310. 310. Com Pedro em Nazaré, Jesus organizaa partida de João de Endor e Síntique.
22 de outubro de 1975.
310.1 A manhã já está adiantada, quando Pedro chega, sozinho e inesperado, à casa de Nazaré. Está carregado como um carregador, trazendo cestas e sacolas. Mas está tão feliz que não sente nenhum peso nem cansaço.
A Maria, que lhe vai abrir a porta, dedica um sorriso feliz junto a uma saudação alegre e respeitosa. Depois pergunta:
– Onde está o Mestre com Marziam?
– Na saliência acima da gruta, mas do lado da casa do Alfeu. Creio que Marziam está colhendo azeitonas e Jesus certamente está meditando. Agora eu vou chamá-los.
– Eu trato disso.
– Mas, pelo menos, livra-te de todos esses pesos.
– Não, não. São surpresas para o menino. Eu gosto de vê-lo esbugalhar os olhos e rebuscar ansiosamente… São sua felicidade, meu pobre menino.
Sai para a horta, vai pôr-se debaixo da saliência e se esconde bem na cavidade da gruta, e depois grita, alterando um pouco a voz:
– A paz a Ti, Mestre.
E, em seguida, com a voz natural:
– Marziam!…
A vozinha de Marziam, que enchia de exclamações o ar tranqüilo, cala-se… Há uma pausa. Depois a vozinha, que parece de menina, do rapazinho, pergunta:
– Mestre, mas não era o meu pai aquele que chamou?
Talvez Jesus estivesse tão mergulhado em seus pensamentos, que nem ouviu nada, e o confessa simplesmente.
Pedro chama de novo:
– Marziam! –e depois ri com sua risada aberta.
– Oh! É ele mesmo! Pai! Meu pai! Onde estás?
Ele desce a cabeça abaixo da saliência e procura olhar pela horta. Mas não vê nada… Também Jesus avança e olha… Vê Maria que está sorrindo na porta, e João e Síntique, que a imitam lá do quarto que fica no fundo da horta, ao lado do forno.
Mas Marziam acaba com aquela demora e joga-se lá de cima da saliência, para ir cair bem perto da gruta, e Pedro já está pronto para pegá-lo, antes que ele toque no chão. É comovente a saudação dos dois. Jesus, Maria e os outros dois lá do fundo da horta o observam sorrindo, e depois todos se aproximam do grupinho de amor.
310.2 Pedro se livra como pode do aperto que lhe está dando o menino, para inclinar-se diante de Jesus, saudando-o novamente. E Jesus o abraça, abraçando junto com ele o menino que não se afasta do apóstolo, e que pergunta:
– E a mãe?
Mas Pedro responde a Jesus, que lhe perguntou:
– Por que vieste tão cedo?
– E achavas que eu podia passar tanto tempo sem ver-te? E depois… Depois a Porfíria, que não me dava sossego: “Vai ver Marziam. Leva-lhe isto. Leva-lhe aquilo.” Parecia que ela estava sabendo que Marziam estava no meio de ladrões, ou em algum deserto. Na outra noite, ela se levantou, e foi fazer as fogaças, naquela hora. E logo que elas ficaram cozidas, fez-me partir…
– Ah! As fogaças!… –grita Marziam. Mas depois fica em silêncio.
– Sim. Elas estão aqui dentro com os figos secos no forno, as azeitonas e as maçãs vermelhas. Depois ela fez para ti um pão untado. Além disso, te mandou os pequenos queijos feitos com o leite de tuas ovelhinhas. E depois há uma veste impermeável. E depois, e depois… Não sei o que mais. Como? Não tens mais pressa? Estás quase chorando. Oh! Por quê?
– Porque eu preferia que fosse ela quem me trouxesse todas essas coisas. Eu a quero bem, eu, sabes?
– Oh! Divina Misericórdia! Mas, quem o teria pensado? Se ela estivesse aqui para ouvir-nos, iria se derreter como manteiga.
