569. 569. Em Silo, a parábola dos maus conselheiros.
27 de fevereiro de 1947.
569.1Jesus está falando lá do meio de uma praça arborizada. O sol, que já está começando a se pôr, ilumina ainda a praça com uma luz amarela esverdeada e filtrada, passando pelo meio das flores novas de uns plátanos gigantes. Fica parecendo que sobre a vasta praça tenha sido estendido um toldo leve e precioso, que pode filtrar a luz solar sem criar-lhe obstáculos.
Diz Jesus:
– Ouvi. Uma vez um grande rei mandou para uma parte do seu Reino, que ele queria provar se lhe era fiel, o seu filho amado, dizendo a ele: “Vai, percorre todos os lugares, faze benefícios em meu nome, instruí o povo sobre mim, faze que eu seja conhecido e amado. Eu te dou todo poder, e tudo o que fizeres estará bem feito.”
O filho do rei, tendo recebido a bênção do pai, foi para onde o pai o havia mandado e, levando consigo alguns dos seus escudeiros, seus amigos, pôs-se a percorrer incansavelmente aquela parte do reino de seu pai.
Ora, aquela região, por uma sucessão de acontecimentos desventurosos, havia-se subdividido em partes, uma contra outra, cada uma por sua conta, fazendo grandes clamores, e enviando insistentes súplicas ao rei, cada uma dizendo que era a melhor, a mais fiel, e que as vizinhas eram pérfidas e merecedoras de castigo. Assim sendo, o filho do rei se encontrou à frente de uns cidadãos cujos humores eram diferentes, conforme a cidade a que pertenciam, mas iguais em duas coisas: a primeira, que cada um se julgava melhor do que os outros, e a segunda era que queriam destruir a cidade vizinha e inimiga, fazendo que ela decaísse no conceito do rei. Mas justo e sábio como era, o filho do rei tentou então, com muita misericórdia, tratar com justiça cada uma das partes daquela região para torná-la toda unida e bem amada por seu pai. E como ele era bom, ia conseguindo, ainda que lentamente; porque, como sempre acontece, somente os de coração reto de cada uma das províncias da região é que seguiam os seus conselhos. Contudo, é justo dizê-lo, justamente lá onde com desprezo se dizia haver menos sabedoria e boa vontade, foi lá que ele encontrou mais boa vontade de ouvi-lo e de se tornarem sábios na verdade.
Então, os outros das províncias vizinhas disseram: “Se não começarmos a agir, a graça do rei irá para esses que nós desprezamos. Vamos, então, vamos subverter aqueles que nós odiamos; unamo-nos, fingindo que estamos convertidos e dispostos a depor os ódios para prestarmos honras ao filho do rei.” E começaram. Espalharam-se por entre as cidades da província rival, fingindo-se amigos, aconselhando, com falsa bondade, as coisas que haviam de ser feitas para honrar sempre mais e sempre melhor o filho do rei e, portanto, ao rei seu pai. Porque uma honra prestada ao filho é também sempre prestada a quem o mandou. Mas eles não honravam o filho do rei, pelo contrário, eles o odiavam fortemente, até o ponto de quererem torná-lo odioso aos súditos e ao próprio rei. Foram tão astutos em sua falsa bonomia, e tão bem souberam apresentar como ótimos os seus conselhos, que muitos da região vizinha acolheram como bom o que era mau, e deixaram o caminho justo que seguiam para tomar um injusto, e o filho do rei constatou que sua missão entre muitos ia fracassando.
569.2Agora, dizei-me vós: qual foi o maior pecador aos olhos do rei? Qual o pecado daqueles que aconselhavam e o daqueles que aceitaram o conselho? E vos pergunto ainda: com quem é que aquele rei bom terá sido mais severo? Não sabeis responder-me? Eu vo-lo direi.
O maior pecador aos olhos do rei foi aquele que instigou para o mal o seu próprio próximo, por ódio ao mesmo, pois queria rechaçá-lo para as trevas ainda mais profundas da ignorância, por ódio para com o filho do rei que queria sair-se bem em sua missão, fazendo-o parecer um incapaz aos olhos do rei e dos súditos, por ódio para com o próprio rei, porque se o amor dado ao filho é amor dado ao pai, igualmente o ódio dado ao filho é ódio dado ao pai. Portanto, o pecado daqueles que aconselhavam mal, com pleno conhecimento de que estavam aconselhando mal, era um pecado de ódio além de ser também pecado da mentira, de ódio premeditado, e o daqueles que aceitaram o conselho, crendo que ele era bom, era simplesmente um pecado de estultice.
