245. 245. Uma acusação dos nazarenos a Jesus,afastada com a parábola do leproso curado.


6 de agosto de 1945.

245.1A primeira parada que Jesus faz em Nazaré é na casa de Alfeu. Está para entrar na horta, quando se encontra com Maria de Alfeu, que está saindo com duas ânforas de cobre para ir à fonte.

 A paz esteja contigo, Maria! –diz Jesus, e abraça a parenta que, expansiva como sempre, o beija com um grito de alegria.

 Vai ser certamente este um dia de paz e de alegria, meu Jesus, porque Tu vieste! Oh! filhos meus caríssimos! Que felicidade a minha em ver-vos, que felicidade para a vossa mãe –e beija afetuosamente os seus filhos, que estavam logo atrás de Jesus–. Ficais comigo hoje, não é verdade? Eu já estou com o forno aceso para os pães. E ia indo apanhar água, para não ter que interromper a cozedura do pão.

 Mamãe, nós vamos buscar –dizem os filhos, tomando conta das ânforas.

 Como eles são bons, não é verdade, Jesus?

 Muito bons, confirma Jesus.

 Mas, são bons também para contigo, não é verdade? Porque, se eles tivessem que amar-te menos do que a mim, seriam para mim menos queridos.

 Não tenhas medo, Maria. Eles só me dão alegria.

 Estás sozinho? Maria foi-se embora assim de repente… Eu também teria ido lá. Ela estava com uma mulher… É uma discípula?

 Sim. A irmã da Marta.

 Oh! Que Deus seja bendito por isso! Tanto que eu rezei para isso! Onde está ela?

 Ei-la que vem vindo aí, com minha Mãe, Marta e Susana.

De fato, as mulheres estavam dando uma volta pela rua, acompanhadas pelos apóstolos. Maria de Alfeu corre ao encontro delas, e exclama:

 Como eu me sinto feliz, por ter-te como irmã! Eu deveria chamar-te “minha filha”, porque tu és jovem, e eu já estou velha. Mas eu te chamo com o nome para mim tão querido, desde quando eu assim chamo à minha Maria. Querida. Vem. Deves estar cansada… Mas certamente também tu estás feliz –e beija Madalena, segurando-a depois pela mão, como para fazê-la compreender, ainda mais, quanto lhe quer bem.

A beleza viçosa da Madalena fica posta ainda mais em destaque, ao lado da figura emagrecida de Maria de Alfeu.

 Hoje, todos na minha casa. Eu Não vos deixo ir embora.

E, com um suspiro profundo, que lhe vem involuntariamente, escapa-lhe também esta confissão:

 Eu estou sempre tão sozinha! Quando não está aqui a minha cunhada, passo os dias bem triste e solitária.

 Estão ausentes os teus filhos? –pergunta Marta.

Maria de Alfeu fica ruborizada, e suspira:

 Com suas almas, sim. Ainda. Ser discípulos une e separa. Mas, assim como tu vieste, Maria, também eles virão –e enxuga uma lágrima.

Olha depois para Jesus, que a observa com piedade e se esforça para sorrir e perguntar:

 São assuntos longos, não é verdade?

 Sim, Maria. Mas tu os verás.

 Eu esperava… Depois que Simão… Mas depois ficou sabendo de outras coisas e ele voltou a ficar hesitante. Ama-o igualmente, Jesus!

 E, podes pôr isto em dúvida?

Maria, enquanto fala, prepara a refeição para os peregrinos, sem dar ouvidos a todos os que lhe estão dizendo que não é preciso nada daquilo.

 Deixemos as discípulas em paz, diz Jesus, e termina: E vamos andar pela cidade.

 Tu te vais? Será que não virão os outros filhos?

 Amanhã Eu fico o dia inteiro aqui. E assim estaremos juntos. Agora vamos ver os amigos. A paz esteja convosco, mulheres. Adeus, minha Mãe.

245.2Nazaré já está alvoroçada pela chegada de Jesus e, com aquele apêndice, que é Maria de Magdala. Uns se precipitam sobre a casa de Maria de Alfeu, outros sobre a de Jesus para o verem, mas, tendo encontrado fechada esta última, voltam todos para Jesus, que lá vai atravessando Nazaré, indo para o centro da cidade. Esta tem sido sempre fechada ao Mestre. Uma parte irônica, outra parte incrédula, alguns grupos com evidente maldade se distinguem por suas palavras ofensivas e o vão acompanhando por curiosidade, mas sem amor, ao seu grande Filho, que Nazaré não compreende. Até nas perguntas que lhe dirigem não há amor, mas incredulidade e zombaria. Ele, porém, não dá sinal de se importar com aquilo, mas com doçura e mansidão vai respondendo a quem lhe fala.

 Dás a todos, mas pareces um filho sem vínculos com a tua pátria, pois a ela não dás.

 Estou aqui para dar o que pedirdes.

 Mas gostas mais de não ficar aqui. Seremos nós mais pecadores do que os outros?

