225. 225. O paralítico da piscina de Betsaidae a discussão sobre as obras do Filho de Deus.
21 de julho de 1945.
225.1 Jesus está em Jerusalém, e se encontra precisamente nas adjacências da fortaleza Antônia. Com Ele estão todos os apóstolos, menos Iscariotes. Uma grande multidão se dirige, apressada, para o Templo. Todos estão com vestes de festa, tanto os apóstolos, como os outros peregrinos, e, por isso, eu acho que eram os dias de Pentecostes. Muitos pedintes de esmola se misturam ao povo, queixando-se de suas misérias, com cantos tristes e monótonos que comovem os corações, e procuram os melhores pontos, aos lados das portas do Templo, ou nas encruzilhadas, das quais o povo se dirige para ele. Jesus passa, fazendo o bem a estes miseráveis, que só pensam em fazer uma exposição completa de suas misérias, além da narração de cada uma delas.
Tenho a impressão de que Jesus já tinha estado no Templo, porque ouço que os apóstolos estão falando de Gamaliel, que teria feito como se não os visse, ainda que Estêvão, um dos seus ouvintes, lhe tivesse dado notícia da passagem de Jesus por ali.
Estou ouvindo Bartolomeu, que pergunta aos seus companheiros:
– Que terá querido dizer aquele escriba com aquelas palavras: “Um grupo de carneiros não bons nem para o corte?”
– Deverá ter falado de qualquer negócio dele –responde Tomé.
– Não. Ele se referia a nós. Eu vi logo. E, além disso, a segunda frase dele vinha confirmar a primeira. Ele disse com sarcasmo: “Daqui a pouco, o Cordeiro vai ser Ele, primeiro tosado, e depois morto.”
– Sim, eu também ouvi isto –confirma André.
– É verdade. E eu estou queimando de vontade de voltar lá atrás e perguntar ao companheiro do escriba o que ele sabe de Judas de Simão –diz Pedro.
– Ora, ele não sabe nada! Desta vez Judas não está aqui porque está realmente doente. Nós sabemos disso. Talvez ele tenha até sofrido muito com a viagem que fez. Nós somos mais fortes do que ele. Aqui foi que ele viveu comodamente. Ele facilmente se cansa –responde Tiago de Alfeu.
– Sim, nós sabemos disso. Mas aquele escriba disse: “Está faltando o camaleão do grupo.” O camaleão não é aquele que muda de cor todas as vezes que quer? –pergunta Pedro.
– Sim, Simão. Mas certamente quiseram falar assim por causa das sempre novas roupas dele. Pensa nisto. Ele é jovem. Tenhamos pena dele –diz, conciliador, Zelotes.
– Isso também é verdade. Mas!… que frases curiosas essas –conclui Pedro.
– Sempre fica parecendo que estão nos ameaçando –diz Tiago de Zebedeu.
– É que nós sabemos que estamos ameaçados, e passamos a ver ameaças até onde não há… –observa Judas Tadeu.
– E vemos culpas até onde elas não existem –termina Tomé.
– É certo. A suspeita é feia… Quem sabe como estará hoje Judas. Neste meio tempo ele estará se aproveitando daquele paraíso, com aqueles anjos… Também eu continuaria aqui, até ficar doente, para depois ter todas aquelas delícias! –diz Pedro.
E Bartolomeu lhe responde:
– Nós esperamos que ele fique bom logo. Precisamos terminar a viagem, porque o calor nos persegue.
– Oh! Cuidados não lhe faltam, e, além disso… o Mestre providencia –garante André.
– Ele estava com muita febre, quando o deixamos. Não sei como é que ela veio assim… –diz Tiago de Zebedeu.
E Mateus lhe responde:
– Como é que veio a febre! Porque ela tem que vir. Mas, não há de ser nada. O Mestre não está preocupado. Se tivesse visto alguma coisa grave, não teria deixado o castelo da Joana.
