588. 588. Judas Iscariotes se dirige aos chefes do Sinédrio.
29 de março de 1947.
588.1Judas chega de noite à casa de campo de Caifás. Mas a lua trabalha como cúmplice do assassino alumiando para ele a estrada. Ele deve estar bem certo de que vai encontrar lá, naquela casa que está fora dos muros, aqueles que ele procurava, porque senão eu penso que ele teria procurado entrar na cidade e teria ido ao Templo. Mas ele vai subindo com segurança por entre as oliveiras da pequena colina. Está mais seguro desta vez do que na outra1. Porque agora énoite, e tanto as sombras como a hora o protegem contra qualquer surpresa possível. As estradas do campo já estão desertas, depois de terem sido percorridas o dia inteiro pelas multidões de peregrinos que vão a Jerusalém pela Pásoa. Até os pobres leprosos estão em suas cavernas dormindo seus sonos de infelizes, esquecidos por algumas horas de sua triste sorte.
Eis Judas à porta de uma casa toda branca à luz da lua. Ele bate à porta. Três batidas, uma batida, três batidas, duas batidas… Até mesmo o sinal combinado ele sabe dar muito bem! E deve ser mesmo um sinal seguro, pois a porta se entreabre sem que o porteiro prevenido fique espiando pelo buraquinho aberto na porta.
Judas pula para dentro e ao servo porteiro, que o cumprimenta, ele pergunta:
– A reunião já começou?
– Sim, Judas de Keriot. Eu poderia dizer que já estão todos.
– Leva-me a ela. Eu preciso falar de coisas importantes. Anda logo!
O homem fecha a porta com todos os ferrolhos e vai indo na frente pelo corredor meio escuro, parando diante de uma porta pesada, e bate nela. O barulho das vozes cessa na sala fechada, e no lugar dele começa o barulho da fechadura e a chiadeira da porta que se abre, projetando um cone de luz viva no corredor escuro.
– És tu? Entra! –diz aquele que abriu a porta e que eu não sei quem é.
E Judas entra na sala, enquanto aquele que a abriu a fecha de novo com a chave.
588.2Há um movimento de espanto, ou pelo menos de agitação, ao verem Judas entrando. Mas todos o saúdam em coro:
– A paz esteja contigo, Judas de Simão.
– A paz esteja convosco, membros do santo Sinédrio –responde Judas.
– Vem à frente. Que queres? –perguntam-lhe.
– Quero falar-vos… Falar-vos do Cristo. Não é mais possível continuarmos assim. Eu não vos posso mais ajudar se não vos decidis a tomar decisões extremas. O homem já suspeita.
– Tu te fizeste descobrir, ó estulto? –dizem, interrompendo-o.
– Não. Vós é que sois estultos, vós que, por causa de uma pressa estúpida, tomais medidas erradas. Sabíeis bem que eu vos teria ajudado! Vós não confiastes em mim.
– Tens uma memória fraca, Judas de Simão! Não te lembras de como nos deixaste na última vez? Quem poderia pensar que tu eras fiel a nós, quando disseste que daquele modo não podias traí-lo?
–diz, irônico, Elquias, viperino mais do que nunca.
– E achais que seja coisa fácil chegar a enganar um amigo, o único que de verdade me ama, o Inocente? Credes que seja fácil chegarmos até o delito?
Judas está agitado.
588.3Procuram acalmá-lo. Passam a tratá-lo com brandura e a adulá-lo. E o seduzem, ou pelo menos procuram fazê-lo, dizendo-lhe que o que ele faz não é um delito, “mas uma obra santa em favor da Pátria, contra a qual as represálias dos dominadores poderão ser evitadas, e tendo em vista que eles já estão dando sinais de intolerância por causa das contínuas agitações,divisões de partidos e agrupamentos em uma província romana, e para o bem da Humanidade, se realmente ele está convencido da natureza divina do Messias e de sua missão espiritual.”