 Não existe pecador, por mais que o seja, que Eu não queira converter. E vós não sois mais pecadores do que os outros.

 Mas nem Tu estás dizendo que somos melhores do que os outros. Um bom filho sempre diz que sua mãe é melhor do que as outras, mesmo se ela não for. Será que Nazaré é tua madrasta?

 Eu não digo nada. Calar-nos é regra de caridade para com os outros e para conosco mesmos, quando não se pode dizer que alguém é bom, e quando não se quer mentir. Mas meu louvor a vós estaria prestes a brotar de meus lábios, contanto que viésseis ouvir minha doutrina.

 Então, queres ser admirado?

 Não. Somente quero ser ouvido e acreditado, para o bem de vossas almas.

 Então, fala! E Te ouviremos!

 Dizei-me sobre o que é que devo falar.

Um homem, de seus quarenta e cinco anos, diz:

 Aí está! Eu gostaria que Tu entrasses em minha casa e me explicasses um ponto.

 Eu já vou lá, Levi.

E vão para a sinagoga, enquanto o povo se aglomera atrás do Mestre e do sinagogo, enchendo logo completamente a sinagoga.

245.3O sinagogo pega um rolo e lê1:

 “Ele fez subir a filha do Faraó da cidade de Davi para a casa que havia feito para ela, porque dizia: ‘A minha mulher não deve morar na casa de Davi, rei de Israel, pois ela foi santificada, quando nela entrou a arca do Senhor’.” É isso aí. Eu quereria saber de Ti como é que julgas: se aquela medida foi justa, ou não, e por quê?

 Sem dúvida, ela foi justa, porque o respeito à casa de Davi, santificada porque nela havia entrado a arca do Senhor, assim o exigia.

 Mas, sendo ela mulher de Salomão, isso não tornava a filha de Faraó digna de viver na casa de Davi? A mulher não se torna, segundo a palavra de Adão, “osso dos ossos” do marido e “carne de sua carne”? Se assim é, como há de poder profanar, se não profana o seu esposo?

 Foi dito2 no primeiro livro de Esdras: “Vós pecastes, desposando mulheres estrangeiras, e acrescentando mais este delito aos outros muitos de Israel.” E uma das causas da idolatria de Salomão se deve justamente a esses conúbios com mulheres estrangeiras. Deus havia dito: “Elas, as estrangeiras, perverterão os vossos corações, até fazer-vos acompanhar os estrangeiros.” E as consequências disso nós as conhecemos.

 Mas, no entanto, ele não se perverteu por ter desposado a filha do Faraó, já que chegou até a julgar com sabedoria que ela não devia ficar na casa santificada.

 A bondade de Deus não pode ser medida pela nossa. O homem, depois de uma culpa, não perdoa, ainda que ele mesmo seja sempre o mais culpado. Deus não é inexorável, depois de uma primeira culpa. Contudo, não permite que impunemente o homem se endureça no mesmo pecado. Por isso, Deus não o pune na primeira queda, e aí lhe fala ao coração. Mas pune, quando a sua bondade não é aproveitada para converter-se, mas é considerada pelo homem como uma fraqueza. Aí é que desce sobre o homem a punição, porque de Deus não se zomba. Osso de seus ossos, carne de sua carne, a filha do Faraó havia colocado as primeiras sementes da corrupção no coração do Sábio, e vós sabeis que uma doença se manifesta, não enquanto só há um germe no sangue, mas quando o sangue já está corrompido por muitos germes, que se multiplicam, a partir daquele primeiro. A queda do homem para baixo sempre tem seu começo em alguma leviandade, que aparentemente era inócua. Depois disso, a condescendência com o mal vai aumentando. Forma-se o hábito de deixar a consciência transigir, de descuidar-se dos deveres e da obediência a Deus, e, pouco a pouco, se chega aos grandes pecados, como Salomão chegou até à idolatria, provocando o cisma, cujas consequências perduram até hoje.

245.4 Então, Tu dizes que se há de dar a maior atenção e prestar o maior respeito às coisas consagradas?

 Sem dúvida.

 Explica-nos, pois, mais isso. Tu te dizes a Verdade de Deus. É verdade?

 Eu o sou. Ele me mandou vir trazer à terra a boa nova a todos os homens, e para que Eu os redima de todo pecado.

 Tu, pois, se o és, és mais do que a Arca. Porque não na glória que se vê sobre a Arca, mas em Ti mesmo é que está Deus.

 Tu os estás dizendo, e é verdade.

 E, então, por que te profanas?

 Foi para dizer-me isto que me trouxeste aqui? Mas Eu me compadeço de ti. De ti e de quem te estimulou a falar. Eu Não deveria justificar-me, porque qualquer justificação seria espezinhada pelo vosso ódio. Mas Eu, a vós que Me censurais por falta de amor a vós e de profanação de minha pessoa, a vós eu darei uma justificação.

