426. 426. Com as romanas em Cesareia Marítima.Profecia em Virgílio. A jovem escrava salva.


1 de maio de 1946.

426.1 Jesus hospedou-se com a humilde família do cordoeiro. É uma casinha baixa, com as paredes impregnadas de água salobra, pois está bem perto das águas do mar. Atrás da casa há uns armazéns mal cheirosos, onde se descarregam as mercadorias, antes que sejam levadas embora pelos diversos compradores. Na frente há uma estrada poeirenta, por onde passam rodas pesadas e barulhenta por causa dos descarregadores, dos moleques de rua, dos carroceiros e dos marinheiros, que vão e vêm, sem parar. Para lá da estrada há uma pequena doca, com uma água oleosa, devido aos detritos nela jogados e à sua imobilidade. Depois da doca, começa um pequeno porto, em forma de canal, que vai desembocar no verdadeiro e amplo porto, capaz de acolher os grandes navios. Do lado do ocidente, há uma esplanada arenosa, onde se fabrica corda, no meio de uma grande chiadeira de cabrestantes de torção, movidos a mão. Do lado do oriente, há uma outra pequena esplanada, muito menor, mas mais barulhenta e desordenada, onde homens e mulheres estão remendando redes e velas. Depois, veem-se uns casebres baixos, com suas paredes impregnadas de água salobra, cheios de meninos pequenos e seminus.

Certamente não se pode dizer que Jesus tivesse escolhido um alojamento senhoril. Moscas, poeira, cheiro de mareta estagnada e o cheiro do cânhamo molhado são as coisas que dão o tom a este lugar. E o Rei dos reis, estendido com os seus apóstolos sobre montões de cânhamo a ser trabalhado, dorme, cansado, nesse pobre ambiente, que é meio depósito, meio armazém, e que fica atrás da casinha, e do qual se pode entrar, por uma porta preta feito o alcatrão, na cozinha, também ela preta e com uma porta carunchada, corroída pela poeira e pela água salobra, que a fazem ficar de uma cor branco-cinzenta de pedra pomes, e que dá para a praça, onde se fabricam as cordas, e de onde vêm os fedores do cânhamo que está nos tanques de maceração.

426.2O sol está batendo sobre a praça, não obstante os quatro enormes plátanos, dois de um lado e dois do outro da praça retangular, sob os quais estão os cabrestantes para torcer o cânhamo. Não sei se digo bem, ao dar o nome do utensílio que é usado. Os homens, recobertos com uma túnica, reduzida justamente ao que é essencial para cobrir as partes que a decência exige cobertas, ensopados de suor, como se estivessem por baixo de uma ducha, giram, giram o seu cabrestante, num movimento contínuo, como se estivessem cumprindo a condenação de uns galeotes… Não falam nada, a não ser para dizer as palavras indispensáveis que fazem parte do trabalho. Por isso, parando a chiadeira das rodas dos cabrestantes e a do cânhamo esticado ao ser torcido, nenhum outro rumor se ouve na praça, em estranho contraste com o barulho dos outros lugares, que ficam por perto da casa do cordoeiro.

Por isso, é surpreendente, e nem se poderia esperar por ela, esta exclamação de um dos cordoeiros:

– Mulheres?! A uma hora destas? Olhai! Elas estão vindo justamente para cá…

– Estarão precisando de cordas para amarrar os maridos… –caçoa um jovem cordoeiro.

– Podem estar precisando de cânhamo para os seus serviços.

– Será? Logo do nosso, tão grosseiro, quando há quem lho pode fornecer já penteado?

– Mas o nosso custa menos. Estás vendo? Elas são pobres…

– Mas hebreias elas não são. Vede como o manto é diferente…

– Pode ser que não sejam hebreias. Há um pouco de tudo em Cesareia agora…

– Talvez estejam procurando o Rabi. Pode ser que estejam doentes… Olha como estão todas cobertas, apesar deste calor todo…

– Contanto que não sejam leprosas… miséria, sim, mas lepra, não. E não a quero nem mesmo para resignar-me com Deus –diz o cordoeiro, ao qual todos os outros obedecem.

