140. 140. Em Emaús, na casa do sinagogo Cléofas.Um caso de incesto. Fim do primeiro ano.


18 de abril de 1945.

140.1 João com o seu irmão, batem à porta de uma casa do povoado. Reconheço a casa onde entraram os dois discípulos de Emaús, em companhia de Jesus ressuscitado. Quando lhes foi aberta a porta, entram e com certeza conversam com alguém que não estou vendo. Depois saem e vão por um caminho, alcançando Jesus, que está com os outros, parado em um lugar afastado.

– Ele está, Mestre. E está todo feliz, por teres vindo mesmo. Ele nos disse: “Ide dizer-lhe que a minha casa é sua. Agora, eu também vou.”

– Então vamos.

Caminham por algum tempo e depois encontram o velho sinagogo Cléofas, visto em Águas Belas. Inclinam-se reciprocamente, mas depois o ancião, que parece um patriarca, ajoelha-se, com uma reverente saudação. Alguns cidadãos, ao verem isto, aproximam-se, curiosos.

O velho se levanta e diz:

– Eis o Messias prometido. Lembrai-vos deste dia, ó cidadãos de Emaús.

Uns observam com uma curiosidade toda humana, enquanto outros têm olhares de um religioso respeito. Dois abrem caminho e dizem:

– A paz esteja Contigo, Rabi. Nós também estávamos lá, naquele dia.

– A paz esteja convosco e com todos. Vim, como me havia pedido o vosso sinagogo.

– Farás milagres aqui também?

– Se houver aqui filhos de Deus, que creem e têm necessidade do milagre, certamente Eu o farei.

O sinagogo diz:

– Aqueles que querem ouvir o Mestre, vão à sinagoga. E também quem tiver doentes. Posso dizer isso, Mestre?

– Podes. Depois da hora sexta, Eu serei todo para vós. Agora Eu sou do bom Cléofas.

E seguido por um grupo de pessoas, prossegue ao lado do velho, até à sua casa.

– Eis o meu filho, Mestre. E a minha mulher. E esta é a mulher do meu filho, com seus meninos pequenos. Muito me desagrada que o outro filho esteja, junto com o sogro do meu filho Cléofas, em Jerusalém, em companhia de um infeliz daqui… Depois te direi. Entra, Senhor, com os teus discípulos.

Eles entram e comem alguma coisa, conforme os costumes dos hebreus. Depois aproximam-se do fogo, que está aceso em um grande fogão, pois o dia está úmido e frio.

– Daqui a pouco vamos sentar-nos à mesa. Convidei os notáveis do lugar. É uma grande festa hoje. Nem todos estão crendo em Ti. Mas tampouco são teus inimigos. São somente uns indagadores… Quereriam crer. Mas temos ficado decepcionados muitas vezes, nestes últimos tempos, a respeito do Messias. Há muita desconfiança. Bastaria uma palavra do Templo para acabar com toda dúvida. Mas o Templo… Eu tenho pensado que, vendo-te e ouvindo-te, assim, simplesmente, muita coisa se possa fazer neste sentido. Eu gostaria de dar-te verdadeiros amigos.

– Tu és um deles.

– Eu sou um pobre velho. Se eu fôsse mais jovem, te seguiria. Mas os anos pesam.

– Já me serves com o teu crer. Falas de Mim com a tua fé. Fica tranquilo, Cléofas. Eu não te esquecerei na hora da Redenção.

140.2 – Eis Simão com Hermes. Estão chegando –avisa o filho do sinagogo.

Levantam-se todos, enquanto entram dois de meia idade e de aspecto senhoril.

– Este é o Simão e este é o Hermes, Mestre. São verdadeiros israelitas. Mas são sinceros em seus espíritos.

– Deus se revelará aos seus espíritos. Por enquanto, que a paz desça sobre eles. Sem paz, não se ouve a Deus.

– Está dito também no livro dos Reis, falando de Elias.

– Estes são os teus discípulos? –pergunta o que tem o nome de Simão.

– Sim.

– São de todas as idades e lugares. E Tu, és Galileu?

– De Nazaré. Mas nascido em Belém, no tempo do censo.

– Então és belemita. Isto está confirmado por tua figura.

– É uma confirmação bondosa, para a fraqueza humana. Mas a confirmação mesmo está no sobre-humano.

