354. 354. O discurso sobre o Pão do Céuna sinagoga de Cafarnaum.
354.1Antes da visão de 7 de dezembro é colocada a da segunda multiplicação dos pães, tida em 28 de maio de 1944, com o respectivo ditado.
7 de dezembro de 1945.
354.2 A praia de Cafarnaum está cheia de pessoas que estão desembarcando de uma verdadeira flotilha de barcas de todos os tamanhos. E as primeiras que desembarcam vão procurando, pelo meio do povo, tentando ver o Mestre ou algum dos apóstolos ou, pelo menos, algum discípulo. E vão perguntando…
Finalmente, um homem lhes responde:
– O Mestre? Os apóstolos? Não. Eles foram-se embora, logo depois do sábado e não voltaram. Mas voltarão porque aqui ficaram alguns discípulos. Eu falei agora mesmo com um deles. Deve ser um grande discípulo. Ele fala como Jairo. E lá se foi para aquela casa, na direção dos campos, indo pela beira-mar.
O homem que fez a pergunta faz correr a notícia e todos se precipitam rumo ao lugar indicado. Mas, depois de terem andado uns duzentos metros pela beira, encontram-se com um grande grupo de discípulos, que estão vindo para Cafarnaum e fazendo gestos animados. Eles os saúdam e perguntam:
– O Mestre, onde está?
Os discípulos respondem:
– De noite, depois do milagre, ele se foi com os seus, nas barcas, para o outro lado do mar. Nós vimos as velas que, ao clarão do luar, iam para Dalmanuta.
– Ah! Aí está! Nós o procuramos em MagdalaMá gdala, na casa de Maria, e Ele não estava lá! Mas… bem que podiam no-lo dizer os pescadores de Magdala!
– Eles não o terão sabido. Talvez Ele tenha ido orar nos montes de Arbela. Pois já esteve por lá uma outra vez no ano passado, antes da Páscoa. E eu o encontrei naquela ocasião, por uma grande graça feita pelo Senhor a este seu pobre servo –diz Estevão.
– Mas Ele não volta para cá?
– Certamente voltará. Ele deve despedir-se de nós e dar-nos suas ordens. Mas, que quereis dele?
– Ouvi-lo outra vez. Segui-lo. Fazer-nos dele.
– Então vão para Jerusalém. Vós o encontrareis de novo lá. E lá, na Casa de Deus, o Senhor vos falará se para vós é possível segui-lo. 354.3Porque, é bom que saibais, se Ele não repele a ninguém, contudo temos entre nós elementos que repelem a Luz. Aqui mesmo há muita gente que está não só saturada desses tais, — e pouco mal seria, porque Ele é a Luz e, ao tornarem-se sinceramente dele com uma vontade decidida mesmo, então a luz nos penetra e repele as trevas — mas Ele está acostumado com eles e afeiçoado a eles, assim, como nós à a carne de nossa pessoa e, por isso, é bom que os tais deixem de vir, a não ser que se destruam para serem criados de novo. Meditai, pois, se tendes em vós a força para assumir um novo espírito, um novo modo de pensar, um novo modo de querer. Rezai para que possais ver se é verdadeira a vossa vocação. E, se achardes que sim, então vinde. E queira o Altíssimo, que guiou Israel na Passagem1, guiar-vos nesta “passagem”, para virdes sobre a pegada do Cordeiro, longe dos desertos até chegardes à Terra eterna, ao Reino de Deus, diz Estevão, falando em nome de todos os seus companheiros.
– Não. Não. Já! Logo! Logo! Ninguém faz o que Ele faz. Nós o queremos seguir –diz a multidão, tumultuadamente.
Estevão fica com um sorriso que quer dizer muitas coisas. Ele abre os braços, para dizer:
– Não será porque Ele vos deu pão bom e com fartura, que vós quereis vir? Pensais que no futuro Ele vos dá só isso? Ele promete aos seus seguidores isto, que é o seu dote: a dor, a perseguição, o martírio. Não lhes promete rosas, mas espinhos. Não carícias, mas bofetadas. Não é pão, mas pedras, o que estão esperando os “cristos.” E eu falo assim sem estar blasfemando, porque os seus verdadeiros fiéis serão ungidos com o óleo santo, formado por sua Graça e por seus padecimentos. E “ungidos” nós seremos para sermos vítimas sobre o altar e reis no Céu.
– E, então? Por acaso estás com ciúmes dele? Tu não estás aqui? Pois aqui queremos estar nós também. O Mestre é de todos.
– Está bem. Eu vo-lo dizia, porque vos amo e quero que saibais o que é ser “discípulos”, a fim de que não sejais depois desertores.Vamos, então, todos juntos, esperá-lo na casa dele. O sol já está começando a pôr-se e o sábado está para começar. Ele virá passar o sábado aqui antes de sua partida.
