299. 299. A entrega dos órfãosMaria e Matias a Joana de Cusa.
11 de outubro de 1945.
299.1 O lago de Tiberíades está todo como uma grande escama cinzenta. Parece estar feito de um mercúrio fosco de tão pesado que ele se mostra nesta calmaria, pois mal permite o sinal de umas poucas ondas grandes, que chegam até aqui cansadas, e nem mais produzem espuma, mas param e se acalmam, logo depois de terem tentado mover-se, mas vão ajuntar-se às outras águas sem nenhum brilho, por baixo de um céu sem esplendor.
Pedro e André estão dando voltas ao redor de sua barca. Tiago e João também estão perto da deles, e estão preparando a partida na praiazinha de Betsaida. Sente-se o cheiro das ervas e da terra encharcadas de água, e vêem-se nevoas ligeiras sobre a superfície coberta de ervas, para o lado de Corozaim. A tristeza de novembro se deixa ver em todas as coisas.
299.2 Jesus sai da casa de Pedro, segurando pelas mãos os pequenos Matias e Maria, que a mão da Porfíria, com um cuidado maternal, fez que ficassem bem alinhados, trocando a veste de Maria por uma de Marziam. Mas Matias, como está ainda muito pequeno para poder ganhar aquele mesmo presente fica, por enquanto, tremendo dentro da sua sovada túnica de algodão, e de tal modo, que a compassiva Porfíria volta para casa e sai de lá trazendo um pedaço de coberta e com ele envolve o menino, como se a coberta fosse um manto. Jesus lhe agradece, enquanto ela se ajoelha na despedida e se afasta, depois de um ultimo beijo nos dois órfãos.
– Por mais meninos que tivesse, ela ficaria também com estes –comenta Pedro, que estava observando a cena e que, por sua vez, se inclina para oferecer às duas crianças um pedaço de pão recoberto com mel, que ele tinha guardado debaixo de um dos bancos da barca, o que faz André rir e dizer:
– Logo tu, hein? Chegaste até a roubar mel da tua mulher para dar um pouco de alegria a estes dois.
– Roubado! Roubado! O mel é meu!
– Sim, mas a minha cunhada está com ciúme, porque é para Marziam. E tu, que sabes disso, penetraste, descalço como um ladrão, na cozinha, na noite passada, para apanhar o tanto necessário para preparar aquele pão. Eu te vi, meu irmão, e ri, porque tu estavas olhando para todos os lados, como um menino que está com medo das palmadas da mãe.
– Grande espião –diz, rindo, Pedro, abraçando seu irmão que, por sua vez, o beija, dizendo:
– Meu caro espertalhão!
Jesus observa e sorri abertamente, estando entre as duas crianças, que estão devorando o seu pão.
299.3 Do interior de Betsaida chegam os outros oito apóstolos. Talvez estivessem como hóspedes de Filipe e Bartolomeu.
– Depressa! –grita Pedro, e pega num só abraço as duas crianças, para levá-las à barca, sem que elas molhem seus pezinhos nus–. Não tendes medo, não é verdade? –pergunta ele, enquanto vai chapinhando na água, com suas pernas curtas e robustas, nu como está, até um bom palmo acima dos joelhos.
– Não, senhor –diz a menina, mas agarrando-se convulsivamente ao pescoço de Pedro e fechando os olhos, quando ele a coloca na barca, que está balançando com o peso de Jesus, que nela acabou de entrar. O menino, mais corajoso ou mais assombrado, nem pode falar.
Jesus vai sentar-se, e puxa para perto de Si os dois pequeninos, recobrindo-os com o grande manto, que parece uma asa estendida para proteger dois pintinhos.
Seis em uma barca, seis na outra, já estão todos a bordo. Pedro tira a tábua de embarque e, com um vigoroso empurrão na barca, para que ela vá mais para o meio da água e, dando um salto, pula para bordo, sendo imitado por Tiago na barca dele. Aquele empurrão e o pulo de Pedro fizeram balançar muito a barca, e a pequenina geme: “Mamãe!”, escondendo o rosto no colo de Jesus e agarrando-se aos joelhos dele. Mas a barca já vai indo suavemente, ainda que seja muito trabalhoso para Pedro, André e o empregado, que precisam remar, ajudados por Filipe, que faz o trabalho de quarto remador. A vela está pendurada, pois nesta calmaria pesada e úmida, ainda não pode ser usada. Todo o trabalho há de ser feito com os remos.
– É um belo vogar! –grita Pedro para os da outra barca, na qual ocupa o lugar de quarto homem Iscariotes, com uma voga bem feita, que Pedro elogia.
– Força, Simão! –responde Tiago–. Força, ou te venceremos. Judas é forte como um das galeras. Bravo, Judas!
– Sim. Vamos fazer-te o chefe da equipagem –confirma Pedro, que vai vogando por dois.