– Mas, não ouves o que diz o Mestre: “É preciso aceitar tudo o que Deus nos manda?”

– Ora, a lepra não nos é mandada por Deus. São os nossos pecados que a trazem, são os vícios e os contágios…

As mulheres foram chegando por detrás das costas deles, não destes que estão falando e que se encontram no ponto mais longe da praça, mas daqueles que estão ao lado da casa, e, portanto, os que estão mais perto para se ir ao encontro deles, e uma delas se inclina para dizer alguma coisa a um dos cordoeiros, que se vira espantado, e fica como quem levou um susto.

– Nós vamos ouvir um pouco… Cobertas como estão… Só me faltaria a lepra em casa, com todos aqueles filhos que eu tenho! –diz o cordoeiro chefe, fazendo parar o cabrestante, e pondo-se a caminho.

Os seus companheiros o acompanham…

– Simão, esta mulher quer alguma coisa, mas ela fala outra língua. Escuta-a um pouco, tu que já estiveste navegando –diz aquele ao qual a mulher se dirigiu.

– Que queres? –interroga rudemente o cordoeiro, procurando vê-la através do linho de cor escura caído sobre o rosto dela.

E, em um grego clássico, a mulher lhe responde:

– O Rei de Israel, o Mestre.

– Ah! Compreendi… mas… vós sois leprosas?

– Não.

– Quem me garante que não?

– Ele mesmo. Pergunta a Ele.

O homem está hesitante… Depois diz:

– Está bem. Vou fazer um ato de fé, e Deus me protegerá… Vou chamá-lo. Ficai aí.

As quatro mulheres não se movem, e o grupo acinzentado e mudo delas é olhado com espanto, e até com evidente temor, pelos cordoeiros, que se reuniram, a alguns passos de distância.

426.3 O homem vai até o armazém, e toca em Jesus, que está dormindo.

– Mestre, vem cá fora. Estão te procurando.

Jesus desperta, e se levanta logo, perguntando:

– Quem é?

– Não sei!… São umas mulheres gregas… todas cobertas. Dizem que não são leprosas, e que Tu me podes garantir que não o são.

– Eu vou logo –diz Jesus amarrando as sandálias, que Ele havia tirado, e, ajustando a veste no alto do pescoço, colocando a cinta que Ele havia tirado, para estar mais livre durante o sono. E sai com o cordoeiro. As mulheres fazem um movimento, como querendo ir ao encontro dele.

– Ficai aí. Eu vos digo! Não quero que fiqueis caminhando por onde brincam os meus meninos. Primeiro eu quero que Ele diga se vós estais sãs.

As mulheres ficam paradas. A mais alta, mas não aquela que falou por primeira em grego, diz, em voz baixa uma palavra. Jesus se vira para o cordoeiro:

– Não Simão, podes ficar sossegado. As mulheres são sadias, e Eu preciso ouvi-las em paz. Posso entrar na casa?…

– Não. Lá está a velha faladeira e curiosa mais do que uma pega. Vai lá para o fundo, para debaixo da coberta dos tanques. Lá tens até um quartinho. Lá estarás sozinho e em paz.

426.4 – Vinde… –diz Jesus às mulheres.

E, com elas, Ele vai para o fundo da praça, para debaixo do telheiro fedorento, indo para o quartinho estreito como uma cela, onde estão as ferramentas quebradas, trapos, refugos de cânhamo, grandes teias de aranha, e onde o cheiro dos tanques de maceração e de mofo fazem arder as gargantas, de tão penetrantes que são. Jesus, que está muito sério e pálido, esboça um leve sorriso, e diz:

– Não é um lugar condizente com os vossos gostos… Mas não há outro…

– Não olhamos para o lugar, mas estamos vendo Quem está nele neste momento –responde Plautina, levantando o véu e o manto, e sendo imitada pelas outras, que são Lídia, Valéria e a liberta Álbula Domitila.

– Por isso, eu deduzo que, apesar de tudo, vós me considerais ainda um justo.

– Mais do que um justo. E Cláudia nos está enviando justamente porque crê que és mais do que um justo, e não leva em conta as palavras que ouviu. Mas ela quer de Ti a confirmação disso, a fim de dar-te uma redobrada veneração.

