá nada, nem lhe pergunta nada. Enquanto isso, a borrasca vem aumentando de intensidade, o barulho do lago cresce de violência, enchendo a cidade toda com o seu mugido.
445.3 Um homem alto, que vem vindo inclinado para proteger-se do vento, também vem todo enfaixado em seu manto, que está apertado por sua mão abaixo da garganta, aproxima-se da estrada que vem do interior para o litoral, e, ao levantar do chão o seu olhar, para se desviar de uma fila de burrinhos dos hortelãos, estes já tendo levado suas verduras para os homens da feira, estão voltando para suas hortas, vê Jesus (e eu vejo que o jovem é Judas de Keriot).
– Oh! Mestre! –diz ele, do outro lado da fila dos asnos–. Eu vinha justamente à casa de Joana para te procurar. Estive em Cafarnaum para procurar-te, mas…
O último asno passou e Judas se apressa em aproximar-se do Mestre para terminar assim o que ele estava dizendo:
– … mas em Cafarnaum, não havia ninguém. Fiquei esperando alguns dias, depois voltei para cá, e todos os dias eu ia as casas de José e de Joana para procurar-te…
Jesus olha para ele, com seus olhos penetrantes, e faz parar aquela cachoeira de palavras, dizendo somente isto:
– A paz esteja contigo.
– É verdade! Eu nem te saudei! A paz esteja contigo, Mestre. Mas Tu tens sempre essa paz!
– E tu, não?
– Eu sou um homem, Mestre!
– O homem justo sempre tem paz. Somente o homem culpado é que vive sempre perturbado. Tu és assim?
– Eu?… Não, não, Mestre. Pelo menos… É certo, se devo dizer a verdade, que estar longe de Ti não me fazia feliz… mas isso ainda não era estar privado da paz. Era saudade de Ti pelo afeto que eu te tenho… mas a paz é uma outra coisa, não é mesmo?
– Sim. É uma outra coisa. As separações não ferem a paz do coração, se o coração do separado não faz coisas que a sua consciência lhe diz que poderiam entristecer ao amado, se ele as soubesse.
– Mas os ausentes não sabem, a não ser que alguém os informe.
Jesus olha para ele e fica calado.
445.4 – Estás sozinho, Mestre? –pergunta Judas, procurando mudar do assunto para assuntos mais fúteis.
– Estou esperando aqueles que Eu mandei à casa de Joana para saber dela se minha mãe já chegou de Nazaré.
– Tua Mãe? Fazes tua Mãe vir até aqui?
– Sim. Estarei com Ela em Cafarnaum durante o mês inteiro, indo de barca aos povoados da margem, mas voltando cada dia a Cafarnaum. Lá devem estar muitos discípulos…
– Sim… Muitos…
Judas perdeu a fala. Ficou pensativo…
– Não tens nada a dizer-me, Judas? Estamos nós dois sozinhos. Não te aconteceu nada, neste tempo de separação, nenhum fato sobre o qual sintas necessidade de ouvir a palavra do teu Jesus? –diz, docemente, Jesus, como que para ajudar o discípulo a confessar, fazendo que ele sinta todo o seu misericordioso amor.
– E Tu estás já sabendo de alguma coisa em mim que esteja necessitando da tua palavra? Se o sabes, eu em verdade não sei de nada que esteja precisando dessa palavra, então fala. É uma coisa pesada para um homem ter que ficar relembrando suas culpas e defeitos para confessá-los a um outro…
– Eu, que te estou falando, não sou um outro homem, mas…
– Não. És Deus. Eu sei. Por isso não é necessário que seja eu que fale. Tu sabes…
– Eu não sou um outro homem, mas sou o teu Amigo mais amoroso. Eu não te digo o Mestre, o superior, mas Eu te digo o Amigo…
– É sempre a mesma coisa. É sempre uma procura aborrecida a que se faz no passado sobre a qual se poderia ter censuras do amigo. E o pior é cair, além disso, é cair da estima do amigo, o que dói…
445.5 – Em Nazaré, no último sábado em que lá estive, Simão Pedro falou, inadvertidamente, a um companheiro, uma coisa sobre a qual devia calar-se. Não era uma desobediência voluntária, não era uma maledicência, não era uma coisa capaz de prejudicar o próximo. Simão Pedro a tinha dito a um coração honesto e a um homem sério, o qual, vendo que estava sem ser por sua vontade nem pela de Pedro, sendo levado ao conhecimento de uma coisa secreta, jurou que não teria mais transmitido a outros o segredo. Simão podia conservar a calma. Mas calmo ele não se conservou, antes que me confessasse a culpa, e logo… Pobre Simão! Ele achava que era uma culpa! Se no coração de meus discípulos não houvesse mais do que culpas iguais àquela e uma grande, bem grande humildade, uma grande confiança, um grande amor, como os teve Pedro, ah! Eu deveria proclamar-me Mestre de uma multidão de Santos!
