595. 595. Terça-feira à noite no Getsêmani com os apóstolos.


7 de março de 1945.

595.1– Vós hoje ouvistes falar os gentios e os judeus. E vistes como os primeiros se inclinavam para Mim e como os segundos por pouco me espancavam. Tu, Pedro, pouco faltou para ires às vias de fato ao veres como de propósito me empurravam para cima dos cordeiros, dos carneiros e dos bezerros, para me fazerem rolar no chão por entre os excrementos. Tu, Simão, ainda que tão prudente como és, abriste a boca para insultar os membros do Sinédrio mais cheios de ódio, que rudemente me ofendiam, dizendo: “Afasta-te, demônio, enquanto passam os enviados de Deus.” E Tu, Judas, meu primo, e tu João, meu predileto, gritastes e, agindo com rapidez, me livrastes de ser atropelado, segurando o cavalo pelas rédeas, enquanto outro, colocando-se diante de Mim, recebeu o golpe da vara, que, com um riso de escárnio, estava dirigido contra Mim por Sadoque, que veio para o meu lado com o seu carro, com grande velocidade e, de propósito, sobre Mim.

Eu vos agradeço pelo vosso amor, que vos faz insurgir-vos1 contra os ofensores do Inerme. Mas havereis de ver bem outras ofensas e atos cruéis. Quando esta lua estiver sorrindo no Céu, pela segunda vez depois desta tarde, as ofensas que, por enquanto são só por palavras ou por ameaças, não mais que ofensas materiais, tornar-se-ão concretas, mais numerosas do que as flores que agora estão sobre as árvores frutíferas, e tanto mais se agrupam quanto mais pressa têm de florir. 595.2Vistes — e vos admirastes — uma figueira seca e todo um pomar sem flores. A figueira é como Israel: negou alimento ao Filho do homem e morreu no seu pecado. O pomar, como os gentios, espera a hora de que Eu falei hoje para florescer e anular a última lembrança da ferocidade humana, com a doçura das flores espalhadas sobre a cabeça e sob os pés do Vencedor.

– Em que hora, Mestre? –pergunta Mateus–. Tu falaste tanto e de tantas coisas hoje! Não me lembro bem. E quereria recordar-me de tudo. Talvez será a hora da volta de Cristo? Também aqui Tu falaste de ramos que se tornam tenros e soltam folhas.

– Não. Nada disso! –exclama Tomé–. O Mestre fala como sendo iminente essa conjura. Como pode, então, em pouco tempo, acontecer tudo aquilo que Ele diz2 que vai preceder a sua volta? Guerras, destruições, escravidão, perseguições, o Evangelho pregado a todo o mundo, a desolação da abominação na casa de Deus, e depois terremotos, pestes, falsos profetas, sinais no sol e nas estrelas… Ah! São necessários séculos para acontecer tudo isso! E o dono do pomar estaria bem arranjado se este tivesse que ficar esperando aquele tempo futuro para florescer!

– Não comeria mais de suas maçãs, porque eu digo que já será o fim do mundo –comenta Bartolomeu.

– Para chegar o fim do mundo, bastaria um pensamento de Deus e tudo voltaria ao nada. Por isso, também aquele pomar pouco teria que esperar. Mas, como eu disse, assim acontecerá. Portanto, ainda passarão séculos da situação atual até chegar aquela, ou seja, o definitivo triunfo e a volta de Cristo –explica Jesus.

– E então? A que hora?

– Ah! Eu sei a hora –chora João. – Eu sei. Ela será depois de tua morte e ressurreição…

E João lhe dá um abraço apertado.

– E tu choras se Ele ressurge? –caçoa Judas.

– Eu choro, porque antes terá que morrer. 595.3Não caçoes de mim, demônio. Eu compreendo. E não posso ficar pensando naquela hora.

– Mestre! Ele me chamou de demônio. Ele pecou contra o seu companheiro…

– Judas, sabes se não o mereces? Então, não fiques pensando na culpa dele. Eu também tenho sido chamado “demônio”, e ainda serei chamado assim.

– Mas Tu disseste que quem insulta o irmão é culp…

– Silêncio. Que diante da morte, terminem essas odiosas acusações, disputas e mentiras. Não perturbeis a quem está morrendo.

– Perdoa-me, Jesus –murmura João–. Eu percebi que alguma coisa se revolta dentro de mim ao ouvir aquela risada… e não pude conter-me.

João está ainda abraçado com Jesus, chorando sobre o seu coração.

– Não chores. Eu compreendo. Deixa-me falar.

Mas João não se separa de Jesus, nem mesmo quando Ele se senta sobre uma grande raiz exposta. Ainda fica com um braço atrás e o outro ao redor do peito, a cabeça sobre o ombro, e chorando sem fazer barulho. Somente brilham à luz da lua as gotas do seu pranto, que caem sobre a veste vermelha de Jesus e ficam parecendo rubis, gotas de um sangue pálido atingidas por uma luz.