354.4 E eles vão indo para a cidade conversando. Muitos interrogam Estevão e Hermes, que os alcançaram, pois eles, aos olhos dos israelitas, têm uma luz especial porque são almas prediletas de Gamaliel. Muitos lhes perguntam:
– Mas, que diz dele Gamaliel?
E outros:
– Foi ele que vos mandou aqui?
E outros ainda:
– Ele não ficou triste por perder-vos?
Ou, então:
– E o Mestre, que diz do grande rabi?
Os dois procuram responder com paciência:
– Gamaliel fala de Jesus de Nazaré como do maior homem de Israel.
– Oh! Maior do que Moisés? –dizem meio escandalizados.
– Ele diz que Moisés é um dos muitos precursores de Cristo. Mas ele não é mais do que servo de Cristo.
– Então, para Gamaliel, este é o Cristo? Ele diz isso? Se fala assim o rabi Gamaliel, então é coisa certa. Ele é o Cristo.
– Ele não diz isto. Não chegou ainda a crer nisto, para desventura sua. Mas diz que o Cristo está sobre a terra, porque ele lhe falou isso, há muitos anos. Ele e o sábio Hilel. E está esperando o sinal que Cristo lhe prometeu dar para reconhecê-lo –diz Hermes.
– Mas, como foi que ele fez para crer que esse é o Cristo? Que fazia ele? Eu sou tão velho como Gamaliel, mas nunca ouvi dizer que por nós fossem feitas as coisas que o Mestre faz. Se ele não se persuade por estes milagres, que ele quer ter visto de mais milagroso no Cristo para poder crer nele?
– Ele o viu ungido pela Sabedoria de Deus. Assim diz ele –responde ainda Hermes.
– E, então, para Gamaliel, quem é este?
– O maior dos homens, Mestre e precursor de Israel. Quando ele pudesse dizer: “É o Cristo”, estaria salva a alma sábia e justa do meu primeiro mestre –diz Estevão.
E termina:
– E eu rezo para que assim seja, a qualquer custo.
– E se ele não o considera o Cristo, para que é que vos mandou aqui?
– Nós é que queríamos vir. Ele nos deixou vir, dizendo que era bom.
– Talvez para poder saber e levar a notícia ao Sinédrio… –diz alguém insinuando.
– Homem, que estás dizendo? Gamaliel é honesto. Não faz espionagem a ninguém e especialmente para os inimigos de um inocente! –dispara Estevão, e parece um arcanjo de tão indignado que ficou e quase emitindo raios, em sua santa indignação.
– Mas para ele vai ser um desagrado ter que vos perder –diz um outro.
– Sim e não. Como um homem que nos queria bem, sim. Como um homem de espírito reto, não. Porque ele disse: “Ele é mais do que eu e mais novo do que eu. Por isso, eu já poderei fechar os olhos em paz sobre o vosso futuro, sabendo que passais a ser do ‘Mestre dos mestres’.”
– E Jesus de Nazaré, que diz do grande rabi?
– Oh! Ele só tem palavras seletas para com ele!
– Não tem inveja dele?
– Deus não tem inveja –diz, sério, Hermes–. Não tenhas suposições sacrílegas.
– Mas ele, então, para vós é Deus? Estais certos disso?
E os dois, a uma só voz:
– Tão certos como estamos vivos neste momento.
E Estevão termina:
– E desejai crê-lo vós também, para possuirdes a verdadeira Vida.
354.5 Estão novamente na praia, que se transformou em praça, e a atravessam, indo para casa.
Na soleira está Jesus, acariciando uns meninos. Os discípulos e uns curiosos se agrupam, perguntando:
– Mestre, quando vieste?
– Há poucos momentos.
O rosto de Jesus está ainda com a majestade solene, um pouco extática, que Ele tem quando esteve orando por muito tempo.
– Estiveste em oração, Mestre? –pergunta-lhe Estevão em voz baixa por respeito e também inclina o seu corpo pelo mesmo motivo.
– Sim. Como é que sabes, meu filho? –pergunta-lhe Jesus, pondo-lhe as mãos sobre os cabelos escuros com uma doce carícia.
– Pelo teu rosto de anjo. Eu sou um pobre homem, mas o teu semblante está tão claro que nele se podem ver as palpitações e as atividades do teu espírito.
– O teu também está claro. Tu és um daqueles que ficam sempre crianças.
– E o que há em meu rosto, Senhor?
– Vem cá, à parte, e Eu to direi –e o pega pelo pulso, levando-o para um corredor escuro–. Caridade, fé, pureza, generosidade, sabedoria. Estas Deus as deu a ti e tu as cultivaste, e mais ainda o farás. Enfim, de acordo com o teu nome, tu tens a coroa: é de ouro puro e com uma grande pedra preciosa, que brilha sobre a fronte. Sobre o ouro e sobre a pedra estão gravadas duas palavras: “Predestinação” e “Primícia.” Sê digno de tua sorte, Estevão.Vai em paz com a minha bênção.