– E com isto, queres dizer-me que Pedro é santo e eu não. É verdade. Eu não sou um santo. Expulsa-me, então…
– Não és humilde, Judas. É a soberba o que te arruina. E não me conheces ainda… –termina Jesus com muita tristeza.
Judas percebe que Ele está triste e murmura:
– Perdoa-me, Mestre!
– Sempre. Mas, procura ser bom, meu filho! Ser bom. Por que queres fazer o mal a ti mesmo?
Judas, se verdadeiras ou falsas eu não sei, está com algumas lágrimas presas por entre seus cílios, e vai refugiar-se entre os braços de Jesus chorando sobre os ombros dele. Jesus o acaricia por sobre os cabelos, murmurando:
– Pobre Judas! Pobre, pobre Judas, que vai procurando em outros lugares, onde não pode achá-la, a sua paz e quem o possa compreender.
– Sim. É verdade. Tens razão, Mestre. A paz está aqui. Entre teus braços… Eu sou um infeliz… Somente Tu me entendes e me amas… Tu somente. O estulto sou eu. Perdoa-me, Mestre.
– Sim. Procura ser bom, ser humilde. Se caíres, vem a Mim que te levantarei. Se fores tentado, vem correndo para Mim. Eu te defenderei de ti mesmo, de quem te odeia, de tudo. 445.6Mas, fica de pé. Estão chegando os outros…
– Um beijo, Mestre… Um beijo…
E Jesus o beija… Judas procura recompor-se… Sim, mas, em todo esse tempo, não confessou absolutamente as suas culpas, penso eu…
– Nós nos atrasamos um pouco, porque Joana já se havia levantado e o porteiro achou bom avisá-la. Ela virá durante o dia para prestar-te a sua reverência na casa de José –diz Tadeu.
– Na casa de José? Se vier toda a água que o céu está prometendo, aqueles caminhos vão virar uns brejos. Joana, com toda certeza, não virá a um casebre daqueles e ainda menos por aqueles caminhos. Melhor seria que nós fossemos a ela… –diz Judas, que já se recompôs bem.
Jesus não lhe responde, mas responde ao seu primo, perguntando:
– Nenhum dos nossos esteve com Joana?
– Nenhum, por enquanto.
– Está bem. Iremos a José. Os outros irão juntar-se conosco…
– Se tivéssemos a certeza de que as nossas mães estão já a caminho, eu iria ao encontro delas –diz Judas de Alfeu.
– Seria bom. Mas são muitos os caminhos que chegam a Tiberíades. E talvez elas não tenham pegado o principal.
– É verdade, Jesus… Vamos…
445.7 Vão indo depressa, por entre os primeiros relâmpagos, que riscam o céu pálido, e os primeiros ribombos dos trovões que ressoam pelas gargantas das colinas, que circundam quase completamente o lago. Entram na casa de José que, rodeada por aquele ar tempestuoso, parece ainda mais pobre e escura. De luminoso o que se vê é o rosto do discípulo e dos seus familiares por terem em sua casa o Mestre.
– Que não seja esta para Ti uma má hora, Senhor! –desculpa-se o barqueiro–. Com este lago, eu não pude pescar e… só tenho umas hortaliças.