225.2 De fato, não está preocupado. Ele conversa com Margziam e João, enquanto vai à frente distribuindo esmolas. Com certeza vai explicando ao menino muitas coisas, pois eu estou vendo que Ele lhe mostra uma ou outra coisa. Ele se dirigiu para o fim dos muros do Templo, no canto noroeste. Lá está uma grande multidão, que vai indo para um lugar cheio de pórticos, situado à frente de uma porta, que eu ouço ser chamada “Porta do Rebanho.”
– Esta aqui é a Probática, a piscina de Betsaida. Agora, olha bem a água. Estás vendo como está parada? Daqui a pouco, verás como ela se põe em movimento e sobe, chegando até àquela marca úmida. Tu a estás vendo? Aí, então, desce o Anjo do Senhor, e a água o percebe e o venera como pode. Ele dá uma ordem à água, para que ela cure o homem que estiver pronto para mergulhar nela. Estás vendo quantas pessoas? Mas são muitos os que ficam distraídos, e não notam o primeiro movimento da água. Ou, então são os mais fortes que, sem caridade, afastam os mais fracos. Não se deve nunca estar distraído diante dos sinais de Deus. É preciso estar com a alma sempre vigilante, porque nunca se sabe quando Deus vai-se mostrar, ou vai mandar o seu anjo. E nunca devemos ser egoístas, nem mesmo por causa da saúde. Muitas vezes, por estarem discutindo de quem é a vez, ou quem é que precisa mais, esses pobres infelizes perdem o benefício da vinda do anjo.
Jesus explica pacientemente a Margziam, que fica olhando para ele com uns olhos bem arregalados, atentos e, enquanto isso, os tem voltados também para a água.
– Pode-se ver o anjo? Eu gostaria de vê-lo.
– Levi, que era um pastor da tua idade, o viu. Olha bem, tu também e fica preparado para louvá-lo.
O menino não se distrai mais. Seus olhares estão dirigidos para a água e para acima da água, alternativamente, e não ouve nada, não vê nada mais. Enquanto isso, Jesus está olhando aquele pequeno grupo de enfermos, cegos, estropiados, paralíticos, que estão esperando. Também os apóstolos estão observando atentamente. O sol faz jogos de luz na superfície da água e invade, como um rei, as cinco ordens de pórticos, que estão ao redor das piscinas.
– Ei-lo aí! –grita Margziam–. A água vem subindo e se move e brilha. Que luz! Eis o Anjo!… –e o menino se ajoelha.
De fato, com o movimento do líquido na piscina que parece crescer por um fluxo, que se torna repentinamente grande elevando a água até às bordas, ela está brilhando como um espelho exposto ao sol. Por um instante, se manifesta um clarão ofuscante.
Um coxo está preparado para mergulhar na água e para dela sair, pouco depois, com uma perna que estava encolhida por uma grande cicatriz e agora perfeitamente curada. Os outros se lamentam, e discutem com o recém curado, dizendo que afinal ele não estava agora mais impedido de trabalhar, mas eles sim. E a balbúrdia continua.
225.3 Jesus olha ao redor, e vê um paralítico em seu pequeno leito, que está chorando baixinho. Vai para perto dele, inclina-se e o acaricia, perguntando-lhe:
– Estás chorando?
– Sim. Ninguém pensa jamais em mim. Aqui estou sempre, aqui estou. Todos ficam curados, e eu não. Há trinta e oito anos que estou deitado de costas, gastei tudo o que tinha, meus parentes morreram e agora eu sou um peso para um meu parente de longe e que me traz para cá todas as manhãs, e me vem apanhar pela tarde… Mas, como lhe deve ser pesado fazer isso! Oh! Eu gostaria antes morrer!
– Não fiques triste! Já tiveste tanta paciência e tanta fé! Deus te atenderá.
– Assim espero… Mas sempre há momentos de desânimo. Tu és bom. Mas os outros… Quem já foi curado, poderia, como um agradecimento a Deus, ficar aqui para socorrer os pobres irmãos…!