– Marziam tem razão. Tu podias vir com ela. Certamente ela deseja vê-lo, depois de tanto tempo. Nós, mulheres, somos assim com os nossos meninos… –diz Maria.
– Bem. Dentro de pouco tempo o verá, não é, Mestre?
– Sim. Depois das Encênias, quando nós formos embora… Ou melhor… Sim, quando voltares, depois das Encênias, virás com ela. Estará com ele aqui por alguns dias, e depois, voltarão juntos para Betsaida.
– Oh! Que beleza! Aqui com duas mães!
O menino está alegre e feliz.
310.3 Entram todos na casa, e Pedro se livra dos seus embrulhos.
– Eis aqui: peixe seco, na salmoura e fresco. Tua mãe vai gostar. Aqui está aquele queijo fresco de que tanto gostas, Mestre. Aqui estão uns ovos para João. Esperemos que não se tenham quebrado… Não. Menos mal. Depois, a uva. Foi-me dada por Susana, em Caná, onde eu dormi. E depois… Ah! Depois isto! Olha, Marziam, como é louro! Parece feito dos cabelos de Maria…
E abre uma pequena moringa cheia de mel, que está escorrendo.
– Mas, para que tantas coisas? Tu ficaste sacrificado, Simão –diz Maria, diante dos pacotes e pacotinhos, dos vasos e moringas que estão sobre a mesa.
– Sacrificado? Não. Eu pesquei muito e fiquei com muito peixe. Isto quanto ao peixe. Quanto ao resto, são coisas de casa. Não custa nada e dá muita alegria levá-las. Além disso… Já chegaram as Encênias. É costume. Não é? Não queres provar o mel?
– Não posso –diz, sério, Marziam.
– Por quê? Estás doente?
– Não. Mas não posso comê-lo.
– Mas, por que?
O menino fica corado, mas não responde. Ele olha para Jesus, e se cala. Jesus sorri, e explica:
– Marziam fez um voto, para obter uma graça. Por quatro semanas, não pode comer mel.
– Ah! Bem! Tu o comerás depois… Segura a vasilha assim mesmo… Mas olha! Eu não podia crer que ele fosse assim… assim…
– Assim generoso, Simão. Quem começa a fazer penitência desde menino, encontrará facilmente o caminho da virtude por toda a vida –diz Jesus, enquanto o menino vai-se embora com sua vasilha nas mãos.
Pedro, o vê andar, admirado. Depois, pergunta:
– O Zelotes não está?
– Está na casa da Maria de Alfeu. Mas virá logo. Esta tarde dormireis juntos. 310.4Vem cá, Simão Pedro.
Eles saem, enquanto Maria e Síntique põem em ordem a sala, que está cheia de pacotes.
– Mestre… Eu vim para te ver e ao menino. É verdade. Mas também porque tenho pensado muito nestes dias, especialmente depois da vinda dos três zangões venenosos… aos quais eu disse mais mentiras do que os peixes que há no mar. Agora eles estão indo para o Getsêmani, pensando que vão encontrar João de Endor, e depois vão a Lázaro, esperando encontrar Síntique e a também a Ti. Que eles caminhem bastante!… Mas depois voltarão, e… Mestre, eles te querem aborrecer por causa daqueles dois infelizes…
– Eu já provi a tudo, há meses. Quando eles voltarem à procura destes dois perseguidos, não os acharão mais em nenhum lugar da Palestina. Estás vendo estes cofres? São para eles. Viste todas aquelas vestes dobradas perto do tear? São para eles. Estás surpreso?
– Sim, Mestre. Mas, para onde os mandas?
– Para Antioquia.
Pedro dá um pequeno assobio significativo, e pergunta:
– Para a casa de quem? E como irão?