– E o teu bom coração. Mas Eu já tomei providências. Chegarão agora os companheiros com todo o necessário. Não precisas afadigar-te, mulher… Podemos sentar-nos até no chão. Está tudo muito limpo. Tu és uma mulher trabalhadeira, Eu fiquei sabendo disso. E a ordem, que aqui estou vendo, prova que é verdade.
– Oh! A minha esposa! É a verdadeira mulher forte! A minha, a nossa alegria –proclama o barqueiro, sensibilizado pelo elogio que dela fez Jesus, que está sentado ao sopé do fogão, agora apagado, quase perto do chão, segurando entre os seus joelhos um menininho que o observa, espantado.
Já estão entrando, pelo meio dos primeiros pingos da chuva, os que foram fazer as compras, e sobre a soleira estão sacudindo os seus mantos, batendo as sandálias para não levarem água e barro para dentro de casa. É um fim do mundo de trovões, de relâmpagos e de ventania. O barulho do lago é como o de um acompanhamento ao estrondo dos raios e ao uivar dos ventos.
– Viva! O verão está molhando suas penas e dando descanso ao fogão… Depois estaremos melhor… Contanto que não estrague as videiras… 445.8Posso ir lá em cima para ver o lago? Quero ver com que disposição ele está…
– Vai, vai. A casa é vossa –responde o discípulo a Pedro.
E Pedro, só com a túnica, sai feliz por poder ir assistir à tempestade, sobe pela escadinha externa e fica no terraço a refrescar-se e a dar suas respostas aos lá de dentro, como se estivesse na ponte de sua barca e comandando as manobras. Os outros estão sentados aqui e ali, na cozinha, onde mal eles se enxergam, porque é preciso conservar a porta só meio aberta, por causa do aguaceiro; pela porta que está aberta, vem entrando um pouco de uma claridade esverdeada, apenas mais clareada pelos clarões breves e deslumbrantes dos relâmpagos.
Pedro torna a entrar, molhado como se tivesse caído no lago, e dá o seu parecer:
– Agora, temos o temporal sobre nossas cabeças. Ele vai-se afastando para a Samaria. Vai molhar o pessoal de lá…
– A ti ele já molhou! Estás pingando como uma bica –observa Tomé.
– Sim. Mas eu me sinto bem, depois de todo aquele calor.
– Vem para dentro. Ficar molhado assim na porta só pode te fazer mal –aconselha Bartolomeu.
– Naão! Eu sou madeira preparada… Eu comecei quando não sabia dizer nem pai, ficando na umidade. Ah! Como se pode respirar facilmente! Mas… a estrada… está como um rio… Se vísseis o lago. Ele está de todas as cores e ferve como uma panela. Nem mesmo se pode entender para onde vão as ondas. Elas fervem onde estão… Seria desejável que…
– Sim. Seria desejável. Os muros não se resfriariam mais, de tão quentes que estavam, por causa do sol. 445.9A minha videira já estava com as folhas enrola-das. Eu punha água no pé dela… mas nada! Que pode fazer um pouco d’água quando ao redor tudo é fogo? –diz José.
– Faz mais mal do que bem, meu amigo, diz Bartolomeu. As plantas precisam da água do céu, pois elas bebem também pelas folhas, sabes? Parece que não, mas assim é. As raízes, as raízes! Está bem. Também as folhas para alguma coisa aí estão, elas têm os seus direitos…
– Não te parece, Mestre, que Bartolomeu nos está propondo o assunto para uma bela parábola? –diz Zelotes, provocando a Jesus para que fale.
Jesus está ninando um menininho, que está com medo dos raios, e não diz a parábola, mas concorda, dizendo:
– E tu, como a proporias?