– De fato, deveria fazer isso. Mas, não fiques com raiva deles. Eles nem pensam nisso. Não é má vontade deles. É a alegria por terem ficado curados que os torna egoístas. Perdoa-os…
– Tu és bom. Tu não farias como eles fazem. Eu me esforço com as mãos para ir-me arrastando até lá, quando a água da piscina se põe em movimento. Mas vai sempre alguém na minha frente e na beira eu não posso ficar, pois lá eu seria pisoteado. E, mesmo que eu estivesse lá, quem me desceria? Se eu te tivesse visto antes, eu te teria pedido…
– Queres mesmo ficar bom? Então, levanta-te! Pega o teu pequeno leito e anda!
Jesus se levantou de novo para dar esta ordem e até parece que Ele, ao levantar-se, com isso levantou o paralítico, porque este se põe de pé e depois dá uns dois ou três passos, quase sem acreditar no que está fazendo, e vai atrás de Jesus, que já se vai afastando dali, e, uma vez que vê que está andando de verdade, dá um grito, que faz que todos se virem para ele.
– Mas, quem és tu? Em nome de Deus, dize-o a mim. És talvez o Anjo do Senhor?
– Eu sou mais do que um anjo. O meu nome é Piedade. Vai em paz.
Todos se aglomeram. Todos querem ver. Querem falar. Querem ficar sãos. Mas chegam os guardas do Templo, que eu creio que vigiam também a piscina, e desfazem aquela aglomeração barulhenta, ameaçando a todos com punições.
O paralítico apanha o seu pequeno leito: são dois varais sobre dois pares de pequenas rodas e um pano rasgado pregado nos varais, e ele lá se vai todo feliz, gritando para Jesus:
– Eu ainda te encontrarei de novo. Não me esquecerei do teu nome e do teu rosto.
225.4 Jesus, misturando-se com a multidão, vai saindo em outra direção, para o rumo dos muros.
Ele ainda não chegou a passar pelo ultimo pórtico, quando chegam uns como se estivessem impelidos por algum vento furioso. São os componentes de um grupo de judeus das piores castas, todos mancomunados no desejo de dizer uns desaforos a Jesus. Eles procuram, olham, perscrutam. Mas não conseguem ficar sabendo bem de que se trata, e Jesus lá se vai, enquanto ficam decepcionados pelas informações dos guardas, assaltam o pobre, mas feliz curado, e o repreendem:
– Por que vais levando esta cama? Hoje é sábado. Isso não te é permitido.
O homem olha para eles e diz:
– Eu não sei de nada. Só sei que aquele que me curou me disse: “Pega a tua cama e anda.” Disto eu sei.
– Só pode ser um demônio, porque te mandou violar o sábado. Como era ele? Quem era? É judeu? É galileu? É um prosélito?
– Eu não sei. Ele estava aqui. Viu-me chorando, e veio para perto de mim. Ele me curou. Depois, foi-se embora, levando um menino pela mão. Acho que era filho dele, porque pela idade Ele pode ter um filho daquele tamanho.
– Um menino? Então, não é Ele!… Como é que Ele disse que se chamava? Não lhe perguntaste? Não mintas!
– Ele me disse que se chama Piedade.
– Tu és bobo. Isso não é nome de gente!
O homem encolhe os ombros e vai-se embora.
Os outros dizem:
– Era Ele com certeza. Os escribas Anias e Zaqueu o viram no Templo.
– Mas Ele não tem filhos!
– Mas é Ele. Ele estava com os discípulos.
– Mas Judas que conhecemos bem não estava com Ele. Os outros… podem ser uns quaisquer.
– Não. Eram eles.
E a discussão continua, enquanto os pórticos vão-se enchendo de enfermos…
[…]
225.5 Jesus torna a entrar no Templo, por outro lado, o lado do oeste, que é aquele que está mais defronte da cidade. Os apóstolos o acompanham. Jesus olha ao redor de Si e finalmente vê o que estava procurando: Jônatas que, por sua vez, também o estava procurando.
– Está melhor, Mestre. A febre baixou. Tua mãe diz que espera poder vir até o próximo sábado.
– Obrigado, Jônatas. Tu foste pontual.