– Ou afastar de Mim, se Eu lhe parecer como queriam pintar-me. Mas dizei-lhe que não há nada disso. Eu não tenho pretensões humanas. O meu ministério e o meu desejo é todo e somente sobrenatural. Eu quero, isto sim, reunir em um único reino todos os homens. Mas, que é que Eu quero dos homens? A carne e o sangue? Não. Isso Eu deixo de lado, como matéria que está prestes a se decompor, como as caidiças monarquias e os inseguros impérios. Eu quero reunir sob o meu cetro somente os espíritos dos homens, os espíritos imortais, num reino imortal. Eu repudio qualquer outra versão sobre minha vontade, inventada por seja lá quem for, mas diferente desta. E vos peço que creiais, e digais àquela que vos manda, que a verdade não tem mais do que uma só palavra…

– O teu apóstolo nos falava com esta mesma segurança…

– É um rapaz exaltado. E como tal deve ser ouvido.

– Mas ele te faz mal. Repreende-o… Manda-o embora…

– E a minha misericórdia, onde ficaria, então? Ele faz essas coisas por um amor errado. Não devo Eu ter pena dele por isso? E que mudanças haveria, se Eu o mandasse embora? Ele faria um duplo mal: a ele e a Mim.

– Então, ele é para Ti como uma pesada esfera de ferro amarrada ao teu pé!…

– Ele é para Mim um infeliz, que Eu preciso redimir…

426.5 Plautina cai de joelhos, estendendo os braços, e dizendo:

– Ah! Mestre grande, maior do que todos os outros, como é fácil crer que és um santo, quando se ouve o teu coração falando em tuas palavras Como é fácil amar-te e acompanhar-te, por causa desta caridade, que é ainda maior do que a tua inteligência!

– Não é maior, mas para vós é mais compreensível… para vós que tendes o entendimento impedido por muitos erros demais, e não sois generosos para despojá-lo de tudo, a fim de acolherdes a Verdade.

– Tens razão. És um adivinho e também um Sábio.

– A Sabedoria, sendo uma das formas de santidade, dá sempre uma luminosidade ao juízo, tanto sobre os acontecimentos passados ou presentes, como a premonição dos acontecimentos futuros.

– Por isso é que os vossos profetas…

– … eram santos. Deus por isso se comunicava a eles, com grande amplitude.

– Eles eram santos porque eram de Israel?

– Eram santos porque eram de Israel e porque eram justos em suas ações. Pois nem todo Israel é, ou foi santo, mesmo sendo de Israel. Não é a pertinência casual a um povo ou a uma religião o que pode fazer santos. Estas duas coisas podem ajudar muito a sê-lo, mas elas não são o fator absoluto da santidade.

– Qual é, então, esse fator?

– A vontade do homem. A vontade que conduz as ações do homem à santidade, se for boa, e ao pecado, se for má.

– Então… não está dito que justos não haja também entre nós?

– Não está dito. Pelo contrário, houve justos entre os vossos antepassados, e certamente haverá também, entre os vivos. Porque seria horrível demais que todo o mundo pagão fosse de demônios. Aqueles entre vós que sentem atração para o Bem, para a Verdade e repugnância para o vício, que fogem das más ações, que envilecem o homem, podeis crer que já estão no caminho da justiça.

– Então, Cláudia…

– E vós também. Perseverai.

– Mas, e se tivermos que morrer antes de nos termos… convertido a Ti? Que nos teria adiantado termos sido virtuosas?…

– Deus é justo em seu julgamento. Mas, por que ficar procurando evasivas para não ir ao Deus verdadeiro?