– Certamente mal, Mestre. Eu não sou como Tu…
– Dize-a, como souberes. Vai servir-vos muito o pregar com parábolas. Habituai-vos a isso. Eu te fico escutando, Simão…
– Oh!… Tu, Mestre. Eu… um estulto… Mas obedeço. Eu diria assim: “Um homem tinha uma bela videira. Mas, não sendo ele possuidor de uma vinha, sua videira havia sido plantada na pequena horta da casa, a fim de que subisse para o terraço, desse sombra e produzisse cachos. E muitos cuidados ele tomava com sua videira. Mas ela ia crescendo no meio das casas, perto da rua, e, por isso a fumaça das cozinhas e dos fornos e a poeira da estrada subiam para molestar a videira. Enquanto ainda desciam do céu as chuvas de Nisã, as folhas da videira se limpavam das impurezas, se fortaleciam com o sol e o ar, sem terem sobre sua superfície a feia crosta de sujeira para a estorvarem. Quando, porém, chegou o verão e a água não desceu mais do céu, a fumaça, a poeira e os excrementos dos passarinhos foram-se depositanto, em espessas camadas, sobre as folhas, ao mesmo tempo que o sol quente demais as ia secando. O dono da videira dava água às raízes que estavam dentro da terra, e por isso a planta não morria, mas ia vegetando com dificuldade, porque a água chupada pelas raízes subia apenas pelo interior e as pobres folhas nada aproveitavam dela. Ao contrário, do solo tórrido, molhado com pouca água, subiam a água, tornada quente, e as exalações que secavam as folhas, manchando-as com pústulas malignas. Enfim, veio uma grande chuva do céu sobre as folhas e escorreu ao longo dos ramos, dos cachos, do tronco, mitigou o ardor dos muros e do chão, e, tendo passado a tempestade, o dono da videira viu uma planta limpa, para gozar e produzir alegria, sob um céu sereno.” Aí está a parábola.
– Está bem. 445.10Mas, e a comparação com o homem?
– Mestre, isto faze-o Tu.
– Não. Tu. Estamos entre irmãos, não precisas ter medo de fazer má figura.
– Se é pela triste figura, dela eu não tenho medo, por ser uma coisa penosa. Pelo contrário, até gosto dela, porque serve para me tornar humilde. É que eu não gostaria de dizer coisas erradas…
– Eu irei te corrigindo.
– Oh! Então! Eis aqui. Eu diria: “Assim acontece com o homem que não vive ocupado nas hortas de Deus, mas vive no meio da poeira e da fumaça das coisas do mundo, coisas estas que lentamente vão criando sobre ele sujeira, talvez inadvertidamente, e ele se encontra esterilizado em seu espírito e sob uma crosta de humanidade tão espessa, que a aura de Deus e o Sol da Sabedoria não podem mais ajudá-lo. E inutilmente procura remediar o caso com um pouco de água apanhada para os usos pessoais, usada com tantos cuidados nas partes inferiores, que as partes superiores ficam sem ela… Ai do homem que não se limpa com a água do Céu, que o limpa das impurezas, que apaga os ardores das paixões e que verdadeiramente alimenta todo o eu.” Tenho dito.
– Falaste bem. Eu diria também que, com a diferença da planta, que é uma criatura privada do livre arbítrio e fincada na terra, por isso não podendo andar em busca do que lhe agrada nem evitar aquilo que lhe faz mal, o homem pode andar para ir buscar a água do Céu, para escapar da poeira, do ardor da carne e do mundo e do demônio. Seria assim mais completo o ensinamento.
– Obrigado, Mestre. Eu me lembrarei disso –responde Zelotes.
445.11 – Nós não somos uns solitários… vivemos no mundo… E por isso… –diz Judas de Keriot.
– Por que dizes “E por isso…? Queres dizer que Simão falou estultamente?” –pergunta-lhe Judas de Alfeu.
– Eu não digo isso. Digo que não podemos isolar-nos… devemos forçosamente estar cobertos pelas coisas que são do mundo.
– O Mestre e Simão dizem justamente que se deve procurar a água do Céu para nos conservarmos limpos, apesar de o mundo estar ao redor de nós –diz Tiago de Alfeu.
– Está bem. Mas estará a água do Céu sempre pronta para limpar-nos?
– Sim –diz, com segurança, João.
– Sim? E onde a encontras?
– No amor.
– O amor é fogo. Faz queimar ainda mais.