E lhe põe novamente a mão sobre os cabelos, enquanto Estevão se ajoelha para depois inclinar-se e beijar-lhe os pés.
354.6 Voltam depois para junto dos outros.
– Este pessoal veio para ouvir-te… –diz Filipe.
– Aqui não se pode falar. Vamos para a sinagoga. Jairo ficará contente.
Jesus vai à frente e atrás dele vai o cortejo dos outros. Vão indo para a bonita sinagoga de Cafarnaum e Jesus, saudado por Jairo entra nela, ordenando que todas as portas fiquem abertas, para que os que não conseguem entrar possam ouvi-lo da rua e da praça, que estão ao lado da sinagoga.
Jesus vai para o seu lugar nesta sinagoga amiga, da qual hoje, por boa sorte, estão ausentes os fariseus, que talvez já tenham partido, com toda a pompa, para Jerusalém. E Jesus começa a falar.
– Em verdade, vos digo: Vós não Me estais procurando para ouvir-me e pelos milagres que vistes, mas por aquele pão que Eu vos dei a comer à vontade e sem pagar nada. Três quartas partes de vós era por isso que Me procuravam, e por curiosidade, vindos de todos os lados de nossa Pátria. Nessa busca vossa faltou o espírito sobrenatural, e vos fica ainda dominando o espírito humano com as suas curiosidades doentias ou, pelo menos, com uma imperfeição infantil, não por ser simples como a dos pequeninos, mas porque diminuída, como a inteligência de alguém que tem uma mente obtusa. E, com a curiosidade vem junto a sensualidade e um sentimento viciado. A sensualidade, que se esconde sutil como o demônio do qual é filha, atrás das aparências e em atos aparentemente bons e o sentimento viciado, que é simplesmente um desvio mórbido do sentimento, e que, como tudo o que é “doença”, tem necessidade de medicamento e os apetece, de medicamentos que não são o alimento simples, como um bom pão, uma água boa, um óleo genuíno, o primeiro leite, que basta para viver, e viver bem. O sentimento viciado precisa de coisas extraordinárias para sentir um calafrio que passa, o calafrio doentio dos paralisados, que têm necessidade de medicamento para terem sensações que os iludam, e os façam pensar que ainda estão íntegros e viris. A sensualidade, que quer satisfazer sem esforços a gula, neste caso, com um pão adquirido sem o suor do rosto, mas pela bondade de Deus.
354.7 Os dons de Deus não são um costume, mas uma coisa extraordinária. Não se pode pretender tê-los, nem viver na preguiça, dizendo: “Deus os dará.” Está escrito: “Comerás o pão molhado com o suor do teu rosto”, isto é, o pão que se ganha trabalhando. Porque, se Aquele que é Misericórdia disseTenho compaixão deste povo, pois ele me segue há três dias e não tem mais o que comer e poderia desfalecer pelo caminho antes de chegar a Hipo, na beira do lago, ou em Gamala, ou a alguma outra cidade, e o proveu, contudo não está dito que deva ser seguido por isso. Há de ser por muito mais do que por um pedaço de pão, que, afinal, vai-se transformar em excremento, depois da digestão, é que Eu estou sendo seguido. Não é pelo alimento que enche o ventre, mas por aquele que nutre a alma. Porque vós não sois somente uns animais, que precisam pastar e ruminar, ou fuçar e engordar. Mas vós sois almas! Isto é o que sois! A carne é uma veste, a essência é a alma. É ela que é duradoura. A carne, como as vestes, se desgasta e acaba, e não merece que se cuide dela como se ela fosse uma coisa perfeita, à qual se devam dar todos os cuidados.
Procurai, pois, o que é justo que se procure, não o que é injusto. Tratai de procurar para vós, não o alimento perecível, mas o que dura para uma vida eterna. Este o Filho do homem vo-lo dará sempre, basta que o queirais. Porque o Filho do homem tem à sua disposição tudo o que vem de Deus e o pode dar. Ele é o Dono, e um dono magnânimo, dos tesouros de Deus Pai, que imprimiu nele o seu selo, a fim de que os olhos honestos não se enganem. E, se tiverdes em vós o alimento não perecível, podereis fazer as obras de Deus, sendo nutridos com o alimento de Deus.
354.8 – O que temos que fazer, sabendo que são obras de Deus? Nós já observamos a Lei e os Profetas. Portanto, já estamos sendo alimentados por Deus e estamos fazendo as obras de Deus.