As três damas inclinam a cabeça… Silêncio… E depois, a grande confissão será a que dará a explicação de tantas crueldades e resistências romanas para com o Cristianismo…

– Porque nos pareceria que, ao fazê-lo, estaríamos traindo a Pátria…

– Mas, ao contrário, servireis bem à Pátria, fazendo-a moral e espiritualmente maior, porque se tornaria forte pela posse e a proteção de Deus, mais do que pelo seu exército e suas riquezas. Roma, a Cidade mundial, a Cidade da Religião Universal… Pensai bem…

Silêncio…

426.6 Depois Lívia, corada como uma chama, diz:

– Mestre, há tempo que te procurávamos até nas páginas do nosso Virgílio. Porque para nós têm mais valor as profecias dos que não conheceram a fé de Israel, do que as dos vossos profetas, nos quais podemos perceber a sugestão de crenças milenárias… E entre nós houve discussão sobre isso… confrontando os diversos que, em todos os tempos, nações e religiões te pressentiram. Mas ninguém com mais exatidão te pressentiu do que o nosso Virgílio… Muito nós falamos naquele dia até com Diomedes, o liberto grego, astrólogo, tão admirado por Cláudia. Ele sustentava que aquilo aconteceu, porque mais perto já estavam os tempos, e os astros já o estavam anunciando com as suas conjunções… E, em apoio de sua tese, ele aduzia o fato dos três Sábios dos três países do Oriente, que vieram para adorar o menino, provocaram a matança da qual até Roma se horrorizou… Mas não ficamos persuadidos com isso, porque, por mais de cinquenta anos, nenhum dos sábios de todo o mundo falou mais de Ti pelas voz dos astros, por mais que estivessem ainda bem perto da tua atual manifestação. Cláudia exclamou: “Precisávamos do Mestre. Ele nos daria a palavra da Verdade, e saberíamos o lugar e o destino imortal do maior dos nossos poetas!” Não quererias falar-nos o que dizer à Cláudia?… Alguma coisa que nos fizesse entender que não estás irritado com ela, por causa da dúvida que teve a teu respeito…

– Eu compreendi a sua reação de romana, mas não conservei rancor contra ela. Reafirmai-lhe isso. E ouvi, vós. Virgílio foi grande não somente como poeta, não é verdade?

– Oh! Não! Também como homem. Em meio de uma sociedade já corrompida e viciada, ele foi luminoso em sua pureza espiritual. Ninguém pode dizer tê-lo visto como um luxurioso, amante de orgias e licenciosidades. Os seus escritos são castos, mas mais casto teve o coração.Tanto assim, que nos lugares onde ele morou por mais tempo, ele era chamado “a virgenzinha,” com escárnio por parte dos viciados, e com veneração pelos bons.

– E, então? Na alma limpa de um homem casto Deus não terá podido refletir-se mesmo que aquele homem fosse pagão? A Virtude perfeita não terá amado o virtuoso? E, se o amor e a vista da Verdade lhe foram concedidos pela beleza pura do seu espírito, não poderá ter tido algum clarão de profecia? De profecia, que outra coisa não é senão a Verdade que se revela a quem merece conhecer a Verdade, como um prêmio e um estímulo para uma virtude sempre maior.

– Então, ele te profetizou realmente?

– Sua mente inflamada de pureza e de gênio subiu para conhecer uma página que se refere a Mim, e ele pode ser chamado o poeta pagão e justo, um espírito profético e pré-cristão, como prêmio por sua virtude.

– Oh! O nosso Virgílio! E ele terá um prêmio?

– Eu disse: “Deus é justo.” Mas vós não imiteis o poeta, parando em seu limite. Continuai, porque para vós a verdade não se revelou por intuição, ou por partes, mas completa, e falou a vós.

– Obrigada, Mestre… 426.7Nós nos retiramos… Cláudia nos disse que te perguntássemos se ela te pode ser útil em assuntos de moralidade

–diz Plautina, sem dar a resposta sobre o principal.

– E vos disse que me perguntásseis se Eu não sou um usurpador…

– Oh! Mestre! Como é que sabes disso?

– Eu sou mais do que Virgílio e do que os profetas…

– É verdade. Tudo é verdade. Podemos servir-te?

– Por Mim, eu só tenho necessidade de fé e de amor. Mas há uma criatura, que está em grande perigo, e que terá sua alma morta esta noite. Cláudia poderia salvá-la.

– Aqui? Quem? Alma morta?

– Um dos vossos patrícios está dando uma ceia e…

– Ah! sim. Ênio Cássio. Meu marido está convidado… –diz Lívia.