– É fogo, sim. Mas também é água que lava. Porque ele leva embora tudo o que é da Terra e dá tudo o que é do Céu.
– São operações que eu não entendo. Tira, põe…
– Sim. Eu não estou louco. Eu digo que tira de ti o que é humanidade e te dá o que vem de Deus, e que, por isso, é divino. E uma coisa divina só pode nutrir e santificar. Dia a dia o amor vai te limpando daquilo que o mundo te deu.
445.12 Judas está para rebater, mas o pequenino, que está no colo de Jesus, diz:
– Outra parábola bonita, bem bonita… para mim.
Isso criou um novo rumo para a discussão.
– Sobre o quê, menino? –pergunta condescendente, Jesus.
O pequerrucho olha ao redor de si, acaba encontrando. Aponta com um dedinho sua mãe, e diz:
– Sobre a mamãe.
– A mamãe é para a alma e para o corpo o que Deus é para eles. O que a mamãe te faz? Ela te vigia, cuida de ti, te ensina, te ama, toma cuidado para que não te machuques, te protege, como faz a pomba com os seus pombinhos, pondo-os sob as asas do seu amor. E a mãe é obedecida e amada, porque tudo o que ela faz é para o nosso bem. Também o bom Deus, e muito mais perfeitamente do que a mais perfeita das mamães, protege os seus filhos debaixo das asas do seu amor, dá-lhes assistência e os ensina, os ajuda, de noite e de dia pensa neles. Mas também o bom Deus, como é muito mais que a mamãe, porque a mamãe é o maior amor da terra, mas Deus é o maior e eterno amor da Terra e do Céu, é obedecido e amado, porque tudo o que Ele faz, o faz para o nosso bem…
– Também os raios? –interrompe o pequeno, que de raios tem grande medo.
– Também.
– Por quê?
– Porque eles limpam bem o céu e o ar…
– E depois vem o arco-íris! –exclama Pedro que, meio do lado de fora, meio do lado de dentro, tinha ficado calado.
E acrescenta:
– Vem, pombinho, que eu te faço ver. Olha só que bonito!
E de fato, a luz clareia tudo, porque a tempestade passou e um amplo arco-íris, partindo da margem do Hipo, lança sua faixa arqueada sobre o lago, sumindo, do outro lado, para além dos montes, lá para trás de Magdala.
Todos vão para a soleira, mas, para poderem ver o lago, devem tirar as sandálias, porque o pátio virou um charco de água amarelenta, que vai baixando lentamente. Da tempestade apenas sobra, como lembrança, o lago que também está amarelado, ainda com uma revolta das águas, já a caminho de se acalmarem. Mas o céu está sereno. O ar está leve. E as copas das árvores tomaram de novo suas cores.
445.13 E Tiberíades se reanima… sem demora se vê, vindo pela estrada, ainda cheia d’água e de lama, Joana e Jônatas, que levantam o rosto para saudar o Mestre, que está no terraço, e sobem rapidamente para ir prostrar-se, felizes… Os apóstolos estão falando uns com os outros, e somente Judas está no meio entre Jesus e Joana, por um lado, e os apóstolos pelo outro, somente ele fica separado, como um pensativo. Aposto que ele está bem atento, a escutar as palavras de Joana, cujo pensamento a respeito de Judas não foi possível descobrir, porque ela saudou a todos os apóstolos com esta única saudação: “A paz esteja convosco.”
Mas Joana está falando somente das crianças e da licença que o Cusa lhe deu para ir com a barca a Cafarnaum, enquanto o Mestre estiver lá. Então a suspeita de Judas se avoluma. E ele vai reunir-se aos seus companheiros…
Cheias de lama nas barras das vestes, mas com as roupas enxutas sobre o resto do corpo, vêm chegando a Virgem Maria e Maria de Alfeu, juntas com os cinco que as foram buscar. O sorriso de Maria, enquanto vai subindo a curta escadinha, está mais lindo do que o arco-íris que ainda continua no céu.
– É tua Mãe, Mestre –avisa-o Tomé.