– É verdade. Vós observais a Lei. Melhor ainda: vós “conheceis” a Lei. Mas conhecer ainda não é praticar. Nós conhecemos, por exemplo, as leis de Roma e, no entanto, um fiel israelita não as pratica, a não ser naquelas fórmulas que lhe são impostas pela sua condição de súdito. Fora disso, nós, Eu falo dos fiéis israelitas, não praticamos os costumes pagãos dos romanos, por mais que os conheçamos. A Lei que vós todos conheceis, e os Profetas, deveriam, de fato, alimentar-vos de Deus e dar-vos, por isso, a capacidade de fazer as obras de Deus. Mas, para fazer isso, elas deveriam ter-se tornado um todo convosco, assim como o ar que respirais, ou o alimento que assimilais, os quais, ambos se transformam em vossa vida, em vosso sangue. Enquanto eles vos permanecerem estranhos, ainda que sejam de vossa casa, assim como pode acontecer que um objeto da casa, que vos é conhecido e útil, mas que, se chegar a faltar, não nos tira, por isso, a nossa existência. Enquanto… oh! Experimentai, um pouco, ficar sem respirar por alguns minutos, experimentai ficar sem comer por alguns dias… E vereis que já não podeis viver. Assim é que deveria sentir-se o vosso eu, numa desnutrição e numa asfixia, sem a Lei e os Profetas, que vós conheceis, mas não assimilais, nem fazeis deles um todo convosco. Por isso, eis o que Eu vim ensinar e distribuir: o suco, o ar da Lei e dos Profetas, para dar de novo o sangue e a respiração às vossas almas, que estão morrendo, por não tomarem alimento e pela asfixia. Vós sois como uns meninos, que uma doença tornou incapazes de conhecer o que é bom para alimentá-los. Tendes diante de vós grande riqueza de alimentos, mas não sabeis que eles hão de ser comidos para se transformarem em uma coisa vital, isto é, que passem a ser verdadeiramente vossos, com uma fidelidade pura e generosa à Lei do Senhor, que falou a Moisés e aos Profetas para todos vós. Vir, pois, a Mim para ter ar e suco de Vida Eterna, é um dever. Mas este dever pressupõe uma fé em vós. Porque, se alguém não tiver fé, não poderá crer em minhas palavras, e, se não crer nelas, não virá dizer-me: “Dá-me o verdadeiro pão.” E, se não tiver o verdadeiro pão, não poderá fazer as obras de Deus, não terá capacidade para fazê-las. Por isso, para serdes nutridos de Deus, e para fazerdes as obras de Deus, é necessário que façais a obra-base, que é esta: Crer naquele que foi enviado por Deus.
354.9 – Mas, que milagres fazes Tu, então, para que possamos crer em Ti como em um Enviado por Deus? Que fazes Tu que não tenham feito os Profetas, ainda que em grau menor? Moisés até Te superou porque, não uma vez só, mas durante quarenta anos, nutriu os nossos pais com um maravilhoso alimento. Assim está escrito: que os nossos pais, durante quarenta anos, comeram o maná no deserto2, e está dito que assim Moisés lhes deu a comer o pão vindo do céu, pois ele o podia fazer.
– Estais errados. Não foi Moisés, mas o Senhor, que pôde fazer aquilo. No Êxodo se lê: “Eis que Eu farei chover pão do céu. Que o povo saia e apanhe dele o tanto quanto baste para cada dia, e assim Eu tenha a prova se o povo está ou não caminhando segundo a minha Lei. E, no sexto dia, apanhe o dobro, em respeito ao sétimo dia, que é o sábado.” E os hebreus viram o deserto cobrir-se cada manhã daquela “coisa miúda, como o que é moído no almofariz, e semelhante à geada caída sobre a terra, parecida com o coentro, e com a bonita aparência de flor de farinha misturada com mel.” Portanto, não foi Moisés, mas foi Deus quem proveu o maná. Foi Deus, que tudo pode. Tudo. Pode punir, e pode abençoar. Pode privar de uma coisa, e pode concedê-la. E Eu vos digo, das duas coisas, Ele prefere sempre abençoar e conceder, a punir e a privar.