– E o meu também… E, na verdade, nós também. Mas, como Cláudia se abstém de ir, nós também nos absteremos. Tínhamos decidido retirar-nos, logo depois da ceia, no caso em que tivéssemos ido… Porque… as nossas ceias terminam em orgia… que nós não podemos mais suportar… E com o desgosto de ver que nossos maridos não se preocupam com suas mulheres, deixamos que eles lá fiquem… –diz com severidade Valéria.

– Não é bem com desgosto… é É mais com a compaixão pela miséria moral deles… –Jesus corrige.

– É difícil, Mestre… Nós sabemos o que acontece lá dentro…

– Eu também sei de muitas coisas que acontecem nos corações… e, apesar disso, Eu perdoo…

– Tu és santo…

– Vós também deveis tornar-vos santas. Porque assim Eu desejo, e porque a isso vos impele a vossa vontade…

– Mestre!

– Sim. Podeis dizer que sois felizes, como antes de me conhecerdes? Felizes com aquela pobre e feia sensualidade de umas pagãs, que não sabem que são mais do que um pedaço de carne, vós que agora já conheceis um pouco o que é a Sabedoria?

– Não, Mestre. Nós o confessamos. Estamos descontentes, inquietas, como alguém que procura um tesouro, e não o encontra.

– E ele está diante de vós. O que vos torna inquietas é o desejo que o vosso espírito tem da Luz, e sentir-se ele mal, porque ficais tardando… em dar ao vosso espírito o que ele vos pede…

426.8Um silêncio… Depois Plautina, sem responder diretamente ao assunto, diz:

– E que poderia fazer Cláudia?

– Salvar aquela criatura. Uma moça comprada para o prazer dos romanos. Uma virgem, que amanhã não o será mais.

– Se ele a comprou… ela lhe pertence.

– Ela não é um móvel. Dentro da matéria há um espírito…

– Mestre… as nossas leis…

– Mulheres: a Lei de Deus!

– Cláudia não vai à festa…

– Eu não lhe digo que vá. Mas Eu vos digo que faleis assim a ela: “O Mestre, para ter a certeza de que Cláudia não o julga culpado, lhe pede que ajude a alma dessa moça”…

– Nós o diremos. Mas ela não poderá fazer nada… É uma escrava que foi comprada… É um objeto que está à disposição do dono…

– O Cristianismo ensinará que o escravo tem uma alma, como César tem, e melhor, na maior parte dos casos, e que a alma pertence a Deus, e que quem a corrompe, é maldito.

Jesus diz isso como quem tem autoridade.

As mulheres percebem a autoridade e severidade de suas palavras. Inclinam-se sem objetar-lhe nada. Põem de novo os mantos e os véus, e dizem:

– Nós daremos o recado. Salve, Mestre.

– Adeus.

As mulheres saem para a praça, onde está fazendo muito calor. Mas Plautina se vira e diz:

– Para todas as pessoas, nós éramos mulheres gregas. Entendes?

– Entendo. Ide tranquilas.

Jesus fica debaixo do pórtico, e elas lá se vão pelo caminho por onde vieram.

Os cordoeiros estão voltando ao trabalho.

426.9 Jesus, andando devagar, vai voltando ao depósito. Ele está pensativo. Não vai deitar-se de novo. Está agora sentado sobre um monte de cordas enroladas, e está rezando insistentemente… Os onze continuam a dormir em sono profundo.

Assim vai passando o tempo… cerca de uma hora. Depois, o cordoeiro enfia a cabeça pela porta, para dentro, e faz sinal a Jesus para que venha até a porta.

– Aí fora está um escravo. Ele quer te falar.

O escravo é um númida, e está do lado de fora, na praça ainda ensolarada. Ele se inclina e, sem falar, entrega uma tabuleta encerada.

Jesus lê e diz:

– Dirás que Eu estarei esperando até o romper da aurora. Entendeste?

O homem faz sinal que sim, com a cabeça, e, para fazer compreender por que é que não fala, abre a boca, mostrando a língua, que foi cortada.

– Infeliz! –diz Jesus, acariciando-o.