– Se é verdade o que Ele diz — longe de nós crer nele — não serás tu um colaborador da Redenção? O teu nome ficará associado ao dele através dos séculos, e a Pátria te incluirá entre os seus heróis e te honrará com os seus mais altos cargos. Um trono está preparado para ti entre nós. Tu subirás, Judas. Darás leis a Israel. Oh! Não nos esqueceremos daquilo que fizeste para o bem do sagrado Templo, do sagrado Sacerdócio, para a defesa da Lei santíssima, para o bem de toda a Nação! Basta que nos ajudes e depois nós te juramos, e eu te juro em nome do poderoso meu pai e de Caifás, que leva o efod, tu serás o homem mais importante de Israel. Acima dos tetrarcas, acima do meu próprio pai, que é um pontífice já deposto. Como um rei, como um profeta é que serás servido e ouvido. Porque se depois Jesus de Nazaré não fosse mais do que um falso Messias, mesmo que na realidade não fosse passível de morte, visto que as suas ações não são as de um ladrão, mas de um louco, eis porque fazemos lembrar das palavras inspiradas do pontífice Caifás — tu sabes que quem usa o efod e o racional fala por sugestão divina e profetiza o bem e o que se deverá fazer pelo bem — Caifás, estás lembrado? Caifás disse2: “É bom que um homem morra pelo povo e que não pereça toda a Nação.” Foi uma palavra de profecia.
– E na verdade foi assim. O Altíssimo falou pela boca do Sumo Sacerdote. Que ele seja obedecido! –dizem em coro, já com gestos teatrais e parecendo uns autômatos que devem fazer aqueles determinados gestos, aqueles torpes fantoches que são os membros do grande conselho do Sinédrio.
588.4Judas está sugestionado, seduzido… Mas uma pequena raiz de bom senso, para não dizer de bondade, subsiste ainda nele e o impede de dizer as palavras fatais.
Eles o estão rodeando com deferência, com um amor fingido, e insistem:
– Não crês em nós? Olha: nós somos os chefes das vinte a quatro famílias sacerdotais, os Anciãos do povo, os escribas, os maiores fariseus de Israel, os rabis sábios, os magistrados do Templo. A flor de Israel está aqui ao redor de ti pronta para aclamar-te e, a uma voz, te está dizendo: “Faze isto que é uma coisa santa.”
– E Gamaliel, onde está? E José e Nicodemos onde estão? Onde está Eleazar, o amigo de José, e onde está João de Gaas? Eu não os estou vendo.
– Gamaliel está fazendo uma grande penitência, João está ao lado da mulher que está grávida e sofrendo nesta tarde. E não sabemos por que Eleazar não veio. Mas uma doença pode sobrevir a qualquer um de repente, não te parece? Quanto a José e a Nicodemos, nós não os avisamos a respeito desta reunião secreta e, por amor a ti, para respeitar a tua honra… Porque no caso em que, por falta de sorte, o negócio fracassasse, o teu nome não fosse levado ao Mestre… Nós defendemos o teu nome. Nós te amamos, Judas, como a um novo Macabeu3, salvador da Pátria.
– O Macabeu combateu o bom combate. E eu… cometo uma traição.
– Não fiques observando as particularidades do ato, mas a justiça do seu fim. 588.5Fala tu, ó Sadoque, ó escriba de ouro. De tua boca fluem preciosas palavras. Se Gamaliel é douto, tu és um sábio, porque sobre os teus lábios está a sabedoria de Deus. Fala tu a este homem que ainda está titubeando.
Aquela raposa, que é Sadoque, vai para frente e, com ele, o decrépito Cananias: uma raposa esquelética e moribunda ao lado de um astuto chacal, robusto e feroz.