Deus, como diz a Sabedoria, por amor a Moisés — chamado pelo Eclesiástico “o querido de Deus e dos homens”, de bendita memória, feito por Deus semelhante aos santos na glória, grande e terrível para os inimigos, capaz de suscitar os prodígios e de dar-lhes fim, glorificado na presença dos reis, seu ministro à frente do povo, conhecedor da glória de Deus e da voz do Altíssimo, guarda dos preceitos e da Lei de vida e de ciência — Deus, Eu ia dizendo, por amor a Moisés, nutriu o seu povo com o pão dos anjos, e do céu lhe mandou um pão belamente feito, sem que se cansasse, e contendo em si toda delícia e suavidade em seu sabor. E — lembrai-vos bem do que diz a Sabedoria — visto que vinha do céu, de Deus, e mostrava sua doçura aos seus filhos, tinha para cada um deles o sabor que cada um desejava, e dava a cada um os efeitos desejados, sendo útil, tanto para o pequenino, como para o adulto, que tem um bom apetite e uma digestão perfeita, tanto para a menina ainda delicada, como para o velho já decadente. E até, para dar um testemunho de que não era obra de um homem, virou de cabeça para baixo as leis dos elementos, para que pudesse resistir ao fogo aquele misterioso pão que, ao surgir do sol, se derretia como a geada. Ou melhor, o fogo — é sempre a Sabedoria que fala — esqueceu-se de sua própria natureza, em respeito à obra de Deus, seu Criador, e das necessidades dos justos de Deus, de modo que ele, feito para acender-se e atormentar, tornou-se suave aqui para fazer o bem aos que confiavam no Senhor. Por isso, pois, transformando-se ele de todos os modos, serviu à Graça do Senhor, que é a nutriz de todos, segundo a vontade de quem orava ao Eterno Pai, a fim de que os filhos queridos aprendessem que não é o reproduzir-se dos frutos que nutre os homens, mas é a palavra do Senhor que conserva a quem crê em Deus. De fato, ele não consumiu, como podia, o doce maná, nem mesmo quando sua chama estava alta e poderosa, enquanto que bastava para dissolvê-lo o doce sol da manhã, para que os homens se recordassem e aprendessem que os dons de Deus hão de ser procurados, desde o começo do dia e da vida, e que para possuí-los é preciso andar antes da Luz, e levantar-se, para dar louvores ao Eterno, desde a primeira hora da manhã.
Isto o maná ensinou aos hebreus. E Eu vo-lo faço lembrar, porque é um dever que vigora, e vigorará até o fim dos séculos. Procurai o Senhor e os seus dons celestes, sem ficardes vos espreguiçando até altas horas da noite ou da vida. Não foi Moisés que vos deu o pão do Céu, mas em verdade quem vo-lo deu foi Deus Pai, e agora, como Verdade das Verdades, é o meu Pai quem vos dá o verdadeiro Pão, o Pão novo, o Pão eterno, que desce do Céu, o Pão de Misericórdia, o Pão de vida, o Pão que dá a vida ao mundo, o Pão que sacia toda fome e tira toda doença, o Pão que dá a quem o toma a Vida eterna e a eterna alegria.
354.10 – Dá-nos, Senhor, desse pão, e não morreremos mais.
– Vós morrereis, como todos os homens morrem, mas ressurgireis para a Vida eterna, se vos nutrirdes santamente deste Pão, porque ele faz ficar incorruptível a quem o come. Quanto a vo-lo dar, ele será dado àqueles que o pedem a meu Pai, com coração puro, com reta intenção, e santa caridade. Por isso que Eu ensinei a dizer: “O pão nosso de cada dia nos dai hoje.” Mas aqueles que se nutrem dele indignamente, tornar-se-ão como um formigueiro de vermes infernais, como as medidas do maná, que foi conservado contra a ordem que foi dada. E aquele pão de salvação e vida se tornará para eles morte e condenação. Porque o sacrilégio maior será cometido por aqueles que puserem aquele pão sobre uma mesa espiritual corrompida e fétida, e o profanarem, misturando-o com a sentina de suas paixões incuráveis. Melhor para eles teria sido nunca o terem tomado!
354.11– Mas, onde está esse pão? Como se pode encontrá-lo? Que nome tem?
– Eu sou o Pão da vida. É em mim que ele se encontra. O nome dele é Jesus. Quem vier a Mim não terá mais fome, e quem crêr em mim não terá mais sede, porque os rios do Céu se derramarão nele, extinguindo nele todo ardor material. Eu já vos disse isto. Vós já Me conhecestes. E, no entanto, não acreditais. Não podeis crer que tudo está em Mim. Mas assim é. Em Mim estão todos os tesouros de Deus. E a Mim tudo o que há na terra foi dado. Por isso, em Mim estão reunidos os gloriosos Céus e a terra militante, e até a padecente, e a massa dos que esperam, isto é, dos que na graça de Deus estão em Mim, e comigo está todo poder. E Eu vo-lo digo: tudo o que o Pai me dá virá a Mim. E Eu não rejeitarei quem vem a Mim, porque Eu desci do Céu, não para fazer a minha vontade, mas a daquele que Me enviou. E a vontade de meu Pai, do pai que Me enviou, é esta: que Eu não perca nenhum daqueles que Ele me deu, mas, que Eu o ressuscite no último dia. E a vontade do Pai, que Me enviou, é que todo aquele que conhece o Filho e crê nele, tenha a Vida eterna, e Eu o possa ressuscitar no último Dia, vendo-o nutrido pela fé em Mim, e marcado com o meu selo.