Mas vós bem sabeis que é responsável por suas ações aquele que é inteligente, ao passo que quem por doença ou outra causa é estulto, não é responsável, mas os seus pais é que são responsáveis por ele. Por isso, enquanto um rapaz não tem maioridade, é tido como irresponsável e é o pai que responde pelas ações do filho. Por isso, o rei, que era bom, foi severo com os maus conselheiros inteligentes e benigno para com os que foram enganados pelos outros, e lhes fez apenas uma censura: a de terem acreditado neste ou naquele súdito antes de ter ido perguntar diretamente ao filho do rei, e saber dele quais eram em verdade as coisas que deviam ser feitas. Porque somente um filho é que sabe realmente as vontades de seu pai.
569.3Esta é a parábola, ó povo de Silo. De Silo, onde muitas vezes, no correr dos séculos, foram dados conselhos de diversos tipos, por Deus, pelos homens e por Satanás. Estes floresceram produzindo o bem quando eram conselhos de bem, ou foram rejeitados quando reconhecidos como conselhos de mal, e floresceram produzindo o mal se não foram acolhidos quando eram santos ou acolhidos quando eram maus.
Porque o homem tem esta magnífica liberdade de querer, e pode querer livremente, o bem ou o mal; e tem outro magnífico dom, o de uma inteligência capaz de discernir o bem e o mal e, por isso, não tanto o conselho em si mesmo, mas o modo com o qual pode ser aceito o faz merecer prêmio ou castigo. Porque se não há ninguém que proíba os maus de tentar o seu próximo para arruiná-lo, nada pode impedir aos bons de repelirem a tentação e permanecerem fiéis ao bem. Um mesmo conselho pode fazer mal a dez e ajudar a outros dez. Porque, se quem o segue fica prejudicado, quem não o segue ajuda a sua alma.
Por isso, ninguém diga: “Obrigaram-me a fazer.” Mas cada um diga sinceramente: “Eu quis fazer.” Tereis, assim, pelo menos o perdão que se dá aos sinceros. E se não tendes a certeza da bondade dos conselhos que recebestes, meditai antes de aceitá-los e de pô-los em prática. Meditai, invocando o Altíssimo, o qual não deixa nunca de dar as suas luzes aos espíritos de boa vontade. E se a vossa consciência, iluminada por Deus, vê, ainda que seja um só ponto pequenino, quase imperceptível, mas tal que não possa estar em nenhuma obra de justiça, então dizei: “Isto eu não farei, porque é justiça impura.”
569.4Oh! Em verdade Eu vos digo que quem fizer bom uso de sua inteligência e de sua liberdade de escolha, e invocar o Senhor para poder ver a verdade das coisas, não será arruinado pela tentação, porque o pai do Céu o ajudará a fazer o bem contra todas as insídias do mundo e de Satanás.
Lembrai-vos1 de Ana de Elcana, e lembrai-vos dos filhos de Eli. O anjo luminoso da primeira, tinha aconselhado Ana a fazer um voto ao Senhor se Ele a tivesse tornado fecunda. O sacerdote Eli aconselha os seus filhos a voltarem a ser fiéis e a não ficarem mais contra o Senhor. Pois bem. Ainda que o apego do homem ao que é material lhe torne mais fácil compreender a palavra de outro homem do que o discurso espiritual e impalpável (aos sentidos físicos) do Anjo do Senhor que fala ao espírito, Ana de Elcana acolhe o conselho, porque é boa e se conserva reta na presença de Deus, e dá à luz um profeta, enquanto que os filhos de Eli, mais afastados de Deus, não acolhem o conselho do pai e morrem punidos por Deus com uma morte violenta.
569.5Os conselhos têm dois valores: o valor da fonte da qual eles provêm, e isso já é uma grande coisa porque pode ter consequências incalculáveis; e o do coração ao qual eles foram dados. O valor que o coração dá a eles, ao qual eles foram propostos, é um valor não só incalculável, mas imutável. Porque se o coração é bom e segue o bom conselho, dá ao conselho o valor de obra justa; e se não o segue, tira a segunda parte do valor, ao mesmo tempo que continua como conselho, mas nada produz, pois o mérito dele será para quem o deu. E se o conselho é mau e não é acolhido pelo coração bom, tentado em vão com blandícias ou terrores para levá-lo à prática, então ele adquire um valor de vitória sobre o Mal e de martírio pela fidelidade ao Bem e, por isso, prepara um grande tesouro no Reino dos Céus.
Quando, pois, o vosso coração for tentado por outros, meditai, pondo-vos sob a luz de Deus, se isso pode ser palavra boa, e se, com a ajuda divina, que permite as tentações, mas não quer a vossa ruína, olhai se isso é ou não coisa boa, e sabei dizer a vós mesmos e a quem vos tenta: “Não. Eu continuo fiel ao meu Senhor, e que esta fidelidade me absolva dos meus pecados passados e me readmita, não do lado de fora, mas do lado de dentro nos confins dele, porque também para mim o Altíssimo mandou o seu Filho a fim de conduzir-me à salvação eterna.”
Ide. Se alguém precisar de Mim, vós sabeis onde estou descansando durante a noite. O Senhor vos ilumine.
1 Lembrai-vos quanto se narra em: 1 Samuel 1-2.
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