– Escuta, ó homem de Deus! –começa pomposamente Sadoque, tomando uma postura estudada, inspirada e oratória, com o braço direito estendido ostensivamente para frente, o esquerdo ocupado em segurar todo aquele monte de dobras que formam a sua veste de escriba.
E depois, levanta também o braço esquerdo, deixando que aquele monumento de vestes se desfaça e saia da ordem, e assim, com o rosto e os braços levantados para o forro da sala, ele troveja:
– Eu te digo! Eu digo diante da Altíssima Presença de Deus!
– Maranata4 –dizem todos, curvando-se, como se um sopro do alto os envergasse para a frente, e depois voltando à posição vertical, com os braços cruzados sobre o peito.
– Eu te digo: Está escrito nas páginas de nossa História e do nosso destino! Está escrito nos sinais e nas figuras que nos foram deixados, há séculos! Está escrito no ritual que na noite fatal não há parada para os egípcios. Está escrito na figura de Isaque! Está escrito na figura de Abel. E que o que está escrito se verifique.
– Maranata –dizem os outros em um coro baixo e lúgubre, impressionante, com aqueles gestos de antes, os rostos extravagantemente atingidos pela luz dos dois lampadários acesos nas extremidades da sala, de uma mica palidamente violácea, e dos quais sobe uma chama fantasmagórica.
E essa reunião, com quase todos vestidos de branco, com os coloridos pálidos e oliváceos de sua raça, tornados ainda mais pálidos e oliváceos por causa da luz difusa, realmente mais parece uma reunião de fantasmas.
– A palavra de Deus desceu sobre os lábios dos profetas para ensinar este decreto. Ele deve morrer. Está dito!
– Está dito. Maranata!
– Ele deve morrer, está marcada a sua sorte!
– Ele deve morrer. Maranata!
– Até nos menores particulares está descrito qual é o seu destino fatal, e a fatalidade não se infringe!
– Maranata!
– Até já está marcado qual é o preço simbólico que será pago àquele que se faz instrumento de Deus para que se consuma a promessa.
– Está marcado! Maranata!
– Como Redentor ou como falso profeta, Ele deve morrer!
– Deve morrer! Maranata!
– A hora chegou. Javé o quer! Eu ouvi sua voz! E ela está gritando: “Que se cumpra!”
– O Altíssimo falou! Que se cumpra! Que se cumpra! Maranata!
588.6– Que te fortaleça o Céu como fortaleceu Jael e Judite, que eram mulheres e souberam ser heroínas. Como fortaleceu Jefté que, sendo pai, soube sacrificar sua filha à Pátria, como fortaleceu Davi contra Golia5s e realizou o gesto que tornará eterno Israel na memória dos povos!
– Que o Céu te dê forças. Maranata!
– Que sejas o vencedor!
– Que sejas o vencedor! Maranata!
Levanta-se a voz rouca e senil de Cananias:
– Aquele que titubeia diante da ordem sagrada está condenado à desonra e à morte!
– Está condenado. Maranata!
– Se não quiseres ouvir a voz do Senhor teu Deus e não puseres em prática o que Ele manda, e o que ele por nossa boca te manda, que venham sobre ti todas as maldições!
– Todas as maldições! Maranata!
– Que te castigue o Senhor com todas as maldições mosaicas6 e te deixe perdido entre os gentios.
– Que Ele te castigue e deixe perdido. Maranata!
Um silêncio mortal vem depois desta cena impressionante… Tudo se imobiliza em uma imobilidade pavorosa.
588.7Finalmente ouve-se a voz de Judas, e eu quase fico sentindo dificuldade em reconhecê-lo de tão diferente que ele está:
– Sim. Eu o farei. Eu devo fazê-lo. E o farei. Pois a última parte das maldições mosaicas é para mim e delas preciso escapar, pois já tardei muito a fazê-lo. E já estou ficando louco, sem ter trégua nem repouso, e com o coração cheio de medo, os olhos perturbados e minha alma consumida pela tristeza. Com medo de ser descoberto e fulminado por Ele no meu jogo dúplice — porque eu não sei, não sei até que ponto Ele está vendo o meu pensamento — vejo a minha vida suspensa por um fio, e de manhã e de tarde peço que termine essa hora por causa do espanto que tomou conta do meu coração pela coisa horrorosa que devo fazer. Oh! Apressai a chegada dessa hora. Tirai-me dessas minhas angústias. Que tudo se faça. E logo! Agora! E que eu fique livre! Vamos!