Jesus vai ao encontro dela e todos os outros vão com Ele. E se felicitam, porque as mulheres não têm outro aborrecimento, senão aquele pouco de lama na barra de suas vestes.
– Nós paramos, aos primeiros pingos, na casa de um hortelão
–explica Mateus…
E pergunta:
– Estais nos esperando há muito tempo?
– Não. Chegamos ao romper do dia.
– Nós ficamos atrasados por causa de um infeliz… –diz André.
445.14 – Está bem. Agora que estais todos aqui, e que o tempo já está bom, eu diria que partíssemos à tarde para Cafarnaum –diz Pedro.
Maria, que sempre está de acordo, desta vez diz:
– Não, Simão. Não podemos partir se antes… Meu Filho, uma mãe recomendou-se a mim, a fim de que Tu — pois só Tu podes fazê-lo — convertas o coração de seu único filho homem. Eu te peço isso, escuta-me, porque eu o prometi… Perdoa-o. Dá-lhe o teu perdão…
– Já foi dado, Maria. Eu já falei dele ao Mestre… –interrompe-a Iscariotes, crendo que Maria esteja falando dele.
– Eu não estou falando de ti, Judas de Simão. Eu estou falando de Ester de Levi, nazarena, a mãe que morreu por causa do mau comportamento de seu filho. Jesus, ela morreu na noite em que Tu partiste. As invocações que ela fazia a Ti não eram para ela, pobre mãe martirizada por um filho infame, mas pelo seu filho… porque nós, mães de vós que sois filhos, não ficamos preocupadas conosco mesmas… Ela queria ver salvo o seu Samuel… Mas agora, agora que ela morreu, e que ele, tomado pelo remorso, parece ter ficado doido, não quer saber de nenhuma razão… Mas Tu podes, meu Filho, curar sua inteligência e seu coração…
– Ele está arrependido?
– Como queres que o esteja, se está desesperado?
– De fato, ter matado a mãe, dando-lhe um sofrimento contínuo só pode fazer desesperados… Não se viola impunemente o primeiro dos mandamentos de amor para com o próximo. Mãe, como queres que Eu perdoe, e que Deus dê paz ao matricida impenitente?
– Meu Filho, aquela mãe, lá da outra vida, está pedindo paz… Ela era boa… e sofreu muito…
– A paz ela terá.
– Não, Jesus. Não pode ter paz o espírito de uma mãe, se vê que seu filho está longe de Deus…
– É justo que de Deus ele esteja afastado.
– Sim, meu Filho. Sim. Mas pela pobre Ester… A última palavra dela foi uma oração por seu filho… E ela me disse que te contasse. Jesus, Ester, em sua vida, nunca teve uma alegria. Tu sabes disso. Dá-lhe, então, esta agora que ela está morta, dá ao seu espírito que está sofrendo por causa de seu filho.
– Minha Mãe, Eu procurei converter o Samuel nas permanências que Eu fiz em Nazaré. Mas inutilmente. Eu lhe falei, porque nele se havia extinguido o amor…
– Eu sei disso. Mas Ester ofereceu o seu perdão, os seus sofrimentos para que o amor nascesse em Samuel. E quem sabe? O atual tormento dele não poderia ser o amor que vem surgindo? Um amor doloroso, e alguém poderia até dizer: um amor inútil, visto que a mãe já não pode mais gozar dele. Mas Tu, e eu, sabemos, eu pela fé e Tu por conhecimento, que a caridade para com os mortos está sempre vigilante e perto de nós. Eles não se desinteressam e não deixam de saber o que está acontecendo aos seus queridos, que eles aqui deixaram… Ester pode ainda gozar desse amor tardio por ela do seu filho ingrato, que agora está transtornado pelo remorso. Ó meu Jesus, eu sei, este homem te causa repugnância, por causa da enormidade de sua culpa. Um filho que odeia sua mãe. Um monstro, para Ti que és todo amor para com a tua. Mas, justamente porque és todo amor para comigo, escuta-me. Vamos voltar juntos para Nazaré, logo. A viagem não me pesa, nada me pesa, se servir para salvar uma alma…
– Está bem. Venceste, Mãe… 445.15Judas de Simão, toma contigo José, e parte para Nazaré. E me trarás Samuel a Cafarnaum.