– Nem tanto. Maximino de Lázaro me deteve. Ele está Te procurando. Foi ao pórtico de Salomão.
– Vou encontrar-me com ele. A paz esteja contigo. Leva a minha paz à minha mãe e às discípulas e também a Judas.
E Jesus se dirige logo ao pórtico de Salomão, onde, de fato, encontra Maximino.
– Lázaro soube que estás aqui. Ele quer Te ver, para dizer-te uma grande coisa. Virás?
– Sem dúvida. E logo. Podes dizer-lhe que me espere nesta semana.
Também Maximino vai-se embora, depois de poucas palavras mais.
– Vamos rezar ainda, já que pudemos voltar até aqui, diz Jesus, e vai para o átrio dos hebreus.
Mas, perto do átrio, Ele se encontra com o paralítico que foi curado e que foi dar graças ao Senhor. O miraculado o avista no meio da multidão e o saúda com alegria, e lhe conta tudo o que aconteceu junto à piscina, depois de sua saída de lá.
E termina, dizendo:
– Depois, perguntou-me um, que estava espantado por me ver são, quem és Tu. Tu és o Messias, não é verdade?
– Eu o sou. Mas, ainda que tivesses ficado curado pela água, ou por outro poder, terias sempre o mesmo dever para com Deus. O dever de usar a saúde para fazer boas obras. Tu estás curado. Vai, vai, então com boas intenções, empenhar-te de novo nas atividades da vida. E não peques nunca mais. Que Deus não tenha que te punir mais ainda. Adeus. Vai em paz.
– Eu já estou velho… não sei nada… Mas gostaria de acompanhar-te para te servir, e para saber. Tu me queres?
– Eu não rejeito ninguém. Pensa nisso, antes de vir. E, se estiveres decidido mesmo, vem.
– Ir aonde? Não sei aonde vais…
– Pelo mundo. Em qualquer lugar encontrarás discípulos que te guiem a Mim. O Senhor te ilumine para o que for melhor.
Jesus vai para o seu lugar, e se põe a rezar… 225.6Eu não sei se o curado vai por si mesmo aos judeus ou se são eles que o fazem parar, a fim de lhe perguntarem se aquele que estava falando com ele é o que o curou. Só sei que o homem está falando com os judeus, e depois sai dali, e eles vão para perto da escada por onde deve descer Jesus a fim de passar para os outros pátios, e sair do Templo.
Sem dirigir-lhe nenhuma saudação, quando Jesus chega, eles lhe dizem:
– Então, Tu continuas a violar o sábado, apesar de todas as repreensões que te têm sido feitas? E ainda queres que te respeitem como a um enviado de Deus?
– Enviado? Mais ainda: como Filho. Porque Deus é meu Pai. Se não me quereis respeitar, deixai de fazê-lo. Mas nem por isso Eu vou deixar de cumprir a minha missão. Não existe um só momento em que Deus pare de agir. Nesta mesma hora o meu Pai está agindo e Eu também faço, porque um bom filho faz o que o seu pai está fazendo, e porque para agir aqui nesta terra é que Eu vim.
Algumas pessoas se aproximam para ouvirem a discussão. Entre elas há pessoas que conhecem a Jesus, outras que foram beneficiadas, outras que o estão vendo pela primeira vez; alguns o amam, outros o odeiam, muitos estão incertos. Os apóstolos formam um núcleo com o Mestre. Margziam está ficando com medo, e já está fazendo uma carinha de choro.
Os judeus, uma mescla de escribas, fariseus e saduceus, proclamam o seu escândalo:
– Até a isso te atreves! Oh! Ele se diz Filho de Deus! Um sacrilégio! Deus é Aquele que é e não tem filhos! Chamai Gamaliel! Chamai Sadoc! Reuni os rabis, para que ouçam e o refutem.