A voz de Judas ficou firme e forte, pouco a pouco, à medida que ele ia falando. Seus gestos, que antes eram automáticos e inseguros, como se ele fosse um sonâmbulo, tornam-se livres, voluntários. Ele se põe de pé, em toda a sua estatura, satanicamente belo, e grita:
– Que caiam os laços de um terror louco! Eu estou livre de uma sujeição apavorante. O Cristo! Eu não te temo mais e te entrego aos teus inimigos! Vamos!
É o grito de um demônio vitorioso, que resolutamente se encaminha para a porta.
588.8Mas eles o fazem parar:
– Devagar! Responde-nos: Onde está Jesus de Nazaré?
– Na casa de Lázaro, em Betânia.
– Nós não podemos entrar naquela casa que tem muitos servos fiéis. É a casa de um favorito de Roma. Com certeza, iríamos ao encontro de aborrecimentos.
– Lá pela aurora iremos à cidade. Ponde guardas pelo caminho de Betfagé, provocai um tumulto e prendei-o.
– Como sabes que Ele vai por aquela rua? Ele poderia ir por outra…
– Não. Ele disse aos seus seguidores que por essa é que Ele entrará na cidade, pela porta de Efraim, e que o fiquem esperando perto de En Rogel. Se vós o prenderdes antes…
– Não podemos. Deveríamos entrar na cidade com Ele entre os guardas, e todas as ruas conduzem às portas, e todas as ruas da cidade estão cheias de gente, da manhã até à noite. Haveria um tumulto. E isso não deve acontecer.
– Mas Ele subirá ao Templo. Chamai-o para fazer-lhe umas perguntas em uma sala. Chamai-o em nome do Sumo Sacerdote. Ele irá, porque tem mais respeito a vós do que à sua vida. Uma vez que Ele esteja sozinho convosco… Não vos faltarão os meios de levá-lo para um lugar seguro e condená-lo, quando chegar a hora.
– Mas haveria tumulto igualmente. Tu deverias estar atento ao seguinte: a multidão é fanática por Ele. E não somente o povo, mas também os grandes e as esperanças de Israel. Gamaliel está perdendo os seus discípulos. E assim Jônatas ben Uziel e outros entre nós, e todos estão nos deixando, seduzidos por Ele. Até os gentios o veneram ou o temem, o que já é venerar, e estão prontos para se revoltarem contra nós se o tratarmos mal. Além disso, alguns dos ladrões que nós havíamos pago para bancarem uns falsos discípulos e suscitarem rixas, foram detidos e pediram clemência pela delação, e o Pretor sabe… Todo mundo vai atrás dele, enquanto nós não fazemos nada. Mas é necessário agir com sutileza para que as turbas não percebam.
– Sim. Isso é que é preciso fazer! Até Anás assim recomenda. Ele diz: “Que isso não aconteça durante a festa, e não haja tumulto no meio do povo fanático.” Assim ele ordenou, dando ordens também para que ele seja tratado com respeito no Templo e fora de lá, e não seja molestado onde possamos levá-lo a um engano.
588.9– E então? Que é que quereis fazer? Eu estou bem disposto esta noite, mas vós ainda hesitais… –diz Judas.
– Eis! Tu és aquele que devias conduzir-nos a Ele, em uma hora em que Ele estiver sozinho. Tu conheces os seus hábitos. Tu nos escreveste que Ele te conserva perto dele mais do que aos outros. Portanto, tu deves saber o que é que Ele quer fazer. Nós estaremos sempre prontos. Quando julgares apropriados o lugar e a hora, vem e nós iremos.