O escravo solta duas lágrimas, que lhe escorrem pelas faces escuras, pega aquela mão branca entre os seus dedos, pretos como os de um macaco dos grandes, e a passa sobre o seu rosto, a beija, a põe sobre o seu coração, e depois se joga no chão. Pega o pé de Jesus, e o põe sobre a cabeça. Toda esta linguagem de gestos é para dizer a Jesus o seu reconhecimento por aquele gesto de piedoso amor…

E Jesus repete: “Infeliz!”, mas não faz o gesto que cura.

O escravo se levanta, e quer receber de volta a tabuleta… Cláudia não quer deixar sinal de seu contato epistolar… Jesus sorri, e entrega a tabuleta. O númida parte, e Jesus vai para perto do cordoeiro.

– Devo ficar até a aurora. Tu o permites?

– Tudo o que quiseres. Sinto muito ser pobre…

– Eu gosto é que sejas honesto.

– Quem eram aquelas mulheres?

– Estrangeiras, necessitadas de conselho.

– São sadias?

– Como Eu e tu.

– Ah! Bem!… 426.10Eis os teus apóstolos…

De fato, esfregando os olhos, e espreguiçando-se, ainda meio com sono, os onze vão saindo do depósito, e se dirigindo para o Mestre.

– Mestre, será preciso cear, se queres partir de tarde… –diz Pedro.

– Não. Não parto mais, enquanto não chegar a aurora.

– Por quê?

– Porque me pediram que Eu faça assim.

– Mas, por quê? Quem te pediu? Seria melhor caminhar de noite. A lua é nova…

– Espero salvar uma criatura… E isso é mais luminoso do que a lua, e mais refrescante para Mim do que os frescores da noite.

Pedro o puxa para um lado:

– Que foi que aconteceu? Viste Tu as romanas? Com que disposição estão elas? São elas que se estão convertendo? Dize-o a mim.

Jesus sorri:

– Se me deixas responder, Eu to direi, ó homem curiosíssimo. Eu vi as romanas. Elas caminham vagarosamente para a Verdade. Mas não voltam atrás. E isto já é muito.

– E… a respeito daquilo de que falava o Judas… Que é que há?

– Que continuam a venerar-me como a um sábio.

– Mas, e quanto a Judas? Ele não está no meio disso?…

– Eles vieram procurar a mim, não a Judas…

– Mas, então, por que teve ele medo de encontrar-se com elas? Por que não queria que Tu viesses a Cesareia?

– Simão, não é a primeira vez que Judas tem seus estranhos caprichos…

– Isto é verdade. E… esta noite as romanas vêm?

– Já vieram.

– E, então, para que ficamos esperando a aurora?

– E por que és tão curioso?

– Mestre, sê bom. Dize-me tudo…

– Sim: Para tirar-te toda dúvida. Ouviste tu também os discursos daqueles três romanos?

– Sim. Imundos! Uma peste. Uns demônios. Mas, que temos nós com eles?… Ah! compreende. As romanas vão à ceia, e depois vêm pedir perdão por terem tomado parte nas imundícias… Eu me admiro de que Tu adiras a elas.

– E Eu me admiro de que tu faças juízos temerários.

– Perdoa-me, Mestre!

– Sim. Mas fica sabendo que as romanas não vão à ceia, e Eu pedi à Cláudia que intervenha em favor daquela moça…

– Oh! Mas Cláudia não pode fazer nada! A moça foi comprada pelo romano, e ele tem todos os direitos sobre ela!

– Mas Cláudia pode muito sobre o romano. E ela me mandou dizer que espere até à aurora para partir. Não disse outra coisa. Estás contente?