595.4– Hoje vós ouvistes falar os judeus e os gentios. Por isso não vos deve espantar o que Eu digo3: “Da minha boca sempre saiu a palavra da justiça. E ela não será revogada.” Se Eu disser, sempre com Isaías, falando aos gentios que a Mim haverão de vir, depois que Eu tiver sido levantado da Terra: “Diante de Mim se dobrará todo joelho, por mim e em Mim jurará toda língua.” E assim não duvidareis depois que houverdes notado os modos dos judeus, o que é fácil dizer-se sem medo de errar, que a Mim serão conduzidos, envergonhados, todos os que agora se opõem a mim.

Meu Pai não me fez seu servo somente para fazer reviver as tribos de Jacó, para converter o que resta de Israel, os restos, mas me deu a luz das Nações, a fim de que Eu seja o “Salvador” para todas as partes da Terra. Por isso, nesses trinta e três anos, exilado do Céu e do seio do Pai para estar junto aos homens, tendo chegado à idade perfeita nestes últimos três anos depois de ter aquecido fortemente minha alma e minha mente na forja do amor, e tê-la temperado com o gelo da penitência, Eu fiz da minha boca como que uma espada cortante.

595.5O Pai Santo, que é meu e vosso, até agora me tem guardado sob a sombra de sua mão porque ainda não era hora da Expiação. Agora Ele me deixa ir. A flecha escolhida, a flecha de sua aljava divina, que depois de ter ferido para curar, ferido os homens para fazer uma abertura nos corações, a fim de aceitarem a Palavra e a Luz de Deus, agora vai rápida e certeira ferir a segunda Pessoa, a do Expiador, do obediente em tudo em lugar do Adão desobediente… E, como um guerreiro ferido, Eu caio, dizendo em lugar de muitíssimos: “Foi em vão que Eu me afadiguei sem razão, sem conseguir nada. Eu consumi as minhas forças à toa.”

Mas, não! Não, pelo Senhor Eterno, que não faz nada sem um propósito! Vai para trás, Satanás, que me queres fazer ceder ao desconsolo e me queres tentar, levando-me à desobediência! Para veres o começo e o fim do meu ministério é que tu vieste, e continuas a vir. Pois bem. Eis que Eu me levanto (e realmente Ele se põe de pé) para a batalha. Eu vou medir-me contigo. Eu juro a Mim mesmo que te vencerei. Não é orgulho dizer isso. É verdade. O Filho do Homem será em sua carne vencido pelo homem, esse miserável verme que morde e envenena com sua lama podre. Mas o Filho de Deus, a Segunda Pessoa da indizível Trindade, não será vencida por Satanás. Tu és o ódio. E és poderoso em teu odiar e em teu tentar. Mas comigo haverá uma força que te afugenta, porque tu não a podes atingir e não a podes nem fitar. O Amor está comigo!

595.6Eu sei qual é a tortura desconhecida que me espera. Não é aquela que amanhã Eu vos direi, a fim de que saibais que nada de tudo o que para Mim se fazia, que nada de tudo que em vossos corações se planejava, fosse para Mim desconhecido. Mas a outra tortura… Aquela que é dada ao Filho do homem não com lanças e bastões, nem com escárnios e pauladas, mas pelo próprio Deus; e que não será conhecida senão por poucos, por causa daquilo que ela tem de atrocidade, e aceita como possível por ainda menos. Mas naquela tortura, na qual dois serão os principais torturadores: Deus, com sua ausência, e tu, demônio, com a tua presença, a Vítima terá consigo o Amor. O Amor que vive na Vítima, a primeira força para a sua resistência à prova, e o Amor no confortador espiritual, que já está batendo suas asas de ouro pelo desejo de descer para enxugar os meus suores, e vai recolhendo todas as lágrimas dos anjos no cálice celeste e nele dissolve o mel dos nomes dos meus redimidos e dos que me têm amor, a fim de mitigar com aquela bebida a grande sede do Torturado e sua amargura sem medida.

E tu serás vencido, demônio. Um dia, saindo de um possesso, tu me disseste4: “Espero vencer-te quando fores um molambo de carne sangrenta.” Mas agora eu te respondo: “Não me vencerás. O vencedor serei Eu. A minha fadiga foi santa e a minha causa está com o meu Pai. Ele defende o que foi feito por seu Filho e não permitirá que se desvie o meu espírito.”

Pai, Eu te digo, desde agora, Eu te digo por aquela hora atroz: “Em tuas mãos Eu entrego o meu espírito.”

595.7João, não me deixes… Vós, ide. A paz do Senhor esteja onde Satanás não está hospedado. Adeus.

Tudo termina.

1 vos faz insurgir-vos, como se intui no último parágrafo de 594.5.
2 tudo aquilo que Ele diz, tendo já acenado (por exemplo, em 265.7/10) aos temas do discurso escatológico que deve ainda fazer.
3 digo, início das citações ou alusões referidas em: Isaías 45,23-25; 49,2-6.
4 tu me disseste, em 420.6.


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