– Está combinado. E quanto eu ganharei com isso?
Judas já está falando friamente, como se estivesse tratando de um negócio qualquer.
– Ganharás o tanto que foi dito pelos profetas7, a fim de sermos fiéis à palavra inspirada: trinta denários…
– Trinta denários para matar um homem, e um homem como aquele? O preço de um cordeiro comum nestes dias de festa?! Estais doidos. Não é que eu tenha necessidade de dinheiro. Mas é muito pouco para pagar a dor que eu sinto por estar traindo Aquele que sempre me amou.
– Mas nós já te dissemos o que te iremos fazer. Glória, honras! Aquilo que esperavas dele e que não tiveste. Nós curaremos a tua desilusão. Mas quanto ao preço, ele é fixado pelos profetas! Oh! É apenas uma formalidade. É um símbolo e nada mais. O resto virá depois…
– E o dinheiro, quando?
– Na hora em que nos disseres: “Podeis vir.” Antes, não. Ninguém paga antes de ter a mercadoria nas mãos. Não te parece justo assim?
– Justo é. Mas pelo menos, triplicai a importância…
– Não. É o que foi dito pelos profetas. Assim é que se deve fazer. Oh! Nós saberemos obedecer aos profetas! Eh! Eh! Eh! Não omitiremos nem um jota de tudo o que eles escreveram sobre Ele. É assim. Eh! Eh! Eh! Nós somos fiéis à palavra inspirada. Eh! Eh! Eh!
E dá suas risadas aquele asqueroso esqueleto que é Cananias. E muitos lhe fazem coro com suas risadas lúgubres, baixas, insinceras, umas verdadeiras gargalhadas de demônios que só sabem escarnecer. Porque o riso é próprio dos espíritos serenos e amorosos, mas o escárnio é próprio dos corações perturbados e saturados de ódio.
588.10– Tudo já foi dito. Podes ir. Nós vamos esperar a aurora para entrarmos de novo na cidade por diferentes caminhos. Adeus. A paz esteja contigo, ó ovelha perdida, para que voltes ao rebanho de Abraão. A paz esteja contigo! E o reconhecimento de todo Israel! Conta conosco! Um teu desejo para nós é lei. Deus esteja contigo como esteve com todos os seus servos mais fiéis! Todas as bênçãos sobre ti!
Eles o acompanham com abraços e protestos de amor até à saída… E o ficam olhando se afastar pelo corredor meio escuro… Ouvem o barulho dos ferrolhos do portão, que se abre e se fecha.
588.11Entram novamente na sala cheios de júbilo.
Só duas ou três vozes é que se levantam, e são as dos menos endemoninhados:
– E agora? Que vamos fazer com Judas de Simão? Bem que sabíamos que não lhe poderemos dar aquilo que lhe prometemos, a não ser os pobres trinta denários!… Que dirá ele quando vir que foi traído por nós? Não lhe teremos dado um prejuízo maior? Não irá ele dizer ao povo o que fizemos? Que ele seja um homem de pensamento inconstante nós o sabemos.
– Vós sois uns ingênuos e tolos para terdes esses pensamentos e ficardes tão preocupados. Já está estabelecido o que faremos com Judas. Foi estabelecido na outra vez. Não vos lembrais? E nós não mudamos de parecer. Depois que tudo tiver acabado com Cristo, Judas morrerá. Está dito.
– E se ele falasse antes?
– Falasse a quem? Aos discípulos e ao povo, para ser apedrejado? Ele não falará. O horror de sua ação é para ele uma mordaça…
– Mas ele poderia arrepender-se no futuro, ter remorsos, até ficar doido… Porque o seu remorso, se tivesse que lhe sobrevir, não poderia fazer dele outra coisa senão um doido…
– Ele não terá tempo para isso. Nós providenciaremos antes. Cada coisa tem seu tempo. Primeiro, o Nazareno, e depois aquele que o traiu –diz lenta e terrivelmente Elquias.