– Irão para uma das casas de Lázaro. É a ultima que ele tem lá, onde seu pai governou em nome de Roma. E eles irão por mar…
– Ah! Ainda bem. Porque se João tivesse que andar com as pernas dele…
– Por mar. 310.5Tenho prazer também em poder falar-te nisto. Eu teria mandado Simão para te dizer “Vem”, a fim de preparar tudo. Escuta. Dois ou três dias depois das Encênias, nós partiremos daqui em grupos separados, para não chamar a atenção. Da comitiva faremos parte Eu, tu, teu irmão, Tiago e João e os meus dois irmãos, além de João e Síntique. Iremos a Ptolomaida! De lá, com uma barca, tu os acompanharás até Tiro. Lá arranjareis lugar em um navio, que vai para Antioquia, como se fôsseis prosélitos, que estão de volta para as suas casas. Depois, voltareis para trás e me encontrareis em Aqsib. Eu estarei no alto do monte o dia inteiro e, quanto ao resto, o Espírito vos guiará.
– Como? Tu não irás conosco?
– Eu seria muito notado. Quero dar paz ao espírito de João.
– E como farei eu, que nunca fui para fora daqui?
– Tu não és uma criança… e logo terás que ir para muito mais longe do que Antioquia. Eu confio em ti. Vê bem quanto te estimo.
– E Filipe e Bartolomeu?
– Eles virão ao nosso encontro em Jotapata, evangelizando enquanto nos esperam. Eu escreverei a eles, e tu lhes levarás a carta.
– E aqueles dois de lá, já estão sabendo qual vai ser o seu destino?
– Não. Eu deixo que eles façam a festa em paz.
– Hum! Pobrezinhos! Pensa só se alguém tem que ser perseguido por criminosos de espírito e…
– Não sujes a boca, Simão.
– Sim, Mestre… Escuta… Mas, como vamos fazer para levar estes cofres? E para levar João? Ele me parece estar mesmo muito doente.
– Arranjaremos um burro.
– Não. Arranjaremos uma pequena carroça.
– E quem a guiará?
– Ora! Se Judas de Simão aprendeu a remar, Simão de Jonas aprenderá a guiar. Não deve ser coisa difícil conduzir um burro com a rédea. Na carrocinha poremos os cofres e aqueles dois… e nós iremos a pé. Sim, sim.É bom fazer assim. Podes crer.
– E a carroça, quem no-la dará? Lembra-te de que Eu não quero que se note a partida.
Pedro fica pensando… E decide:
– Tens dinheiro?
– Sim. E muito ainda, das jóias de Misaque.
– Então, tudo é fácil. Dá-me uma certa importância. Vamos adquirir o burro e a carroça de alguém, o que é fácil. Depois, daremos o burro a algum necessitado e a carroça… veremos… E devo mesmo voltar com a mulher?
– Sim. É bom.
– E bom será. 310.6Mas, aqueles dois pobrezinhos! Desagrada-me não termos mais João conosco. Já o teremos por pouco tempo… Mas, coitado! Ele poderia morrer aqui, como Jonas…
– Não lho teriam permitido. O mundo odeia a quem o redime.
– Ele se mortificará…
– Eu acharei um argumento para fazê-lo partir elevado.
– Qual é?
– O mesmo que serviu para mandar embora Judas de Simão, aquele de trabalhar por Mim!
– Ah! Com a diferença de que em João isso vai ser santidade, ao passo que em Judas será só soberba.
– Simão, não murmurar.
– É mais difícil do que fazer um peixe cantar! É verdade, Mestre, não é murmuração… Mas parece-me que veio Simão com os teus irmãos. Vamos até lá.
– Vamos. E, silêncio com todos.
– Tu me dizes isso? Eu não posso calar a verdade, quando falo, mas eu sei calar-me completamente, quando quero. E eu quero. Jurei a mim mesmo. Eu irei até Antioquia! No topo do mundo! Oh! Nem vejo a hora de já ter voltado! E não vou dormir, enquanto não estiver tudo feito…
Eles saem, e eu não sei mais nada.