– Em tuas obras, queres dizer –diz Hermes.

– Nelas e nas palavras, que o Espírito acende sobre os meus lábios.

– Já me foram repetidas por pessoas que te ouviram. Verdadeiramente grande é a tua sabedoria. E com ela pretendes fundar o teu Reino?

– Um rei deve ter súditos, que conheçam as leis do seu reino.

– Mas as tuas leis são todas espirituais!

– Tu o disseste, Hermes. Todas espirituais. Eu terei um reino espiritual. Para isso, tenho o código espiritual

– Mas, e a reconstrução de Israel, então?

– Não caiais no erro comum de tomar o nome Israel no sentido que ele tem no significado humano. Israel quer dizer “Povo de Deus.” Eu reconstituirei a liberdade e o poder verdadeiro deste povo de Deus e o reconstituirei, ao entregar ao Céu as almas, redimidas e tornadas conhecedoras das eternas verdades.

140.3 – Vamos sentar-nos à mesa. Eu vo-lo peço –diz Cléofas, que toma lugar com Jesus, ao centro.

À direita de Jesus está Hermes e ao lado de Cléofas está Simão, depois o filho do sinagogo e, nos outros lugares, os discípulos.

Jesus, a pedido do anfitrião, oferece e abençoa, e tem início a refeição.

– Estás vindo para estes lados, Mestre? –pergunta Hermes.

– Não. Estou indo para a Galileia. Aqui Eu virei de passagem.

– Como? Estás deixando Águas Belas?

– Sim, Cléofas.

– Aí vinham as turbas, não obstante fôsse inverno. Por que as decepcionas?

– Não Eu. Assim querem os puros de Israel.

– Que é isso? Por que? Que mal estavas fazendo? A Palestina tem muitos rabis, que falam onde querem. Por que isso não te é concedido?

– Não faças indagações, Cléofas. És velho e sábio. Não ponhas em teu coração um tóxico de amargo conhecimento.

– Mas talvez Tu estivesses ensinando doutrinas novas, julgadas perigosas, oh! certamente por erro de avaliação, por parte dos escribas e fariseus? Tudo o que de Ti sabemos não nos parece… não é verdade, Simão? Mas talvez nós não estejamos sabendo de tudo. Para ti, em que é que consiste a Doutrina? –pergunta Hermes.

– No conhecimento exato do Decálogo. No amor e na Misericórdia. O amor e a Misericórdia, esta respiração e este sangue de Deus, são a norma de minha conduta e da minha doutrina. E dela Eu faço a aplicação em todos os difíceis momentos de minha jornada.

– Mas isto não é uma culpa! É uma bondade.

– Foi julgado como culpa pelos escribas e fariseus. Mas Eu não posso mentir, quanto à minha missão, nem desobedecer a Deus, que me mandou como “Misericórdia sobre a terra.” Chegou o tempo da Misericórdia plena, depois dos séculos da Justiça. Esta é irmã da primeira. Como duas nascidas do mesmo ventre; mas, enquanto antes era mais forte a Justiça, e a outra somente temperava o seu rigor — porque Deus não pode proibir-se de amar — agora a rainha é a Misericórdia, e, como se alegra com isso a Justiça, que tanto sofria por ter que punir! Se olhardes bem, vereis facilmente que sempre existiram, desde que o Homem obrigou a Deus de usar de severidade. O subsistir da Humanidade, não é mais que a prova do que Eu digo. Na mesma punição de Adão está presente a Misericórdia. Deus podia reduzi-los a cinzas no seu pecado. Deu-lhes a possibilidade de fazer expiação, e na mulher, causadora de todo o mal, aviltada por isso, por ser causa do mal, fez brilhar uma figura de Mulher, causa do bem. Aos dois concedeu os filhos e os conhecimentos da existência. Ao assassino Caim, junto com a justiça, concedeu o sinal, e que era de Misericórdia, para que não fôsse morto. E à Humanidade corrompida concedeu Noé, para que a conservasse na arca e, em seguida, prometeu um pacto sempiterno de paz. Não mais o feroz dilúvio. Não mais. A Justiça cedeu, diante da Misericórdia. Quereis remontar Comigo a História Sagrada, até chegarmos a este meu momento? Vereis sempre, e cada vez mais vastas, repetir-se as ondas do Amor. Agora está cheio o mar de Deus, e ele te levanta, ó Humanidade, sobre as suas águas doces e serenas, te eleva para o Céu, limpa, bela, e te diz: “Eu te entrego ao meu Pai.”