– Sim. E tomai cuidado! Nem uma só palavra aos ausentes. Eles já conheceram demais o que nós pensamos. Eu não confio em José nem em Nicodemos. E pouco nos outros.
– Tens dúvidas de Gamaliel?
– Ele se afastou de nós há muitos meses. Sem uma licença direta do Pontífice ele não tomará parte em nossas reuniões. Diz ele que está escrevendo sua obra com a ajuda do filho. Mas eu me refiro a Eleazar e a João.
– Oh! Eles nunca nos contradisseram –diz um sinedrita que eu já vi outras vezes com José de Arimateia, mas de cujo nome não me lembro.
– Pelo contrário! Eles nos contradisseram pouco demais. Eh! Eh! Eh! E será preciso vigiá-los! Muitas serpentes têm ido entocar-se no Sinédrio, acho eu… Eh! Eh! Eh! Mas elas serão tiradas de seus ninhos… –diz Cananias andando todo encurvado e trêmulo, apoiado em seu bastão, procurando um lugar cômodo em uma das largas e baixas cadeiras cobertas com pesados tapetes ao longo das paredes da sala, e lá ele se estende satisfeito, e logo pega no sono, com a boca aberta, e feio em sua má velhice.
Todos o observam. E Doras, filho de Doras, diz:
– Ele está satisfeito por ter visto este dia. Meu pai sonhou com este dia, mas não o viu. Contudo eu levarei no coração o seu espírito, para que ele esteja presente no dia de sua vingança contra o Nazareno e tenha sua alegria…
588.12– Lembrai-vos de que deveremos, em grupos, e grupos numerosos, estar constantemente no Templo.
– Nós estaremos.
– Deveremos ordenar que Judas de Simão seja introduzido a qualquer hora pelo Sumo Sacerdote.
– Faremos isso.
– E agora preparemos os nossos corações para a tarefa final.
– Está pronto! Já está pronto!
– Com astúcia.
– Com astúcia.
– Com capricho.
– Com capricho.
– Para acalmar qualquer suspeita.
– Para seduzir qualquer coração.
– Qualquer coisa que se diga ou se faça, nenhuma reação. Nós nos vingaremos de tudo de uma só vez.
– Assim faremos. E será uma vingança feroz.
– Completa!
– Tremenda!
E eles se assentam, procurando um repouso à espera do alvorecer do dia.
588.1330-03-47 (Domingo de Ramos)
Diz Jesus:
– Aqui colocarás a visão: “De Betânia a Jerusalém” (de 3 de março de 1945). E agora: vê8!
1 na outra, isto é, da vez anterior, em 535.6/13.
2 disse, em 549.15.
3 Macabeu é Judas Macabeu, cujos gestos estão narrados em: 1 Macabeus 3-9; 2 Macabeus 8-15.
4 Maranata, expressão já encontrada em 438.1 (última linha) e em 475.6 (na qual Maria Valtorta atribui a esta o significado de Assim seja), poderia corresponder a uma invocação ramaica que significa “Senhor, vem!”, como em: 1 Coríntios 16,22; e será encontrada também em 639.2.5.
5 fortaleceu Davi contra Golias, como se lê em 1 Samuel 17,32-51 no contexto de todo o capítulo 17. O índice temático no final do volume orienta às notas sobre David e sobre os outros personagens aqui mencionados.
6 maldições mosaicas, que estão em: Levítico 26,14-46; Deuteronômio 28,15-68.
7 que foi dito pelos profetas, como em: Zacarias 11,12-13.
8 vê! introduz a visão de 30 de março de 1947, que encontraremos no próximo capítulo 590.
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