311. 311. A renúncia de Marziam provocauma lição sobre os sacrifícios feitos por amor.


23 de outubro de 1945.

311.1 Não sei se é no mesmo dia, mas suponho, por causa da presença do Pedro à mesa da família de Nazaré. A refeição já está quase no fim, e Síntique se levanta para pôr sobre a mesa maçãs, nozes, uvas e amêndoas para terminarem a ceia, pois já é tarde e as luzes já estão acesas.

Justamente sobre as luzes corre o discurso, enquanto Síntique traz as frutas. Pedro diz:

– Neste ano vamos acender uma luz a mais, e depois sempre mais, por ti, meu filho. Porque a queremos oferecer por ti, ainda que estejas aqui presente. É a primeira vez que a acendemos por um menino…

E Simão se comove um pouco, terminando:

– É verdade… se estivesses tu também aqui, seria mais bonito.

– No ano passado era eu, Simão, que suspirava assim pelo filho distante, e comigo Maria de Alfeu e Salomé, e também Maria de Simão, em sua casa de Keriot, e a mãe de Tomé…

– Oh! A mãe de Judas! Este ano ela terá consigo o filho… mas não creio que estará mais feliz… Deixemos para lá!… Nós estávamos em casa de Lázaro. Quantas luzes!… Parecia um céu de ouro e fogo. Este ano Lázaro está com sua irmã. Mas estou certo de dizer a verdade, se eu disser que suspirarão, pensando que Tu não estás. 311.2E no outro ano? Onde estaremos?

– Eu estarei muito longe… –murmura João.

Pedro se vira e olha para ele, pois ele está a seu lado, e está para perguntar uma coisa, mas felizmente consegue refrear-se, por causa de um sinal que lhe foi dado por uma olhada de Jesus.

Marziam pergunta:

– Onde estarás?

– Pela misericordia de Deus, espero estar no seio de Abraão…

– Oh! Queres morrer? Não queres evangelizar? Não te desagrada morrer, sem tê-lo feito?

– A palavra do Senhor deve sair de lábios santos. Já é muito que Ele me tenha permitido ouvi-la, e que me redima por ela. Eu teria gostado… Mas é tarde…

– Contudo, tu evangelizarás. Já o tens feito. E a ponto de atrair sobre ti a atenção. Por isso serás igualmente chamado discípulo evangelizador, ainda que não saias peregrinando para espalhar a Boa Nova, e terás na outra vida o prêmio reservado aos meus evangelizadores.

– A tua promessa me faz desejar a morte… Cada minuto de vida pode esconder uma cilada e eu, enfraquecido como estou, talvez nem pudesse superá-la. Se Deus me acolhe, em pagamento pelo que eu tiver feito, já não é uma grande bondade, que deve ser bendita?

– Em verdade, Eu te digo que a morte será uma grande bondade para muitos, que assim poderão conhecer até que ponto o homem se endemoninha, a partir de um ponto em que a paz os consolará com esse conhecimento e o transformará em um hosana, porque estará unido à alegria inexprimível da libertação do Limbo.

– E nos anos que vêm depois, onde estaremos, Senhor? –pergunta Simão Zelotes.

– Onde for do agrado do Eterno. Queres tu anotar com antecedência o tempo distante, quando não estamos seguros nem do momento que agora vivemos, nem se nos vai ser concedido chegar ao fim dele? Afinal, seja qual for o lugar onde forem celebradas as futuras Encênias, sempre será uma coisa santa se nele estiverdes reunidos para cumprir a vontade de Deus.

– Estareis? E Tu? –pergunta Pedro.

– Eu sempre estarei onde estiverem os meus amados.

Maria não falou nada. Mas os seus olhos não deixaram, nem por um momento, de perscrutar o rosto do Filho…

311.3 Fá-la estremecer a observação de Marziam, que diz:

– Por que, Mãe, não puseste à mesa as fogaças com mel? Jesus gosta delas, e a João fariam bem à garganta. Além disso, elas agradam também ao meu pai…

– E a ti também –termina Pedro.

– Para mim… é como se não existissem. Fiz uma promessa…

– Foi por isso, querido, que eu não as pus na mesa… –diz Maria acariciando-o, pois Marziam está entre Ela e Síntique, em um dos lados da mesa, enquanto que os quatro homens estão do lado oposto.

– Não, não. Podes trazê-las. Ou melhor: deves trazê-las. E eu as distribuirei a todos.