Os três estão absortos e estupefatos, diante de tanta luz de amor. Depois Cléofas suspira:

– Assim é. Mas tal és só Tu! 140.4Que terá acontecido a José? Já deveria ter sido ouvido! Terá sido?

Ninguém responde.

Cléofas vira-se para Jesus:

– Mestre, uma pessoa de Emaús, cujo pai, há tempo, repudiou a mulher, a qual foi morar em Antioquia com um irmão, o qual era dono de um empório, incorreu em falta grave. Ele nunca tinha conhecido aquela mulher expulsa, e eu não indago as causas, depois de poucos meses de casamento. Nada ficou sabendo dela porque, naturalmente, o seu nome não se pronunciava mais naquela casa. Uma vez feito homem e tendo herdado do pai negócios e bens, pensou em casar-se e, tendo conhecido em Jope uma mulher, dona de um rico empório, a desposou. Agora, eu não sei como soube, tornou-se conhecido o fato de que aquela mulher era filha da mulher do pai dele. Por isso, pecado grave, embora, a meu ver, seja muito incerta a paternidade da mulher. José, atingido pela condenação, teve destruída, com um só golpe, a sua paz de fiel e a de marido. E ele não está sendo perdoado, não obstante, com grande dor, tenha repudiado a mulher, que talvez fôsse sua irmã, a qual, pela dor, foi atacada pela febre e morreu. Em consciência eu digo que, se não houvesse inimigos rondando os seus bens, ele não teria sido condenado. E Tu, que farias?

– O caso é muito grave, Cléofas. Quando vieste a Mim, por que não me falastes nele?

– Eu não queria afastar-te daqui…

– Oh! Mas não é por estas coisas que Eu sou expulso! Agora escuta. Materialmente há incesto. E por isso há punição1. Mas a culpa, para que seja moralmente culpa, deve ter como base a vontade de pecar. Esse homem terá conscientemente cometido incesto? Tu dizes que não. Então, onde está a culpa? Quero dizer: a culpa de ter querido pecar? Resta aquela da convivência com a filha do próprio pai. Mas tu dizes que é incesto se realmente ela fôsse filha. E mesmo que tal fosse, a culpa cessa ao cessar a convivência. Neste caso, houve esta cessação com certeza, não só pelo repúdio, mas pela morte que sobreveio. Onde Eu digo que o homem deveria ser perdoado, mesmo do aparente pecado. E digo que, uma vez que não existe condenação para o incesto dos reis, que permanece visível à luz do mundo, assim se deveria ter piedade desse doloroso caso, cuja origem remonta aquela licença de repúdio concedida por Moisés, para evitar males, se não mais graves, mais numerosos. Aquela licença que Eu condeno, porque a pessoa que tiver contraído núpcias, bem ou mal, deve viver com seu cônjuge e não repudiá-lo, favorecendo adultérios e situações semelhantes a esta. Além disso, Eu repito, para ser severo, é necessário que o seja na mesma medida para com todos. Primeiramente para consigo mesmo e com os grandes. Agora, que Eu saiba, ninguém, exceto o Batista, levantou a voz contra o pecado régio. Os que condenam, são imunes de culpas semelhantes ou piores ou então a elas tira a visão o nome e o poder, assim como o pomposo manto protege seus corpos, muitas vezes doentes por causa dos seus vícios?

– Bem dissestes, Mestre. Assim é. Mas em suma, Tu, quem és? –perguntam, ao mesmo tempo, os dois amigos do sinagogo.

140.5 Jesus não chega a responder, porque se abre a porta e entra Simão, o sogro do Cléofas filho.

– Bem-vindo! E então?

A curiosidade é tão viva, que ninguém pensa mais no Mestre.

– Então… condenação absoluta. Não aceitaram nem a oferta do sacrifício. José está cortado de Israel.

– Onde ele está?

– Aí fora. E está chorando. Procurei falar com os mais poderosos. Expulsaram-me como a um leproso. Agora… Mas… Aquele homem está arruinado. Em seus bens e em sua alma. Que quereis que faça?