– Sim, Mestre. Mas, enquanto isso, Tu não foste tomar repouso… Estás muito cansado. Eu vigiarei para que te deixem em paz… Vai, vai…

E, amorosamente tirânico, o puxa, o empurra, o obriga a ir estender-se de novo…

426.11 E as horas passam. Chega o pôr-do-sol, param os trabalhos, e mais fortemente gritam os meninos pelas ruas e pracinhas, e as andorinhas no ar. Depois começam a descer as primeiras sombras, as andorinhas vão para os seus ninhos, e os meninos para a cama,. Os rumores vão cessando um por um, até que se fique ouvindo somente o barulho das pequenas ondas ao longo do canal, enxaguando-o, e o rumor mais forte das grandes ondas, que vêm estourar na praia. Fecham-se as casas, essas casas dos trabalhadores cansados, apagam-se as velas, as luzes e o repouso começa a fazer que todos fiquem cegos e mudos… e ausentes. Levanta-se a lua, e, com sua luz prateada, adorna até o espelho sujo da pequena doca, que agora ficou parecendo uma lâmina de prata…

Os apóstolos estão de novo dormindo sobre o cânhamo… Jesus, sentado sobre um dos cabrestantes parados, com as mãos no colo, reza, pensa, espera… Não tira o olhar da rua, que vem da cidade.

A lua vai sempre subindo. Já está na perpendicular sobre sua cabeça. O mar está fazendo um barulho mais forte, e o cone da lua, que mergulha o seu raio no mar, vai-se tornando mais amplo, abarcando todo o espelho que está à frente de Jesus, indo atingir cada vez mais longe, e uma estrada de luz que, lá dos confins do mundo parece vir até Jesus, sobe de novo pelo canal para ir terminar na bacia da doca. E por essa estrada vem vindo uma barca pequena, branca, e ela vem vindo sem deixar sinais de sua passagem, no caminho aquoso, que desaparece logo depois de sua passagem… Torna a subir pelo canal. E chega à doca silenciosa. Encosta. Para. E três sombras descem dela: um homem musculoso, uma mulher e uma frágil figurinha, entre os dois. Eles se dirigem para a casa do cordoeiro.

426.12 Jesus se levanta, e vai ao encontro deles:

– A paz esteja convosco. A quem estais procurando?

– A Ti, Mestre –diz Lídia, tirando o véu e chegando, sozinha, para frente.

E continua:

– Cláudia fez o que Tu querias. Porque era uma coisa justa e totalmente moral. Aquela é a moça. Valéria, daqui a pouco, a tomará como ama da pequena Fausta. Mas ela te pede que a tenhas contigo, por enquanto, antes de confiá-la à tua Mãe, ou à mãe dos teus parentes. É pagã em tudo. E até mais do que pagã. O patrão que a criou só cultivou no espírito dela o nada absoluto. Não sabe nada de Olímpio, nem nenhuma outra coisa. Tem somente um terror louco dos homens, porque a vida para ela se mostrou, se descobriu em toda a sua brutalidade, de certo tempo para cá…

– Oh! Que triste palavra. Já será tarde demais?

– Não. Materialmente, não. Mas ele a estava preparando para o seu… digamos, sacrilégio. E a moça se espantou… Cláudia teve que deixá-la, durante toda a ceia, perto daquele sátiro, esperando para agir, quando o vinho o tivesse tornado incapaz de refletir. Não é preciso que eu te faça lembrar que, se o homem é sempre libidinoso em seus amores sensuais, ele o é em sumo grau quando está bêbado… Mas é somente aí que ele se torna um objeto de ludíbrio, que pode ser seguro à força, e até roubado em seu tesouro. E Cláudia se aproveitou disso, Ênio está desejando voltar para a Itália, da qual ele foi afastado por desfavor… Cláudia prometeu-lhe a volta, a troco da moça. E Ênio abocanhou a isca… Mas amanhã, quando não estiver mais bêbado, ele se irritará, e a procurará e fará um barulhão. É verdade que amanhã Cláudia terá meios para reduzi-lo ao silêncio.

– Violência? Não!

– Oh! Violência para um fim bom é útil. Mas não será usada. Somente Pilatos, ainda atordoado pelo muito vinho que terá bebido nesta tarde, assinará a ordem para que Ênio se vá apresentar em Roma… Ah! Ah! E, no primeiro navio militar, ele partirá. Mas, por enquanto é bom que a moça esteja em outro lugar, a fim de que Pilatos não se arrependa, e revogue sua ordem… Ele é tão inconstante. E é bom que a moça se esqueça, se puder, das sujeiras humanas.