E se ri, dizendo:
– Mas, por Simão de Jonas, não fiqueis torcendo para que ele se apodere do primeiro lugar. Aos vinte anos, eu já era chefe dos remadores nas apostas que havia entre vários lugares.
E, alegre, continua remando com os seus companheiros:
– Oh! Vamos! Oh! Para a frente!
E as vozes se esvaem pelo meio silencioso do lago, que está deserto nesta hora da manhã.
299.4 As crianças já vão criando coragem. Continuando ainda debaixo do manto, elas levantam seus rostinhos, uma de um lado, e a outra do lado de lá do Mestre, que as segura abraçadas, e já estão esboçando a sombra de um sorriso. Estão interessadas em olhar o trabalho dos remadores. E trocam seus comentários.
– Parece que anda em um carro sem rodas –diz o menino.
– Não. Em um carro sobre as nuvens. Olha! Parece estar caminhando no céu. Olha! Vamos subir em uma nuvem –diz Maria, ao ver que a barca mergulha num lugar onde se reflete uma grande nuvem fofa. Ela se ri levemente. Mas o sol vem interromper aquela meia penumbra e, ainda que seja um pálido sol de novembro, as nuvens estão douradas, e o lago as reflete muito brilhantes.
– Oh! Que bonito! Agora vamos para o fogo. Oh! Que bonito! Bonito –e o menino bate as mãozinhas.
A menina, porém, se cala e depois explode num choro. Ela, soluçando, explica:
– A mamãe recitava uma poesia, um salmo, não sei, para conservar-nos bons, a fim de que pudéssemos rezar, ainda que com tantas dores… e recitava aquela poesia que fala de um Paraíso, que vai ser como um lago cheio de luz, de um fogo suave, onde só haverá Deus e alegria, e para onde irão todos os que são bons… quando tiver vindo o Salvador… Este lago dourado me faz lembrar isto… A minha mamãe!
Matias também está chorando. E todos se compadecem dele.
299.5 Levanta-se um murmúrio de várias vozes, e, mais alta do que o lamento dos orfãozinhos, ouve-se a voz de Jesus:
– Não choreis. A vossa mamãe vos conduziu a Mim, e ela está aqui conosco, enquanto Eu vos levo a uma mamãe sem filhos. Ela ficará muito contente por ter duas crianças, em lugar do filho dela, que está onde está a vossa mamãe. Porque ela também chorou, vós sabeis? Morreu o seu pequenino, como morreu a vossa mamãe…
– Oh! Então, nós vamos a ela e o pequenino irá ficar com a nossa mamãe! –diz Maria.
– É assim mesmo. E sereis todos felizes.
– Como é essa mulher? O que ela faz? Ela é camponesa? Tem um patrão bom?
Os pequenos se interessam.
– Não é camponesa, mas tem um jardim cheio de rosas, e é boa como um anjo. Tem um bom marido. Também ele vos quererá bem.
– Achas que sim, Mestre? –pergunta Mateus, um pouco incrédulo.
– Tenho certeza. E ficareis persuadidos disso. Há algum tempo, Cusa queria Marziam para fazer dele um cavaleiro.
– Ah! Isto, não –grita Pedro.
– Marziam será um cavaleiro de Cristo. Somente isso, Simão. Fica tranqüilo.
O lago fica cinzento outra vez. Levanta-se um pé de vento, que enruga as águas. Estendem a vela, e a barca vai agora em linha reta e mais rápida. Mas as crianças de tal modo estão sonhando com a nova mãe, que nem sentem medo.
299.6 Passam por Magdala, com suas casas brancas pelo meio do verde. Passam em frente à campina, que fica entre Magdala e Tiberíades. Já aparecem as primeiras casas de Tiberíades.
– Para onde vamos Mestre?
– Para o pequeno porto de Cusa.
Pedro se vira e dá ordens ao empregado. A vela vai descendo, enquanto a barca se aproxima do pequeno porto e depois vai entrando por ele, indo parar junto ao pequeno molhe, acompanhada pela outra. Estão paradas, uma ao lado da outra, como duas patinhas cansadas. Desembarcam todos, e João vai correndo na frente, para avisar aos jardineiros.
Os pequeninos se agarram sem medo a Jesus e Maria, com um suspiro, puxando a veste de Jesus, lhe pergunta:
– Será boa mesmo?
João já voltou:
– Mestre, um servo já está abrindo a cancela. Joana já se levantou.
– Está bem. Esperai todos aqui. Eu vou à frente.
E Jesus vai sozinho. Os outros o ficam olhando ir, e estão fazendo comentários, uns mais, outros menos favoráveis sobre o que Jesus quer fazer. Não faltam dúvidas nem críticas. Mas do lugar em que eles estão não vêem mais do que a corrida de Cusa, que se inclina até o chão, na soleira da cancela e, em seguida, entra pelo jardim, à esquerda de Jesus. Depois não se vê mais nada.