– Não vos agiteis. Chamai-os, e eles vos dirão, se é que sabem, que Deus é Uno e Trino: Pai, Filho e Espírito Santo, e que o Verbo, ou seja, o Filho do Pensamento, veio, como havia sido profetizado, para salvar Israel e o mundo do Pecado. O Verbo sou Eu. Sou o Messias prometido. Portanto, não há nenhum sacrilégio em dar Eu ao Pai o nome de meu Pai. 225.7Vós vos inquietais, porque Eu faço milagres, porque com isso atraio para Mim as multidões, e as convenço. Vós me acusais de ser um demônio, porque opero prodígios. Mas Belzebu está, há séculos, no mundo e, na verdade, não lhe faltam devotos adoradores… Por que então, ele não faz o que Eu faço?
O povo murmura:
– É verdade. É verdade. Ninguém faz o que Ele faz.
Jesus continua:
– Eu vo-lo digo: é porque Eu sei o que ele não sabe, e posso o que ele não pode. Se Eu faço obras de Deus, é porque Eu sou seu Filho. Por si mesmo, ninguém pode chegar a fazer senão o que viu fazer. Eu, o Filho, não posso fazer senão o que vi ser feito pelo Pai, pois Eu sou Um com Ele, desde os séculos dos séculos, não diferente dele nem na natureza, nem no poder. Todas as coisas que o Pai faz, Eu, que sou seu Filho, também as faço. Nem Belzebu nem outros podem fazer aquilo que Eu faço. Porque Belzebu e os outros não sabem aquilo que Eu sei. O Pai Me ama, a Mim seu Filho, e Me ama sem medida, como Eu O amo. Por isso, Ele me mostrou e Me mostra tudo o que Ele faz, para que Eu faça o que Ele faz, Eu nesta terra, neste tempo de Graça, e Ele no Céu, desde antes que existisse o Tempo na terra. E Ele me mostrará obras cada vez maiores, a fim de que Eu as faça, e vós fiqueis maravilhados. O Pensamento dele é inesgotável em pensar. E Eu o imito sendo indefectível em cumprir o que o Pai pensa e quer com o seu pensamento.
225.8 Vós ainda não sabeis quantas coisas o Amor cria inesgotavelmente. Nós somos o Amor. E não há limitação para Nós, nem existe coisa que não possa ser aplicada sobre os três graus do homem: o inferior, o superior, o espiritual. De fato, assim como o Pai ressuscita os mortos e lhes dá a vida, igualmente Eu, o Filho, posso dar a vida a quem Eu quiser. Antes, pelo amor infinito que o Pai tem para com o Filho, me é concedido não só dar a vida à parte inferior, mas também à superior, livrando o pensamento do homem e o seu coração dos erros mentais e das más paixões, e à parte espiritual, dando ao espírito ficar livre do pecado. Porque o Pai não julga a ninguém, mas deu todo o julgamento ao Filho, sendo o Filho quem, com o seu próprio sacrifício, comprou a humanidade para redimi-la. E isso o Pai faz por justiça, porque a quem paga com sua moeda, é justo que seja dado, e para que todos honrem ao Filho, como honram ao Pai.
Ficai sabendo que, se separais o Pai do Filho, ou o Filho do Pai, e não vos lembrais do Amor, vós não amais a Deus, como deve ser amado com verdade e sabedoria, mas praticais uma heresia, dando culto a um só, quando os três são uma admirável Trindade. Por isso, quem não honra o Filho é como se deixasse de honrar o Pai, porque o Pai, Deus, não aceita que só uma parte de Si seja adorada, mas quer que o seu Todo seja adorado. Quem não honra o Filho, não honra o Pai, que O enviou, por pensamento perfeito de amor. E, portanto, nega que Deus saiba fazer obras justas. Em verdade, Eu vos digo que quem escuta a minha palavra, e crê naquele que Me enviou, tem a vida eterna, e não é fulminado pela condenação, mas passa da morte para a vida, porque crê em Deus e aceita a minha palavra, quer dizer, infunde em si a vida que não morre.
Está chegando a hora, e até para muitos já chegou, na qual os mortos ouvirão a voz do Filho de Deus, e quem a tiver ouvido ressoar vivificadora no fundo de seu coração, esse viverá. 225.9Que dizes tu, escriba?