354.12 Há um novo e não pequeno murmúrio na sinagoga e fora dela, por causa das novas e ousadas palavras do Mestre. E isto, depois de ter, por um momento, tomado fôlego, virando seus olhares cintilantes e arrebatadores para o lado onde mais estão murmurando, onde estão precisamente os grupos em que se encontram os judeus. E Ele começa de novo a falar.
– Por que ficais murmurando entre vós? Sim, Eu sou o Filho de Maria de Nazaré, filha de Joaquim, da estirpe de Davi, virgem consagrada do Templo, e depois desposada com José de Jacó, da estirpe de Davi. Vós conhecestes, muitos de vós, os justos que transmitiram a vida a José, carpinteiro real, e Maria, virgem herdeira da estirpe real. Isto é o que vos faz dizer: “Como é que pode este homem dizer que desceu do Céu?”, e a dúvida surge entre vós.
Eu vos recordo os Profetas em suas profecias sobre a Encarnação do Verbo. E vos faço lembrar como, mais para nós israelitas do que para qualquer outro povo, é um ponto de fé, que Aquele cujo nome nem ousamos pronunciar, não poderia dar a Si mesmo uma Carne segundo as leis da humanidade e, ainda menos, de uma humanidade decaída. O Puríssimo, o Incriado se humilhou ao fa-zer-se homem, e não podia senão escolher o seio de uma virgem, mais pura que os lírios, para revestir de carne a sua Divindade.
O Pão descido do Céu, no tempo de Moisés, foi colocado de novo na arca3 de ouro coberta pelo Propiciatório, velada pelos Querubins, atrás dos véus do Tabernáculo. E com o Pão estava a Palavra de Deus. E era justo que assim fosse, porque o maior dos respeitos é prestado aos dons de Deus e à mesa da sua Santíssima Palavra. Mas, que, então, terá sido preparado por Deus, por meio da sua própria palavra e pelo Pão verdadeiro, vindo do Céu? Uma arca mais inviolada e preciosa do que a arca de ouro, coberta pelo precioso Propiciatório da sua pura vontade de imolação, velada pelos Querubins de Deus, velada por um véu de candura virginal, de uma humanidade perfeita, de uma caridade sublime e de todas as virtudes mais santas.
E então? Ainda não compreendeis que a minha Paternidade está no céu, e que por isso é de lá que Eu venho? Sim, Eu desci do Céu para cumprir o decreto de meu Pai, o decreto de salvação dos homens, segundo tudo o que foi prometido por Ele no próprio momento da condenação, e repetido aos Patriarcas e Profetas. Mas isto é uma questão de fé. E a fé é dada por Deus a quem tem um espírito cheio de boa vontade. Por isso ninguém pode vir a Mim, se o meu Pai não o conduz a Mim, vendo que ele está nas trevas, mas com razão desejoso de luz. Está escrito4 nos Profetas: “Serão todos ensinados por Deus.” Eis. Está escrito. É Deus quem os instrui sobre aonde devem ir para serem instruídos por Deus. Todo aquele, pois, que tiver ouvido, no fundo do seu espírito reto, a Deus que lhe fala, já aprendeu do Pai a vir a Mim.
– E quem achas Tu que tenha ouvido a voz de Deus, ou visto o seu rosto? –perguntam-lhe muitos, que já começam a mostrar sinais de irritação e de escândalo.
E terminam, dizendo:
– Tu estás delirando, ou então és um iludido.
– Ninguém, jamais, viu a Deus, a não ser aquele que é de Deus. Esse, sim, viu o Pai.
354.13 E agora, ouvi qual o Credo da Vida futura, sem o qual não nos podemos salvar.
Em verdade, em verdade Eu vos digo que quem crê em Mim tem a Vida eterna. Em verdade, em verdade Eu vos digo que Eu sou Pão da vida eterna.
Os vossos pais comeram o maná no deserto, e morreram. Porque o maná era um alimento santo, mas temporário, e dava vida só o tanto de que se precisava para se chegar à Terra Prometida por Deus ao seu povo. Mas o Maná, que Eu sou, já não terá limitação de tempo nem de poder. Ele é não somente celeste, mas é divino, e produz o que é divino: a incorruptibilidade, a imortalidade de tudo o que Deus criou à sua imagem e semelhança. Esta não durará só quarenta dias, nem só quarenta meses, nem só quarenta anos ou quarenta séculos. Mas durará, enquanto durar o tempo, e será dado a todos os que dele tiverem uma fome santa e agradável ao Senhor, que ficará jubiloso, por dar-se sem mistura aos homens, pelos quais Ele se encarnou, e para que eles tenham a Vida que não morre.