299.7 Mas eu vejo. Vejo Jesus que vai lentamente, ao lado de Cusa, que lhe mostra toda a sua alegria em tê-lo como hóspede:
– Minha Joana ficará muito alegre. E eu também. Ela está sempre melhor. Ela me falou da viagem. Que triunfos, meu Senhor!
– Não ficaste apreensivo?
– Joana está feliz. Eu fico alegre por vê-la assim. Eu podia ter ficado sem ela, há meses, Senhor.
– Podias. Eu ta restituí. Procura ser grato a Deus por isso.
Cusa olha para Ele dolorosamente surpreso… e depois murmura:
– É uma censura, Senhor?
– Não. É um conselho. Sê bom, Cusa.
– Mestre, eu sou servo do Herodes.
– Eu sei. Mas a tua alma não é serva de ninguém, a não ser de Deus, se tu quiseres.
– É verdade, Senhor. Eu vou me corrigir. As vezes, sou vítima do respeito humano…
– Tu o terias tido no ano passado, quando querias salvar Joana?
– Ah! Não. À custa de perder até toda a honra, eu teria me dirigido a quem achasse que a podia salvar.
– Faze o mesmo pela tua alma Ela é mais preciosa ainda do que Joana. 299.8Ei-la que vem.
Apressam o passo, indo para ela, que vem correndo pela avenida, ao encontro deles.
– Mestre meu! Eu não esperava ver-te tão cedo. Que bondade essa a tua, que te traz até à tua discípula?
– Uma necessidade, Joana.
– Uma necessidade? Qual é? Fala e, se pudermos, te ajudaremos –dizem os dois ao mesmo tempo.
– Encontrei ontem de tarde, em uma estrada deserta, duas pobres crianças… uma menina pequena e um meninozinho…, Descalços, esfarrapados, famintos, sozinhos… e os vi, quando um homem, que tem um coração de lobo, os expulsava, como se fossem lobos. Eles estavam morrendo de fome… Àquele homem Eu havia dado um bem-estar no ano passado. E ele agora negava um pão a dois órfãos. Pois eles são órfãos. Órfãos, e indo pelos caminhos do mundo cruel. Esse homem terá o seu castigo. Quereis vós ter a minha bênção? Eu vos estendo a mão. Sou um mendigo de amor para estes órfãos sem casa, sem roupas, sem alimento, sem amor. Quereis vós ajudar-me?
– Mas, Mestre, Tu o pedes? Dize o que queres, quanto queres, dize tudo –diz, impetuoso, Cusa.
E Joana não fala, mas, com as mãos colocadas sobre o coração, com uma lágrima sobre os longos cílios e um sorriso de desejo sobre seus lábios vermelhos, ela espera, e assim fala mais do que se estivesse falando.
Jesus olha para ela, e sorri:
– Desejaria que aquelas crianças tivessem uma mãe, um pai, uma casa. E que a mãe tivesse o nome de Joana…
Não teve tempo de acabar, porque o grito de Joana é como o de alguém que ficou livre de uma prisão, enquanto ela se prostra para beijar os pés do seu Senhor.
– E tu, Cusa, que dizes a isso? Acolhes em meu nome, estes meus diletos, queridos, oh! muito mais queridos do que jóias para o meu coração?
– Mestre, onde estou eu? Leva-me a eles e, por minha honra, eu te juro que, desde o momento em que eu puser minha mão sobre as cabeças inocentes deles, eu os amarei como um verdadeiro pai, em teu nome.
– Então, vinde. Eu sabia que não viria perder meu tempo. Vinde. Eles são rústicos e espantados, mas são bons. Acreditai em Mim, que vejo os corações e o futuro. Eles darão paz e união à vossa união, não somente agora, mas também no futuro. No amor a eles vós vos encontrareis. Seus inocentes abraços serão a melhor cal para a vossa casa de esposos. E o Céu estará sobre vós, benigno e misericordioso sempre para com a vossa caridade. Já estão do lado de fora da cancela. Estamos vindo de Betsaida…
Joana não escuta mais nada. Ela corre na frente, movida pelo desejo ardente de acariciar crianças.
E ela o faz, caindo de joelhos, para apertar contra o seu seio os dois orfãozinhos, beijando-os em suas faces macilentas, enquanto eles ficam olhando, espantados, a bela senhora de ricas vestes. E olham também para Cusa, que os acaricia, e pega Matias nos braços. E ficam olhando o belo jardim e os servos que vão chegando… E olham a casa, que abre os seus vestíbulos cheios de riquezas para Jesus e para os seus apóstolos. Olham para Ester, que os cobre de beijos.
Um mundo de sonhos abriu-se para os pequeninos desamparados… Jesus observa e sorri.