– Eu digo que os mortos não ouvem mais nada, e que Tu estás louco.
– O Céu irá te persuadir de que não é assim, e que o teu saber é um nada, em comparação com o de Deus. Vós tendes a tal ponto humanizado as coisas sobrenaturais, que não sabeis mais dar às palavras nada além de um significado imediato e terreno. Vós ensinastes o Hagadá, em fórmulas fixas, vossas, sem vos esforçardes para compreender as alegorias em suas verdades, e agora, em vosso espírito, cansado de ser oprimido por uma humanidade que quer triunfar sobre o espírito, não credes mais nem naquilo que ensinais. E esta é a razão pela qual não podeis mais lutar contra as forças ocultas.
A morte, de que Eu estou falando, não é a morte da carne, mas do espírito. Hão de vir aqueles que ouvirão com seus ouvidos a minha palavra e a acolherão em seus corações, e a porão em prática. Esses, ainda que mortos no espírito, reaverão a vida, porque a minha Palavra é Vida que se infunde neles. E Eu a posso dar a quem Eu quero, porque ela em Mim é perfeição de Vida visto que o Pai tem em Si a Vida Perfeita, e assim também o Filho teve do Pai a Vida em Si mesmo, perfeita, completa, eterna, inesgotável e transmissível. E, com a Vida, o Pai me deu o poder de julgar, pois o Verbo do Pai é o Filho do homem, pode e deve julgar o homem. E não fiqueis maravilhados por esta primeira ressurreição, a espiritual, que Eu opero com a minha Palavra. Vereis outras mais fortes, mais fortes do que os vossos sentidos pesados, porque em verdade Eu vos digo que não há coisa maior do que a invisível mas real ressurreição de um espírito. Bem depressa virá a hora, na qual os sepulcros serão penetrados pela voz do Filho de Deus, e todos os que estão neles a ouvirão. E os que fizeram o bem, de lá sairão a fim de irem para a ressurreição da Vida Eterna, enquanto que os que fizeram o mal irão para a ressurreição da eterna condenação.
Isto Eu não digo que faço e não o farei por Mim mesmo, só por minha vontade, mas pela vontade do Pai unida à minha. Eu falo e julgo conforme o que ouço e o meu juízo é reto porque Eu não procuro a minha vontade mas a vontade daquele que me enviou. Eu não estou separado do Pai. Eu estou nele e Ele está em Mim. E Eu conheço o seu Pensamento, e o traduzo em palavras e ação.
225.10 Tudo que Eu digo para dar testemunho de Mim mesmo não pode ser aceito pelo vosso espírito incrédulo, que não quer ver em Mim outra coisa que um homem semelhante a todos vós. Também há um outro que testemunha por Mim, e que vós dizeis que venerais como grande profeta. Eu sei que seu testemunho é verdadeiro. Mas vós, que dizeis venerá-lo, não aceitais o seu testemunho porque é contrário ao vosso pensamento que é meu inimigo. Vós não aceitais o testemunho do homem justo, do último profeta de Israel porque, naquilo que vos agrada, dizeis que ele não é mais do que um homem e que pode errar. Vós mandastes interrogar João, esperando que Ele dissesse de Mim o que vós desejáveis, isto é, o que de Mim pensáveis, aquilo que vós de Mim quereis pensar. Mas João deu testemunho da verdade e vós não a pudestes aceitar. Porque o profeta diz que Jesus de Nazaré é o Filho de Deus, vós, no segredo de vossos corações, porque tendes medo da multidão, dizeis que o profeta é um doido, como o é Cristo. Eu, porém, não recebo testemunho de homem, seja mesmo o mais santo de Israel. Eu vos digo: ele era a lâmpada ardente e luminosa, mas vós quisestes, por pouco tempo, gozar de sua luz. Quando aquela luz se projetou sobre Mim, para fazer-vos conhecer o Cristo por aquilo que Ele é, deixastes que a lâmpada fosse colocada debaixo de um alqueire e, antes ainda, levantastes entre ela e vós um muro, para não verdes, à luz dela, o Cristo do Senhor.