Eu posso dar-me. Eu posso transubstanciar-me, por amor dos homens, para que o pão se torne Carne, e a Carne se torne Pão, a fim de que a fome espiritual dos homens, que sem este alimento morreriam de fome e de doenças espirituais. Mas, se alguém come corretamente deste pão, viverá para sempre. O pão que Eu darei será a minha carne, imolada para a vida do mundo. Será o meu Amor espalhado pelas Casas de Deus, para que à Mesa do Senhor venham todos aqueles que são amorosos ou infelizes, e encontrem recuperação para suas necessidades de unirem-se a Deus e de encontrarem alívio para suas penas.
354.14 – Mas, como podes dar-nos a comer a tua carne? Quem pensas que nós somos? Umas feras sanguinárias? Uns selvagens? Uns homicidas? Nós sentimos repugnância pelo sangue e pelo delito.
– Em verdade, em verdade Eu vos digo que muitas vezes o homem é mais do que uma fera, e que o pecado os faz mais do que selvagens, que o orgulho produz neles uma sede homicida, e que não é a todos os presentes que o sangue e o delito repugnam. Além disso, no futuro o homem será assim, porque Satanás, a sensualidade e o orgulho o tornarão ferino. E, por isso, com mais necessidade do que nunca, deveis e deverá o homem curar-se a si mesmo dos germes terríveis, com a infusão em si do Santo. Em verdade, em verdade Eu vos digo que, se não comerdes a Carne do Filho do homem e não beberdes o seu Sangue, não tereis a vida em vós. Quem come dignamente a minha Carne, e bebe o meu Sangue, tem a vida eterna, e Eu o ressuscitarei no último dia. Porque a minha Carne é verdadeiramente comida e o meu Sangue é verdadeiramente bebida. Quem come a minha Carne e bebe o meu Sangue permanece em Mim, e Eu nele. Como o Pai que vive me enviou, e Eu vivo pelo Pai, assim quem me come viverá também e1e por Mim e irá aonde Eu o enviar, e fará o que Eu quero, e viverá austero como homem, e ardente como um Serafim, e será santo, porque para poder alimentar-se de minha Carne e do meu Sangue, ele se proibirá a si mesmo de cometer culpas, e viverá subindo, para ir terminar sua subida aos pés do Eterno.
– Mas esse está doido! Quem que pode viver desse modo? Em nossa religião somente o sacerdote é que há de ser purificado para oferecer a vítima. Aqui ele quer fazer de nós todos muitas vítimas de sua loucura. Esta doutrina é de todo inaceitá-vel, e essa linguagem é dura demais! Quem pode ficar ouvindo, e praticar isso? sussurram os presentes, e muitos deles já são considerados discípulos.
354.15 A multidão vai-se desfazendo e comentando. E muito diminuídas se mostram as fileiras dos discípulos, quando ficam na sinagoga o Mestre e os fiéis. Eu não os conto, mas digo que, assim por alto, não chegarão a cem. Por isso deve ter havido uma notável defecção, até nas fileiras dos discípulos veteranos, que já estavam a serviço de Deus. Entre os que ficaram estão os apóstolos, o sacerdote João e o escriba João, Estevão, Hermes, Timoneu, Hermasteu, Ágabo, José, Salomão, Abel de Belém da Galiléia e Abel, o que era leproso em Corozaim, com o seu amigo, Elias (aquele que deixou de ir sepultar o pai para acompanhar a Jesus), Filipe de Arbela, Aser e Ismael de Nazaré, mais uns outros cujos nomes eu não sei. Todos esses estão falando em voz baixa entre si, comentando a defecção dos outros e as palavras de Jesus que, pensativo, está com os braços cruzados, apoiado a um alto atril.
– E vós vos escandalizais do que Eu disse? E, se Eu vos dissesse que um dia vereis o Filho do homem subir ao céu, onde Ele estava antes, e sentar-se à direita do Pai? E que foi que conseguistes compreender, absorver e crer até agora? E com que foi que ouvistes e assimilastes? Somente com a vossa humanidade? O Espírito é que vivifica e tem valor. A carne não serve para nada. As minhas palavras são espírito e vida, e são ouvidas e compreendidas com o espírito para delas ter vida. Mas há muitos entre vós que mataram o espírito, porque ele está sem fé. Muitos de vós não crêem de verdade. E é inutilmente que eles estão perto de Mim. E só por isso não terão a Vida, mas a morte. Porque eles aí estão, como Eu disse a princípio, ou por curiosidade, ou por alguma afeição humana ou, pior ainda, por causa de fins mais indignos. Não foram trazidos para cá pelo Pai como prêmio por sua boa vontade, mas por Satanás. Ninguém pode vir a Mim, em verdade, se isso não lhe foi concedido por meu Pai. Ide, pois, vós que vos detendes ainda, já cansados, porque estais humanamente envergonhados por terdes de me abandonar, mas tendes ainda uma vergonha maior por permanecerdes a serviço de Alguém, que vos parece “doido e insuportável.” Ide. É melhor estardes longe, do que aqui para atrapalhar.