Jesus se levanta e se encaminha para a porta, sem dizer uma palavra.

O velho Cléofas acha que Ele tenha ficado ofendido pelo descaso e diz:

– Oh! Mestre, perdoa! Mas é a dor por este fato que perturba minha mente. Fica, eu te peço!

– Eu fico, Cléofas. Só estou indo ao infeliz. Vinde Comigo, se quiserdes.

Jesus sai até o vestíbulo. A casa tem uma nesga de terreno na frente e uns pequenos canteiros, além dos quais passa o caminho. Jogado ao chão, sobre a soleira, está um homem. Jesus vai até perto dele, com as mãos estendidas. Atrás estão todos os outros, procurando ver.

– José, ninguém te perdoou? –diz Jesus com toda doçura.

O homem estremece, ao ouvir aquela voz nova e tão boa, depois de tantas vozes de condenação. Levanta o rosto e o olha espantado.

– José, ninguém te perdoou? –torna a dizer Jesus e se inclina para segurar as mãos do homem, procurando levantá-lo.

– Quem és? –pergunta o infeliz.

– Sou a Misericórdia e a Paz.

– Para mim não há mais Misericórdia nem paz.

– No seio de Deus isso sempre se encontra. Aquele seio está repleto dessas coisas, especialmente para os filhos infelizes.

– Mas minha culpa é tal que sou um cortado de Deus. Deixa-me, Tu, que com certeza és bom, para que não te contamines.

– Eu não te deixo. Quero trazer-te a paz.

– Mas eu estou… Tu quem és?

– Eu já te disse: a Misericórdia e a Paz. Sou o Salvador. Sou Jesus. Levanta-te. Eu posso o que quero. Em nome de Deus, te absolvo da tua involuntária contaminação. O outro mal não existe. 140.6Eu sou o Cordeiro de Deus que tira os pecados do mundo. A Mim foi deferido pelo Eterno todo julgamento. Quem crê em minha palavra terá a vida eterna. Vem, pobre filho de Israel. Restaura o teu corpo cansado e fortifica o teu espírito abatido. Bem outras culpas Eu perdoarei. Não. Não virá de Mim o desespero dos corações! Eu sou o Cordeiro sem mancha, mas não fujo das ovelhas feridas por medo de me contaminar. Pelo contrário, as procuro e as levo Comigo. Muitos, muitos são os que vão indo para completa ruína, por causa de uma severidade exagerada, até injusta, nos julgamentos. Ai daqueles que, por um rigor intransigente, levam um espírito a desesperar! Eles trabalham, não pelos interesses de Deus, mas pelos de satanás. Agora, estou vendo uma pecadora, ansiosa por sua redenção, sendo afastada do Redentor, vejo perseguido um sinagogo porque justo, vejo ser condenado alguém que, inadvertidamente, caiu em culpa. Muitas coisas estou vendo serem feitas, lá onde estão vivos o vício e a mentira. E assim como um muro, que tijolo a tijolo, vai-se erguendo e virando uma parede, assim as coisas que Eu já vi, e, no período de um ano já vi demais, estão levantando entre Mim e eles um muro de dureza. Ai deles quando tudo estiver levantado com os materiais dados por eles mesmos! Toma: bebe e come. Estás exausto. Depois, amanhã, virás Comigo. Não temas. Quando tiveres voltado a ter paz de espírito, estarás livre para pensar sobre o teu futuro. Agora não poderias fazê-lo, e seria perigoso deixar que o fizesses.

Jesus que levou o homem para a sala, e o forçou a sentar-se em seu lugar, também o serve e depois se dirige a Hermes e a Simão e diz:

– Esta é a minha Doutrina. Esta, e não outra. E não me limito a pregá-la. Mas a torno uma realidade. Quem tem sede de Verdade e Amor venha a Mim.

140.7Jesus diz:

– E com isto termina o primeiro ano de evangelização. Tomai nota disto. Que vos direi? Eu o dei porque era meu desejo que fôsse conhecido. Mas assim como com os fariseus, acontece o mesmo com este trabalho. O meu desejo de ser amado — conhecer é amar — é rejeitado por demasiadas coisas. E isto é para Mim, uma grande dor, o Mestre eterno ser aprisionado por vós…



1 há punição, estando às prescrições de: Levítico 18,6-18.29; 20,17.