Eu sou grato a João pelo seu testemunho, e grato lhe é o Pai. E João terá um grande prêmio por esse seu testemunho, ardendo também por isso no Céu, o primeiro sol que brilhará entre todos os homens lá em cima, brilhando como brilharão todos os que tiverem sido fiéis à Verdade e tiverem fome de Justiça. Mas Eu tenho um testemunho maior do que o de João. E esse testemunho são as minhas obras. Porque as obras que o Pai me deu para fazer, Eu faço, e elas dão testemunho de que o Pai me mandou, dando-me todo o poder. E assim, é o próprio Pai que me mandou, quem dá testemunho em meu favor. Vós nunca ouviste-lhe voz nem vistes a sua Face. Mas Eu o vi e O vejo, a ouvi e a ouço. Vós não tendes morando em vós a sua palavra, porque não credes naquele que Ele mandou..
Vós investigais as Escrituras, porque credes obter, pelo conhecimento delas, a Vida Eterna. E não percebeis agora que são justamente as Escrituras que falam de Mim? E como, então, continuais a não querer vir a Mim, para terdes a Vida? Eu vo-lo digo: é porque quando qualquer coisa é contrária às vossas ideia s inveteradas, vós as rejeitais. Falta-vos a humildade. Não podeis chegar a dizer: “Eu errei. Aquele ou este livro diz o que é certo e eu estou errado.” Foi assim que fizestes com João, assim com as Escrituras, assim com o Verbo que vos está falando. Não podeis mais ver e compreender porque estais enfaixados com a soberba e atordoados com as vossas vozes.
225.11 Pensais que Eu assim vos fale, porque Eu quero ser por vós glorificado? Não. Sabei-o, Eu não procuro nem quero glória que venha dos homens. Aquilo que Eu procuro e quero é a vossa salvação eterna. Esta é a glória que Eu procuro. A minha glória de Salvador, que não pode existir se Eu não tiver salvados, que aumenta quanto mais salvos Eu tiver, que me há de ser prestada pelos espíritos salvos e pelo Pai, Espírito Puríssimo.
Mas vós não sereis salvos. Eu vos conheci por aquilo que sois. Vós não tendes em vós o amor de Deus. Sois sem amor. E por isso não vindes ao Amor que vos fala e não entrareis no Reino do Amor. Lá vós sois desconhecidos. O Pai não vos conhece, porque vós não me conheceis a Mim que estou no Pai. Não quereis me conhecer. Eu vim em nome do meu Pai, e vós não me recebeis, enquanto estais prontos a receber a qualquer um que venha em seu próprio nome, contanto que vos diga o que vos agrada. Dizeis que sois almas de fé? Não. Não o sois. Como podeis crer, vós que mendigais a glória uns dos outros, e não procurais a glória dos Céus, que só de Deus procede? A glória que é a Verdade, não jogo de interesses que param sobre a terra e que acariciam somente a humanidade viciosa dos degradados filhos de Adão.
Eu não vos acusarei ao Pai. Não penseis nisto. Já há quem vos acusa: Moisés no qual vós esperais. Ele vos repreenderá por não crerdes nele, porque não credes em Mim, pois ele escreveu sobre Mim e vós não me reconheceis segundo o que sobre Mim ele deixou escrito1. Vós não acreditais nas palavras de Moisés, que é o grande sobre o qual jurais. Como podeis, então, crer nas minhas, nas do Filho do homem, no qual não tendes fé? Humanamente falando, isso é lógico. Mas aqui estamos no campo do espírito e estão em confronto com as vossas almas. Deus as observa à luz das minhas obras e confronta as ações que fazeis com o que vim ensinar. E Deus vos julga.
Eu me vou. Por muito tempo não me encontrareis. E acreditai isto não é um triunfo, mas é um castigo. Vamos.
E Jesus abre a multidão, em parte muda, em parte sussurrando aprovações, que o medo dos fariseus reduz a uns simples sussurros, e se vai.
1 ele deixou escrito como em Deuteronômio 18,15-19.