403. 403. Simão de Jonasem sua luta e vitória espiritual.


25 de março de 1946. Em Nome do Senhor.

403.1 Eu te tenho finalmente nas mãos, ó doce Evangelho, santo acompanhante do meu Mestre pelos caminhos da Palestina. Tendo cumprido todas as ordens, eu te tenho de novo nas mãos. Ou melhor: “Tu é que me tens.”

Não sei se há alguém que reflita sobre a lição muda, mas tão formativa, que o Senhor nos dá com os seus silêncios, causados por três motivos diferentes: 1º A piedade por causa da fraqueza do porta-voz doente e, por vezes, até moribundo. 2º A punição do silêncio para quem não se comporta bem no uso dos seus dons. 3º A lição que me dá, e é dela que eu quero falar, do dever de obedecer sempre, mesmo quando é uma obediência que nos pode parecer inferior ao trabalho que suspendemos por causa dela.

Oh! Não é fácil ser “Vozes.” Vive-se sempre num contínuo exercício de vigilância e obediência. E Jesus, Ele que é o Dono do Mundo, não permite que o seu instrumento transgrida a obediência que deve cumprir, quando é uma obediência a alguém que pode exigi-la.

Eu, nestes dias, tinha que prestar obediência ao que me havia dito que fizesse o Pe. Migliorini… Eram coisas um tanto burocráticas e, por isso, um pouco aborrecidas. Mas Jesus nunca interveio, porque eu devia estar cumprindo a obediência. E exata, total, como ontem disse Azarias1, em sua explicação da Santa Missa.

Mas agora, que tudo foi feito, eu te posso contemplar, ó meu Senhor, que desces pelas estradas íngremes, para um vale fértil, deixando para trás o castelo de Beter, ainda visível, à luz do Sol que morre, lá em cima, em sua colina florida… Deixando lá em cima o amor das discípulas, dos pequenos, dos humildes, e descendo para as estradas que vão para Jerusalém, para o mundo, para baixo… e os caminhos não estão mais escuros do que os picos, somente porque estão num “vale”, e por isso o sol, a luz os deixaram, mas justamente porque em baixo, no mundo, está a emboscada, o ódio, tantos males que estão a esperar-te, meu Senhor…

403.2 Jesus vai à frente de todos. Sua figura branca e silenciosa, que se adianta majestosa, até quando desce pelas trilhas quase intransitáveis, e pelos atalhos pelos quais Ele vai para abreviar o caminho. Na descida, sua longa veste, seu amplo manto passam roçando pela beira do declive, e Jesus fica parecendo envolto por um manto real, que forma uma cauda atrás dos seus passos.

Atrás dele, menos majestosos, mas igualmente silenciosos, os apóstolos… Em último lugar está Judas, um pouco distanciado dos outros, em sua fúria sombria, que o faz ficar feio. Algumas vezes os mais simples deles, André e Tomé se viram a fim de olhar para ele, e André chega até a lhe dizer:

– Por que ficas assim sozinho, e tão para trás? Será que te estás sentindo mal?

Mas isso provoca uma áspera resposta:

– Pensa em ti mesmo –o que espanta André, e mais ainda, porque ela foi acompanhada por um apelido injurioso.

Pedro é o segundo da fila dos apóstolos, atrás do Tiago do Alfeu, que está logo atrás do Mestre. E Pedro ouve, pois grande é o silêncio desta tarde, por entre os montes. Ele se vira, de repente. E, de repente está para virar, para voltar atrás, no rumo de Judas. Mas depois para sobre seus dois pés. Pensa um pouco, e, em seguida, corre para Jesus, agarra-o rudemente por um braço, e o sacode, dizendo com ansiedade:

– Mestre, tu me garantes que é mesmo como me disseste na outra tarde? Que os sacrifícios e as orações nunca ficam sem resultados bons, ainda que pareça que para nada sirvam?…

Jesus, cheio de mansidão, triste e pálido, olha para Simão, que está suando pelo esforço que fez para não reagir prontamente ao insulto, e que está vermelho e tremendo a tal ponto, que talvez até moleste a Jesus, ao segurá-lo com força pelo braço. Jesus lhe responde, com um sorriso cheio de uma paz entristecida:

– Não ficam nunca sem prêmio. Fica certo disso.

403.3 Então, Pedro solta-o, e vai, não para o seu lugar, mas pelo declive do monte, e se desabafa a quebrar, a arrebentar arbustos e pequenas árvores, com uma violência que era dirigida contra outro lugar, mas que se descarrega aqui sobre uns troncos.

– Mas, que estás fazendo? Estás doido? –perguntam-lhe muitos.

Pedro não responde. E quebra, vai quebrando. Ele deixa que vá passando toda a fila dos apóstolos e Judas… E vai quebrando sem parar. Parece estar trabalhando de empreitada, de tão rápido que vai. Aos seus pés já está um feixe, que daria para assar um novilho. Ele o põe nas costas, e começa a andar para alcançar os companheiros. Não sei como é que ele pode fazer assim, estorvado pelo manto, pelo peso, pelo alforje e pelo caminho difícil. Mas ele vai indo, muito encurvado, como se estivesse sob um jugo.

E Judas ri ao vê-lo, e diz:

– Pareces um escravo!

Pedro vira com dificuldade a cabeça por baixo do seu jugo, e está para dizer alguma coisa. Mas se cala, range os dentes, e vai para diante.

– Eu te ajudo, meu irmão –diz André.

– Não.

– Mas, para um cordeiro, isso é lenha demais –observa Tiago do Zebedeu.

Pedro nada responde. E vai para frente assim. Ele deve não estar aguentando, mais, , mas não se entrega.

403.4 Finalmente, perto de uma gruta, quase no fim da descida, Jesus para, e com ele todos.

– Ficaremos aqui, e partiremos com as primeiras claridades do dia –ordena o Mestre–. Preparai a ceia.

Então Pedro põe no chão a sua carga, e se assenta sobre ela, sem explicar a ninguém o motivo daquele seu grande cansaço, pois há lenha por todos os lados.

Mas, enquanto uns vão para cá e outros para lá, à procura de água para beber e para limpar o chão da gruta e para lavar o cordeiro que vai ser cozido, Pedro fica sozinho com o seu Mestre. Jesus, de pé, põe a mão sobre a cabeça grisalha do seu Simão, e acaricia aquela cabeça fiel…

Então Pedro agarra aquela mão, e a beija, e a conserva sobre sua face, e a torna a beijar, e a acaricia… Uma gota cai sobre a mão branca. É uma gota que não é do suor do apóstolo rude e fiel, mas é do seu pranto silencioso de amor e de pena, e de vitória, depois de tanto esforço.

E Jesus se inclina, e o beija, dizendo-lhe:

– Obrigado, Simão!

Eis! Pedro não é certamente um homem bonito. Mas, quando vira para trás a cabeça, a fim de olhar para o seu Jesus, que o beijou e lhe agradeceu, Pedro vê que Ele e só Ele é que compreendeu a veneração e a alegria, que o fazem ficar bonito.

E, com essa transformação, minha visão terminou.

1 como ontem disse Azarias em um dos comentários à Missas festivas, que fazem parte do Libro di Azaria (“Livro de Azarias”).


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