Síntique pega uma candeia, sai e volta com as fogaças. E Marziam as recebe numa bandeja, e começa a fazer a distribuição. A mais bonita, dourada, uma obra fina de confeitaria, ele a dá a Jesus. Outra, a segunda em perfeição, a Maria. Depois é a vez de Pedro, depois de Simão, depois de Síntique. Mas, para dá-la a João, o menino se levanta, e vai até o lado do velho e doente pedagogo, e lhe diz:

– Para ti, a tua e a minha, e também um beijo, por tudo o que me ensinas.

Depois ele volta ao seu lugar, colocando decididamente a bandeja no meio da mesa e cruzando os braços.

– Tu me fazes ficar zonzo de alegria com isto! –diz Pedro, vendo que Marziam não apanhou a dele.

E acrescenta:

– Pelo menos um pedacinho, ora, da minha, para não morreres de desejo. Estás sofrendo muito… Jesus te dá licença.

– Mas, se eu não sofresse, não teria merecimento, meu pai. Foi justamente por saber que me faria sofrer, que eu ofereci este sacrifício… E, afinal… Eu estou tão contente, desde que fiz isso, que me parece estar eu cheio de mel. Sinto o sabor dele em tudo e até me parece que o estou respirando com o ar…

– É porque estás morrendo de vontade…

– Não. É porque eu sei que Deus me diz “Estás fazendo bem, meu filho.”

– O Mestre te teria contentado, mesmo sem esse sacrifício. Ele te ama tanto!

– Sim. Mas não é justo que, porque eu sou amado, disso eu me aproveite. Ele o diz1, afinal, que grande é a recompensa no Céu, até por um copo d’água oferecido em seu nome. Penso que, se ela é grande por um copo d’água dado a outrem em seu nome, também o será por uma fogaça ou um pouco de mel negado a nós mesmos por amor de um irmão. 311.4Estou dizendo mal, Mestre? – Estás falando com sabedoria. Eu podia, de fato, conceder-te o que me estavas pedindo em favor da pequena Raquel, mesmo sem o teu sacrifício, porque era uma coisa boa a fazer-se e o meu coração a queria. Mas eu o fiz com mais alegria, porque ajudado por ti. O amor a nossos irmãos não se limita a meios e limites humanos, mas se eleva a lugares muito mais altos. Quando ele é perfeito, toca diretamente no trono de Deus, e se funde com sua infinita Caridade e Bondade. A Comunhão dos Santos é justamente este trabalho contínuo, como o de Deus que trabalha continuamente e com todos os meios, para ajudar aos irmãos, tanto em suas necessidades materiais como em suas necessidades espirituais, ou em ambas, como foi o caso de Marziam que, obtendo a cura de Raquel, aliviou o espírito abatido da velha Joana, e acendeu uma confiança sempre maior no Senhor, no coração de todos os daquela família. Se até uma colherada de mel oferecida em sacrifício pode servir para trazer de novo a paz e a esperança a um aflito, assim também a fogaça, que se deixa de comer por uma intenção de amor, pode obter um pão, milagrosamente oferecido. E a palavra de ira, por mais justa que seja, se for detida com espírito de sacrifício, pode impedir um delito em algum lugar longínquo, assim como resistir à vontade de colher um fruto, e feito por amor, pode servir para que seja dado um pensamento de arrependimento a um ladrão, e assim se possa frustrar um latrocínio. Nada se perde na economia santa do amor universal. Não. O heróico sacrifício de um menino, diante de um prato de fogaças, não é como o holocausto de um mártir. Pelo contrário. Eu vos digo que o holocausto de um mártir tem muitas vezes sua origem na educação heróica que ele aceitou desde a infância, por amor a Deus e ao próximo.

311.5– Então, é de fato bom que eu faça sempre sacrifícios. Para o tempo em que todos iremos ser perseguidos –diz convicto Marziam.

– Perseguidos? –pergunta Pedro.

– Sim. Não te recordas do que Ele disse2? “Sereis perseguidos por causa de Mim”, e tu mesmo mo disseste, quando foste pela primeira vez evangelizar sozinho em Betsaida, no verão.

– Lembra-se de tudo este menino –comenta Pedro, admirado.

A ceia termina. Jesus se levanta. Reza por todos e abençoa. E depois, enquanto as mulheres vão indo para os seus trabalhos de limpar e pôr em ordem a louça, Jesus com os homens vai colocar-se em um canto da sala, e está entalhando um pedaço de madeira que, sob a vista admirada de Marziam, vai-se transformando em uma ovelhinha…

1 o diz, em 265.13.
2 Ele disse, em 265.7.9.


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