E muitos outros se retiram do meio dos discípulos, entre os quais está o escriba João e Marcos, o geraseno endemoninhado, curado por Jesus, quando mandou que os demônios entrassem nos porcos. Os discípulos consultam-se um ao outro, e saem correndo atrás dos infiéis, tentando fazê-los parar.
354.16 Na sinagoga estão agora Jesus, o sinagogo e os apóstolos…
Jesus se volta para os doze, que estão humilhados a um canto, e lhes diz:
– Quereis ir-vos embora, vós também?
Ele o diz sem azedume e sem tristeza. Mas com um rosto muito sério.
Pedro, com o ímpeto que lhe dá a dor, lhe diz:
– Senhor, e para onde queres que se vá? Tu és a nossa vida e o nosso amor. Só Tu tens palavras de vida eterna. Nós chegamos a conhecer que Tu és o Cristo, o Filho de Deus. Se quiseres, expulsa-nos. Mas nós, por nós mesmos, não te deixaremos nem mesmo… nem mesmo que Tu não nos amasses mais…
E Pedro chora em silêncio, com grandes lágrimas… Também André, João e os dois filhos de Alfeu choram abertamente, enquanto os outros, pálidos, ou muito corados pela emoção, não choram, mas estão evidentemente sofrendo.
– Por que Eu teria que expulsar-vos? Não fui Eu que vos escolhi a vós doze?
Jairo, prudentemente, se afastou para deixar Jesus à vontade, ao confortar e fazer perguntas aos seus apóstolos. Jesus, que nota o silencioso afastamento dele, diz, sentando-se abatido, como se a revelação que vai fazer exigisse dele um esforço bem mais forte do que Ele pode fazer, pois está muito cansado, desgostoso e entristecido, quando diz:
– E, no entanto, um de vós é um demônio.
Aquela palavra cai lenta, trazendo medo ao meio da sinagoga, na qual a única coisa que está alegre é a luz produzida pela grande quantidade de lâmpadas… Mas ninguém ousa dizer nada. Olham-se um ao outro, com um pavoroso arrepio, uma angustiada indagação e uma íntima interrogação. E cada um fica se examinando a si mesmo…
Por algum tempo, ninguém se move. E Jesus fica sozinho, em sua cadeira, com as mãos cruzadas sobre os joelhos e o rosto inclinado. Finalmente ele ergue o rosto e diz:
– Vinde. Eu já não sou um leproso. Ou pensais que Eu o sou?
Então, João corre para frente, e vai apegar-se ao seu pescoço, dizendo:
– Estou, então, contigo na lepra, meu único amor! Contigo na condenação, contigo na morte, se achas que é isto que te espera…
E Pedro se atira aos seus pés, e os pega e põe sobre os seus ombros, e diz, soluçando:
– Aperta aqui, pisa! Mas não me faças pensar que Tu não confias no teu Simão.
Os outros, vendo que Jesus acaricia os dois primeiros, andam também para frente e beijam a Jesus sobre as vestes, nas mãos, sobre os cabelos… Somente Iscariotes é que ousa beijá-lo no rosto.
Jesus se levanta num instante e quase o rejeita bruscamente, pois seu levantar-se foi muito repentino, e diz:
– Vamos para casa. Amanhã de tarde, já de noite, partiremos com as barcas para Hipos.
1 passagem, já mencionada em 340.9. 2 o maná no deserto, que é Êxodo 16. Aqui estão algumas citações de Êxodo 16,4-5.14.31; Sabedoria 16,19-29; Eclesiástico 45,1-6. 3 na arca era a Arca de ouro da Aliança ou Arca do Testemunho, mantido no lugar mais sagrado do Templo. Origem, descrição, eventos e conteúdo são mostrados na arca: Êxodo 25,10-22; 26,33-34; 37,1-9; 40,20-21; Números 10,33-36; 17,25; Dt 10,1-5; 31,25-26; Josué 3-4; 6,1-16; 1 Samuel 3,3; 4,3-22; 5-6; 7,1-2; 2 Samuel 6,1-17; 7,2; 11,11; 1 Reis 3,15; 6,19-28; 8,1-9; 2 Macabeus 2,4-5. Que a arca continha o maná é de: Hebreus 9,4. No trabalho valtortiana a arca prefigura da Virgem Maria (a partir de 25.9 para terminar em 642.8/9 e 649.11), mas também é uma figura de Jesus (em 221.9 e 387.8). 4 escrito, como em Isaías 54, 13; Jeremias 31,34.
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