– Eu? Por que eu?
– Porque tu não estás cansado. Os outros, sim. Prova disso é que eles caminhavam, enquanto tu estavas repousando…
– Também eu estive caminhando. Estive em Nazaré te procurando. Tua Mãe bem o pode dizer.
– Os teus companheiros estiveram em Nazaré, todos os sábados, e agora estão voltando de um longo giro. Vai e deixa de discutir.
– É que… Em Nazaré não gostam de mim… Por que mandas logo a mim?
– Também de Mim eles não gostam, mas Eu sempre vou a Nazaré. Não é necessãrio ter amor a um lugar, para ir àquele lugar… Vai e não fiques discutindo, Eu te repito.
– Mestre, eu tenho medo dos loucos…
– O homem está transtornado pelo remorso, mas não está doido.
– Tua Mãe o disse…
– Eu te digo pela terceira vez: vai, e deixa de ficar discutindo. Não te poderá fazer senão bem meditar em uma coisa que pode fazer uma mãe sofrer…
– Tu me comparas a Samuel? Minha mãe é rainha em sua casa. E eu também não fico perto dela para controlá-la, nem a dar-lhe incômodos para me alimentar…
– Para as mães estas coisas não são incômodas. Mas é uma grande pedra, que as esmaga, a falta de amor dos filhos e o serem eles imperfeitos aos olhos de Deus e dos homens. Vai, Eu já te disse.
– Eu vou. E que direi ao homem?
– Que ele venha a Cafarnaum, à minha casa.
– Se ele não obedeceu nunca nem à sua mãe, queres que obedeça a mim, logo agora que está tão desesperado?
– E ainda não compreendeste que, se te estou mandando, é sinal de que já operei sobre o espírito de Samuel, tirando-o para fora do delírio, do remorso e do desespero?
– Eu vou. Adeus, Mestre. Adeus, Mãe. Adeus, meus amigos.
E lá se vai ele, mas sem entusiasmo, acompanhado por José que, ao contrário dele, se sente feliz por ter sido escolhido para aquela missão.
445.16 Pedro está cantarolando qualquer coisa por entre dentes…
Jesus lhe pergunta:
– Que é que estás dizendo, Simão de Jonas?
– Estou cantando uma velha canção do lago…
– E qual é ela?
– É assim: “É sempre assim: Agrada a pesca ao agricultor, não agrada pescar ao que é pescador.” E, na verdade, aqui se viu mais vontade de pescar no discípulo, do que no apóstolo…
Muitos estão rindo. Jesus não ri, mas suspira.
– Eu te entristeci, Mestre? –pergunta Pedro.
– Não. Mas não fiques sempre criticando.
– É por Judas que meu irmão se entristeceu –diz Judas de Alfeu.
– Cala-te, tu também, e especialmente no fundo do teu coração.
– Mas verdadeiramente Samuel já terá recebido o milagre? –pergunta, curiosamente e um pouco incrédulo, Tomé.
– Sim.
– Então é inútil que ele venha a Cafarnaum.
– É necessário. Eu não curei ainda completamente o coração dele. Ele deve ir por si mesmo procurar curar-se, isto é, procurar o perdão, com um sentimento santo. Mas eu fiz que ele esteja capaz de raciocinar de novo. Agora cabe a ele obter o resto, com sua livre vontade. Desçamos. Vamos para o meio dos humildes…
– Não para a minha casa, Senhor?
– Não, Joana. Tu poderás vir, quando quiseres à minha casa. Eles estão ocupados em seus trabalhos e Eu vou a eles…
Jesus desce do terraço, sai para a estrada, acompanhado pelos outros, e também por Joana, que mandou para casa Jônatas, e que está bem decidida a não separar-se de Jesus, uma vez que Jesus não está disposto a ir à casa dela.
Vão indo por entre as casinhas pobres, dirigindo-se para lugares cada vez mais pobres e periféricos… E a visão cessa aqui.