426.13Oh! Mestre!… Nós fomos à ceia só para isso…. Mas como é que nós pudemos ir àquelas orgias, até poucos meses atrás, sem sentirmos náuseas delas? Nós fugimos para fora delas, logo que conseguimos o que queríamos… Lá os nossos maridos ainda são êmulos dos animais. Que náusea, Mestre! E nós devemos recebê-los depois de… depois de…

– Sede austeras, e tende paciência. Com o exemplo melhorareis vossos maridos.

– Oh! Não é possível… Tu não sabes…

A mulher chora mais por desdém do que por dor… Jesus suspira.

Lídia continua:

– Cláudia te manda dizer que fez isso para te mostrar que te venera, o único Homem que merece veneração. E quer que eu te diga que te agradece por lhe teres ensinado o valor de uma alma e da pureza. E que ela se lembrará disso. Queres ver a moça?

– Sim. E o homem, quem é?

– É o númida mudo, do qual Cláudia se serve para as coisas mais secretas. Não existe perigo de delação… Ele não tem língua…

Jesus repete como de tarde: “Infeliz!”, mas nem agora faz o milagre.

426.14 Lídia vai tomar pela mão a moça, e quase tem que arrastá-la até em frente de Jesus. Ela explica:

– Só sabe poucas palavras latinas, e menos ainda das judaicas… É uma pequena fera selvagem. É somente um objeto de prazer.

E à moça ela diz:

– Não tenhas medo. Dize-lhe “obrigada.” Foi Ele que te salvou… Ajoelha-te. Levanta-te. Beija-lhe os pés. Não tremas… Perdoa, Mestre! Ela está aterrorizada pelas últimas carícias do Ênio bêbado….

– Pobre criatura! –diz Jesus, passando a mão sobre a cabeça velada da moça–. Não temas. Eu te levarei à minha Mãe por algum tempo. Vais a uma Mamãe, compreendes? E terás ao redor de ti muitos bons irmãos… Não temas, minha filha!

Que é que há na voz de Jesus e no seu olhar? Há tudo: paz, segurança, pureza, e um santo amor. A moça o percebe, joga para trás o manto com o capuz para poder olhar melhor para Ele, e aquela figurinha franzina, de uma menina que mal está chegando à puberdade, quase uma menina ainda, imatura em suas aparências, inocente em seu aspecto, aparece com uma veste longa demais para ela.

– Estava seminua… Eu lhas dei, em um saco e coloquei por cima as primeiras vestes que eu encontrei… –explica Lídia.

– Uma menina! –diz Jesus, com dó.

E, estendendo-lhe a mão, pergunta:

– Queres vir comigo, sem medo?

– Sim, patrão.

– Não. Patrão, não. Chama-me Mestre.

– Sim, Mestre –diz com segurança a menina, e um tímido sorriso substitui a expressão de medo que havia antes em seu rosto muito branco.

– És capaz de viajar por um longo caminho?

– Sim, Mestre.

– Depois repousarás em casa de minha Mãe, na minha casa, esperando Fausta… uma menininha de quem tu gostarás muito. Gostarás disso?

– Oh! Sim…

E a mocinha levanta com confiança seus olhos claros de um acinzentado azul muito bonito, por entre seus cílios dourados, e se atreve a perguntar:

– Não vou ter mais aquele patrão?

E um clarão de terror ainda perturba o seu olhar.

– Nunca mais –Jesus torna a prometer, pousando de novo a mão sobre os fartos cabelos, de um louro cor de mel, da mocinha.

– Adeus, Mestre. Daqui a alguns dias estaremos no lago, nós também. Talvez nos vejamos ainda. Reza pelas pobres romanas.

– Adeus, Lívia. Dize à Cláudia que estas são as conquistas que Eu procuro, e não outras. Vem, menina. Nós partiremos logo…

E segurando-a pela mão, aparece à porta do depósito, chamando os apóstolos. Enquanto a barca, sem deixar sinais de sua vinda, volta ao mar aberto, Jesus e os apóstolos, com a menina coberta por um manto, no meio deles, vão indo, pelas ruazinhas periféricas e desertas, rumo às campinas.