245.5Ouvi. Eu sei o que estais querendo dizer. Mas Eu vos respondo: “Vós estais errados.” Assim como Eu abro os braços para os que estão morrendo, a fim de trazê-los de novo à vida e chamo os mortos para dar-lhes a vida, igualmente Eu abro os braços para os verdadeiros moribundos e chamo os mais verdadeiros mortos, os pecadores, para levá-los à Vida Eterna, e ressuscitá-los, se é que já estão podres, para que não morram mais. Mas Eu vos contarei uma parábola.

Um homem, por causa de muitos vícios, tinha-se tornado leproso. A sociedade dos homens o afastou do seu convívio e o homem, vivendo em uma solidão impiedosa, começou a meditar em seu estado e em seus pecados que o reduziram àquele triste estado. Passaram-se muitos anos assim e, quando menos se esperava, o leproso ficou são. O Senhor usou de misericórdia para com ele por causa de suas muitas orações e lágrimas. Que é que aquele homem está fazendo agora? Pode voltar para sua casa, porque Deus usou de misericórdia para com ele? Não. Ele deve ir mostrar-se ao sacerdote, o qual, depois de tê-lo observado atentamente por certo tempo, faz que ele vá purificar-se, depois de fazer um primeiro sacrifício de dois pássaros. E depois não de uma só, mas de duas lavagens de suas roupas, o curado volta ao sacerdote com os cordeirinhos sem mancha e a cordeirinha, com a farinha e o óleo prescritos. O sacerdote o conduz então à porta do Tabernáculo. É, então que o homem fica religiosamente readmitido no seio do povo de Israel. Mas, dizei-me vós: quando ele vai a primeira vez ao sacerdote, para que vai?

 Para ser purificado uma primeira vez, e assim poder cumprir a purificação maior, que é a que o readmite no seio do povo santo!

 Disseste bem. Mas, então ele ainda não está completamente purificado?

 Oh! Não. Ainda lhe falta muito para isso. Tanto em seu corpo, como em sua alma.

 Como, então, que ele tem a coragem de aproximar-se do sacerdote na primeira vez, quando ainda está completamente imundo e, na segunda vez, aproxima-se até do Tabernáculo?

 Porque o sacerdote é o meio necessário para que ele possa ser readmitido entre os viventes.

 E o Tabernáculo?

 Porque só Deus é capaz de cancelar as culpas e é de fé crer que, além do santo Véu repousa Deus em sua glória, e de lá concede o seu perdão.

 Mas, então, o leproso curado não está ainda sem culpa, quando ele vai aproximar-se sacerdote e do Tabernáculo?

 Não. Certamente que Não.

 Homens de pensamento torto e de coração não limpo, por que então Me acusais, se Eu, o Sacerdote e o Tabernáculo me deixo aproximar dos leprosos do espírito? Por que tendes duas medidas para julgar? Sim, a mulher, que estava perdida, como Levi, o publicano, aqui presente agora com a sua nova alma e como seu novo ofício e com esses outros e outras, que vieram antes desses e estão agora ao meu lado. Aqui eles podem ficar, porque agora foram readmitidos no seio do povo do Senhor. E eles foram trazidos para perto de Mim pela vontade de Deus, que colocou em Mim o poder de julgar e de absolver, de curar e ressuscitar. Seria uma profanação, se neles continuasse a existir sua idolatria, assim como continuou na filha do Faraó, mas profanação não é o fato de terem eles abraçado a doutrina, que Eu trouxe à terra e pela qual eles ressuscitaram para a Graça do Senhor. 245.6Homens de Nazaré, que estendeis armadilhas para Mim, por não vos parecer possível que em Mim esteja a Sabedoria verdadeira e a justiça do Verbo do Pai, Eu vos digo: “Fazei como os pecadores.” Na verdade, eles estão ganhando de vós, ao saberem eles ir à Verdade. E Eu vos digo ainda: “Não fiqueis recorrendo a grosseiras armadilhas, para poderdes lutar contra Mim.” Não façais isso. Pedi, e Eu vos darei, como dou a cada um que vem a Mim, a Palavra da Vida. Acolhei-me como a um filho desta nossa terra. Eu não guardo rancor de vós. As minhas mãos estão cheias de carícias e o meu coração do desejo de instruir-vos e fazer-vos contentes. Tanto Eu estou assim que, se Me quiserdes, Eu passarei entre vós o meu sábado, instruindo-vos na lei Nova.

A multidão está com ideias contrárias. Mas acaba prevalecendo a curiosidade ou o amor e muitos gritam:

 Sim, sim. Amanhã aqui. Nós te ouviremos.

 Rezarei para que de noite caia a crosta que está oprimindo os vossos corações. Para que caiam todas as prevenções e, livres delas, possais compreender a Voz de Deus, que veio trazer o Evangelho a toda a terra, mas com o desejo de que a primeira região capaz de acolhê-la seja a cidade onde Eu cresci. A paz esteja com todos vós.

1 lê, em 2 Crônicas 8,11.
2 Foi dito, em Esdras 10,10;havia dito, em Deuteronômio 7,3-4; 1 Re 11,1-2.


1
2
3
4